A violência contra as florestas e a crise hídrica do Sudeste Brasileiro

Por Rafael Faria

No dia 21 de março, comemorou-se o Dia Internacional das Florestas e, não por acaso, no dia 22, o Dia Mundial da Água. As florestas estão intimamente relacionadas à disponibilidade de recursos hídricos no planeta. A Terra, chamada pelo astrônomo Carl Sagan de pálido ponto azul, possui a maior parte de sua crosta coberta por água, mas apenas uma ínfima parte desta é água doce e líquida. Uma pequena porção que necessita das florestas para que se mantenha perene e conservada. As áreas florestais do globo são verdadeiras usinas de serviços ambientais: a produção e a purificação da água representam apenas dois deles. Nesse contexto, o desmatamento é uma das piores formas de violência contra o meio ambiente e contra a humanidade.

O desmatamento é uma das piores formas de violência contra o meio ambiente e contra a humanidade/  Crédito: Álvaro Jr.
O desmatamento é uma das piores formas de violência contra o meio ambiente e contra a humanidade/ Crédito: Álvaro Jr.

Desde a segunda metade de 2012, a crise hídrica no Sudeste brasileiro vem se agravando e pode ser consequência dessa interação violenta com as florestas do Brasil. A população passou por verões anomalamente secos, em especial, em 2014. É certo que as razões para a diminuição do regime de chuvas são complexas e não há uma única resposta para a pergunta: “por que não choveu?”. Muitos especialistas apontam que o desmatamento deve ter participação crucial nesse cenário.

O Sudeste brasileiro está inserido em latitudes médias, em que, normalmente, em outras porções do globo, há condições climáticas de aridez, pois os ventos vindos de latitudes baixas chegam secos. Muitos acreditam que o Sudeste brasileiro e as regiões próximas não são desérticos graças às massas de ar úmidas que aqui chegam provindas, principalmente, da Amazônia.

As árvores de uma floresta funcionam como verdadeiras bombas bióticas que, por meio da evapotranspiração, produzem vapor d’água para a atmosfera. Normalmente, os ventos úmidos vindos do litoral vão ficando cada vez mais secos à medida que adentram o continente, mas, na Amazônia, os ventos vindos do Atlântico se mantêm úmidos até o interior do continente, graças à referida bomba biótica. Parte desse vapor d’água é transportado até as latitudes médias, até o Sudeste brasileiro. Tais massas de ar úmido são conhecidas como “rios voadores”, um nome apropriado, dado que a quantidade de água bombeada, diariamente, para a atmosfera, pela Floresta Amazônica, é maior do que a quantidade de água diariamente transportada para o Oceano Atlântico pelo Rio Amazonas.

O que acontece, então, quando a usina de serviços ambientais amazônica é tratada com violência? Sem tentar responder a complexa pergunta de “por que pouco choveu nos últimos anos” com uma única resposta, é tentador e é lógico de se pensar que o desmatamento da Floresta Amazônica certamente pode ter consequências no regime hídrico da Região Sudeste.

As florestas, além de atuarem como bombas bióticas, são cruciais para a infiltração da água que chove, para a manutenção das reservas subterrâneas e perenidade das nascentes. As bacias de captação das principais represas do Sistema Cantareira estão extremamente degradadas, com pouca cobertura vegetal nativa. Se há pouca floresta, há baixo índice de infiltração da água e, portanto, as reservas subterrâneas podem não ser suficientes para evitarem que uma nascente seque em uma época de aridez.

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Dessa forma, há também de se pensar que a crise hídrica pode ser resultado da violência contra as florestas da Região Sudeste. Assim, na Amazônia, não tão próxima, ou na Mata Atlântica e no Cerrado, é urgente que a valoração do meio ambiente se torne pauta política prioritária e que a violência contra as usinas de serviços ambientais seja amenizada.

 Prof. Dr. Rafael Faria é docente na Faculdade de Engenharia Ambiental e Faculdade de Ciências Biológicas da PUC-Campinas