A influência da mídia nos hábitos alimentares

Se o público não está preparado para ser crítico da publicidade, a influência da mídia será ainda maior

Por Amanda Cotrim

As telas contemporâneas estão no dia a dia das pessoas: televisão, revista, jornal, computador, outdoor. São vitrines as quais influenciam o cotidiano. Como toda vitrine, há um vendedor – a Publicidade -, um instrumento importante para a propagação de hábitos de consumo e alimentares. Ela é parte de um sistema que estabelece um padrão de consumo. “Ainda que a publicidade não tenha toda a responsabilidade, ela tem grande influência pela sua capacidade de persuadir a sociedade”, defende o docente da Faculdade de Publicidade e Propaganda da PUC-Campinas, Prof. Dr. João Brito.

Prof João Brito é docente no curso de Publicidade e Propaganda/ Crédito: Álvaro Jr.
Prof João Brito é docente no curso de Publicidade e Propaganda/ Crédito: Álvaro Jr.

Para o docente, a propaganda cumpre uma função comercial, por isso, é tão difícil identificar no dia a dia o que é e o que não é publicidade. Pensando em mídias como televisão, que está no cotidiano das pessoas, essa distinção torna-se ainda mais difícil para a população: “A propagação de hábitos alimentares em novelas é uma grande influência social, porque quando o público vê uma celebridade consumindo, ele toma aquilo como uma atitude a se seguir”, compara.

Trata-se de um sistema: a novela levanta a bola e a publicidade corta. O telejornalismo faz a mesma coisa: as notícias angustiantes cumprem certo papel, porque depois vêm os comerciais que vão amenizar o que passou no jornal”, critica.

E quando a “audiência” são crianças? A responsabilidade da mídia aumenta? Para João Brito, sim. “Se o público não está preparado para ser crítico da publicidade, ele vai ser influenciado. Por isso, o mais importante é uma educação crítica sobre o papel da mídia desde cedo”, defende.

Em 2014, foi aprovada resolução que classifica como abusiva todas as formas de “publicidade e comunicação mercadológica destinadas à criança, com a intenção de persuadi-la para o consumo de qualquer produto ou serviço”, diz o texto.

Quando o assunto é hábitos alimentares e crianças a publicidade tem ainda mais influência, mesmo que a peça publicitária não seja direcionada exclusivamente para uma criança. “Ela pode assimilar a propaganda mesmo não sendo para ela. No entanto, é preciso dizer que isso não aconteceria se houvesse uma regulação ética e legal da mídia, e que não fosse vista como censura, para que as pessoas tenham discernimento sobre o que elas devem consumir desde cedo”.

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A regulamentação, segundo o professor de Publicidade e Propaganda, resolve uma parte, mas não tudo. Para ele, é preciso que a família se coloque como responsável e que ela saiba que a mídia influencia a sociedade e quando ela está fora das normas da Constituição Federal. “As pessoas não costumam gostar muito de falar sobre Constituição, Direitos, Educação. Só uma consciência crítica vai diminuir a influência da mídia sobre a população”, aposta. “A questão é: existe interesse para que o consumidor seja instruído?” questiona o docente.

Responsabilidade das indústrias de alimentos

Apesar de segmentada, vem despontando um nicho de pessoas que valoriza a boa alimentação e a mudança nos hábitos alimentares. “As empresas alimentícias têm tido mais consciência para amenizar os problemas de alimentos de má qualidade. Temos produtos um pouco melhores e uma possibilidade de consumo mais saudável. Mas, qual é o alcance disso?” interroga o docente, fazendo referências às classes sociais que não podem comprar produtos saudáveis, porque são mais caros.

“Um exemplo de que as empresas estão percebendo que precisam ter uma responsabilidade social, foi uma propaganda de uma marca de refrigerante em uma revista. Nela, o pai mostrava para o filho beber menos refringentes e ter um consumo consciente. Foi uma mensagem sutil, mas quando a empresa reconhece a sua responsabilidade, é um avanço”.

Para o docente, a mídia não deveria educar tanto a sociedade. “Hoje, a TV educa mais que um professor em sala de aula. Na aula, por mais que o professor se esforce a TV é como se fosse uma verdade. Quem está na TV é porque chegou lá e aquilo forma a nossa opinião”, constata.

“O caminho para mudar esse cenário é a educação crítica sobre a mídia e uma regulamentação. As empresas não podem fazer o que querem na TV e na Rádio, que são concessões públicas. Eu defendo um equilíbrio. Temos de estar vigilantes para não nos deixarmos influenciar tanto pela publicidade”.