Brasil é primeiro mundo em tecnologia agrícola

Por Amanda Cotrim

O brasileiro já vivenciou uma época em que a fome era um dos grandes problemas sociais. Não que ela tenha deixado de ser, mas esse problema diminuiu nos últimos anos. Não por acaso, o Brasil foi o país que mais reduziu a fome e a desnutrição, o que lhe rendeu reconhecimento internacional. Nesse aspecto, é possível afirmar que o Brasil é um dos poucos países que conquistou sua soberania alimentar e isso se deve a algumas razões, como: investimento em tecnologia e políticas públicas. Essa é a avaliação do diretor do curso de Ciências Econômicas da PUC-Campinas, Prof. Dr. Izaias de Carvalho Borges.

“O Brasil é um dos poucos países do mundo que conquistou tanto a segurança quanto a soberania alimentar. Quando uma população supera o desafio na produção de alimentos, ela passa a se preocupar com a qualidade desse alimento”. Mas ele ressalta que o alimento no Brasil poderia ser mais barato e de melhor qualidade se houvesse mais políticas públicas e, principalmente, pressão popular para a diminuição de agrotóxicos na plantação, à exemplo da Europa. O docente também destaca que a diminuição nos preços dos alimentos está relacionada ao transporte.  “O Brasil perde nas estradas 20% da produção de grãos. Além disso, o transporte por caminhão é mais caro e transporta menos, sem contar as rodovias que são sem asfalto. O valor da logística é que encarece o alimento”.

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Confira a entrevista na íntegra:

Defina, conceitualmente, o que é soberania alimentar e segurança alimentar?

Soberania alimentar é a capacidade que um país tem de alimentar sua população, em um período de tempo, sem precisar de outros países para isso; é ter uma oferta capaz de atender às necessidades básicas da população. Já a segurança alimentar, é garantir uma quantidade básica de calorias por pessoa. De forma geral, o Brasil é um dos poucos países do mundo que conquistou tanto a segurança quanto a soberania.

 Qual é a sua avaliação sobre o Brasil no cenário mundial?

 A nossa produção per capta de alimento é suficiente para atender toda a população; produzimos além do que consumimos. Eu digo, sem sombra de dúvidas, que, em produção de alimentos, o Brasil é destaque. É um dos maiores exportadores de alimentos. Se pensarmos nos próximos 50 anos e levarmos em conta o crescimento populacional, o meio ambiente e a restrição de recursos naturais no mundo, como a água e a terra, o Brasil é o país que aparece com mais potencial. Temos áreas agrícolas que não estão sendo utilizadas, ou seja, não há necessidade de desmatar a Amazônia e o Pantanal. Também temos bastante disponibilidade de água doce- apesar da crise hídrica no Estado de São Paulo-. E, por fim, temos a nossa vocação para a agricultura e avançamos em termos tecnológicos. O Brasil é primeiro mundo em tecnologia agrícola.

A soberania alimentar passa pela saúde alimentar. Como avalia o uso de agrotóxicos na produção de alimentos, considerando que o Brasil é um dos campeões no uso do veneno?

 Quando acabou a Segunda Guerra Mundial, o grande desafio era aumentar a produção de alimentos e alimentar a população. Nesse sentido, pensando em Brasil, esse modelo foi muito bem-sucedido: o crescimento da produção de alimentos foi maior que o crescimento populacional. A quantidade de terra para a produção cresceu pouco se compararmos a década de 1960 e a década de 2000, no entanto, a produtividade cresceu muito. O que está por trás disso? A tecnologia (mecanização), agrotóxicos e o melhoramento genético de plantas. Eles são os responsáveis pelo aumento de produção de alimentos no Brasil. Mas, se por um lado, alcançamos isso, por outro, tivemos um problema sobre a qualidade dos alimentos e sobre o meio ambiente; a nossa agricultura é totalmente dependente da irrigação, gastando 40% da água que é consumida em todo o território nacional. A preocupação sobre o uso excessivo de agrotóxicos começou nos anos 1990 nos países ricos, porque a questão da produção de alimentos já tinha deixado de ser um problema. Quando a fome deixa de ser o problema, as pessoas começam a se preocupar com qualidade. Mas por que alguns agrotóxicos são proibidos na Europa e no Brasil não? Por pressão popular. O nosso desafio, hoje, é tornar a agricultura mais sustentável, almejando não só a quantidade, mas a qualidade. Eu não vejo alternativa que não seja a tecnologia. O país está investindo nisso, mas não na velocidade necessária. À medida que a agricultura se torna mais sustentável, a saúde alimentar é maior.

