Arquivo da categoria: artigos

A profusão de vozes no ativismo em rede

Por Tarcisio Torres Silva, Doutor em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP; Mestre em Artes (Cultura Audiovisual e Mídia) pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP; Graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo – USP; Graduado em Comunicação Social pela Escola Superior em Propaganda e Marketing – ESPM; é Docente Pesquisador da PUC-Campinas, e integra o corpo Docente do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu Linguagens, Mídia e Arte da PUC-Campinas.

Compreender as crescentes manifestações de ativismo no mundo contemporâneo não é tarefa fácil, ainda mais quando se leva em consideração a complexidade das redes em que essas ações acontecem. Ainda assim, aponto algumas direções para que seja minimamente possível localizarmos o que está acontecendo e o que esperar dos movimentos daqui para frente.

O que observamos no mundo contemporâneo, por todos os lugares, é uma profusão de vozes que clamam por suas causas. Causas que se multiplicam, interconectam-se e produzem novas formas de fazer política. Mas o que justifica esse crescimento?

Podemos dizer que determinados modelos que produziam sentido para a vida enfrentam uma fase de crise sem volta. Politicamente, as estruturas que por tanto tempo sustentaram a democracia como a melhor solução para a representatividade e participação política têm sido constantemente questionadas, seja pela corrupção excessiva, seja pelo sentimento de não representatividade por parte da população.

Além disso, a dinâmica do capitalismo recente está fazendo cair por terra determinadas narrativas que por tempos deram sustentação, ainda que ilusória, para uma ideia de sujeito íntegro e centralizado. Modos de ser e de se entender no mundo, que se apresentavam a homem e mulheres como pré-estabelecidos socialmente, pairam hoje num espectro nebuloso que coloca em xeque a veracidade de tais determinações. Sem antigos modelos totalizantes, opressores e limitadores, o sujeito se vê frente a um leque de possibilidades para compor seus interesses e sua razão de ser.

As redes digitais de comunicação cumprem o papel de aproximar pessoas com interesses similares. Auxiliam-nas a enxergar que não estão sozinhas em sua luta e que seu sentimento compartilhado tem potencial para ganhar força dentro e fora dos ambientes digitais. Por outro lado, a comunicação organizada de forma ramificada e descentralizada também gera excessos. A palavra do ano de 2016, a “pós-verdade”, é efeito, entre outras coisas, do compartilhamento pouco responsável de informações fundadas em valores já inerentes aos sujeitos que contribuem para sua disseminação. As redes também geram sentimentos de grupo que em vez de promover o diálogo, abrem novos tipos de exclusão. Uma exclusão ideológica que, se não remediada, pode retirar do debate quem ainda não compreendeu plenamente as discussões principais de um determinado movimento.

Como até pouco tempo atrás convivíamos com modelos prontos para entender e estar no mundo, este tempo de transformação e de emergência de novas vozes políticas requer um projeto de reeducação que envolve a todos nós. Só assim saberemos falar sobre assuntos que até pouco tempo atrás não encontrávamos espaço para debater; e também ouvir, a fim de começar a pensar a alteridade sob uma nova perspectiva.

Nem moradora local, nem turista: a experiência de viver em Barcelona

Por Ana Maria Vieira Fernandes, Doutora em Geografia Humana na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Turismóloga e Professora das Faculdades de Turismo e de Geografia da PUC-Campinas.

Por ser apaixonada por artes, cultura e patrimônio, sempre alimentei o sonho de um dia viver no Velho Mundo, o que se concretizou durante o meu Doutorado. O momento de vida não era muito convidativo para uma mudança desse tamanho, afinal, eu estava preparando o meu casamento, decorando o novo apartamento e acabava de ser contratada na Universidade.

Como as oportunidades não escolhem hora, me candidatei sem pestanejar no processo seletivo e fui contemplada com uma bolsa de pesquisa na Universidade de Barcelona! Quando percebi, já estava com as malas prontas cruzando o Atlântico rumo ao Mediterrâneo, cheia de expectativas e incertezas. Por mais que lhe digam – como eu digo agora – que morar no exterior é uma experiência maravilhosa, foi um “baque” chegar lá. Não importou quantas vezes eu já tinha viajado e tampouco quantos países eu conhecia. Morar no exterior foi diferente de qualquer viagem, foi único e transformador.

