Artigo: O ano da misericórdia

Por Pe. João Batista Cesário

No início do ano, o Papa Francisco anunciou a realização de um Jubileu Extraordinário da Misericórdia, a acontecer de 8 de dezembro de 2015 até 20 de novembro de 2016. “Pensei muitas vezes no modo como a Igreja pode tornar mais evidente a sua missão de ser testemunha da misericórdia” – afirmou o Papa. “Por isso decidi proclamar um Jubileu Extraordinário que tenha no seu centro a misericórdia de Deus. Será um Ano Santo da Misericórdia. Queremos vivê-lo à luz da palavra do Senhor: ‘Sede misericordiosos como o Pai’ (Lc 6,36)”.

Foto Artigo Ano da Misericordia

Na tradição bíblica, a celebração do jubileu estava associada à propriedade da terra e ao perdão das dívidas, de forma que, segundo o Livro do Levítico, a cada 49 ou 50 anos o povo de Deus deveria celebrar um ano sabático, durante o qual a terra não seria cultivada e aqueles que tivessem perdido a sua propriedade deveriam retomá-la nesse ano. No fundo, estava a concepção de que o Senhor é o verdadeiro proprietário das terras, enquanto os israelitas seriam apenas seus usuários. Bem por isso, o monopólio da propriedade da terra era uma das mazelas sociais denunciadas pelos profetas. A tradição cristã católica herdou a prática dos jubileus dos israelitas, mas deu-lhe um significado mais espiritual, todavia, com aplicações bem concretas também.

No texto de convocação do Jubileu, a Bula Misericordiae Vultus (O rosto da misericórdia), o Papa afirma que determinou o dia de seu início no marco do cinquentenário da conclusão do Concílio Ecumênico Vaticano II, encerrado em 8 de dezembro de 1965. Segundo o Papa, a Igreja sente a necessidade de manter vivo esse acontecimento, pois ali começava para ela uma etapa nova de sua história. “A Igreja sentia a responsabilidade de ser, no mundo, o sinal vivo do amor do Pai” (MV, 4) – afirma.

O Ano Santo da Misericórdia ocorre em continuidade às intuições do Concílio, para ajudar a Igreja a redimensionar sua missão a partir da misericórdia. “É determinante para a Igreja – afirma o Papa – e para a credibilidade do seu anúncio que viva e testemunhe, ela mesma, a misericórdia. A sua linguagem e os seus gestos […] devem irradiar misericórdia […] onde houver cristãos, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia” (MV,12).

“Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai […] com a sua palavra, os seus gestos e toda a sua pessoa, Jesus de Nazaré revela a misericórdia de Deus” (MV,1) – diz o Papa. E aponta em várias passagens dos Evangelhos como “em todas as circunstâncias, o que movia Jesus era apenas a misericórdia” (MV,8). Ademais, em toda a Sagrada Escritura, “a misericórdia é a palavra-chave para indicar o agir de Deus para conosco. […] A misericórdia de Deus é a sua responsabilidade por nós” (MV,9).

Por isso, a celebração do Jubileu da Misericórdia inclui algumas ações que expressam o comprometimento de quantos desejam mergulhar, de fato, no amor misericordioso de Deus. Assim, a peregrinação, a celebração da reconciliação e a prática de obras de misericórdia corporal e espiritual são algumas das atividades características do Ano Jubilar.

A peregrinação é um ícone do caminho que cada pessoa realiza na sua existência (MV,14). O sacramento da Reconciliação “permite tocar sensivelmente a grandeza da misericórdia” (MV,17), é fonte de paz interior para os penitentes e exigência para os confessores. As obras de misericórdia permitem-nos “abrir o coração àqueles que vivem nas mais variadas periferias existenciais” (MV,15) – diz o Papa. Entre as obras de misericórdia corporal estão “dar de comer aos famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os peregrinos, dar assistência aos enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos” (MV,15). Entre as obras de misericórdia espiritual destacam-se “aconselhar os indecisos, ensinar os ignorantes, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, rezar a Deus pelos vivos e defuntos” (MV,15).

A experiência da misericórdia é tão decisiva que o Papa lança um convite às pessoas que pertencem a grupos criminosos no mundo para que mudem de vida, uma vez que a violência empregada para acumular dinheiro transpira sangue e não garante poder legítimo para ninguém. O mesmo apelo é dirigido às pessoas “fautoras ou cúmplices de corrupção, [pois] esta praga putrefata da sociedade é um pecado que brada aos céus” (MV,19).

Por fim, o Papa recorda que a experiência da misericórdia ultrapassa os limites da Igreja Católica e nos coloca em relação com o Judaísmo, o Islamismo e outras “nobres tradições religiosas”, tornando-nos abertos ao diálogo e capazes de superar o fechamento, o desprezo, a violência e a discriminação (MV,23).

Enfim, a celebração desse Jubileu é um grande desafio para os cristãos e toda a humanidade, pois há inúmeras situações no mundo que precisam ser transformadas à luz da misericórdia de Deus. Em âmbito mundial se destacam o drama das migrações forçadas que transformam milhares de pessoas em refugiados sem pátria e o flagelo do terrorismo praticado por organizações fanáticas e pseudoreligiosas, como o autodenominado ‘Estado Islâmico – EI’, que amam mais a morte do que a vida. Em âmbito local, entre outros dramas, se destacam a situação das vítimas do rompimento das barragens em Mariana-MG; o extermínio cotidiano de milhares de jovens pobres, vítimas de balas perdidas, da violência policial, do consumo de drogas, acidentes de trânsito e outros males; e a persistência de práticas preconceituosas (racismo, machismo, entre outros) que agridem os diferentes e os vulneráveis.

Nesse contexto marcado por violência, dor e mortes, é oportuno, pertinente e urgente o apelo do Papa para a celebração de um Ano Santo da Misericórdia – tempo favorável para o perdão, a compaixão e a reconciliação. Que neste Ano sejamos todos “misericordiosos como o Pai”.

Pe. João Batista Cesário é Coordenador da Pastoral Universitária