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As mudanças no Ensino Médio – refletindo sobre as propostas

Por Profa. Dra. Eliete Aparecida de Godoy – Docente da Faculdade de Pedagogia da PUC-Campinas

De acordo com os dados do Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os jovens de 15 a 29 anos representam 51,3 milhões da população brasileira. Dados do Pnad 2012 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) revelam que 45% desses jovens somente trabalham, 13,6% trabalham e estudam e 21,6% apenas estudam.

Este atual perfil do jovem brasileiro reflete a realidade do Ensino Médio no Brasil, que, historicamente, sempre foi excludente. A partir dos anos 90, os Programas, as Políticas Educacionais, tanto quanto a legislação vigente, determinaram diretrizes e princípios fundantes para a Educação Básica, que indicaram a promoção do desenvolvimento do conhecimento científico e do pensamento crítico, e ainda vislumbraram mecanismos para que os alunos pudessem efetuar uma leitura clara do mundo e da vida e, assim, viver uma cidadania plena. No entanto, os resultados das ações desses programas e políticas apresentaram indicadores que revelaram uma tímida melhora, num ritmo e qualidade muito aquém do necessário para garantir a inclusão educacional e a garantia de direitos fundamentais, como o de aprender e adquirir conhecimentos, num espaço escolar público, gratuito, laico e competente.

Enquanto os indicadores demonstram que o Ensino Fundamental garante o acesso à escola para mais de 90% de crianças na faixa etária de 6 a 14 anos, ainda que seja discutível a garantia da permanência e da inclusão real desses alunos, no Ensino Médio, sequer o acesso desses jovens às escolas pode ser considerado como dever cumprido pelo Estado, principalmente, no que diz respeito à garantia da permanência. O que demonstra o fracasso do Sistema Educacional Público quanto à universalização do Ensino Médio com qualidade, garantindo a preservação dos direitos fundamentais dos jovens. Assim, esta etapa de ensino adequada para a faixa etária de 15 a 17 anos, que se tornou obrigatória somente a partir da Emenda Constitucional nº 59, de 2009, ainda é um dos principais desafios no campo das Políticas Educacionais.

Entendemos que as transformações no campo educacional não podem desconsiderar uma reflexão mais ampliada e participativa sobre as políticas públicas, problematizando seu contexto e pretexto quanto a: o que, para que e para quem se voltará, como comumente acorre. A Política responsável deveria apropriar-se dos dados da realidade para proposição de um conjunto de ações necessárias para interferir num contexto tão complexo. Ao se tratar da atual reforma do Ensino Médio, precisamos questionar se as mudanças propostas atendem às necessidades reveladas por este breve perfil dos jovens que deveriam ter acesso e permanência garantidos na escola? Esta questão deve nos instigar a buscar o entendimento, por exemplo, sobre que coerência apresenta este projeto de transformação do Ensino Médio com o princípio ideológico e concepção anunciados? As incoerências identificadas são muitas, mas basta analisarmos algumas, como: a) a desconsideração dos eixos das Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (2011) vigente; b) a fragilidade do conjunto de alterações apresentadas para a composição curricular que poderá constituir-se num retrocesso no campo das experiências, dos processos de ensino e aprendizagem, acentuando a precarização na formação dos jovens, no tocante aos saberes necessários à análise de conceitos e ao desenvolvimento de atitudes e de habilidades desejáveis à tomada de decisões e de posições sobre o mundo; c) um projeto que propõe itinerários de aprendizagem que a maioria do conjunto de escolas do nosso país não poderá oferecer enquanto possibilidades de escolhas, nem mesmo em médio prazo, conforme proposto. Destaca-se o impasse entre o oferecimento de escolhas para os estudantes e a eficiência do sistema educacional para efetivação dessas escolhas. Isto sem contar com a reestruturação das escolas para atendimento específico do Ensino Médio, com a justificativa do oferecimento progressivo deste nível de ensino em período integral. A quem este ensino de período integral, tal como proposto, beneficiaria?

Se considerarmos as barreiras que antes impediam os jovens pobres de frequentarem a escola, que o Ensino Médio era visto e direcionado apenas como passagem entre o Ensino Fundamental e Superior, para a classe média; que só a partir da década de 90 essas barreiras começaram a ser quebradas e, hoje, o Ensino Médio é considerado a etapa final da escolarização obrigatória com as finalidades de preparar os jovens para a continuidade dos estudos, para o mundo do trabalho e para o exercício da cidadania, permitindo aos jovens negros, pobres e trabalhadores vislumbrarem seus direitos. A resposta talvez seja que, para a maior parcela da população jovem de pobres, negros e trabalhadores, só sobrará a marginalização ainda mais acentuada.