A primeira barreira foi a língua. Não o espanhol, mas o catalão, uma mistura de francês, português, espanhol e italiano, língua oficial da Catalunha, onde se localiza Barcelona. Para a minha surpresa, as aulas na Universidade eram ministradas em Catalão, apesar de toda a população ser bilíngue e falar o espanhol fluente. Foi então, no primeiro dia de aula, que compreendi a expressão “sentir-se um peixe fora d’água”. Era “si us plau” para cá, “benviguts[1] pra lá e eu confusa no meio de tanta gente nova sem conhecer nada e nem ninguém. Foi no cotidiano, ao abrir uma conta no banco, ao fazer os trâmites para alugar um apartamento, ao ligar para um chaveiro tarde da noite, ao comprar produtos de limpeza no mercado e ao responder as questões para o professor na classe, que me dei conta de que estava me comunicando sem perceber.

Morar fora ampliou meus horizontes, me aproximou de novas culturas e costumes, me proporcionou conhecer outra arquitetura, gastronomia e belas paisagens. Também me fez entender que alguns aspectos de outras culturas também podem dificultar a sua vida, mesmo que momentaneamente, como quando você “dá com a cara na porta” no comércio após o almoço. Sim, a siesta espanhola não é um mito. Aí você faz o quê? Se adapta; se encaixa àquela cultura. Além do contato com a cultura local, morar em uma cidade global como Barcelona ainda me fez vivenciar a diversidade nas ruas, no prédio onde morava, na Universidade, na praia, nos espaços públicos, nos centros culturais turísticos e de lazer… O “vai e vem” de pessoas do mundo todo, abrindo horizontes, me tornando mais tolerante e livre. Sem contar os novos amigos que só entraram em minha vida pelo fato de eu ter ido morar lá.

Fiz grandes amigos dos quatro cantos do mundo, em especial japoneses, alemães e ingleses, que se tornaram companheiros especiais, quebrando preconceitos e esteriótipos de que são povos “frios” e “fechados”. Ainda aprendi a lidar com as perdas, uma vez que amigos estrangeiros geralmente estão de passagem e a alegria da convivência dava lugar à tristeza das despedidas.

A experiência também é enriquecedora profissionalmente. Ao conviver com novos professores, alunos e outros profissionais da minha área, ao me deparar com outras formas de pensar. Conheci bibliotecas e livros que não tinha acesso. Participei de grupos de pesquisa e de congressos. Viajei muito, sozinha e com amigos, e conheci lugares maravilhosos. Retornei mais forte e confiante, inspirada por novas ideias, o que tornou o meu trabalho ainda mais prazeroso e desafiador.

É claro que alguns medos nos afligem no meio do caminho e a saudade de casa bate forte, mas isso era superado a cada descoberta diária. Nesse tempo lá fora, me permiti mergulhar em mim mesma e me redescobrir. Mais do que cruzar o oceano para estudar em outro continente, cruzei as minhas próprias fronteiras e barreiras e saí do meu próprio universo em uma trajetória de compreensão acerca de mim mesma e do mundo. Se “viajar é mudar a roupa da alma”, como diz o poeta, então viver no exterior foi trocar o meu “guarda-roupa” por completo; uma jornada de autoconhecimento que ficará marcada para sempre. Ao voltar para casa, tudo estava em seu lugar, com a diferença do meu olhar sobre o mundo e de que um pedacinho do meu coração também havia ficado do outro lado do oceano, em minha segunda casa.

[1] [“Por favor”, “Bem-vindo”].

PUC-Campinas 76 anos

Por Prof. Dr. Wagner José Geribello – assessor especial da reitoria

Junho é mês do aniversário da PUC-Campinas. Precisamente no dia sete, a Universidade completa 76 anos da sua trajetória crescente e profícua, iniciada em 1941, com a implantação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, prioritariamente voltada à formação de professores.

Setenta e seis anos depois daquele dia 7 de junho, a Instituição transformou-se na mais importante Universidade privada da região polarizada pela cidade de Campinas, que continua formando professores, mas forma, também, mais de quatro dezenas de modalidades profissionais de nível universitário, cobrindo praticamente todas as áreas de atuação, incluindo Ciências Exatas, Econômicas, Sociais e Sociais Aplicadas, Biológicas e das áreas Médicas e da Saúde.

