A profusão de vozes no ativismo em rede

Por Tarcisio Torres Silva, Doutor em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP; Mestre em Artes (Cultura Audiovisual e Mídia) pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP; Graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo – USP; Graduado em Comunicação Social pela Escola Superior em Propaganda e Marketing – ESPM; é Docente Pesquisador da PUC-Campinas, e integra o corpo Docente do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu Linguagens, Mídia e Arte da PUC-Campinas.

Compreender as crescentes manifestações de ativismo no mundo contemporâneo não é tarefa fácil, ainda mais quando se leva em consideração a complexidade das redes em que essas ações acontecem. Ainda assim, aponto algumas direções para que seja minimamente possível localizarmos o que está acontecendo e o que esperar dos movimentos daqui para frente.

O que observamos no mundo contemporâneo, por todos os lugares, é uma profusão de vozes que clamam por suas causas. Causas que se multiplicam, interconectam-se e produzem novas formas de fazer política. Mas o que justifica esse crescimento?

Podemos dizer que determinados modelos que produziam sentido para a vida enfrentam uma fase de crise sem volta. Politicamente, as estruturas que por tanto tempo sustentaram a democracia como a melhor solução para a representatividade e participação política têm sido constantemente questionadas, seja pela corrupção excessiva, seja pelo sentimento de não representatividade por parte da população.

Além disso, a dinâmica do capitalismo recente está fazendo cair por terra determinadas narrativas que por tempos deram sustentação, ainda que ilusória, para uma ideia de sujeito íntegro e centralizado. Modos de ser e de se entender no mundo, que se apresentavam a homem e mulheres como pré-estabelecidos socialmente, pairam hoje num espectro nebuloso que coloca em xeque a veracidade de tais determinações. Sem antigos modelos totalizantes, opressores e limitadores, o sujeito se vê frente a um leque de possibilidades para compor seus interesses e sua razão de ser.

As redes digitais de comunicação cumprem o papel de aproximar pessoas com interesses similares. Auxiliam-nas a enxergar que não estão sozinhas em sua luta e que seu sentimento compartilhado tem potencial para ganhar força dentro e fora dos ambientes digitais. Por outro lado, a comunicação organizada de forma ramificada e descentralizada também gera excessos. A palavra do ano de 2016, a “pós-verdade”, é efeito, entre outras coisas, do compartilhamento pouco responsável de informações fundadas em valores já inerentes aos sujeitos que contribuem para sua disseminação. As redes também geram sentimentos de grupo que em vez de promover o diálogo, abrem novos tipos de exclusão. Uma exclusão ideológica que, se não remediada, pode retirar do debate quem ainda não compreendeu plenamente as discussões principais de um determinado movimento.

Como até pouco tempo atrás convivíamos com modelos prontos para entender e estar no mundo, este tempo de transformação e de emergência de novas vozes políticas requer um projeto de reeducação que envolve a todos nós. Só assim saberemos falar sobre assuntos que até pouco tempo atrás não encontrávamos espaço para debater; e também ouvir, a fim de começar a pensar a alteridade sob uma nova perspectiva.