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Cirurgia Plástica da PUC-Campinas ganha mais um doutor pela USP

Por Prof. Dr. André Nepomuceno – Docente da Faculdade de Medicina

A magia do mundo acadêmico contagia o ex-aluno, que, orientado por seu professor, transmite o processo de ensino-aprendizagem adiante. Foi assim que ocorreu na disciplina de Cirurgia Plástica da PUC-Campinas.

A cada quatro anos, especialistas em Nervo Facial se reúnem no International Facial Nerve Symposium, cuja 13a edição ocorreu entre os dias 3 e 6 de agosto deste ano em Los Angeles, nos Estados Unidos. Neste evento, o professor José Carlos Marques de Faria, Livre-Docente pela USP, que conta com três artigos publicados em revistas internacionais indexadas sobre o tratamento cirúrgico da paralisia facial, apresentou quatro aulas expondo sua linha de pesquisa. O braço experimental dessa linha de pesquisa foi apresentado pelo Doutor e também Professor da PUC-Campinas André Coelho Nepomuceno.

Após retornarem ao Brasil, no dia 16 de agosto de 2017, o Dr. André Coelho Nepomuceno defendeu sua tese de doutorado na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, onde foi arguido pela banca composta pela Dra. Marcia Pereira Bueno (Diretora da Faculdade de Medicina da PUC-Campinas), pelo Prof. Dr. José Luís Braga de Aquino (Professor Titular da Clínica Cirúrgica da PUC-Campinas), pelo Prof. Dr. Luiz Ubirajara Sennes (Professor Livre-Docente da Pós-Graduação em Otorrinolaringologia da USP), pelo Prof. Dr. Nivaldo Alonso (Professor Livre-Docente e Coordenador do serviço de Cirurgia Crânio-Maxilo-Facial da disciplina de Cirurgia Plástica da USP) e pelo Prof. Dr. José Carlos Marques de Faria. O doutorando foi aprovado e obteve o título de Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo.

Mais que o título, vale o aprendizado e a formação de raciocínio desenvolvida durante a pós-graduação. Assim, começa um novo ciclo, no qual o ex-aluno transforma-se em professor, e este poderá ter o prazer de transmitir às novas gerações a paixão pela busca pelo conhecimento. Viva a magia da carreira acadêmica. Viva o processo de ensino-aprendizagem. Viva a Instituição PUC-Campinas.

O Avanço Tecnológico e a Sociedade Contemporânea

Por Profa. Me. Sílvia Cristina de Matos Soares – Diretora dos cursos:  Engenharia de Software, Sistemas de Informação e Gestão da Tecnologia da Informação

Mudanças sempre ocorreram, ao longo dos anos, na sociedade. Alguém duvida dessa afirmação? Acreditamos que a resposta a essa pergunta seja “ninguém duvida”. Talvez, há alguns anos, essas mudanças não aconteciam com a velocidade que acontecem hoje. A influência do avanço tecnológico sobre as gerações existentes, provavelmente, não será a mesma sobre as próximas gerações, considerando o crescimento exponencial no uso de tecnologia.

Atualmente, vivenciamos a existência da geração X, que inclui os nascidos no início de 1960 até o final dos anos 70 (às vezes, são incluídos os nascidos até 1982), da geração Y (também chamada Millennial), que inclui os nascidos em fins dos anos 70 e início dos anos 90 e da geração Z (também chamada iGeneration, Gen Z, Plurais ou Centennial), que compreende os nascidos entre o fim de 1992 a 2010. As diferentes características dessas gerações comandam a sua coexistência, que é um desafio para os seres humanos. O modo como cada geração age em relação ao ambiente de trabalho, aos relacionamentos, às relações familiares e à forma de interação com as coisas do mundo são diferentes.  Tais diferenças podem trazer benefícios e conflitos. Quando, por exemplo, a geração mais nova, com uma de suas características, que é a sua maior agilidade para a solução de problemas, consegue ser entendida e apreendida pelas gerações mais antigas, percebemos um ganho, um aprendizado benéfico para a sociedade e para as organizações. Porém, por outro lado, quando as gerações mais antigas se recusam a aprender com os mais novos, devido, também, a uma característica da geração mais nova relacionada à procura de informação imediata e do modo mais fácil e superficial, percebemos a instalação de conflitos, que dificultam o processo de tomada de decisão e o prosseguimento de ações que dependem de um consenso.

