Artigo: Discursos, Ciências e Miçangas

 Por Eliane Fernandes Azzari

Para revisitar ciências e a relação entre a contestação de discursos de repetição e a ruptura de paradigmas, acato o papel político da linguagem  –  prática social  ideologicamente norteada – materializada em enunciados que me permitem a análise de  discursos, o que faço a seguir.

Trabalhando com Ciências Humanas na atualidade, interesso-me pelo novo paradigma que as Tecnologias da Informação e Comunicação Digitais (TICDs) têm fomentado na construção do conhecimento, oferecendo brechas para o trato pedagógico da linguagem.

Contrariando paradigmas vigentes, Francis Bacon, por exemplo, contestou discursos ao escrever ensaios em inglês que instigaram mudanças no pensamento científico ocidental tanto nas Ciências Naturais como nas Humanas – que só teriam atingido status de Ciência no início do século XX, quando Dilthey tratou estudos interpretativos acerca da vida por “ciências do homem ou do espírito”. Em Of Studies, Bacon inaugura um inglês menos prolixo para sugerir que um dos objetivos do ato de estudar é “pesar e considerar ideias”.

Trabalhando com Ciências Humanas na atualidade, interesso-me pelo novo paradigma que as Tecnologias da Informação e Comunicação Digitais (TICDs) têm fomentado na construção do conhecimento, oferecendo brechas para o trato pedagógico da linguagem. Nessa direção, via rede social síncrona, cheguei ao enunciado “Japão pede que universidades cancelem cursos de humanas” e, depois, a um texto publicado pela Embaixada do Japão no Brasil. Já que estudo discursos para, também, pesar ideias criticamente, leio no texto que afirma que o Japão é “especializado em módulos e processos de alta tecnologia e conhecimento técnico”, um discurso neoliberalista que reitera o conceito de estado-nação e adota tom assertivo (“será necessário aumentar a produtividade de trabalho”) para golpear as Ciências Humanas. A urgência em “focar aspectos vocacionais mais práticos” que “antecipem melhor as necessidades da sociedade”, trata a “vocação” para as tecnologias por mera instrumentalidade técnica, discurso contestável.

Numa sociedade perigosamente desprovida de Ciências Humanas não haveria promoção dos letramentos necessários para legitimar direitos e deveres – públicos e privados

Procurando a mesma rede por discursos de resistência, acabei por encontrar os de repetição. Uma comunidade popularizada por membros das Humanidades enuncia com humor: “Ajudar o povo de humanas a fazer miçanga[1]” – satirizando, mas também reforçando, estereótipo identitário, contextualizado em uma ciência menor. “Fazer miçanga” remeteria à função-artesão, atuação posta às margens da sociedade tecnologizada?

Numa sociedade perigosamente desprovida de Ciências Humanas não haveria promoção dos letramentos necessários para legitimar direitos e deveres – públicos e privados. Assim, acalentar discursos de repetição tecnicistas e contrários às Humanidades destinaria seus profissionais a escolher apenas entre as velhas linhas de produção ou a fabricação de miçangas.

Prof. Me. Eliane Fernandes Azzari é docente na Faculdade de Letras