Alimentos e agrotóxicos: uma relação histórica e danosa

Por Marcela Nascimento

O termo agrotóxico é amplamente utilizado nas conversas cotidianas, das escolas às mesas de bar, mas será que todo mundo sabe mesmo o que isso quer dizer? Agrotóxicos são definidos pela Lei Federal no 7.802, de 11 de julho de 1989, abrangendo os produtos e os agentes de processos físicos, químicos ou biológicos, destinados ao uso nos setores de produção, no armazenamento e beneficiamento dos produtos agrícolas, nas pastagens, na proteção de florestas, nativas ou implantadas, e de outros ecossistemas e também de ambientes urbanos, hídricos e industriais, cuja finalidade seja alterar a composição da flora ou da fauna, a fim de preservá-las da ação danosa de seres vivos considerados nocivos. Ou seja, inseticidas, fungicidas, herbicidas entre outros “cidas” utilizados para evitar danos em culturas agrícolas, florestais e em seu armazenamento.

O uso dessas substâncias remonta ao início do século passado primeiramente com o diclorodifeniltricloroetano ou DDT. Esse composto químico foi utilizado inicialmente para o controle da malária, depois, juntamente com outros compostos foi utilizado nos cultivos agrícolas para o controle de pragas e até como armas químicas na primeira guerra mundial. Entretanto, foi após a chamada “revolução verde”, um processo de mudança da política agrícola mundial, pós-segunda guerra mundial, visando à modernização do campo para acabar com a fome do pós-guerra, que os agrotóxicos passaram a ser utilizados em grande escala, sobretudo no final da década de 1960, após o desenvolvimento das sementes transgênicas resistentes ao glifosato (herbicida).

Logo nos anos iniciais da década de 1970, o uso do DDT foi proibido em quase todo o mundo, sobretudo após as denúncias de Rachel Carson em seu livro “Primavera Silenciosa”. Mas não era só o DDT, a essa altura, diversos outros pesticidas já haviam sido desenvolvidos e estavam sendo utilizados em larga escala para conseguir manter o modelo monocultor extensivo da produção de alimentos mundial. Modelo este muito susceptível ao ataque de pragas e que por este motivo demanda enormes quantidades de produtos para viabilizar sua produção, desde fertilizantes para a manutenção da fertilidade da terra, herbicidas para evitar a competição com plantas daninhas, inseticidas para controlar insetos que danificam a cultura, fungicidas para garantir a produção em áreas tropicais e pesticidas para garantir que o alimento armazenado não seja danificado. Só que esses produtos deixam resíduos tanto no ambiente como nos alimentos.

Já é bem documentado na literatura científica que esses produtos podem causar diversos problemas de saúde, tanto em quem trabalha diretamente na sua aplicação (que em muitos casos não utilizam os equipamentos se proteção, seja por ignorância seja por negligência do empregador), como em quem consome. Em casos leves de intoxicação podem ocorrer dores de cabeça, mal-estar, fraqueza, tonturas, náuseas e azia, por exemplo, seja pela exposição excessiva a determinado produto ou pelo consumo ou exposição prolongada à determinada substância. Além disso, problemas graves de saúde podem se manifestar muito tempo após a exposição ou seu consumo excessivo como alguns tipos de câncer, malformações congênitas, distúrbios endócrinos, cardíacos, neurológicos e mentais.

Relatores da Organização das Nações Unidas (ONU) fizeram, em 2015, um apelo à comunidade internacional, solicitando que seja suspenso, imediatamente o uso de pesticidas na produção de alimentos, argumentando que os resíduos desses pesticidas perigosos são frequentemente encontrados no alimento que consumimos impedindo o direito individual de ter acesso à alimentação segura e saudável.

A despeito disso, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA), desde 2009 o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, consumindo mais de 1 milhão de toneladas por ano, o que representa o consumo médio de 5,2 kg de veneno agrícola por habitante. De acordo com o documento publicado pelo INCA, em abril de 2015, 70% dos alimentos in natura consumidos no país estão contaminados por agrotóxicos, dos quais, segundo a Anvisa, 28% contêm substâncias não autorizadas.

Sendo assim, nos cabe, enquanto cidadãos, procurar alimentos livres de agrotóxicos, nos unir na luta por uma política nacional efetivamente regulatória com relação ao uso de agrotóxico, bem como ao incentivo real às formas de produção mais sustentáveis e responsáveis, repensando no atual modelo de produção agrícola baseado em monocultura de grande escala, além de exigir uma maior fiscalização quanto ao cumprimento das normas e regulamentações.

Somente é produzido aquilo que as pessoas consomem, se nós nos recusarmos a consumir produtos contaminados por agrotóxicos, os produtores e as indústrias alimentícias terão de buscar tecnologias alternativas, sendo esse o nosso papel como consumidor consciente.

Prof. Dra. Marcela Nascimento é docente no curso de Ciências Biológicas da PUC-Campinas