A geração Y “trouxe” para a sociedade os indivíduos que cresceram em um momento de prosperidade econômica, de grande avanço tecnológico e que nasceram em um mundo globalizado. Essa geração e a geração Z consomem uma grande diversidade de conteúdo virtual, enquanto as gerações mais antigas tentam se acostumar com os novos tempos. São gerações conhecidas como nativos digitais, familiarizadas com a internet, com os tablets, com o armazenamento em nuvem e estão sempre conectadas.

O fato de os indivíduos terem a necessidade de estar constantemente conectados deu origem a um problema enfrentado pelas gerações Y e Z. Quanto tempo é possível aguentar sem utilizar a internet ou a tecnologia sem sofrer com a abstinência? A resposta a essa pergunta constata a existência do problema, hoje chamado de nomofobia (uma abreviação, do inglês, para no-mobile-phone phobia). Esse termo é utilizado para descrever o pavor de não ter o celular disponível, ou seja, está relacionado à dependência tecnológica ou ao uso problemático do telefone móvel.

Ao mesmo tempo que a sociedade descobre um novo problema relacionado à saúde, essa dependência da tecnologia gera uma grande demanda por informações que, por sua vez, aumenta a necessidade de novas tecnologias para armazená-las, guardá-las, buscá-las e utilizá-las em benefício do ser humano. Os cientistas fazem uma previsão sobre um futuro tecnológico próximo, por volta de 2045, relacionado à singularidade das máquinas. Nesse futuro, a tecnologia terá avançado no sentido de possibilitar às máquinas serem mais inteligentes que os seres humanos. Enquanto esse futuro próximo está por vir, temos o desafio de tentar manter o equilíbrio para o uso das tecnologias, com o foco em seu uso para o benefício da sociedade.

Transformação Digital e os desafios para a Sociedade

Por Prof. Me. Sergio Roberto Pereira – Diretor dos cursos de Eng. Elétrica e Eng. de Controle e Automação

A mídia tem cunhado um novo termo para definir as mudanças que vêm ocorrendo no mundo da tecnologia, nas empresas e na vida das pessoas: Transformação Digital. A inserção das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) vem gerando mudanças significativas na estrutura de trabalho e na vida cotidiana das pessoas.

Como exemplo, a Internet das Coisas (Internet of Things – IoT) obrigará as companhias a reformularem a sua abordagem estratégica, abrindo portas para novas habilidades que vão muito além da competência técnica do dia a dia.

O número de “coisas” conectadas no Brasil deve saltar dos atuais 140 milhões para 400 milhões em 2020. Num futuro breve, presenciaremos a adoção massiva de sistemas interligados e inteligentes, o que proporcionará que tudo esteja interconectado, oferecendo uma comodidade sem precedentes aos usuários. Assim como a Internet e as redes sociais redimensionaram a sociedade e a maneira das pessoas se relacionarem, esta nova onda de “Transformação Digital” terá um profundo impacto sobre esta mesma sociedade.

Acredita-se que as Cidades Inteligentes (“Smart Cities”) e o Agronegócio Inteligente (aumento de produtividade no campo, especialmente quando implementados com base na infraestrutura de rede adequada e alinhados com as arquiteturas globais de referência em IoT) serão os segmentos com o maior potencial de crescimento em nosso país. A Indústria 4.0 e as fábricas inteligentes continuarão a ser implementadas, alinhadas às tecnologias, como a conectividade móvel, o Big Data e a Internet das Coisas (IoT). Para isso, serão necessárias redes de comunicação de dados cada vez mais velozes e com maior disponibilidade. Operadoras móveis norte-americanas, em conjunto com os fabricantes de dispositivos, já conseguiram um feito importante para a quarta geração de telefonia móvel (4G): velocidade em uma conexão celular acima de 1G bit por segundo.

Em termos de emprego, aqueles trabalhos que requerem recursos humanos únicos (como a educação e o cuidado de pessoas, entre outros) serão os menos ameaçados pela automatização. Entretanto, em outras áreas, a Transformação Digital terá profundo impacto sobre a sociedade e as nossas vidas. Tudo está cada vez mais rápido e o volume de informações a que as pessoas são submetidas dia a dia é infinitamente maior e não para de crescer. Para as organizações, a diminuição dos custos operacionais, a capacidade de oferecer aplicativos personalizados à velocidade das ideias e o aprimoramento da experiência dos clientes são o núcleo da transformação digital.

