“Adultização” da infância é reflexo de classe social

Para pesquisadora, crianças com agenda de empresário, como classifica, é mais comum em famílias de renda média e alta

Por Amanda Cotrim

É cada vez mais comum as crianças terem sua rotina consumida pelas tarefas, como ir à escola, fazer um curso de idioma, aprender um esporte. Tudo, no mesmo dia. Muitos compromissos, muitos deveres, muitas expectativas dos pais. Um cenário propício para que sentimentos de ansiedade, depressão e frustração apareçam e repercutam nas crianças. Essa é a avaliação da Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Educação e Docente da Faculdade de Psicologia da PUC-Campinas, Profa. Dra. Silvia Rocha. De acordo com ela, não há problema crianças terem compromissos, a questão, para a pesquisadora, é o tipo de compromisso.

“A criança está sendo preparada para ser uma entre alguns. As classes mais pobres fazem o mesmo: preparam seus filhos para o possível, para o melhor, dentro de suas condições”, afirma. Ela, no entanto, alerta para o perigo em se criar um ideal de infância e produzir uma contraposição entre o passado e o presente, ou a verdadeira infância e a falsa infância. “Não quer dizer que estejamos melhores. Estamos diferentes. Com ganhos e prejuízos”.

Confira a entrevista na íntegra:

É possível definir o que é infância?

O conceito de infância não é universal e nem sempre existiu. Aliás, continua não existindo para determinados grupos socioculturais.  A ideia de infância, e da criança que precisa ser protegida e precisa ter um conjunto de atividades específicas para ela, apareceu no final da Idade Média. O conceito de infância é uma construção histórica.

Do mesmo modo que nem sempre existiu o que chamamos de infância, é possível que para determinados segmentos da sociedade estejamos presenciando o fim da infância que se produz com as brincadeiras de rua. Atividades que traziam características de desenvolvimento diferente da infância do século 21.

O ideal é não ter um ideal de infância?

 Não tem como não ter. Sempre vamos projetar um modelo, na expectativa de que esse modelo será o melhor.  .

As crianças que brincam na rua tendem a ter, por exemplo, uma habilidade motora global melhor do que a criança que não brinca, assim como as crianças que têm muitas atividades com certos vídeo games tendem a ter melhor raciocínio verbal e lógico-matemático.

Muito se discute, nos dias de hoje, que algumas crianças, principalmente de classe média e classe média alta, estão com uma rotina muito parecida com a de um adulto: escola, natação, aulas de inglês, computação, balé, entre outras atividades. Qual a sua avaliação sobre o que vem sendo chamado de “adultização” das crianças.

É importante localizar, conforme pontuado na pergunta, sobre qual criança está se falando. Nesse cenário apontado, os compromissos das crianças são os traços do sucesso. Porque uma criança de uma classe menos favorecida também pode ter compromissos, como jogar bola.  A questão que parece ser fundamental é pensar o tipo de compromisso.

A criança que sai da escola, vai para o curso de inglês, sai do curso de inglês, vai para a natação, sai da natação e vai para o curso de informática, ela está sendo preparada para pertencer a uma elite. Os pais, por sua vez, investem expectativas e dinheiro nessa criança. Portanto, a maior diferença entre as classes sociais é o tipo de compromisso que terá a criança.

Esse cenário produz outra questão importante, que é a competição entre as crianças, como a escola de inglês de mais prestígio. A “adultização” repercute em ansiedade, depressão e, principalmente, frustração.

Para pesquisadora da PUC-Campinas, o diálogo é uma ferramenta educacional de grande importância/ Crédito: Álvaro Jr.
Para pesquisadora da PUC-Campinas, o diálogo é uma ferramenta educacional de grande importância/ Crédito: Álvaro Jr.

A escola se adapta a esse aluno competitivo?

 A escola faz parte dessa competição. É só repararmos a nossa volta, os outdoors, a propaganda na televisão: “primeiro lugar no vestibular”. Ou seja, a criança desde cedo percebe qual é a regra do jogo: que ela tem que se distinguir entre tantas para que os pais sejam convencidos que precisam pagar uma mensalidade cara para o seu filho.

As escolas públicas não têm essa estratégia de marketing tão agressiva e explícita, mas existem hierarquias entre essas escolas. E as crianças são afetadas por essas comparações.