Além do Ensino, aos 76 anos de atividades, a PUC-Campinas é um importante polo de Pesquisa, enquanto a Extensão consolida laços fortes da Universidade com a sociedade.

Em 76 anos de História, a Instituição manteve com determinação as bases do projeto inicial, constituindo-se como entidade disposta ao crescimento continuado e ao melhoramento permanente das suas competências e objetivos.

O sucesso dessa História explica, legitima e endossa o calendário comemorativo programado para o mês de junho, incluindo sessões artísticas, resgate de eventos, momentos e personalidades importantes na trajetória da Universidade, além de atividades que marcam a atualidade e a contemporaneidade da PUC-Campinas, em especial no campo da tecnologia do Século XXI.

A programação comemorativa expõe os fundamentos da cultura da Universidade, que jamais deixa de lembrar e reverenciar seu passado, sem descuidar do compromisso com o tempo presente, projetando um futuro cada vez melhor.

Orientada pela fé cristã, em sua condição de Instituição Confessional, que implica um compromisso irrestrito com o desenvolvimento social e a cultura da paz, da solidariedade e da fraternidade, a PUC-Campinas comemora com entusiasmo seu 76o ano de fundação convidando a comunidade acadêmica a participar ativamente dos festejos. Anote na sua agenda, convide seus colegas e não deixe de participar… afinal, você faz parte dessa História.

A Era Trump: política e pós-verdade no século XXI Tensão entre EUA e Coreia do Norte reacende o “fantasma” da Guerra Fria

Por Lindener Pareto, Historiador, Doutor em História da Arquitetura e do Urbanismo pela FAU-USP e Professor de História Contemporânea na PUC-Campinas

Em 2016, diante das eleições norte-americanas que levaram Donald Trump à presidência dos EUA, o consagrado “Dicionário Oxford” elegeu a palavra “pós-verdade” (post-truth) como a palavra-conceito do ano. Como efeito, o conceito se refere à política da pós-verdade, e vale dizer que os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as crenças pessoais e emoções. Vide a lógica que dominou os debates políticos entre Trump e Hilary e também entre os lados do referendo da Brexit, que optou pela saída do Reino Unido da União Europeia.

No entanto, o conceito – a despeito de não figurar nas análises políticas antes da década de 1990 – é fundamental para a narrativa da história do Século XX, marcado pelo nacionalismo mais exacerbado, pela propaganda totalitária crucial para as barbáries dos campos de concentração e o genocídio perpetrado pelo Nazismo. No período que se seguiu ao fim da II Guerra Mundial (1939-1945), as duas máquinas de propaganda mais poderosas do mundo, a dos Estados Unidos da América (EUA) e a da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), se valeram dos embates narrativos repletos da “arte da mentira” para disputarem o mundo entre si na Guerra Fria (1945-1991).

A propaganda anticomunista que tomou conta do imaginário político norte-americano na década de 1950, o Macarthismo, é peça chave na deflagração de um dos conflitos mais sangrentos entre o capitalismo americano e o socialismo soviético, a Guerra da Coreia (1950-1953). Dividida entre as influências soviéticas e chinesas e as norte-americanas, a península da Coreia foi palco de um impasse militar que acabou com a criação da Zona Desmilitarizada (ZDC), entre a Coreia do Norte (Socialista) e a Coreia do Sul (Capitalista) que perdura até os dias de hoje.

Ora, a vitória de Donald Trump – arauto fanfarrão das redes sociais e da Sociedade do Espetáculo e símbolo das subjetividades da “pós-verdade” – retomou um dos espectros mais sombrios da Guerra Fria, a iminência da catástrofe nuclear. Imbuído do mais chauvinista nacionalismo americano e numa guerra incessante contra as diversas mídias que insistem em fazer a crítica de sua figura e de seu governo, Trump passa ao apelo da necessidade da guerra pela liberdade para resolver de vez o problema histórico com a Coreia do Norte. Diante da escalada do programa nuclear norte-coreano e das palavras de ordem do regime de Kim Jong-um, também eivado da retórica política da pós-verdade, Donald Trump procura demonstrar sua força militar e, sobretudo, estabelecer uma política externa que dê conta de preservar seus aliados, Japão e Coreia-do-Sul, na região.