Isso posto, surge mais um questionamento: em que medida esta reformulação do Ensino Médio, em sua efetiva implementação, não legitimará novamente a elitização deste nível de ensino? Não legitimará uma educação de qualidade distinta para populações distintas?

A obtenção de respostas às questões como essas implica a assunção do desafio a ser enfrentado por todos nós enquanto sujeitos representantes de diferentes segmentos da sociedade na conquista de empoderamento, capaz de pautar uma Política Educacional que enfrente a necessária transformação da realidade de exclusão dos jovens, em seu sentido lato, ainda fortemente presente na Educação Básica brasileira. A discussão da possível mudança na qualidade da Educação Básica, dentre tantos desafios, precisa do apoio para fortalecimento da ideia de que não há possibilidade de transformação sem investimentos de recursos materiais e imateriais, suficientemente capazes de romper com: a precarização de tantas escolas brasileiras no que se refere à infraestrutura; desvalorização do professor/profissional da educação; reestruturações curriculares falseadas de seus reais intentos e impostos para os sistemas de ensino e suas respectivas escolas.

Recomendo para os leitores o documentário Nunca me sonharam, que aborda os desafios do presente, as expectativas para o futuro e os sonhos de quem vive a realidade do Ensino Médio nas escolas públicas do Brasil. Na voz de estudantes, gestores, professores e especialistas, Nunca me sonharam reflete sobre o valor da Educação.

Mais informações sobre o documentário você encontra no link: http://www.videocamp.com/pt/movies/nuncamesonharam

De onde vem o medo da Matemática?

Por Prof. Me. Valdomiro Placido dos Santos – Docente da Faculdade de Matemática da PUC-Campinas

O avanço do conhecimento científico e tecnológico das últimas décadas impressiona até os estudiosos de tecnologias. A transformação digital que estamos vivendo, a Internet das Coisas, o Big Data, o desenvolvimento de veículos autônomos, a automatização dos processos industriais e comercias, entre outros, têm exigido habilidades e competências matemáticas cada vez mais sofisticadas. Enquanto a vida dos usuários de tecnologias é facilitada com a introdução de novos recursos, aplicativos e gadgets, os desenvolvedores de tecnologias precisam se apropriar de conhecimentos e ferramentas matemáticas cada vez mais elaboradas para criar novos produtos.

Não obstante a crescente demanda por profissionais com alto grau de conhecimento matemático nas empresas de alta tecnologia, o ensino de matemática caminha na direção oposta, principalmente na educação básica. O que corrobora essa tese é o baixo desempenho dos estudantes desse nível de ensino nas avaliações nacionais e internacionais. Na última avaliação do Ideb (índice de desempenho da educação básica), realizada em 2015, a média nacional em Matemática foi de 267 pontos no Ensino Médio, enquanto o mínimo esperado para o desempenho ser considerado adequado era um score de 320 pontos. Ficamos 17% abaixo do mínimo esperado. Também em 2015 foi realizada uma avaliação do Pisa, cuja lista inclui 70 países participantes da OCDE. Nesta avaliação, o desempenho dos estudantes brasileiros em Matemática regrediu, retornando ao nível em que estávamos em 2009, performance que derrubou o Brasil da 59ª posição do ranking para a 63ª.

O que muitos se perguntam é o que revelam esses dados? O resultado do Ideb significa, por exemplo, que a maioria desses estudantes, ao entrar em um supermercado e se deparar com dois pacotes de açúcar, um de 2 kg, custando R$4,00, e outro de 5 kg, custando R$9,00, não saberá usar a matemática para decidir qual dos dois pacotes é mais vantajoso adquirir, mesmo com números de proporções tão evidentes. O leitor pode relutar em acreditar, mas é a realidade da aprendizagem da matemática no nosso País. O que se pergunta imediatamente é como a escola não consegue ensinar competências matemáticas tão elementares. Aqui chegamos a uma das origens do medo da matemática. A solução desse tipo de problema, na educação básica, é ensinada através da dispensável e não recomendável regra de três. Frequentemente, os estudantes fazem: 2 está para 4, assim como 5 está para x, em que x é o valor correspondente ao pacote de 5 kg.  Utilizando esse esquema “prático”, o estudante cai no beco das equações algébricas (encontrar o valor de x), o que, convenhamos, não é nada prático para se fazer nos corredores de um supermercado, pois, geralmente, demanda papel e lápis. Se soubesse usar o conhecimento aritmético, o estudante, com uma única operação mental de divisão, tomaria a decisão correta.

