Base científica em prática de formação

Por Wagner Geribello

Em 2016, quando a PUC-Campinas comemora 75 anos, também completa seu décimo aniversário uma da Prática de Formação que detém recordes de longevidade, quantidade de participantes e níveis positivos na avaliação dos alunos. Em dez anos, aproximadamente 20 mil alunos participaram das atividades que lotaram os auditórios dos três campi.

Reunindo palestras, debates, atividades de avaliação e exibição de filmes, “As Múltiplas Faces da Fotografia”  começou em 2006. Coordenada pelo Professor Doutor Amarildo Carnicel, conta também com a participação de mais dois docentes do Centro de Linguagem e Comunicação, Professor Doutor Celso Luiz Figueiredo Bodstein e Professor Mestre Nelson Sebastião Chinalia.

Realizada em dois sábados consecutivos, pela manhã e à tarde, dividida em quatro módulos, a Prática apresenta aos alunos características estéticas e sociais da fotografia, enquanto linguagem polissêmica, a partir das dissertações de Mestrado e teses de Doutorado dos professores envolvidos na atividade.

Segundo o Professor Carnicel, apesar do termo Prática, a organização foi estritamente baseada em ensaios, pesquisas e textos que tratam da fotografia a partir de um viés analítico e rigorosamente científico. Segundo ele, essa base científica afasta a visão da fotografia como hobby, atividade profissional ou exercício artístico, para transformá-la em objeto de investigação das ciências sociais, observada como linguagem que interfere e, ao mesmo tempo, muito revela sobre a sociedade.

Recorrendo a autores como Roland Barthes, Lúcia Santaella e Zygmunt Bauman, entre outros, os professores responsáveis pela Prática levam os alunos a refletir sobre os modos e formas da fotografia como instrumento de representação da realidade, linguagem crítica da sociedade e veículo de interpretações simbólicas, complementando a base bibliográfica com filmes de ficção e documentários, além da experiência pessoal da sua própria produção acadêmica sobre fotografia.

Módulo

No primeiro módulo da Prática, Carnicel transita pelo universo da literatura, baseado no livro de sua autoria “O Fotógrafo Mário de Andrade”, da Editora Unicamp, a qual analisa fotografias da região nordeste feitas pelo escritor Mário de Andrade entre 1928 e 1929 que o próprio professor repetiu 60 anos depois, abrindo possibilidades para discutir a fotografia como registro histórico e antropológico, sob o olhar de um dos maiores literatos brasileiros.

O segundo módulo, também conduzido por Carnicel, trata da fotografia no cotidiano, a partir da relação entre fotógrafo e fotografado e a intermediação social dessa relação.

No terceiro módulo, Celso Bodstein faz um apanhado introdutório dos conceitos e propostas que definem a contemporaneidade, como a pós-modernidade, para, em seguida, analisar como essa “nova” sociedade age e reage em relação a imagem fotográfica e às suas variantes, como “fotógrafos” contemporâneos que não fotografam, mas se expressam pela fotografia.

No quarto módulo, Nelson Chinalia usa sua dissertação de Mestrado e sua experiência como fotojornalista para analisar a manipulação social e política da linguagem fotográfica, sobretudo no campo das mídias impressas.

Resultados

Cientes e conscientes da complexidade do tema e da base científica que formata os conteúdos das práticas, considerando, ainda, a diversidade do público que inclui alunos de todas as Faculdades e, portanto de áreas do conhecimento diversas, desde as técnicas, exatas, biológicas e médicas, até as humanas, os professores responsáveis pela Prática elaboraram um roteiro didático capaz de atrair e integrar os alunos ao “espírito” das palestras e atividades e aos objetivos dos módulos, isso tudo convergindo para uma visão crítica nova e bem fundamentada da fotografia.

Ao final de algumas sessões, junto com a avaliação que define sua aprovação, ou não, o aluno é convidado a responder um questionário de avaliação da Prática (sem valor de nota). Os resultados, compilados pelos professores responsáveis mostram graus acentuados de aceitação e valorização da Prática, além do seu valor científico, como expressam alguns exemplos:

“Vou ser sincera. Esta Prática, antes de começar, era apenas mais um crédito para eu conseguir me formar, mas hoje digo que não foi bem assim. Fiquei surpresa com tudo que aprendi e como arquiteta tenho certeza que (…) só foi um “start” para eu entrar no mundo da fotografia”. (aluna de arquitetura)

 “Sempre fui apaixonado por fotos e aqui aprendi a ver (…) o lado do fotógrafo e do fotografado. A Prática ensina a observar e a pensar sobre fotografia” (aluna de fisioterapia)

  “A Prática nos passou, além da visão da fotografia, uma visão social” (aluna de letras)

 “A fotografia passou a ser para mim mais que um instrumento de expressão, mas uma forma de interferência e transformação do meio e da realidade” (aluna de história).

Frente a esses resultados e estimulado a apresentar uma síntese da Prática, Carnicel afirma: “As Múltiplas Faces da Fotografia consegue uma simbiose muito positiva e eficiente entre conhecimento prático e base científica rigorosa, o que, ao fim e ao cabo, representa a base de sustentação do Programa de Práticas de Ensino, um importante diferencial da formação universitária oferecida pela PUC-Campinas.”