Se, por um lado, nossa vida ficou bem mais fácil, pois serviços e produtos automatizados oferecem uma comodidade impensada a alguns anos atrás, com uma série de facilidades, salvando vidas graças à tecnologia, por outro lado, isso traz uma clara alteração no comportamento das pessoas, de forma que elas se apresentam mais distraídas, exigentes, conectadas e distantes como nunca, além de novos transtornos ligados ao vício em tecnologia, crimes virtuais etc.

Influência digital e as perspectivas de um mundo melhor

Por Prof. Dr. Victor Kraide Corte Real – Publicitário, doutor em Ciências da Comunicação. Diretor do curso de Design Digital da PUC-Campinas.

Você já parou para pensar que as pessoas nascidas nos anos de 1980 fazem parte da última geração a conhecer o mundo sem a internet? Sim, a rede mundial de computadores foi disponibilizada ao público em escala global no início dos anos de 1990, através das linhas discadas. Lembra-se daquele barulhinho na hora de conectar? De como era lento abrir um site, fazer uma pesquisa ou entrar numa sala de bate-papo, tudo ainda com um design bem precário e limitado? De esperar o final de semana para ficar conectado quanto tempo quisesse, não sendo cobrado por cada minuto de ligação, pagando apenas pela tarifa de um pulso telefônico? Parece que isso tudo é coisa de uma outra vida, não é? Mas, não se engane, foi ontem mesmo. Se você tem mais de vinte e poucos anos, talvez se lembre desse mundo.

Diante desse retrospecto, se você nasceu antes de 1990, é possível afirmar que, provavelmente, passou, ou ainda passa, um certo tempo em frente à televisão, vendo a programação “imposta” pelas emissoras dentro de uma grade de horário fixa e pré-definida. Para quem nasceu depois de 1990, em geral, a televisão é vista como um aparelho que insiste em fazer parte da mobília de muitas residências, que serve, na melhor das hipóteses, como uma tela grande para conectar o computador ou o videogame e ampliar um pouco a experiência de navegar pela internet ou de curtir jogos eletrônicos.

O conceito de entretenimento e de informação, intermediados por uma mídia, mudou muito rapidamente. Na verdade, não é o tamanho ou a quantidade de conteúdo que trafega na internet o que mais impressiona, mas sim as possibilidades de acesso. As pessoas podem ver o que quiser, na hora que quiser e onde quiser. Continuamos sendo vorazes espectadores do conteúdo produzido por outros, mas, hoje, temos muito mais condições de gerar conteúdo próprio, divulgar, influenciar e conquistar a fama com mais facilidade que em qualquer outro período histórico.

Como consequência direta, nossos heróis, ídolos e modelos de sucesso também mudaram. Boa parte dos jovens continua admirando atores, cantores, atletas e profissionais em geral que se destacam em suas áreas, mas são as “celebridades da internet” que despertam cada vez mais a atenção do público com menos de 30 anos. Para eles, é muito mais presente e palpável a chance de qualquer “pessoa normal” ficar famosa e ganhar dinheiro, simplesmente produzindo e postando vídeos em seus canais pessoais, muitas vezes de maneira bem caseira, fazendo uso apenas do carisma e da diversão, sem qualquer pretensão de desenvolver discussões em profundidade.

A qualidade do conteúdo produzido nesses canais é algo muito subjetivo e bastante relativo. É verdade que entre os mais populares não encontramos, por exemplo, abordagens a respeito do conhecimento científico ou da cultura erudita, mas, na vastidão da internet, existem produções sobre esses temas e sobre quaisquer outros que se possa imaginar. O desafio atual dos educadores, líderes e, certamente, dos influenciadores digitais é estimular o uso positivo desse repertório na construção de uma sociedade mais justa e de um mundo melhor.

Entre insetos, países bloqueados e orquídeas: a poesia de Carlos Drummond de Andrade

Por Prof. Dr. Ricardo Gaiotto de Moraes – Docente da Pós-Graduação em Linguagens, Mídia e Arte (LIMIAR) e da Faculdade de Letras da PUC-Campinas

A permanência de um texto literário parece se relacionar à capacidade de atualização da coerência entre sentidos e forma em diferentes momentos. Se um texto do passado é ainda lido com entusiasmo por um grupo de leitores é porque, de certa forma, apresenta um interesse contemporâneo. A cada nova leitura, tal poema ou romance são atualizados e revestidos pelas preocupações do presente. Passados 30 anos da morte de Carlos Drummond de Andrade, sua poesia parece permanecer, ressignificada a cada nova leitura.