A escola da criança atarefada, ela própria assume esse projeto e oferece atividades complementares para essa criança de elite, que a coloca à frente dos outros que vão competir com ela no mercado de trabalho. Portanto, a escola está afinada com esse discurso.

As crianças passaram a ter uma agenda que parece a de um empresário. Só que isso é mais ou menos consciente, mais ou menos explícito. É reproduzido aquilo que é dito que é o melhor, ou aquilo que deve ser feito.  É uma dinâmica complexa.

Tem relatos de crianças que ficam com vergonha de dizer que foram nas férias para o sítio da avó, porque se sabe, rapidamente, que isso não tem prestígio como tem, por exemplo, uma viagem internacional.

A tecnologia ajuda ou atrapalha o desenvolvimento infantil? Por que as crianças mais ricas estão com o tablet, as mais pobres estão nas lan houses ou assistindo à televisão. Muito se fala que a mídia passou a ocupar um espaço educativo, uma vez que os responsáveis estariam cada vez mais ausentes, em razão do trabalho.

A desconfiança em relação à tecnologia sempre existiu. Há uma “romantização” da infância referente aos modelos do passodo, e de que a infância contemporânea seria pior. Mas na época em que surgiu o Rádio, alguns estudos alertaram sobre o seu perigo. Toda a nova tecnologia assusta e levanta temores.

A minha avaliação é que a tecnologia é espetacular. Nada em si é bom ou ruim. Todas as circunstâncias têm aspectos positivos e negativos. De modo geral, o grande problema é o excesso. Jogar videogame por 18 horas, assistir à televisão por 10 horas, ficar lendo o dia inteiro é ruim, porque impede outras oportunidades de desenvolvimento e aprendizado.

No final do século 19, a mãe estava presente, mas a relação entre a criança com os pais melhorou muito nos últimos anos. Antes, as crianças não podiam opinar, não podiam escolher. Hoje, as crianças se posicionam, questionam, reivindicam, às vezes exageram, mas tudo isso é muito mais legal.

Não quer dizer que estejamos melhores. Estamos diferentes. Com ganhos e prejuízos. O equilíbrio do acesso a diversas produções culturais seria o ideal.

E o diálogo entre pais e filhos. Até que ponto ele funciona?

O diálogo é prioritário. É a melhor ferramenta para criar os novos sujeitos como seres pensantes, que se sintam seguros e respeitados. É essencial querer ouvir a opinião da criança e fundamentar para ela o motivo pelo qual seu desejo não poderá ser atendido. Claro que é um longo processo necessário para que a criança consiga decidir certas coisas. Tem algumas questões em que cabe ao adulto dizer sim ou não. De preferência, deve explicar, mas, às vezes, não no momento em que a criança está com raiva por ter seu desejo negado.  A criança precisa obedecer porque compreendeu e não por medo.

Como lidar com a frustração da criança?

A frustração faz parte do desenvolvimento dos sujeitos, desde que ela não seja violenta, porque quem está na zona de conforto, não cresce. A frustração é inevitável e educacional. Mas é preciso saber conduzir isso. Quanto menos o adulto mobilizar a raiva da criança, melhor.  .

Claro que a raiva é inevitável, mas saber o que faremos com ela é outro passo. O uso da punição física é um exemplo de que o adulto perdeu essa batalha.

Vamos colocar nessa discussão o Estado como agente importante na construção da infância contemporânea. Como estão as políticas públicas para as crianças?

O Estado passou a fazer convênios ou a se utilizar da bolsa creche, oferecendo para o responsável pela criança dinheiro para que ele possa matricular a criança na escolinha do bairro, uma vez que não há vagas nas escolas públicas.

A questão é: como se garante uma boa educação formal e pública, se o Estado, que é o responsável, não está gerenciando o procedimento pedagógico daquela escola e a formação dos professores?

Os pais, se não encontram vaga para o filho, vão até o Juiz, que obriga a escola aceitar a criança. Há, nesse conflito, uma má compreensão por parte do responsável sobre a educação infantil, uma vez que ele não está se atentando às condições pedagógicas que a criança terá se frequentar uma turma superlotada.

Nesse momento, é urgente encontrar a melhor forma de argumentar com a população, mostrando que as condições de trabalho dos professores e monitores da Educação Infantil são fundamentais para o desenvolvimento da criança.

Profa. Dra. Silvia Rocha é pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Educação e Docente da Faculdade de Psicologia da PUC-Campinas.