Certamente, a história e a retórica como farsa no atual impasse político não são novidades do nosso tempo. As relações de poder na era da pós-verdade estão ancoradas na inversão, traduzida por Michel Foucault (1926-1984), da emblemática frase do estrategista militar Carl Von Clausewitz (1780-1831). Foucault diz que a guerra não é continuação da política por outros meios e, sim, a própria política é a continuação de um estado permanente de guerra, que estabelece combates silenciosos nas instituições e nas disputas retóricas, sendo capaz de retomar espectros de uma Guerra Fria interminável e, na prática, levar a humanidade ao seu ato final de corpos aniquilados por um eventual desastre nuclear.

 

Referências bibliográficas
ARENDT, H. As origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
FOUCAULT, M. Em defesa da sociedade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010.
HOBSBAWM, E. A Era dos Extremos: o breve século XX,1914-1991.São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

 

A Universidade e o Empreendedorismo

Por Tiago Aguirre – Coordenador do Programa PUC-Campinas Empreende

Cada vez mais encontro pessoas conversando sobre o futuro das relações pessoais, sobre como será o mercado de trabalho do futuro. A Internet e a mobilidade estão transformando os meios de comunicação e a forma que nos relacionamos. Algumas vezes, busco refletir: Por quê? Para quê? Muitas vezes encontro um porque, mas nem sempre é trivial achar o para que.

Neste momento de incertezas, comenta-se que 60% das profissões atuais não existirão nos próximos 20 anos. O que fazer? Quais são as competências do profissional do futuro? Como prepará-los? Qual o papel da Universidade?

De outro lado, como diriam os enxadristas, a carreira corporativa tradicional está “em xeque”. Jovens profissionais passam em processos seletivos exigentes e, se não se identificam com a cultura da empresa, saem em busca de algo melhor. Estão priorizando seus objetivos pessoais. E fica a dúvida: onde encontrarão algo melhor?

Podemos entender a cultura de “priorizar os objetivos pessoais” como a cultura de “construção de sonhos”, que é base do Empreendedorismo. Nas palavras do Prof. Fernando Dolabela, “empreendedor é alguém que sonha e busca transformar seu sonho em realidade”.

Nesse contexto, a Universidade precisa estar preparada para oferecer para a comunidade interna e externa, ambiente propício para auxiliar a construção dos mais diversos sonhos. É importante lembrar que, como toda área de conhecimento, existem métodos e ferramentas que auxiliam o processo empreendedor. Assim sendo, oferecer ambiente de capacitação e experimentação é o que se pode esperar das Universidades.

Na PUC-Campinas, por meio da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários (PROEXT), apresenta-se o Programa PUC-Campinas Empreende, com projetos orientados ao apoio, capacitação e integração da comunidade de alunos, egressos, professores e funcionários com o Ecossistema Empreendedor da Região Metropolitana de Campinas. Busca-se, dessa forma, auxiliar na formação de profissional capacitado a transformar a realidade do mercado, seja por meio de sua atuação nas empresas e corporações existentes, seja na construção de novas empresas que geram trabalho e renda de maneira sustentável ambiental, social e economicamente.

 

Fogo no Mar: O drama dos refugiados e a indiferença da sociedade

 

Fogo no Mar, dirigido por Gianfranco Rosi, foi um dos filmes apresentados na 1a Mostra de Cinema Italiano de Campinas, acontecida de 06 a 13 de abril, que contou com exibições e debates na PUC-Campinas.

Vencedor do Urso de Ouro (melhor filme) no Festival de Berlim 2016 o documentário prima por uma produção requintada, que se divide em duas perspectivas centradas em Lampedusa, pequena ilha italiana, localizada na região da Sicília, e que se tornou porto para os refugiados oriundos de barco ao continente europeu. Por meio do retrato do aparato militar organizado pelo governo italiano para resgatar os refugiados, e do dia a dia praticamente inalterado dos moradores da pequena província, o diretor constrói uma metáfora belíssima sobre a Europa e a indiferença da maioria das pessoas com esse drama social.