Não é que a poesia de Drummond esteja tão afastada de nosso tempo, seu primeiro livro de poemas, Alguma poesia, data de 1930, seu último publicado em vida, Amar se aprende amando, de 1985. Não é que os poemas de Drummond tratem de temas caducos: as guerras ainda batem à porta, a desigualdade social ainda não passou e os fascismos do presente não têm vergonha de usar meias palavras, as intolerâncias de todos os tipos aparecem à luz do dia. Há, para além disso, uma atualidade no gesto de resistência da poesia. Mesmo sem inflacionar os sentimentos do eu com retórica grandiloquente, a poesia drummondiana tem uma potência arrebatadora, que pode ser depreendida de um de seus poemas mais comentados:

Áporo

Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.

Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?

Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:

em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se

(ANDRADE, C. D. A rosa do povo. 33ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2006. p.63)

Décio Pignatari, em “Um inseto semiótico”, texto da década de 1970, chamava atenção para um fio interpretativo do poema a partir do significante “áporo” que, ao longo do poema, vai assumindo vários significados, marcados tanto pelo enredo condensado quanto pelas escolhas sonoras. Assim, o “Áporo” assumiria os sentidos dicionarizados de inseto com metamorfose completa, problema de resolução impossível, labirinto sem saída, gênero de orquídeas.

A transformação do inseto que cava, no soneto com versos de cinco sílabas poéticas, ocorreria mesmo com um terrível obstáculo: o “país bloqueado”, que, na leitura de Pignatari, faria referência à ditadura do Estado Novo e aos horrores da Segunda Guerra Mundial, lembrando que A rosa do povo foi publicada em 1945. O labirinto, a própria aporia se desataria numa solução que não respeita a lógica matemática, “antieuclidiana”. O áporo se transformaria, na cadência do poema, em uma orquídea ou numa “flor ainda desbotada”, para tomar outra imagem da poesia drummondiana.

Davi Arrigucci Júnior, no livro Coração partido, de 2002, vê na trajetória da transformação do inseto em orquídea o resultado do esforço do poeta em constituir a trama do poema. O trabalho do poeta, cuja voz surgiria na pergunta da segunda estrofe, seria comparável à imagem do inseto que cava. A aporia, a dificuldade em passar, o “país bloqueado” geraria uma imagem esmagadora diante do minúsculo animal, o que potencializaria a metáfora do excruciante labor artesanal do poeta diante de um mundo bloqueado pelos imperativos do mercado. No entanto, a metamorfose do inseto em “flor-poema” seria a metáfora para o produto da elaboração artística do poema.

Tanto as transformações que se estabelecem pela forma poética, aflorando a polissemia do vocábulo, quanto a metáfora da resistência à opressão driblada pela metamorfose em “flor-poema” parecem se unir em diálogo com nosso tempo. No centro, permanece a poesia de Carlos Drummond de Andrade, prova de que o trabalho miúdo com as palavras e a resistência poeticamente se materializam em “flor-poema”. Lido, às sombras das intolerâncias atuais (“país bloqueado”, “enlace de noite raiz e minério”), “Áporo” é símbolo de que a resistência da arte permanece.

A luta pela afirmação do direito à educação no Brasil

Por Prof. Dr. Guilherme Cabral, docente da Faculdade de Direito da PUC-Campinas e colunista do UOL Educação

 Em 23 de agosto, recebemos, na PUC-Campinas, o Prof. Dr. Eduardo Bittar no lançamento da 4ª edição, ampliada, de obra coletiva que organizou, História do direito brasileiro: leituras da ordem jurídica nacional, proferindo, na oportunidade, a palestra “A luta pelos direitos no Brasil”.

Docente da Universidade de São Paulo, o Prof. Bittar estuda (e pratica!) o direito e a luta pelos direitos, especialmente na “pós-modernidade”. Seu referencial teórico é a denominada “Escola de Frankfurt”, em especial o pensamento de Jürgen Habermas. Trabalho nada fácil, num país marcado por uma cultura de profundo desrespeito aos direitos humanos.

