Artigo: “Brilhar na Fé e na Ciência”

 Por Pe. Dr. Adriano Broleze

“A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade”.  Assim se inicia a Encíclica Fides et Ratio, que versa sobre a relação da fé e da razão.  Importante documento que desenvolve o tema muitas vezes concebido como antitético entre a Revelação e a Racionalidade humana. Um convite para compreender que, tanto a fé como a razão são características propriamente do ser pensante e, somente numa visão de entendimento, poderão ser assumidas como colaboradoras do desejo mais profundo do coração humano, ou seja, o anseio pela verdade.

As novas descobertas, sobretudo no campo da biotecnologia, evidenciam inumeráveis possibilidades ao desenvolvimento humano, contudo nem sempre uma tecnologia alcançável e aplicável é, humanamente (ética, moral e religião), aceitável. Seja pelo que entendemos do ser humano, como portador de dignidade inalienável, seja pelo que a religião expressa em conceber o mesmo humano como merecedor de não violação de sua vital sacralidade. O que acentuamos é que a ética, a moral e a religião nunca desejaram em sua raiz mais genuína, como diagnosticaram os iluministas e modernistas mais efêmeros, obstruir o desenvolvimento científico. A posição da religião, nesse senso, é justamente de afirmação, ou seja, de sustentação do valor de todo indivíduo e de todo ecossistema, nosso eu e nossa casa comum.

“O que acentuamos é que a ética, a moral e a religião nunca desejaram em sua raiz mais genuína, como diagnosticaram os iluministas e modernistas mais efêmeros, obstruir o desenvolvimento científico.”

As ciências bem o sabem que, defronte ao ser humano, não será possível adotar outra linguagem que não a da Dignidade, mas ao mesmo tempo, também são cientes que essa linguagem reclama contínua e fatigosa revisão. Não existe, todavia, na esfera do código simbólico, outra estrada a percorrer, senão a da reflexão que forjará as contingências do avanço e da autolimitação da pesquisa científica. A Igreja, nesse sentido, oferece uma significativa contribuição, sustentando uma visão integral do ser humano, visão que envolve não só a indispensável conceituação teórica de cada ciência, mas também a englobante visão antropológica, colhida na seara teológica, do pensante como mistério para si mesmo e, em comunhão com o outro.

Na história da relação entre Fé e Razão encontraremos, certamente, momentos turvos, que no entrincheiramento histórico podemos apreciar, todavia também não nos faltam elementos que indicam a gloriosa colheita que se pode desfrutar quando essas dimensões se unem. Vejamos, por exemplo, a conservação dos livros nos mosteiros desde a Idade Média, o nascimento das universidades, os grandes cientistas como Nicolau Copérnico (padre), Gregor Mendel (monge) e ainda Pascal, Ampère, Pasteur e Eduardo Branly. Hoje a Academia Pontifícia das Ciências reúne estudiosos do mundo inteiro, e os trabalhos do Observatório Astronômico do Vaticano são destaque, sem ainda enumerar tantas universidades e escolas espalhadas pelo mundo.

“A pesquisa científica e a dimensão do mistério será sempre pauta de debates, encontros e até desencontros”.

Nesse sentido, Giuseppe Moscati (1880-1927), sustentava que não deveria existir contradição ou antítese entre ciência e fé, ambas deveriam concorrer para o bem do homem. Médico e professor universitário ele testemunhou ao longo de toda sua vida um zelo no atendimento aos doentes, foi pioneiro na relação de proximidade com os doentes. Dizia: “Seja a dor considerada não como uma oscilação ou uma contração muscular, e sim como o grito de uma alma, de um irmão, ao qual outro irmão, o médico acode com o calor do amor ou da caridade”. Conhecido como médico os pobres, foi canonizado pelo Papa João Paulo II, em 1987.

A pesquisa científica e a dimensão do mistério será sempre pauta de debates, encontros e até desencontros. Ao longo dos séculos, esses elementos serão observados e utilizados ora para salvaguardar uma ora para depreciar a outra. Contudo, o que não podemos nunca esquecer é que essas duas dimensões fazem parte de uma única realidade humana, que deseja ardentemente pela mais gloriosa tarefa da racionalidade, isto é, o desvelamento do mistério da verdade. Quando razão e fé se unem, esse desvelamento torna-se maravilhosamente possível.

Prof. Dr. Pe. Adriano Broleze- Faculdade de Teologia e Direito da PUC-Campinas