O caminho escolhido parece ser o de abraçar essa contradição e repassá-la ao espectador. Mas, mesmo que não totalmente em linguagem direta, as nuances são perceptíveis, principalmente, nas escolhas estéticas do filme. Em um campo há a utilização de câmeras mais lentas acompanhando o ritmo dos moradores da ilha, conduzidos pelo garoto Samuele e suas pequenas diversões cotidianas, como atirar com estilingue nos pássaros, por outro há o drama dos refugiados, dos mais variados países, confinados a línguas não compreensíveis, e a falta de destino. Essa rotina é captada por uma câmera mais vibrante, com tomadas e cortes ágeis. A diferença parece demarcar o contraste dos moradores da ilha com suas vidas lentas, consolidadas, enraizadas, com o movimento dos imigrantes, fugitivos em busca de algum caminho, de um recomeço.

Os pedidos dramáticos de socorro captados, interceptados pelos oficiais italianos, as cenas de resgate registradas, inclusive com a chegada de pessoas mortas em meio às péssimas condições de viagens, contrastam com as metáforas que permeiam o filme e servem como maior direcionamento do pensamento de Rosi. Em uma delas, após um exame oftalmológico, o garoto Samuele descobre ter uma das vistas preguiçosa, e passa boa parte do filme com um dos olhos tapado. Esse treinamento para olhar com olho que não está acostumado a ver é o exercício de consciência proposto por Fogo no Mar, para que as mazelas tão flagrantes daquelas pessoas possam ser acolhidas por uma reflexão que extrapole as limitações tradicionais, de uma sociedade contaminada pela intolerância e xenofobia.

Fogo no Mar é, talvez, o representante contemporâneo mais significativo de uma estética do documentário que não se propõe a ser explicativo, com ênfase na realidade. Ao contrário, insere poesia e emoção para potencializar o real. Como citado em entrevistas a veículos de comunicação, o Diretor Giafranco Rosi elege Robert Flaherty, autor de clássicos como Nanuk o Esquimó, O Homem de Aran e Louisiana Story, sua grande referência. Em Lousiana Story, Flaherty conta a história do petróleo pelos olhos de um garoto, assim como Rosi narra um dos principais dramas contemporâneos pelo olhar de outro menino.

PÁSCOA – RELIGIÃO Vida ressignificada!

Por Pe. João Batista Cesário

Duelam forte e mais forte: é a vida que enfrenta a morte! (…) Vi Cristo ressuscitado, o túmulo abandonado!” Esses versos são da Sequência Pascal, hino festivo que a Igreja canta no Domingo da Páscoa da Ressurreição do Senhor, exultando de alegria por sua vitória sobre a morte. De fato, “Jesus de Nazaré foi um homem aprovado por Deus…pelos milagres, prodígios e sinais que Deus realizou por meio dele, entre vós” (At 2,22) – testemunhou Pedro no dia de Pentecostes. “Ele andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos… e nós somos testemunhas de tudo que Jesus fez na terra dos judeus e em Jerusalém” (At 10,38-39) – insistia o apóstolo. Entretanto, “eles o mataram, pregando-o numa cruz. Mas Deus o ressuscitou no terceiro dia” (At 10, 39-40) – concluiu Pedro. E, à luz de sua Páscoa, a história do passado do povo de Deus foi relida e reinterpretada sob nova perspectiva, enquanto novos horizontes se abriam para o futuro da humanidade.

Com efeito, no passado, no ambiente da cultura semítica, a festa da Páscoa era a celebração da partida dos rebanhos para as pastagens de verão, associada mais tarde à festa dos “pães ázimos” (sem fermento), que marcava o início das colheitas, momento muito importante na vida agropastoril.

A experiência do Êxodo ou da libertação do povo de Deus da escravidão no Egito, ocorrida nos dias das celebrações pascais, conferiu novo significado à Pascoa que, desde então, se tornou a celebração da libertação que Deus garantiu ao seu povo e o reinício de sua história numa terra prometida.

Após a morte e ressurreição de Jesus nos dias da páscoa judaica, os cristãos ressignificaram o sentido dessa festa, que passou a ser a celebração da vitória de Cristo sobre a morte. Com efeito, Páscoa é passagem, e, assim como no passado, os hebreus passaram pelo Mar Vermelho a pé enxuto para vencer os grilhões da escravidão (Êxodo), agora é Cristo que, realizando um novo êxodo, passa da morte para a vida. “Imolado como cordeiro pascal dos cristãos” (1Co 5,7), Cristo ofereceu sua vida em sacrifício (Jo 10,18), morreu por amor a todos e ressuscitou para garantir vida plena para a humanidade.