Nessa linha, orientou as pesquisas, em nível de Doutorado, de três dos dez professores-pesquisadores de nossa Faculdade de Direito. Com o Prof. Dr. Pedro Peruzzo, trabalhou os direitos dos povos indígenas. Com o Prof. Dr. Vinícius Casalino, o tema do direito na transição do capitalismo para o socialismo. Comigo, a educação para a democracia no Brasil.

Na obra aqui lançada, dedica-se à história. Dela participei, com reflexão sobre a “História da educação e do direito à educação no Brasil”. Reflexão que, sem dúvida, nos convida à luta por direitos no país. Afinal, debruçar-se sobre essa história é se debruçar, também, sobre sua não história, sobre o que não foi. Entre nós, direito e educação nunca foram realidade para todos.

Fazendo uma retrospectiva, vemos que a afirmação do direito à educação caminha junto com a sua insistente negação. Constituições vieram e moldaram-no. Reformas legislativas reformularam incansavelmente as reformas anteriores: 1827, 1854, 1879, 1890, 1901, 1911, 1915, 1925, 1931, 1942-43, 1969-71, 1996. Avolumaram-se as leis e os regulamentos. Hoje, de acordo com a Constituição Federal e com a Lei de Diretrizes e Bases, a educação é um vigoroso direito fundamental social que abrange os processos formativos da pessoa, visando ao seu pleno desenvolvimento, à sua qualificação para o trabalho e ao seu preparo para o exercício da cidadania.

A prática, porém, quase sempre se confundiu com o inverso do direito: de um lado, privilégio para poucos, escola para as elites; de outro, exclusão, imposição, violência e não reconhecimento.

Mas houve história também. O Brasil deu os seus passos em termos educacionais. Até 1920, 65% da população com mais de 14 anos era analfabeta. Em 1950, diminuiu para 50%. Já, em 1980, caiu para 25%. Sob a Constituição de 1988, caminhamos para a universalização do ensino obrigatório: 98% das crianças e adolescentes de 07 a 14 anos frequentam o ensino fundamental.

Soma-se à questão do acesso ao ensino, agora, como seríssimo problema longe de solução, a falta de qualidade. De acordo com dados oficiais, de zero a dez, a nota do aluno que termina o ensino fundamental público no Brasil é, em geral, 4,2. O país está reprovado. Há escolas, mas ainda falta educação.

Na luta para a solução dos velhos e dos novos problemas, a história (e não história) da educação e do direito à educação no Brasil constitui material fecundo, porém pouquíssimo explorado. Muito do que hoje se propõe já foi discutido e rediscutido. O presente deseducado está impregnado do passado e não se dá conta disso. Vejam, por exemplo, o debate sobre a “escola sem partido”. Velhos argumentos travestidos de novidades: não se distinguem das proposições tecnicistas malsucedidas da República Velha e da Ditadura Militar.

A nossa histórica falta de educação e ignorância sobre nossa própria história explicam, em grande medida, o insucesso de tantas reformas e projetos educacionais. Explicam, em parte, por que tantas reformas.

Eis um material fundamental (a nossa história) para a compreensão crítica e superação do momento vivido. Fundamental para a luta por direitos, portanto, preenchendo de significado os textos legais sobre a educação – e sobre tantos outros direitos que insistem em não sair do papel – e fazendo deles realidade. A fala do Prof. Bittar e a obra lançada mostram-nos isso, com clareza. Abrem caminhos e perspectivas. Obrigado, Prof. Dr. Bittar.

O excesso de virtualidade no homem contemporâneo

Por Prof. Dr. Fernando Nascimento – docente da Faculdade de Filosofia da PUC-Campinas

Quero convidá-lo a pensar em um cenário em que estamos em um ônibus descendo a serra (idealmente para o litoral onde iremos desfrutar alguns dias de merecidas férias) e percebemos que o veículo está um pouco acima da velocidade na qual nos sentimos confortáveis. Muitas vezes, o que nos dá receio e causa maior preocupação não é apenas a velocidade em que ele está, mas a aceleração. É a velocidade da velocidade. Não nos preocupamos apenas porque o veículo segue rápido, mas porque a velocidade está aumentando. A situação fica ainda mais dramática quando não percebemos nenhum sinal de que o motorista pretende diminuir a velocidade.