Como poderá gostar de matemática um adolescente que não consegue utilizá-la sequer no supermercado, mesmo percebendo que ela é necessária? Sabemos que nossos adolescentes se envolvem facilmente com desafios de raciocínio em games com considerável nível de complexidade, ao mesmo tempo que fogem da matemática que oferece os mesmos desafios e as ferramentas apropriadas e estruturadas para enfrentá-los. Nossos jovens têm medo da matemática, porque não conseguem usufruir de seus benefícios mais elementares. Para a maioria desses jovens, a matemática remete mais à exclusão do que à inclusão. Nesse contexto, é imperativo que nossas Faculdades de Matemática concentrem seus esforços em formar professores capacitados para resgatar nos nossos jovens o encantamento pelas aplicações da matemática, das mais cotidianas e triviais às de alta tecnologia.

A recuperação da economia em 2017 e 2018

Por Porf. Dr. Izaias de Carvalho Borges – Docente da Faculdade de Ciências Econômicas da PUC-Campinas

Uma questão crucial, hoje, tanto para tomadores de decisões econômicas quanto para os analistas de mercado se refere à recuperação da economia brasileira. O gráfico abaixo mostra que depois de cinco anos com crescimento positivo – um crescimento médio anual de 3,4% entre 2010 e 2014 – o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil apresentou, em 2015 e 2016, queda de 3,8 e 3,6%, respectivamente.

No momento, portanto, o que todos querem saber é o resultado do PIB em 2017 e em 2018. O governo e o mercado fazem previsões de crescimento baixo, mas positivo para 2017 e 2018. O Banco Central, no Relatório Trimestral de Inflação (RTI), publicado em junho, apresentou uma estimativa de crescimento de 0,5% do PIB em 2017, a mesma projeção do Ministério do Planejamento, publicada no Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas do 3º bimestre. A previsão do mercado também é de crescimento positivo. De acordo com o relatório Focus de junho de 2017, economistas e instituições financeiras consultadas projetavam um crescimento do PIB de 0,41% em 2017 e de 2,0% em 2018.

As previsões de crescimento positivo em 2017 e em 2018 foram reforçadas após o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgar o PIB do segundo trimestre de 2017, que mostrou um crescimento de 0,2% na comparação dessazonalizada com o trimestre anterior e de 0,3% em comparação com o segundo trimestre de 2016. Este foi o primeiro crescimento positivo depois de 12 trimestres!

O resultado do PIB do segundo trimestre de 2017, divulgado pelo IBGE, superou as expectativas do mercado, que, no final de julho, tinha previsto uma variação de 0,2% negativa no PIB do trimestre. O resultado positivo, portanto, alterou as expectativas do mercado e aumentou o otimismo quanto à recuperação da economia a partir do segundo semestre de 2017 e, principalmente, em 2018.

Entretanto, se olharmos com um pouco mais de atenção os dados divulgados pelo IBGE, veremos que, a despeito do resultado positivo no segundo trimestre de 2017, ainda pode ser muito cedo para otimismo em relação a uma recuperação sustentada do PIB brasileiro.

Duas coisas são preocupantes nos dados fornecidos pelo IBGE. A primeira é o desempenho da indústria. No segundo trimestre de 2017, o PIB industrial apresentou um crescimento negativo de 2,1% em relação ao mesmo período do ano anterior. Ou seja, a produção industrial no segundo trimestre de 2017 ficou 2,1% menor do que a produção no segundo trimestre de 2016. Os números mostram que o crescimento positivo do PIB no trimestre foi resultado de uma evolução excepcional do setor agropecuário, que cresceu 14,9% em relação ao mesmo período de 2016.

A segunda coisa preocupante é que, no segundo trimestre de 2017, a formação bruta de capital fixo (FBKF) apresentou um resultado de 6,5% negativo em relação ao mesmo período do ano anterior. A FBKF mede o quanto as empresas estão investindo em bens de capital, ou seja, aqueles bens que aumentam a capacidade produtiva. Crescimento positivo na FBKF significa aumento na capacidade produtiva futura e, portanto, maior possibilidade de crescimento econômico no futuro. Os resultados negativos do crescimento da FBKF, em 2017, são preocupantes porque podem comprometer o crescimento econômico no médio e no longo prazo.

Portanto, os resultados positivos divulgados pelo IBGE para o segundo trimestre de 2017 precisam ser analisados com muita cautela, uma vez que o setor industrial, que é o setor mais dinâmico da economia, aquele que quando cresce demanda muito dos outros setores, principalmente do setor de serviços, continua com a produção em queda. Além disso, a variável-chave para uma recuperação de fato, o investimento produtivo, porque diretamente ligada à geração de empregos e ao aumento da capacidade produtiva no futuro, também não apresenta sinais de recuperação.

