A banalização da violência

 Por Dulce A. Adorno-Silva

A violência cresce em nossa sociedade, o que nos leva a indagar sobre as causas da crescente reincidência dos fatos que a caracterizam e que nos assustam e geram inquietação. Ela se dissemina por meio das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), como os fatos violentos já divulgados: o massacre da escola de Denver (Colorado/Estados Unidos), que se reproduz na escola do Realengo (Rio de Janeiro), o caso da menina Isabela, o padrasto que assassinou o enteado, o nenê que foi atirado ao rio pela mãe, o caso do goleiro Bruno, entre outros casos. Mas, esses atos, para o extermínio da vida, continuam a acontecer, como os praticados pelo Estado Islâmico e, no Guarujá, o linchamento de Fabiane Maria de Jesus, feito por populares, que se arrogam o direito de fazer justiça com as próprias mãos.

Professora Dulce Adorno é docente no Centro de Linguagem e Comunicação da PUC-Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.
Professora Dulce Adorno é Doutora em Educação/ Crédito: Álvaro Jr.

Começam a assombrar-nos muitos questionamentos, sobre as causas desses fatos. Por que a violência se expande como se fosse uma prática comum, embora anule de forma contundente a regra mais importante da civilização: “não matarás!”-, apontada por Freud, no ensaio: O Futuro de uma Ilusão (parte III) – “um mandamento cultural”, que todos devem seguir?

É preciso caracterizar a violência, para buscar o motivo de sua expansão no mundo atual.  No livro “A Violência”, Yves Michaud afirma que ela ocorre quando um ou vários indivíduos agem, a fim de causar danos a uma ou várias pessoas, ferindo-as em sua integridade física ou moral, em suas posses, ou em suas participações simbólicas e culturais.

Essas características são base para que seja entendida e superada, por meio da canalização da agressividade humana. O aumento do número de casos de violência preocupa, porque a vida humana é colocada no processo do consumo desvairado, pois pode ser descartada como um objeto qualquer. Isso ocorre porque a banalização da violência se insere no avanço da tecnologia; a sociedade se modifica e modifica o ser humano que a constitui. As informações veiculadas e repetidas todos os dias, em vários horários, pelas emissoras de televisão tornam a violência comum, como também fazem os games.

Popper e Condry, em “Televisão: um Perigo para a Democracia”, analisam a forte ingerência da televisão na vida social e citam Kant ao propor o limite: “E a ideia é sempre a mesma: dilatar ao máximo a liberdade de cada um nos limites impostos pela liberdade dos outros”. Porém, se insistirmos na via da violência “depressa nos encontraremos numa sociedade em que o assassínio será moeda corrente” (1995, p.9).

A percepção do outro e o respeito a ele não podem ser deixados de lado, porque é o modo como a criança se torna cidadã. A mudança não pode ser repressiva como a que acontece atualmente, nos Estados Unidos, pois se a criança é obrigada a aprender em “campos de concentração”, é porque os pais não sabem colocar limites em seus próprios filhos. Por isso, são os pais que precisam de orientação psicológica para adquirirem formação, a fim de educarem com respeito, sem atitudes repressivas, que caracterizam o sadomasoquismo.

Portanto, devemos ter consciência de que, se pretendemos viver em uma sociedade democrática e aberta, devemos considerar que – vale a pena relembrar – a liberdade de cada um, considerada junto a do outro, é o princípio básico para o exercício da sociedade humana.

Profa. Dra. Dulce A. Adorno-Silva é docente no Centro de Linguagem e Comunicação da PUC-Campinas