Creio que essa é uma possível analogia para pensarmos sobre como os ambientes e ferramentas virtuais estão invadindo nossa vida e transformando as relações interpessoais em nossas sociedades. Já é lugar comum ouvirmos críticas sobre como as pessoas, sentadas à mesa, deixam de conversar entre si para imergirem nos ambientes virtuais de seus smartphones, por meio de redes sociais e troca de mensagens. Tal diagnóstico fica ainda mais palpável com jovens e crianças que já nascem em contextos amplamente digitais, dominam plenamente as ferramentas tecnológicas e, além do smartphone, adoram os jogos digitais que são, na maioria das vezes, feitos com o claro intuito de que os jogadores passem o maior tempo possível conectados a eles.

Essa situação, que já parece preocupante, dá todos os sinais de que vai se intensificar nos próximos anos. Temos dispositivos com interfaces cada vez mais cativantes e eficientes. Pensem quando, em breve, pudermos usar artefatos de realidade virtual para, de fato, experimentarmos uma aventura em qualquer lugar do mundo no ambiente criado pelo dispositivo. Também já estamos vivendo a transformação da forma como interagimos com os dispositivos que, a cada dia, passa a ser mais direta por meio de comandos de voz que são compreendidos pelos aparelhos que usamos.

Parece claro que esses avanços não são em si mesmos maus, ao contrário. Há um potencial benéfico enorme em todas as transformações tecnológicas. Apenas para pensarmos em dois exemplos poderíamos considerar como essas tecnologias já auxiliam em procedimentos médicos cirúrgicos complexos e atendimentos de saúde remotos, assim como geram novas e extraordinárias possibilidades para os ambientes de ensino a distância.

Voltando brevemente à nossa analogia, porém, talvez outro dilema que temos de considerar, além da velocidade e da aceleração, é que não está muito claro quem é o motorista do ônibus. Quem está ao volante dessas transformações tecnológicas da nossa sociedade? A resposta mais direta hoje é que são as gigantes da internet e as startups de alta tecnologia que, por sua vez, são guiadas, não poucas vezes, pelos interesses de seus acionistas que visam sempre a criação de produtos e serviços que possam maximizar seus lucros e dividendos.

É justamente esse o ponto sobre o qual precisamos urgentemente refletir. Temos uma sociedade que está cada vez mais virtualizada, que tem cada vez mais meios práticos e técnicos para fazer coisas impensáveis há poucos anos, mas que não tem tido tempo suficiente para refletir como quer utilizar esses meios para atingir a finalidade comum de promover uma vida melhor e mais sustentável para todos. Há, cada vez mais, “comos” e nem tantos “para quês”. A velocidade da técnica é muito maior do que a velocidade da ética. Parece, portanto, fundamental em todos os ambientes, especialmente nos ambientes acadêmicos, que esta discussão seja fomentada e que formas efetivas de debates sejam estabelecidas para que políticas públicas se ajustem aos avanços tecnológicos de forma a guiá-los para a construção de uma sociedade melhor em todos seus aspectos, não apenas os técnicos. Temos, cada vez mais, meios e precisamos caminhar muito mais rapidamente com nossas reflexões sobre os fins que queremos para essas novas potencialidades.

Confira uma reflexão do filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman sobre os laços humanos, redes sociais, liberdade e segurança.

https://www.youtube.com/watch?v=LcHTeDNIarU

 

A poesia na era digital. Combinação perfeita?

Por Profa. Dra. Tereza de Moraes – docente da Faculdade de Letras da PUC-Campinas

Desde os primórdios, o indivíduo sempre tentou manifestar seus sentimentos, suas emoções, suas sensações, suas percepções, suas formas de compreensão do mundo, buscando representá-las por meio da arte, em suas várias manifestações possíveis. A primeira manifestação linguística se deu por intermédio da oralidade, mas, com o advento da escrita, essa produção passou a ser registrada e perpetuada. A utilização da linguagem escrita tornou-se, a partir daí, o meio ímpar para o registro da arte literária.

Muitos poetas, em vários contextos históricos diferentes, endeusaram a palavra, o verbo. Olavo Bilac questiona o poder de expressão da palavra (Inania Verba), Carlos Drummond de Andrade argumenta que escrever é lutar com palavras (O Lutador). Afirma, ainda, que para encontrar as possíveis nuances das palavras que vivem num reino diferenciado é necessário possuir a chave (À procura da poesia). Encontrar a palavra certa e combiná-la num sintagma esteticamente, utilizando todos os recursos disponíveis da linguagem, era o ideal dos poetas, sobretudo do engenheiro do verso, João Cabral de Mello Neto, que priorizava a técnica e diminuía a importância da inspiração.