Para finalizar, não devemos nos esquecer de que 2018 é um ano eleitoral e que processos eleitorais, ainda mais quando conturbados por investigações policiais que comprometem boa parte da classe política, criam um cenário de muitas incertezas, que podem reduzir ainda mais a disposição das empresas em fazer investimentos produtivos.

Alimentação saudável e equilibrada

Por Profa. Dra. Mara Ligia Biazotto Bachelli e Profa. Ma. Regina Jordão – Docentes da Faculdade de Nutrição da PUC-Campinas

 Com a aproximação do verão e, consequentemente, a chegada dos meses mais quentes do ano, não é incomum a busca das pessoas por dietas alimentares que auxiliem na rápida perda de peso, as chamadas dietas radicais ou da moda. A redução de peso decorrente de dietas muito restritivas em calorias pode, realmente, ocasionar perdas de peso significativas, porém, a permanência do peso reduzido é breve, pois a estratégia consiste na restrição e não na reeducação na conduta alimentar. E, em se tratando de combate efetivo à obesidade, o comportamento-chave é a mudança nos hábitos alimentares, com escolhas mais saudáveis. Perder quilos não deve ser objetivo de curto período, mas deve, sim, ser visto como uma transformação de vida.

O sucesso alcançado por uma dieta depende da mudança de comportamento, do tempo de manutenção desse peso reduzido e das escolhas para uma dieta adequada. Embora as dietas da moda levem à perda de peso em pouco tempo, é importante salientar que indivíduos que não mudarem o estilo de vida têm forte tendência de recuperar o peso perdido.

As dietas de exclusão de refeições ao longo do dia, o chamado jejum intermitente, provocam o estado de jejum metabólico. Estudos dizem que mais de 50% da perda de peso rápida se dá por líquidos, o que pode levar a sérios problemas de hipotensão. Toda restrição deve ser acompanhada de perto por um profissional e por períodos curtos de tempo, pois o que funciona para uma pessoa pode não funcionar para a outra, por isso a importância do profissional nutricionista na orientação individualizada.

O consumo de dietas ricas em proteínas, as chamadas low carb, estão relacionadas ao aumento no risco de doenças cardiovasculares, já que o alto consumo de proteínas está diretamente ligado ao maior consumo de gordura saturada e colesterol, além disso, há deficiências em vitaminas e minerais. Existem ainda reações adversas dependendo do organismo, de modo que algumas pessoas referem constipação, dor de cabeça, hálito cetônico, entre outros, especialmente pelo baixo consumo de frutas, verduras e cereais.

Já as dietas com baixa quantidade de gordura oferecem redução de calorias desse nutriente; em contrapartida, a proporção de carboidratos fica aumentada, o que pode elevar o estoque de glicogênio muscular e hepático e, quando em excesso, são transformados e armazenados na forma de gordura, resultando no aumento de gordura corporal. Comer bem, com prazer, com sabor e ainda promover saúde, depende de muitos fatores e deve ser planejado com nutrientes de todos os grupos alimentares. A questão do ser saudável não precisa e não deve ter extremos. No dia a dia, podemos fazer novas escolhas, mas para isso envolvemos questões sociais, econômicas, culturais e principalmente emocionais.

Para manutenção do peso adequado, é necessário pensar a longo prazo, e o nutricionista é o profissional capacitado para fazer avaliações individualizadas e propor o melhor plano alimentar, elaborando a dieta com base nas características do indivíduo, dos seus hábitos, horários, aversões, entre outras informações. Ele vai insistir na educação nutricional e na continuidade de uma alimentação saudável, que respeita as leis da alimentação, que são quantidade, qualidade, harmonia e adequação.

O melhor caminho é sempre o do bom senso, de modo que controlar o peso continua sendo a reeducação alimentar por meio de uma dieta equilibrada, elaborada e orientada por um profissional nutricionista, que deve ser acompanhada de atividade física, orientada por um profissional capacitado. Não existe milagre, as dietas da moda não possuem vantagens sobre uma dieta balanceada. Cada pessoa tem necessidades nutricionais e calóricas específicas, cada caso deve ser analisado individualmente.

 

A escassez de chuvas e o desflorestamento

Por Estéfano Seneme Gobbi, geógrafo e doutor em Geografia (IGe/Unicamp) e professor da FAGEO/PUC-Campinas, desde 2013

Muito tem se falado recentemente sobre mudanças ambientais. E isso é algo muito bom, pois significa que as pessoas estão ficando mais preocupadas com o que está acontecendo com a natureza a sua volta e buscando fazer relações entre fenômenos naturais e o cotidiano.

