Aedes Aegypti, Dengue e Zika Vírus

Por Luciane Kern Junqueira e Maria Magali Stelato

O mosquito Aedes aegypti é um inseto doméstico, pois ocorre em domicílios, estabelecimentos comerciais e escolas, associado a presença humana. Esse mosquito é originário do Egito (aegypti significa egípcio) e a dispersão pelo mundo ocorreu a partir da África (da costa leste do continente para as Américas e da costa oeste para a Ásia). Os hábitos das fêmeas (somente a fêmea pica o homem) são  preferencialmente diurnos, alimentando–se de sangue humano ao amanhecer e ao entardecer, no entanto, essa espécie apresenta hábito oportunista, podendo também picar à noite.

O acasalamento dos indivíduos ocorre no início da vida adulta, logo após que o adulto emerge da água do criadouro. Após o acasalamento, a fêmea deposita os ovos em novos criadouros com água limpa e parada. Os ovos ficam grudados às paredes do recipiente, próximo à superfície da água, não diretamente sobre o líquido. Uma fêmea pode colocar aproximadamente 1500 ovos durante a vida e um ovo pode resistir mais de um ano no ambiente sem a presença de água, até que chuvas ou o próximo verão propiciem as condições favoráveis à eclosão. O tempo do ciclo de vida do mosquito (de ovo, larva, pupa até a fase de adulto) está relacionado com as condições climáticas e alimento disponível, sendo, geralmente de 8 a 12 dias. Se a fêmea estiver infectada pelo vírus da dengue quando realizar a postura de ovos, há a possibilidade de as larvas já se formarem com o vírus, denominada transmissão vertical

Esse mosquito transmite muitos arbovírus, entre eles os gêneros Flavivirus e Alphavirus. O gênero Flavivirus é o causador da Dengue, da Zika e da Febre Amarela. Já o gênero Alphavirus é causador da Chikungunya.

Em 1981, ocorreu a primeira epidemia de Dengue (DENV 1 e 4) em Boa Vista (Roraima) e, em 1986, o DENV 1 se disseminou pelo Brasil. Segundo boletim nº8 – 2016 do Ministério da Saúde, em 2016, foram registrados 170.103 casos prováveis de Dengue no país (3/1/2015 a 6/2/2016). A região Sudeste registrou o maior número de casos prováveis (56,8%), seguida das regiões Nordeste (15,1%), Centro-Oeste (14,8%), Sul (7,9%) e Norte (5,3%).

O período de incubação da Dengue é em média 5 a 6 dias. Os sintomas na forma clássica são frequentemente febre alta (39° a 40°C), que aparece de forma súbita ou após alguns sintomas como mal-estar, calafrios e dor de cabeça. A febre geralmente permanece por 2 a 7 dias, acompanhada de dor de cabeça, dores no corpo e articulações, prostração, fraqueza, dor no fundo dos olhos, erupção e coceira na pele que pode aparecer no terceiro ou quarto dia da doença, durando de 1 a 3 dias. Os linfonodos apresentam-se frequentemente aumentados e também podem ser observados outros sintomas como perda de peso, náuseas, vômitos e diarreia.

Luciane Kern Junqueira e Magali Stelato / Crédito: Álvaro Jr.
Luciane Kern Junqueira e Maria Magali Stelato / Crédito: Álvaro Jr.

A forma grave da doença (febre hemorrágica) pode ocorrer, com mais frequência, na segunda infecção com outro sorotipo do vírus. Os sintomas iniciais são semelhantes aos da forma clássica e, o período crítico é na transição da fase febril para a sem febre (3º dia da doença), em que ocorrem hemorragias e diminuição do número de plaquetas, podendo causar hipotensão e choque.

A Organização Mundial da Saúde (2009) classificou a Dengue em: a) Dengue sem sinais; b) Dengue com sinais de alerta (dor abdominal, vômito persistente, acúmulo de líquidos, sangramento das mucosas, letargia, hepatomegalias, e aumento de hematócrito com diminuição de plaquetas) e c) Dengue grave (com extravasamento de plasma, sangramento ou falência dos órgãos).

A ANVISA aprovou a primeira vacina contra a Dengue (publicação no Diário Oficial da União no dia 28/12/2015) e deve ser comercializada no primeiro semestre de 2016, que será aplicada em 3 doses, uma a cada 6 meses.  Essa vacina foi desenvolvida no laboratório francês Sanofi Pasteur e contém o “esqueleto” do vírus da febre amarela com fragmentos do Denguevirus. A proteção geral contra a doença é de 66%, no entanto, tem eficácia de 93% em casos graves e diminui em 80% os casos de internação.

O Instituto Butantan em parceria com o National Institute of Health (USA) também estão trabalhando com uma vacina tetravalente, em que os vírus foram atenuados (geneticamente modificados), que imunizará contra os quatro vírus ao mesmo tempo. A previsão é que essa vacina esteja disponível no segundo semestre deste ano.

