Água na tela

CINEMA

A escassez nos reservatórios que abastecem grandes cidades da Região Centro-Sul e usinas hidroelétricas tem colocado a água nas manchetes e no debate público. Regime de chuva atípico e administração pública deficiente aparecem como vilões causadores do problema, cuja solução virá com a estação das águas e mais investimento público no setor. Todavia, a questão do abastecimento de água se espraia muito além das fronteiras brasileiras e incorpora variáveis mais críticas que regime de chuva e administração pública.

Atualmente, fatias significativas da população mundial padecem de escassez crítica, cenário que vai agravar-se com o crescimento vegetativo da população e aumento do consumo per capita que vem embutido na dinâmica da economia e nos conceitos de boa qualidade de vida. Futuristas de plantão apostam que a água será cada vez mais rara e cara. Gente como o “CEO” da Nestlé já deu o recado: “A água deve ser das empresas e os outros devem pagar por ela”. Frase alarmista? Infelizmente não. A Nestlé já tem projetos nesse sentido e não está sozinha no negócio. No mundo todo, em especial nas nações ricas, existem corporações gestando projetos para lucrar (muito) com a água.

Assunto sério, que tem agendamento inferior ao merecido no debate público, a questão merece mais atenção e conhecimento para evitar que a voracidade econômica suplante o desenvolvimento social, como já acontece com petróleo e transgênicos.

pag12-2Dois filmes encaram a questão da água e ajudam muito a entender o tema.

“A Corporação” (Mark Achbar) é um documentário canadense, lançado no Festival Internacional do Filme de Toronto, em 2003, que mostra como e porque as empresas se constituem em corporações e as dimensões do poder dessas instituições globais. Com muito detalhe e informação, parte do filme mostra a tentativa de privatizar e mercantilizar o abastecimento público de água na Bolívia, por corporações internacionais.

O mesmo tema aparece em “Até apag12-3 Chuva” (Iciar Bollain) ou “También La Lluvia”, no original espanhol. Com roteiro de Paul Laverty, a produção espanhola, de 2010, é um filme dentro de outro filme, mostrando uma equipe cinematográfica trabalhando em Cochabamba, Bolívia, em uma película histórica sobre a conquista espanhola. Enquanto trabalha como figurante, a população local resiste à tentativa de privatização da água (a mesma descrita no documentário citado) e acaba envolvendo, também, a equipe técnica e os atores. A produção, que conta com Luis Tosar e Gael Garcia Bernal no elenco, faturou uma razoável coleção de prêmios e citações em Festivais e Mostras, classificando-se como cinema da melhor qualidade.

As duas produções são fáceis de encontrar no mercado, existe muita informação sobre ambas na Internet e valem um bom debate acadêmico.