Uma das relações estabelecidas é dos períodos de estiagem no Brasil com o desflorestamento da Amazônia, e há que se ter muita cautela ao abordar os aspectos de causa e efeito, pois não há consenso científico sobre o tema.

As precipitações no território brasileiro são produto de uma série de interações entre sistemas de alta e baixa pressão, deslocamentos sazonais de massa de ar e sistemas convectivos que ocorrem seguindo determinados padrões e médias, estabelecendo as normais climáticas. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (O.M.M.) essas normais são “valores médios calculados para um período relativamente longo e uniforme, compreendendo no mínimo três décadas consecutivas”, ou seja, ao longo de ao menos trinta anos, deve-se adquirir dados sobre temperaturas e precipitações a fim de se estabelecer uma média. Dessa forma, nesse intervalo de tempo é plausível que ocorram anos mais quentes ou anos mais áridos, por exemplo, em contraponto a outros anos mais frios ou mais úmidos. Assim, pode ser estabelecido o clima de uma determinada área admitindo inerentes variações durante um recorte temporal.

Quando o climatólogo russo Wladimir Köeppen se propôs, em 1900, a estabelecer um sistema de classificações do clima, não havia dados de normais climáticas, pois estações meteorológicas eram praticamente inexistentes, principalmente em se tratando de um nível de escala global. Foi então que ele decidiu fazer uso da fitogeografia para estabelecer os limites espaciais de um sistema climático. Ou seja, ele admitiu que a vegetação era uma resposta ao clima, e não o contrário!

Sem dúvida alguma, se a escala de estudo for microclimática (1 ha), áreas urbanas e áreas de mudança de uso da terra, a vegetação desempenhará uma fundamental importância. Porém, quando se trata da escala macroclimática, aspectos como a dinâmica de correntes oceânicas ou células convectivas atmosféricas preponderam sobre a cobertura vegetal.

Ainda hoje conhece-se muito pouco sobre os oceanos (que cobrem aproximadamente 71% da superfície do planeta). Não se sabe o quanto podem absorver de carbono ou quais as razões que modificam as temperaturas do Pacífico (causando o El Niño e La Ninã). Esses eventos climáticos que têm duração de alguns anos são responsáveis por alterar os padrões climáticos de diversas áreas do globo, inclusive do território brasileiro. Analogamente, alterações nas temperaturas do Oceano Atlântico também são capazes de modificar os padrões de chuva sobre o Brasil, como ocorreu no biênio 2014-15. Nessa oportunidade também foi formulada a hipótese da relação com o desflorestamento da Amazônia, porém, a partir de 2016, os volumes de chuva retornaram aos padrões das normais climáticas. Será que as árvores foram replantadas e houve um aumento da evapotranspiração na região amazônica em apenas dois anos?

O perigo veste verde: plantas tóxicas causadoras de acidentes no Brasil

Por Profa. Dra. Rita de Cássia Violin Pietrobom – Docente do Curso de Ciências Biológicas – PUC-Campinas

Durante a primavera, a maioria das plantas floresce produzindo um espetáculo de cores que harmoniza e alegra os ambientes. Entretanto, a beleza das plantas pode esconder um perigo real para a saúde de pessoas e animais. Ao longo da evolução, as plantas desenvolveram verdadeiras armas químicas para defender-se dos herbívoros, como microscópicos cristais pontiagudos, substâncias irritantes, paralisantes e toxinas letais capazes de matar uma pessoa em poucos minutos.

Inúmeras plantas utilizadas na ornamentação produzem substâncias tóxicas, muitas delas bastante conhecidas da população brasileira. A comigo-ninguém-pode (Figura 1) é uma folhagem comum nos lares brasileiros. É uma planta cercada de superstições. Popularmente é conhecida por afastar mau-olhado e absorver a energia negativa do ambiente. No interior de suas folhas são produzidos cristais microscópicos no formato de agulha, envoltos por uma toxina causadora de reações inflamatórias. A ingestão de partes da planta pode ocasionar forte irritação nas mucosas, inflamação seguida por edema de glote nos casos mais graves. A espirradeira (Figura 2) é utilizada com frequência na composição de jardins e arborização urbana. Tem este nome, pois muitas pessoas ao aproximar-se da planta começam a espirrar. Todas as partes da planta são tóxicas. A inalação da fumaça, o contato com a seiva e a ingestão de partes da planta podem causar intoxicação, devido à presença de glicosídeos cardioativos. Os sintomas da intoxicação podem variar de uma simples irritação até taquicardia, podendo culminar na morte dependendo da quantidade ingerida. A avelós (Figura 3), a bico-de-papagaio e a coroa-de-cristo (Figura 4) são espécies de beleza exótica muito populares no Brasil. Todas elas produzem látex, uma substância leitosa com propriedades cáusticas e irritantes. O contato do látex com a pele pode provocar reações alérgicas e inflamatórias. Nos olhos, pode causar queimaduras na córnea, cegueira temporária ou permanente. A ingestão do látex pode gerar dores, náuseas, vômitos e diarreia.