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As empresas têm interesse em investir nas pesquisas de inovação e tecnologia para que o dano ao meio ambiente seja o menor possível, e para que os agrotóxicos sejam extintos?

 No Brasil, o investimento em pesquisas vem do setor público, por meio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e de universidades. As grandes multinacionais estão preocupadas com os produtos de alcance mundial, como a soja, o milho e a cana de açúcar. Do ponto de vista econômico, elas não estão interessadas em pesquisa. Nesses casos, é preciso políticas ambientais. No Estado de São Paulo, por exemplo, há uma lei que proíbe as empresas de fazerem a queima na plantação de cana de açúcar. Temos muitas leis ambientais no Brasil, mas falta fiscalização. Por outro lado, a população vem mudando sua relação com a alimentação. As pessoas estão mais exigentes. E o desrespeito ao meio ambiente, com desmatamento e o uso abusivo de agrotóxico tem uma resposta rápida. Se o produtor quiser continuar no mercado, terá de se adaptar à nova realidade.

Pensando nessa gama de atores, com diferentes interesses sobre o meio ambiente, o Brasil está conseguindo respeitar as múltiplas características culturais dos povos?

Temos problemas sérios que precisam ser resolvidos e nós temos condições de resolver. Se olharmos só a produção, o Brasil é um sucesso. Mas quando você se volta para outras realidades, percebemos que temos problemas históricos que não foram resolvidos, como os conflitos agrários: camponeses, terra indígena. A questão fundiária no Brasil é distinta da questão agrícola. A questão agrária não foi resolvida: a terra, as relações de trabalho, grilagem, conflito com quilombolas e tribos indígenas. Em algumas regiões, esses conflitos são muito mais complicados, porque o Brasil tem áreas que pertencem à União, mas não consegue fiscalizar, o que facilita a grilagem; regiões em que o modelo de agricultura é atrasado.

Em minha opinião, rever demarcação de terras indígenas é o caminho mais curto para a destruição ambiental. O Brasil não precisa de mais terra para expandir a agricultura, basta investir em tecnologia. Podemos nos desenvolver sem desmatar uma única árvore. Mas as questões políticas e históricas são o nosso grande problema: muitas vezes, os políticos são os grandes proprietários de terra, o que produz um conflito de interesse e um retrocesso. Temos leis, mas precisamos de fiscalização.

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Qual é a sua avaliação sobre o modelo de agronegócio que existe no Brasil?

O agronegócio inclui a agricultura, empresas que fornecem insumos, que compram da agricultura, enfim. Agricultura é apenas a atividade dentro da fazenda. O agronegócio é o sistema, que participa de 40% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. No entanto, nós temos alguns problemas. Grande parte das produtoras de insumos (tecnologia como maquinários e agrotóxicos) não é brasileira. Quando você tem um agronegócio que exporta majoritariamente grãos, isso é uma deficiência, porque o país só ganha o preço do saco da soja. Mas se ele exportasse o óleo, ganharia o valor agregado e geraria trabalho e renda. O Brasil continua sendo o maior exportador de café do mundo; exporta para Alemanha por 400 dólares, que refina o café e vende por 700. E, muitas vezes, o Brasil compra esse café.

O Brasil, segundo dados da Embrapa, de 2014, desperdiça 40 mil toneladas de alimentos todos os dias. Com esse número, a própria Embrapa estima que 19 milhões de pessoas poderiam ser alimentadas. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) diz que o Brasil está entre os 10 países que mais desperdiçam. Qual é o motivo desse desperdício?

 A logística não é a única, mas é a principal razão. Nossa produção se dá em grande medida na Região Centro-Oeste, que está distante dos portos; e o transporte que predomina no Brasil é o rodoviário. Precisaríamos de trem. Só com o transporte por caminhões, o Brasil perde nas estradas 20% da produção de grãos. Além disso, o transporte por caminhão é mais caro e transporta menos, sem contar as rodovias que são sem asfalto. Os grandes países não entendem o motivo pelo qual o Brasil transporta grãos em caminhões. O valor da logística é que encarece o alimento. Por exemplo: a distância média, hoje, dos produtos que chegam às Centrais de Abastecimento de Campinas (Ceasa), é de 400 km.

Por que o Brasil ainda importa alguns alimentos como o trigo, que vem da Argentina. O país não teria condições de produzir trigo?

 O Brasil é um grande importador de trigo. Isso se deve a questões climáticas. O país produz trigo, mas não conseguimos produzir o suficiente para atender à demanda. Daria para produzir, mas a um custo muito elevado. E temos um acordo de comércio comum. Não vejo problemas em importar da Argentina.

 Não é contraditório que mesmo o Brasil sendo o quinto maior território do mundo, com dimensões territoriais e situado em latitudes favoráveis, não tenha conseguido acabar com a fome?

