A violência na telona: do desenho animado ao sadismo

Por Wagner Geribello

Nem mais, nem menos… no cinema, a violência não está além ou aquém da freqüência e intensidade em que existe na sociedade. Portanto, não há muita verdade nas teses e comentários que endereçam ao cinema dose exagerada na abordagem da violência. O que a sétima arte faz é reproduzir proporcionalmente, na tela, o que a sociedade produz sobejamente na realidade.

A História mostra que não demorou muito para a violência ocupar as telas, logo depois dos Lumiére apresentarem ao mundo a possibilidade técnica da imagem em movimento. A mesma História também mostra que o cinema multiplicou por muito o viés, o modo e o ângulo de tratamento da violência, percorrendo um leque amplo, que vai da incorporação direta (leia-se reprodução visual e sonora da violência) à crítica contundente, passando pela denúncia, pelo questionamento e até pela apologia.

Do “inocente” desenho animado em que a personagem enfia outra no moedor de carne, provocando risos divertidos da platéia infantil, até ensaios de sofisticado sadismo, usando e abusando da própria “metafísica” da violência (leia-se violência além da instância corpórea), como acontece na adaptação cinematográfica da peça de Edward Albee, Quem tem medo de Virginia Woolf (1966), dirigida por Mike Nichols, a violência encontrou e continua encontrando modos diversos para projetar-se na tela.

O cinema, assim como a sociedade, não escapa da violência/ Crédito: divulgação
O cinema, assim como a sociedade, não escapa da violência/ Crédito: divulgação

O cinema já visitou e continua visitando o exercício completo da violência. Do racismo à guerra, as causas da agressão humana às formas de vida, principalmente as semelhantes que, infelizmente, não são poucas, o cinema já encarou todas, incluindo desigualdade socioeconômica, antagonismo religioso e violência “da moda”, como o “bullying” (o próprio anglicismo uma violência ao idioma pátrio) que medra na escola, onde civilidade deveria ser a tônica, por definição. Faz parte da lista, ainda, o confronto político fundamentado no ódio, como a pequena burguesia brasileira tem expressado em rede social, grande imprensa, passeata, arruaça e micropanelaço no espaço gourmet.

Assim, como a sociedade não escapa da violência (em casa, no trânsito, na família, no logradouro público, no evento esportivo, no templo religioso), o cinema também não.

Todavia, também há posturas, protestos e polêmicas antiviolência, na sociedade e no cinema. São muitos os filmes focados na crítica, questionamento e negação da violência, incluindo obras antibélicas e pacifistas, como Limoeiro (Título original Lemon Tree, produção israelense de 2008, dirigida por Eran Riklis), bem como o questionamento da violência no cotidiano social (ver A onda, produção alemã de 2008, dirigida por Denis Gansel).

No extremo oposto ao pacifismo e para além da violência banalizada e gratuita, na qual o cinema americano é imbatível, a busca da legitimação (característica tão presente no violento como a brutalidade) também tem lugar na tela, como pode ser observada em A espada de Gideon (produção canadense de 1968, dirigida por Michael Anderson) que interpreta a violência desproporcional (para mais) como resposta mais adequada à violência original, engrenagem básica do mecanismo que condena a sociedade ao interminável ciclo de agredidos tornados agressores e vice-versa.

Assim, aproveitando o tema desta edição do Jornal da PUC-Campinas, fica o recado, aliás já conhecido dos cinemeiros, que, em todos os matizes, modos, formas e para todos os efeitos, a violência não é um item que a sociedade desconhece… nem o cinema.