Comigo-ninguém-pode
Espirradeira
Avelós
Coroa-de-cristo

Casos de intoxicações por plantas têm sido um grande problema para a saúde pública do país. De acordo com último levantamento do SINITOX (Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas) realizado em 2014, foram registrados 854 casos de intoxicação por plantas. Vale ressaltar que muitos acidentes envolvendo plantas tóxicas não são registrados ou informados ao SINITOX, portanto estes números não refletem a realidade. O cuidado na escolha das plantas para ornamentação deve ser redobrado em um ambiente frequentado por crianças e animais. A maioria dos casos de intoxicação por plantas ocorre em crianças de um a nove anos de idade. Em caso de intoxicação, é importante procurar o serviço médico antes de realizar qualquer procedimento. Se possível, levar uma foto ou parte da planta para que o profissional da saúde possa identificar a espécie. Em Campinas, o Centro de Controle de Informação e Assistência Toxicológica de Campinas (CIATox/Campinas) mantém um número de telefone para informações em caso de emergência (19) 3521-7555. É importante conhecer as características das plantas antes de utilizá-las na ornamentação de ambientes, na alimentação ou como medicação.

Cirurgia Plástica da PUC-Campinas ganha mais um doutor pela USP

Por Prof. Dr. André Nepomuceno – Docente da Faculdade de Medicina

A magia do mundo acadêmico contagia o ex-aluno, que, orientado por seu professor, transmite o processo de ensino-aprendizagem adiante. Foi assim que ocorreu na disciplina de Cirurgia Plástica da PUC-Campinas.

A cada quatro anos, especialistas em Nervo Facial se reúnem no International Facial Nerve Symposium, cuja 13a edição ocorreu entre os dias 3 e 6 de agosto deste ano em Los Angeles, nos Estados Unidos. Neste evento, o professor José Carlos Marques de Faria, Livre-Docente pela USP, que conta com três artigos publicados em revistas internacionais indexadas sobre o tratamento cirúrgico da paralisia facial, apresentou quatro aulas expondo sua linha de pesquisa. O braço experimental dessa linha de pesquisa foi apresentado pelo Doutor e também Professor da PUC-Campinas André Coelho Nepomuceno.

Após retornarem ao Brasil, no dia 16 de agosto de 2017, o Dr. André Coelho Nepomuceno defendeu sua tese de doutorado na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, onde foi arguido pela banca composta pela Dra. Marcia Pereira Bueno (Diretora da Faculdade de Medicina da PUC-Campinas), pelo Prof. Dr. José Luís Braga de Aquino (Professor Titular da Clínica Cirúrgica da PUC-Campinas), pelo Prof. Dr. Luiz Ubirajara Sennes (Professor Livre-Docente da Pós-Graduação em Otorrinolaringologia da USP), pelo Prof. Dr. Nivaldo Alonso (Professor Livre-Docente e Coordenador do serviço de Cirurgia Crânio-Maxilo-Facial da disciplina de Cirurgia Plástica da USP) e pelo Prof. Dr. José Carlos Marques de Faria. O doutorando foi aprovado e obteve o título de Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo.

Mais que o título, vale o aprendizado e a formação de raciocínio desenvolvida durante a pós-graduação. Assim, começa um novo ciclo, no qual o ex-aluno transforma-se em professor, e este poderá ter o prazer de transmitir às novas gerações a paixão pela busca pelo conhecimento. Viva a magia da carreira acadêmica. Viva o processo de ensino-aprendizagem. Viva a Instituição PUC-Campinas.

O Avanço Tecnológico e a Sociedade Contemporânea

Por Profa. Me. Sílvia Cristina de Matos Soares – Diretora dos cursos:  Engenharia de Software, Sistemas de Informação e Gestão da Tecnologia da Informação

Mudanças sempre ocorreram, ao longo dos anos, na sociedade. Alguém duvida dessa afirmação? Acreditamos que a resposta a essa pergunta seja “ninguém duvida”. Talvez, há alguns anos, essas mudanças não aconteciam com a velocidade que acontecem hoje. A influência do avanço tecnológico sobre as gerações existentes, provavelmente, não será a mesma sobre as próximas gerações, considerando o crescimento exponencial no uso de tecnologia.