 A fome era um tema recorrente no discurso dos candidatos à presidência da República no final dos anos 1980 e durante a década de 1990. Mas, nas ultimas três eleições (2006- 2010-2014), esse tema desapareceu do debate porque, nos últimos 15 anos, o Brasil foi o país que mais reduziu a fome e a desnutrição. Isso se deu, primeiro por causa do fim da inflação, que ocorreu com o Plano Real, em 1994; também tivemos o aumento da produtividade agrícola, fazendo com que o preço dos alimentos caísse no país, a despeito do aumento nos últimos três anos. Além disso, nós temos programas de transferência de renda e políticas específicas, como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) que subsidia crédito para a agricultura familiar, a responsável pelo alimento que vai para a mesa dos brasileiros. Tanto que hoje o nosso maior problema é o sobrepeso.

O Brasil conseguiu chegar mais próximo da erradicação da fome, tanto que nosso exemplo é exportado como modelo para outros países. Para que não haja retrocesso, é fundamental que o Estado continue investindo em políticas sociais. No mundo inteiro, a agricultura depende do Estado; em alguns países, depende mais, em outros, menos. Agora, precisamos zerar a fome e trabalhar a qualidade da alimentação.

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Em que medida é possível investir e ter um modelo de agricultura familiar capaz de atender ao mercado interno? Seria possível pensar em abastecimento por cidades?

 Essa ideia de que a agricultura familiar como subsistência ainda existe não é sustentável. Antes do êxodo rural, tudo era produzido no campo e consumido pelas famílias. No mundo moderno, nem o agricultor familiar vive sem celular. Ou seja, ele precisa pensar numa produção que tenha um excedente para poder sobreviver para além do que ele produz para se alimentar. Mesmo o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) não quer esse modelo de subsistência.

Nos Estados Unidos há muitas experiências sobre uma agricultura mais perto da cidade, valorizando a produção local. A agricultura familiar perto da cidade diminui o custo de transporte e possibilita o controle e a fiscalização do estado sobre o que está sendo produzido. Em muitos países, a agricultura familiar foi adotada como prática. Em relação ao Brasil, avalio que ela nunca foi tão valorizada e nunca tivemos tantos estudos sobre a sua importância. Porém, na Região Metropolitana de Campinas estamos na contramão disso. Diminuímos nossa produção e isso se deve ao fato de empresas terem vindo para cá, as construções de condomínios. Houve uma expansão que produziu um impacto nos preços dos terrenos; a terra ficou cara. A região está longe de uma produção local, infelizmente.

O Pronaf foi criado como uma política de crédito, para que o agricultor possa comprar insumo, semente melhorada, trator. Mas ele só tem acesso ao crédito se colocar o produto no mercado, e, atualmente, a agricultura familiar é voltada para a demanda interna. Agora, se ela é capaz de alimentar uma cidade, eu não tenho dúvidas de que a agricultura familiar seria capaz disso. Para termos uma ideia: de acordo com o último censo agropecuário (que já tem 10 anos) e de estudos em outros países, atualmente, 80% da produção de alimentos no mundo é realizada por pequeno e médio agricultor. Eu acredito que é possível termos agricultura familiar e agronegócio, porque precisamos produzir cana de açúcar e precisamos de arroz. A grande e a pequena agricultura são complementares. Agricultura familiar está acontecendo, mas de modo silencioso.

As pessoas que podem pagar têm recorrido aos produtos orgânicos. Por que eles são mais caros?

 O orgânico é um alimento que a população o entende como natural: sem veneno, sem fertilizante. As técnicas são “à moda antiga”, sem melhoramento genético. Alguns países incluem no conceito orgânico à sustentabilidade ambiental e social para comprar de algumas empresas, o que inclui as relações de trabalho nesse conceito. Ele é mais caro, porque ele  custa mais para produzir. Quando o produtor pulveriza o veneno na plantação, ele reduz a taxa de perda por pragas em 5%. A forma de combater a praga é mais custosa, se não for pulverizar o veneno, há de se tirar as pragas com a mão, o que significa contratar pessoas, o que deixaria o produto mais caro. O fato de produzir orgânico, a produção cai pela metade, pois o custo é maior e a produção é menor. Se não vender mais caro, fica inviável. Mas é importante dizer que o interesse do orgânico coincide com o interesse ambiental e de mercado.  Tem um público. No Brasil, no entanto, o orgânico ainda é mercado de nicho (classe), de certo nível de renda e de instrução. Já na Alemanha e na Inglaterra, mais de 50% da produção é orgânico.

 

As fotos dessa entrevista são de Álvaro Jr.