A felicidade de contribuir para a transformação social das pessoas

Por Sílvia Perez

“Hoje eu não me vejo trabalhando em uma empresa de fins lucrativos”, com essa frase, a auxiliar administrativo Ana Paula dos Santos Lemos demonstra que o emprego na Organização Não Governamental Grupo Primavera é mais do que um simples trabalho, já se transformou em um propósito de vida.

Ana Paula justifica sua afirmação explicando que por meio do trabalho é possível ver a transformação social das pessoas. “Você vê a evolução das crianças, a postura delas quando entram na instituição e a mudança de quando elas terminam o projeto Jovem Aprendiz.”

A ONG Grupo Primavera atua há 36 anos no Jardim São Marcos, em Campinas, e atende crianças e adolescentes de 06 a 18 anos, moradores de bairros próximos à entidade. Nessas três décadas, são incontáveis as histórias de sucesso registradas pela instituição, uma delas da própria Ana Paula, que chegou ao local ao qual sua filha já frequentava desde os sete anos, depois de ficar desempregada e se surpreendeu com o acolhimento. “Comecei a fazer cursos, participar do grupo de mães e, então, surgiu uma vaga na recepção, depois vim para o administrativo”, conta.

Mas não foi a evolução de carreira que mais marcou Ana Paula, mas sim a mudança pessoal: “Eu nunca acreditei em mim e quando você está com pessoas que acreditam no seu potencial, isso dá um impulso na sua vida, com o apoio do projeto, consegui cursar a Faculdade de Administração”, ressalta.

Quem também viu sua vida ser transformada ao contribuir para a evolução social das crianças, adolescentes e até mesmo das famílias atendidas pelo trabalho da ONG foi a Gestora Executiva do Grupo Primavera, Ruth Maria de Oliveira, que trabalha há 13 anos na entidade. “A troca é muito grande, diante da satisfação que eu recebo, acho até muito pouco o que eu faço. É o salário que dinheiro nenhum paga”, revela.

O percurso percorrido ao longo de pouco mais de uma década não foi fácil, logo no início percebeu que teria um grande desafio pela frente: “A primeira coisa que eu identifiquei foi que as crianças e adolescentes não sonhavam, o que contrastava muito com a realidade que eu via ao também dar aulas em uma escola particular, então, começamos a trazer palestras para que as nossas crianças e adolescentes pudessem conhecer a história de vida de pessoas que tiveram sucesso”.

Além disso, foi feito um planejamento para que todos os funcionários pudessem conhecer mais de perto a realidade das crianças e jovens atendidos. “Entendemos que precisávamos olhar essas crianças como crianças. Para isso, fizemos um tour pelo bairro até as áreas mais precárias. Era preciso entender a realidade delas até para poder cobrá-las e planejar nosso trabalho para dar condições para elas reescreverem as suas histórias, por isso, conhecer o contexto é tão importante”, reforça Ruth.

Os resultados de tanto empenho não demoraram a chegar. Algumas das meninas atendidas pela ONG, no passado, hoje trabalham na instituição e agora os sonhos fazem parte da realidade desses jovens que estão por aqui. Um exemplo é Mariane Rodrigues Tomé, de 14 anos, que espera um dia se tornar juíza. “Aqui é a minha família, eles ensinam a gente, mostram como você pode se desenvolver e se comportar depois no trabalho”, afirma.

Fazer o bem faz bem

Para a professora da Faculdade de Psicologia da PUC-Campinas, Profa. Dra. Rita Maria Majaterra Khater, a prática do voluntariado é benéfica. “É muito interessante porque fazer o bem para a sociedade também deixa feliz aquela pessoa que se vê como agente de mudança social”, explica.

Os benefícios desse trabalho foram tema de um estudo de uma universidade britânica, publicado na revista BMC Public Health, que aponta que os voluntários têm uma mortalidade 20% menor quando comparados com os não voluntários.

Depoimentos

 

Elisandra Patrícia dos Santos

Assistente da Diretoria – Grupo Primavera

“Fui aluna do Projeto Pacto, depois fiz colégio técnico e estou há três anos trabalhando aqui. Quando saí não perdi o vínculo, participava de encontros de ex-alunos e assim soube da vaga. É gratificante porque hoje eu tenho a oportunidade de retribuir para outras pessoas aquilo que eu recebi.”

Lais Gonçalves de Lima

Chef de Cozinha – Grupo Primavera

“Fiquei na entidade de 2004 a 2011, depois fui aluna do Projeto Pacto, voluntária e estagiária, há um ano fui contratada como Chef de Cozinha. Aqui para mim sempre foi um bom lugar, um bom ambiente, onde você vê os resultados.”

Josiane Teixeira Pires Brito

Gerente de Produto – Grupo Primavera

“Fui aluna de 1986 a 1993, no ano seguinte fiz estágio e vim trabalhar no Grupo Primavera em 1996. Eu sinto que a gente cresce junto com a instituição, quando a gente vê aquela menina que passou pelo projeto estudou, formou uma família e está dando certo, você vê que com o seu trabalho está transformando vidas.”