Assim, a festa da Páscoa é desafio de renovação espiritual; de ressignificação de costumes, práticas e da própria vida; de retomada de bons propósitos e projetos; e de realização de travessias para utopias (que, literalmente, ainda não têm lugar, mas permanecem latentes na história) a serem construídas em vista de outro mundo possível, no qual todos possam viver digna e plenamente – um mundo com mais pontes de fraternidade e integração e menos muros de intolerância e exclusão!

 

Você sabe como está a qualidade da água no Brasil?

Por Prof. Dr. Antonio Carlos Demanboro – Professor dos Programas de Pós Graduação em Sistemas de Infraestrutura Urbana, Sustentabilidade e Engenharia Elétrica da PUC-Campinas

Em pleno século XXI, a qualidade da água dos rios está diretamente relacionada com a falta de saneamento básico no país. As informações disponíveis no Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), para o ano de 2015, apontam que o índice médio de coleta de esgotos nas cidades foi de 74,0%, ou seja, 26% dos esgotos gerados nas cidades sequer foi afastado das residências. Mais alarmante ainda é o fato de que, do total de esgotos coletados, apenas 42,7% foram tratados. Ou seja, apenas 31,6% dos esgotos gerados nas cidades foram tratados.

Mas, como a eficiência média dos processos de tratamento é da ordem de 85%, apenas 26,9% do esgoto gerado foi efetivamente tratado. O volume total de esgoto tratado foi de 3.805.022 mil metros cúbicos. Logo, 14.167.024 mil metros cúbicos de esgoto foram lançados inadequadamente, sendo que a maior parte desse esgoto atingiu diretamente os rios do país.

Para se ter uma ideia dos desafios necessários para coletar todo esse esgoto gerado nas cidades, a extensão total de redes de água, em 2015, foi de 602.408km, enquanto que a extensão total das redes de esgoto foi de apenas 284.041km. Assim, para atingir o mesmo nível de fornecimento de água tratada, de 93,1%, será necessário construir em torno de 318.367 quilômetros de redes de esgoto, para atender mais de 65 milhões de pessoas. O documento completo está disponível em www.snis.gov.br.

Nesse sentido, é bem-vindo o recente trabalho da Fundação SOS Mata Atlântica que retirou amostras e efetuou análises de qualidade da água dos rios em 1607 locais, abrangendo 73 municípios de 11 estados. Os resultados apontaram que apenas 2,5% das amostras tiveram qualidade boa e em nenhum ponto a qualidade foi ótima. O estudo completo está disponível em www.sosma.org.br.

Os desafios para a universalização do esgotamento sanitário no país são enormes e este desafio demandará uma atuação direta dos profissionais das diversas áreas do conhecimento, para ser vencido. No dia 22 de março comemorou-se o Dia Mundial da Água, mas não há muito o que se comemorar.

 

Leia mais no link http://exame.abril.com.br/brasil/o-brasil-nao-tem-o-que-comemorar-neste-dia-mundial-da-agua/

 

Tempos de crise: como trabalhar a imagem e a reputação das empresas

Por Prof. Dra. Maria Rosana Ferrari Nassar – Professora da Faculdade de Relações Públicas da PUC-Campinas

As novas tecnologias da informação e de comunicação realocaram as relações sociais, modificando as instâncias de mediação política, econômica e social da dimensão espacial para a temporal, instituindo o princípio da instantaneidade. No mundo altamente interconectado da atualidade, em que tudo pode ser divulgado instantaneamente, as organizações estão mais suscetíveis a abalos à sua imagem. Veja-se, por exemplo, a mais recente crise em que se veem envolvidas algumas empresas do setor da carne, resultante de uma ação conduzida pela Polícia Federal.

Sob a perspectiva da comunicação, crises são acontecimentos que potencialmente podem desestabilizar a organização, causando danos à sua imagem. A melhor ação sempre é a prevenção. Para tanto, conhecimento do mercado, aperfeiçoamento de processos internos; políticas de comunicação e de qualidade; treinamento e respeito ao consumidor são essenciais. A organização precisa conhecer seu público e estabelecer formas eficientes de comunicação com ele. E, assim, definir uma política preventiva de conflitos e crises, elaborando manuais, treinando seus colaboradores, fazendo a gestão de relacionamentos com seu público, pesquisas de satisfação, dentre outras ações.

