A escassez de chuvas e o desflorestamento

Por Estéfano Seneme Gobbi, geógrafo e doutor em Geografia (IGe/Unicamp) e professor da FAGEO/PUC-Campinas, desde 2013

Muito tem se falado recentemente sobre mudanças ambientais. E isso é algo muito bom, pois significa que as pessoas estão ficando mais preocupadas com o que está acontecendo com a natureza a sua volta e buscando fazer relações entre fenômenos naturais e o cotidiano.

Uma das relações estabelecidas é dos períodos de estiagem no Brasil com o desflorestamento da Amazônia, e há que se ter muita cautela ao abordar os aspectos de causa e efeito, pois não há consenso científico sobre o tema.

As precipitações no território brasileiro são produto de uma série de interações entre sistemas de alta e baixa pressão, deslocamentos sazonais de massa de ar e sistemas convectivos que ocorrem seguindo determinados padrões e médias, estabelecendo as normais climáticas. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (O.M.M.) essas normais são “valores médios calculados para um período relativamente longo e uniforme, compreendendo no mínimo três décadas consecutivas”, ou seja, ao longo de ao menos trinta anos, deve-se adquirir dados sobre temperaturas e precipitações a fim de se estabelecer uma média. Dessa forma, nesse intervalo de tempo é plausível que ocorram anos mais quentes ou anos mais áridos, por exemplo, em contraponto a outros anos mais frios ou mais úmidos. Assim, pode ser estabelecido o clima de uma determinada área admitindo inerentes variações durante um recorte temporal.

Quando o climatólogo russo Wladimir Köeppen se propôs, em 1900, a estabelecer um sistema de classificações do clima, não havia dados de normais climáticas, pois estações meteorológicas eram praticamente inexistentes, principalmente em se tratando de um nível de escala global. Foi então que ele decidiu fazer uso da fitogeografia para estabelecer os limites espaciais de um sistema climático. Ou seja, ele admitiu que a vegetação era uma resposta ao clima, e não o contrário!

Sem dúvida alguma, se a escala de estudo for microclimática (1 ha), áreas urbanas e áreas de mudança de uso da terra, a vegetação desempenhará uma fundamental importância. Porém, quando se trata da escala macroclimática, aspectos como a dinâmica de correntes oceânicas ou células convectivas atmosféricas preponderam sobre a cobertura vegetal.

Ainda hoje conhece-se muito pouco sobre os oceanos (que cobrem aproximadamente 71% da superfície do planeta). Não se sabe o quanto podem absorver de carbono ou quais as razões que modificam as temperaturas do Pacífico (causando o El Niño e La Ninã). Esses eventos climáticos que têm duração de alguns anos são responsáveis por alterar os padrões climáticos de diversas áreas do globo, inclusive do território brasileiro. Analogamente, alterações nas temperaturas do Oceano Atlântico também são capazes de modificar os padrões de chuva sobre o Brasil, como ocorreu no biênio 2014-15. Nessa oportunidade também foi formulada a hipótese da relação com o desflorestamento da Amazônia, porém, a partir de 2016, os volumes de chuva retornaram aos padrões das normais climáticas. Será que as árvores foram replantadas e houve um aumento da evapotranspiração na região amazônica em apenas dois anos?