Atualmente, vivenciamos a existência da geração X, que inclui os nascidos no início de 1960 até o final dos anos 70 (às vezes, são incluídos os nascidos até 1982), da geração Y (também chamada Millennial), que inclui os nascidos em fins dos anos 70 e início dos anos 90 e da geração Z (também chamada iGeneration, Gen Z, Plurais ou Centennial), que compreende os nascidos entre o fim de 1992 a 2010. As diferentes características dessas gerações comandam a sua coexistência, que é um desafio para os seres humanos. O modo como cada geração age em relação ao ambiente de trabalho, aos relacionamentos, às relações familiares e à forma de interação com as coisas do mundo são diferentes.  Tais diferenças podem trazer benefícios e conflitos. Quando, por exemplo, a geração mais nova, com uma de suas características, que é a sua maior agilidade para a solução de problemas, consegue ser entendida e apreendida pelas gerações mais antigas, percebemos um ganho, um aprendizado benéfico para a sociedade e para as organizações. Porém, por outro lado, quando as gerações mais antigas se recusam a aprender com os mais novos, devido, também, a uma característica da geração mais nova relacionada à procura de informação imediata e do modo mais fácil e superficial, percebemos a instalação de conflitos, que dificultam o processo de tomada de decisão e o prosseguimento de ações que dependem de um consenso.

A geração Y “trouxe” para a sociedade os indivíduos que cresceram em um momento de prosperidade econômica, de grande avanço tecnológico e que nasceram em um mundo globalizado. Essa geração e a geração Z consomem uma grande diversidade de conteúdo virtual, enquanto as gerações mais antigas tentam se acostumar com os novos tempos. São gerações conhecidas como nativos digitais, familiarizadas com a internet, com os tablets, com o armazenamento em nuvem e estão sempre conectadas.

O fato de os indivíduos terem a necessidade de estar constantemente conectados deu origem a um problema enfrentado pelas gerações Y e Z. Quanto tempo é possível aguentar sem utilizar a internet ou a tecnologia sem sofrer com a abstinência? A resposta a essa pergunta constata a existência do problema, hoje chamado de nomofobia (uma abreviação, do inglês, para no-mobile-phone phobia). Esse termo é utilizado para descrever o pavor de não ter o celular disponível, ou seja, está relacionado à dependência tecnológica ou ao uso problemático do telefone móvel.

Ao mesmo tempo que a sociedade descobre um novo problema relacionado à saúde, essa dependência da tecnologia gera uma grande demanda por informações que, por sua vez, aumenta a necessidade de novas tecnologias para armazená-las, guardá-las, buscá-las e utilizá-las em benefício do ser humano. Os cientistas fazem uma previsão sobre um futuro tecnológico próximo, por volta de 2045, relacionado à singularidade das máquinas. Nesse futuro, a tecnologia terá avançado no sentido de possibilitar às máquinas serem mais inteligentes que os seres humanos. Enquanto esse futuro próximo está por vir, temos o desafio de tentar manter o equilíbrio para o uso das tecnologias, com o foco em seu uso para o benefício da sociedade.

Transformação Digital e os desafios para a Sociedade

Por Prof. Me. Sergio Roberto Pereira – Diretor dos cursos de Eng. Elétrica e Eng. de Controle e Automação

A mídia tem cunhado um novo termo para definir as mudanças que vêm ocorrendo no mundo da tecnologia, nas empresas e na vida das pessoas: Transformação Digital. A inserção das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) vem gerando mudanças significativas na estrutura de trabalho e na vida cotidiana das pessoas.

Como exemplo, a Internet das Coisas (Internet of Things – IoT) obrigará as companhias a reformularem a sua abordagem estratégica, abrindo portas para novas habilidades que vão muito além da competência técnica do dia a dia.

O número de “coisas” conectadas no Brasil deve saltar dos atuais 140 milhões para 400 milhões em 2020. Num futuro breve, presenciaremos a adoção massiva de sistemas interligados e inteligentes, o que proporcionará que tudo esteja interconectado, oferecendo uma comodidade sem precedentes aos usuários. Assim como a Internet e as redes sociais redimensionaram a sociedade e a maneira das pessoas se relacionarem, esta nova onda de “Transformação Digital” terá um profundo impacto sobre esta mesma sociedade.

Acredita-se que as Cidades Inteligentes (“Smart Cities”) e o Agronegócio Inteligente (aumento de produtividade no campo, especialmente quando implementados com base na infraestrutura de rede adequada e alinhados com as arquiteturas globais de referência em IoT) serão os segmentos com o maior potencial de crescimento em nosso país. A Indústria 4.0 e as fábricas inteligentes continuarão a ser implementadas, alinhadas às tecnologias, como a conectividade móvel, o Big Data e a Internet das Coisas (IoT). Para isso, serão necessárias redes de comunicação de dados cada vez mais velozes e com maior disponibilidade. Operadoras móveis norte-americanas, em conjunto com os fabricantes de dispositivos, já conseguiram um feito importante para a quarta geração de telefonia móvel (4G): velocidade em uma conexão celular acima de 1G bit por segundo.

