A estreita relação entre economia e inovação

Por Prof. Dr. Izaias de Carvalho Borges – Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas

A relação estreita entre inovação tecnológica, crescimento econômico e melhora nas condições de vida de uma nação é conhecida pelos economistas desde a publicação da “Riqueza das Nações”, de Adam Smith, em 1776, que é considerada por muitos historiadores do pensamento econômico como a obra que marca o nascimento das Ciências Econômicas como um campo autônomo do saber. Para Smith, o crescimento da produção e do consumo depende do crescimento da produtividade do trabalho, que, por sua vez, depende de dois fatores: a divisão social do trabalho e o progresso tecnológico.

Uma característica do desenvolvimento socioeconômico de uma nação é a significativa melhora nas condições de vida da população, que pode ser medida por indicadores como o aumento da expectativa de vida, redução da mortalidade infantil e aumento no nível de escolaridade. Por trás dessa melhora estão inovações tecnológicas de diversas naturezas. Os eletrodomésticos, que aumentam o conforto e liberam tempo livre para outras atividades, como por exemplo, mais tempo para estudar. Medicamentos e vacinas, que reduzem a mortalidade infantil e permitem uma vida mais longa e saudável. Enfim, seria impossível pensar na vida confortável que temos hoje sem as inúmeras inovações tecnológicas dos últimos 60 anos, pelo menos. As tecnologias não são condições suficientes para a qualidade de vida, porque esta depende também de outros fatores, mas são condições necessárias.

As inovações tecnológicas podem ser classificadas de duas formas: as inovações que criam novos produtos e as inovações que melhoram o processo produtivo. A aspirina, a caneta esferográfica, o forno de micro-ondas, os televisores, o notebook, o tablet e os smartphones são exemplos de inovações de produto. As reduções de custos e o aumento da produtividade são exemplos de mudanças que podem resultar de inovações de processo. As inovações de produtos são as mais conhecidas da população em geral. Por isso, quando falamos de inovações tecnológicas, é comum pensarmos somente nos novos produtos, principalmente nos eletrônicos.

As inovações de processo são tão importantes quanto às inovações de produto para uma vida confortável e segura. Um exemplo é o caso da produção de alimentos. De acordo com dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), entre 1960 e 2010, a população mundial cresceu de 3,1 para 6,5 bilhões de pessoas. Apesar disso, no mesmo período, o crescimento da produção mundial de alimentos superou o crescimento populacional. Ou seja, em 2010, a produção mundial per capita de alimentos era maior do que em 1960, a despeito da população ter se duplicado neste período. O crescimento da produção agrícola neste período foi resultado basicamente do aumento do rendimento por hectare. Entre 1961 e 2006, enquanto a produção agrícola aumentou 150%, a área cultivada aumentou menos que 30%. O crescimento do rendimento, por sua vez, só foi possível pela difusão e adoção de muitas inovações de processo, que além de aumentar a produtividade por hectare, permitiram a redução de custos de produção.

A importância da tecnologia para a qualidade de vida no século atual será tão ou mais importante do que no século passado. Enquanto no século passado o grande desafio foi o aumento da produção e da renda per capita, no atual o desafio será o do desenvolvimento sustentável, que consiste em conciliar o crescimento econômico e demográfico com a preservação ambiental. De acordo com estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU), a população mundial deverá aumentar de 7,3 bilhões de pessoas em 2015 para 8,5 bilhões em 2030. Ainda assim, a renda per capita continuará crescendo, principalmente nos países megapopulosos como China e Índia. O crescimento demográfico e o crescimento da renda per capita mundial pressionarão a demanda de diversos bens e serviços intensivos em recursos naturais. Ocorrendo o crescimento previsto da população e da renda, em 2030 as demandas por energia, água e alimentos deverão aumentar, respectivamente, em 50, 40 e 35%. Além disso, em 2014, 768 milhões de pessoas no mundo não tinham acesso à água tratada, 2,5 bilhões não tinham condições sanitárias adequadas e 1,3 bilhão de pessoas não tinham acesso a eletricidade. Portanto, o mundo precisará crescer tanto para atender a demanda oriunda do crescimento populacional e da renda quanto para atender as necessidades dos que hoje ainda não usufruem de condições de vida minimamente aceitáveis.

Assim, a tecnologia será fundamental para desenvolvermos processos produtivos mais sustentáveis, sobretudo nos setores críticos, como na produção de alimentos e de energia. Não por acaso, um dos objetivos da Agenda 2030, que estabeleceu os objetivos do desenvolvimento sustentável, se refere à necessidade de modernizar a infraestrutura e capacitar as indústrias para torná-las sustentáveis, aumentando a eficiência no uso de recursos naturais e adotando tecnologias e processos produtivos mais limpos e menos poluentes. Para que isso seja possível, a Agenda recomenda “fortalecer a pesquisa científica e melhorar as capacidades tecnológicas de setores industriais em todos os países”.

Enfim, as inovações tecnológicas serão condições necessárias para que possamos assegurar padrões sustentáveis tanto de produção quanto de consumo. Muitas inovações atuais, já disponíveis para os consumidores, apresentam atributos que favorecem tanto o uso mais eficiente de recursos naturais quanto à diminuição de resíduos. Como exemplo, podemos destacar as lâmpadas de LED, que possuem maior eficiente energético, e os automóveis elétricos e híbridos, que poluem bem menos.