Contudo, quando a crise se instala, a organização, que atua segundo valores sólidos, tem melhor condição para agir com mais eficiência. Se a organização coloca o cliente em primeiro lugar, esse é um valor que tende a orientar sua ação no gerenciamento de crises. Para tanto, a recomendação é agir com alteridade. Nessa situação, o ideal é instalar de imediato um comitê de crise que deve agir com cautela, inteirando-se dos fatos e das versões que assumem nas diferentes mídias e agir com transparência, rapidez, confiança, comunicar-se com clareza e eficiência. A melhor política é não mentir. Recomenda-se não subestimar a situação e nem negligenciar seus colaboradores. A organização também não deve colocar-se como vítima e nem agir como se o problema não existisse ou não fosse com ela. Nesses casos, superiores, sócios e colaboradores devem ser informados rapidamente. E não se deve acreditar que o respaldo legal seja suficiente para proteger a organização. Afinal, quando se trata da imagem, os aspectos éticos são mais relevantes. De qualquer modo, seja para prevenir ou para remediar, a atuação do profissional de Relações Públicas é essencial para identificar possíveis ameaças, formas de evitá-las ou detê-las e mesmo para reconstruir a imagem da organização.

 

 

PÁSCOA – ECONOMIA Efeitos sazonais

Por Prof. Dr. Izaias de Carvalho Borges – Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas

Páscoa é alegria, época destinada a transformação interna de todos os cristãos. Essa renovação tem início no período da Quaresma, momento de recolhimento e reflexão espiritual, de preparação para a festa do renascimento de Cristo. A data religiosa acaba influenciando no aumento do consumo e dos preços de alguns produtos, principalmente chocolates e peixes, recebendo dos economistas um termo específico para traduzir o fato, chamado sazonalidade.

A sazonalidade resulta de mudanças sazonais, ou seja, mudanças temporárias, típicas de determinada época ou estação do ano. Por ser temporária, a variável que está sofrendo o efeito da mudança sazonal, normalmente os preços, tende a regressar a seu nível inicial após certo tempo.

Existem, basicamente, dois tipos de sazonalidade: as climáticas e as culturais. As climáticas – influenciadas pelas estações do ano – são as principais causas de oscilações nos preços de alguns alimentos ao longo do ano. As sazonalidades climáticas podem influenciar tanto a oferta quanto a demanda. Por exemplo, no caso de algumas frutas, como o limão, a oscilação do preço ao longo do ano é resultado tanto de alterações sazonais na oferta quanto na demanda. A colheita normalmente ocorre entre dezembro e abril. Nos meses de outubro e novembro os preços costumam aumentar muito por dois motivos: a oferta está muito baixa (período da entressafra) e a demanda por bebidas está aquecida, influenciada pelo aumento da temperatura nesse período.

Já as sazonalidades culturais são influenciadas por costumes de uma população ou por festas religiosas. Esse tipo de sazonalidade geralmente influencia apenas a demanda de produtos específicos, normalmente alimentos e bebidas. A Páscoa é um exemplo de um evento religioso que gera efeitos sazonais sobre os preços de dois produtos: o chocolate e os peixes. A tradição de comer peixes na Sexta-feira Santa e de presentear pessoas com chocolates no Domingo de Páscoa faz com a demanda de ambos os produtos aumente e, consequentemente, os seus preços.

Uma questão importante é: quais estratégias o consumidor pode adotar frente às oscilações sazonais dos preços. Uma primeira estratégia é, quando possível, antecipar as compras. Por exemplo, comprar peixes na semana que antecede a Semana Santa pode não ser o melhor momento. Os preços costumam ter picos próximos ao dia principal do evento. A segunda estratégia é pesquisar antes de comprar. Os preços podem se diferenciar muito, tanto em função da variedade de marcas, tamanhos e sabores, quanto pela concorrência entre os varejistas. Alguns estudos mostram, por exemplo, que o preço de um ovo de Páscoa, com a mesma marca e mesmas características, pode oscilar até 150%.