Em termos de emprego, aqueles trabalhos que requerem recursos humanos únicos (como a educação e o cuidado de pessoas, entre outros) serão os menos ameaçados pela automatização. Entretanto, em outras áreas, a Transformação Digital terá profundo impacto sobre a sociedade e as nossas vidas. Tudo está cada vez mais rápido e o volume de informações a que as pessoas são submetidas dia a dia é infinitamente maior e não para de crescer. Para as organizações, a diminuição dos custos operacionais, a capacidade de oferecer aplicativos personalizados à velocidade das ideias e o aprimoramento da experiência dos clientes são o núcleo da transformação digital.

Se, por um lado, nossa vida ficou bem mais fácil, pois serviços e produtos automatizados oferecem uma comodidade impensada a alguns anos atrás, com uma série de facilidades, salvando vidas graças à tecnologia, por outro lado, isso traz uma clara alteração no comportamento das pessoas, de forma que elas se apresentam mais distraídas, exigentes, conectadas e distantes como nunca, além de novos transtornos ligados ao vício em tecnologia, crimes virtuais etc.

Influência digital e as perspectivas de um mundo melhor

Por Prof. Dr. Victor Kraide Corte Real – Publicitário, doutor em Ciências da Comunicação. Diretor do curso de Design Digital da PUC-Campinas.

Você já parou para pensar que as pessoas nascidas nos anos de 1980 fazem parte da última geração a conhecer o mundo sem a internet? Sim, a rede mundial de computadores foi disponibilizada ao público em escala global no início dos anos de 1990, através das linhas discadas. Lembra-se daquele barulhinho na hora de conectar? De como era lento abrir um site, fazer uma pesquisa ou entrar numa sala de bate-papo, tudo ainda com um design bem precário e limitado? De esperar o final de semana para ficar conectado quanto tempo quisesse, não sendo cobrado por cada minuto de ligação, pagando apenas pela tarifa de um pulso telefônico? Parece que isso tudo é coisa de uma outra vida, não é? Mas, não se engane, foi ontem mesmo. Se você tem mais de vinte e poucos anos, talvez se lembre desse mundo.

Diante desse retrospecto, se você nasceu antes de 1990, é possível afirmar que, provavelmente, passou, ou ainda passa, um certo tempo em frente à televisão, vendo a programação “imposta” pelas emissoras dentro de uma grade de horário fixa e pré-definida. Para quem nasceu depois de 1990, em geral, a televisão é vista como um aparelho que insiste em fazer parte da mobília de muitas residências, que serve, na melhor das hipóteses, como uma tela grande para conectar o computador ou o videogame e ampliar um pouco a experiência de navegar pela internet ou de curtir jogos eletrônicos.

O conceito de entretenimento e de informação, intermediados por uma mídia, mudou muito rapidamente. Na verdade, não é o tamanho ou a quantidade de conteúdo que trafega na internet o que mais impressiona, mas sim as possibilidades de acesso. As pessoas podem ver o que quiser, na hora que quiser e onde quiser. Continuamos sendo vorazes espectadores do conteúdo produzido por outros, mas, hoje, temos muito mais condições de gerar conteúdo próprio, divulgar, influenciar e conquistar a fama com mais facilidade que em qualquer outro período histórico.

Como consequência direta, nossos heróis, ídolos e modelos de sucesso também mudaram. Boa parte dos jovens continua admirando atores, cantores, atletas e profissionais em geral que se destacam em suas áreas, mas são as “celebridades da internet” que despertam cada vez mais a atenção do público com menos de 30 anos. Para eles, é muito mais presente e palpável a chance de qualquer “pessoa normal” ficar famosa e ganhar dinheiro, simplesmente produzindo e postando vídeos em seus canais pessoais, muitas vezes de maneira bem caseira, fazendo uso apenas do carisma e da diversão, sem qualquer pretensão de desenvolver discussões em profundidade.

A qualidade do conteúdo produzido nesses canais é algo muito subjetivo e bastante relativo. É verdade que entre os mais populares não encontramos, por exemplo, abordagens a respeito do conhecimento científico ou da cultura erudita, mas, na vastidão da internet, existem produções sobre esses temas e sobre quaisquer outros que se possa imaginar. O desafio atual dos educadores, líderes e, certamente, dos influenciadores digitais é estimular o uso positivo desse repertório na construção de uma sociedade mais justa e de um mundo melhor.