Em 2016, foi confirmada autoctonia do vírus CHIKV em três municípios do Ceará, totalizando 14 Unidades da Federação com transmissão autóctone desde a introdução do vírus no país. De 2014 a 10/02/2016 foram registrados 26.952 casos. O Nordeste é a região com maior número de casos (24.599).

A Febre Chikungunya é uma doença transmitida pelos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus. Chikungunya significa “aqueles que se dobram” e, refere-se à aparência curvada dos pacientes que foram atendidos na primeira epidemia documentada na Tanzânia, localizada no leste da África, entre 1952 e 1953. Esse vírus foi identificado no Brasil em 2014.

O período de incubação é de 2 a 12 dias e a infecção pode ser assintomática (cerca de 30%) e raramente fatal. Os principais sintomas são febre alta (acima de 38,5ºC), que permanece por até duas semanas, de início repentino, dores intensas nas articulações dos pés e mãos, além de dedos, tornozelos e pulsos (2 a 5 dias após o início da febre). Pode ocorrer, ainda, dor de cabeça, dores nos músculos, manchas vermelhas na pele, náuseas e vômito. A doença pode ficar crônica com duração de semanas a meses. Depois de infectada, a pessoa fica imune pelo resto da vida.

Foi confirmada transmissão autóctone Zikavirus no Brasil a partir de abril de 2015. Até 10/02/2016, 22 Unidades da Federação confirmaram laboratorialmente autoctonia da doença. Também foram confirmados laboratorialmente dois óbitos pelo vírus no país: em São Luís/MA e em Benevides/PA. O chefe de doenças transmissíveis da Organização Pan-Americana de Saúde, Marcos Espinal, calcula que o Zikavirus pode infectar de 3 a 4 milhões de pessoas nas Américas, dos quais  1,5 milhão no Brasil.

O Zikavirus recebeu a denominação do local de origem de sua identificação em 1947, após detecção em macacos utilizados no monitoramento da febre amarela, na floresta Zika, em Uganda. O período de incubação é de quatro dias e, em cerca de 80% das pessoas infectadas a doença é assintomática. Os principais sintomas são dor de cabeça, febre baixa, dores leves nas articulações, manchas vermelhas na pele, coceira e vermelhidão nos olhos (conjuntivite). Outros sintomas menos frequentes são inchaço no corpo, dor de garganta, tosse e vômitos. No geral, a evolução da doença é benigna e os sintomas desaparecem espontaneamente após 3 a 7 dias. No entanto, a dor nas articulações pode persistir por aproximadamente um mês. Formas graves e atípicas são raras, mas quando ocorrem podem, excepcionalmente, evoluir para óbito, como identificado no mês de novembro de 2015.

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) constatou a presença do Zikavirus ativo em amostras de saliva e de urina de pacientes, mas isso não é suficiente para afirmar que é possível transmitir o vírus pela saliva; serão necessários outros estudos para comprovar se tem capacidade de infectar as pessoas. A recomendação é de evitar compartilhar objetos de uso pessoal (escovas de dente e copos) e lavar as mãos.

A Síndrome de Guillain-Barré é uma doença rara, que pode ser provocada por vírus e bactérias, e, o Zikavirus também pode estar relacionado a essa síndrome. É uma doença do sistema nervoso, provavelmente de caráter autoimune, em que a resposta imunológica é mais intensa contra o agente infeccioso e ataca também a bainha de mielina que reveste os nervos periféricos da pessoa, causando inflamação dos nervos e fraqueza muscular. Os sintomas começam pelas pernas, podendo, em seguida, irradiar para o tronco, braços e face. A síndrome pode ser leve, com fraqueza muscular em alguns pacientes, ou grave, com paralisia total dos quatro membros. O principal risco provocado por essa síndrome é quando ocorre o acometimento dos músculos respiratórios, devido a dificuldade para respirar e, pode levar à morte, caso não sejam adotadas as medidas de suporte respiratório.

A microcefalia é uma malformação congênita, em que o cérebro não se desenvolve de maneira adequada, o perímetro cefálico do cérebro dos bebês é menor que 33 cm, pode ser causada por agentes químicos, infecciosos (bactérias, vírus) e também radiação). O Ministério da Saúde confirmou a relação entre o Zikavirus e a microcefalia. O Instituto Evandro Chagas, órgão do ministério em Belém (PA), encaminhou o resultado de exames realizados em um bebê, nascida no Ceará, com microcefalia e outras malformações congênitas. Foi identificada a presença desse vírus em amostras de sangue e tecidos.

Não existe tratamento específico para Dengue, Chikungunya e Zika. O tratamento é feito para aliviar os sintomas. Quando aparecerem os sintomas é importante procurar o serviço de saúde mais próximo, fazer repouso e ingerir bastante líquido.