Século XX. Nesse novo cenário mundial pode-se observar a rapidez do progresso, do desenvolvimento. Mudanças tecnológicas acontecem num piscar de olhos. Vários suportes se nos oferecem para a representação de mundo. Entretanto um deles permanece intacto: a linguagem escrita, fonte primordial da manifestação literária. Mas, a partir dos anos 1950, muitas mudanças começam a surgir, com o movimento concretista. Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari introduzem um novo agente estrutural na poesia: o espaço. A linguagem agora é verbo-visual. Aos poucos, novas linguagens são incorporadas: o código musical, o código fotográfico, o código sonoro. Novas técnicas para a representação de mundo: colagens, montagem e desmontagem. Novos suportes: caixas, outdoors.

Pronto. Era um passo para a entrada na era digital. Hoje as manifestações de mundo contam com inúmeros espaços cibernéticos para aparecerem. Felizmente, o que não mudou é a necessidade do ser humano de expressar seu mundo. A diferença é que, além da palavra escrita, hoje podem ser utilizados outros materiais disponíveis e diversificados suportes para a expressão artística. Aproximadas as diferentes linguagens, combinadas as diversas temáticas, a poesia digital representa o mundo de hoje e os anseios, as angústias, as expectativas do homem cibernético, pois o poema, digital ou não, é produto do sujeito pós-humano que necessita extravasar seu mundo interior ainda que seja no ciberespaço.

O espaço digital, além de se tornar suporte para as manifestações poéticas dos sujeitos, serve também para rememorar poetas consagrados, divulgando seus escritos. Porém, nem sempre, o que se atribui aos poetas na Internet é de sua autoria reconhecida. Versos atribuídos a Clarice Lispector, Cora Coralina, Manuel de Barros e outros poetas são da lavra de outros autores, outras vezes são modificados e, no mais das vezes, apenas um ou dois versos de um poema são publicados, roubando ao texto sua integridade e os sentidos possíveis. Outra questão é o efeito moralizador ou de literatura de autoajuda que essas publicações assumem, nos moldes do pastiche tão caro à pós-modernidade. Aí não se encontra verdadeiramente o texto do autor, mas a sua interpretação pelo indivíduo que o publica. De qualquer modo, o ambiente virtual vem contribuindo grandemente para a proliferação da poesia, numa prova de que a estética é um elemento essencial do ser humano.

Clique aqui (https://www.youtube.com/watch?v=-EAYepikGK4) e confira a atriz Laura Cardoso interpretando o poema “O lutador”, de Carlos Drummond de Andrade.

A estreita relação entre economia e inovação

Por Prof. Dr. Izaias de Carvalho Borges – Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas

A relação estreita entre inovação tecnológica, crescimento econômico e melhora nas condições de vida de uma nação é conhecida pelos economistas desde a publicação da “Riqueza das Nações”, de Adam Smith, em 1776, que é considerada por muitos historiadores do pensamento econômico como a obra que marca o nascimento das Ciências Econômicas como um campo autônomo do saber. Para Smith, o crescimento da produção e do consumo depende do crescimento da produtividade do trabalho, que, por sua vez, depende de dois fatores: a divisão social do trabalho e o progresso tecnológico.

Uma característica do desenvolvimento socioeconômico de uma nação é a significativa melhora nas condições de vida da população, que pode ser medida por indicadores como o aumento da expectativa de vida, redução da mortalidade infantil e aumento no nível de escolaridade. Por trás dessa melhora estão inovações tecnológicas de diversas naturezas. Os eletrodomésticos, que aumentam o conforto e liberam tempo livre para outras atividades, como por exemplo, mais tempo para estudar. Medicamentos e vacinas, que reduzem a mortalidade infantil e permitem uma vida mais longa e saudável. Enfim, seria impossível pensar na vida confortável que temos hoje sem as inúmeras inovações tecnológicas dos últimos 60 anos, pelo menos. As tecnologias não são condições suficientes para a qualidade de vida, porque esta depende também de outros fatores, mas são condições necessárias.

As inovações tecnológicas podem ser classificadas de duas formas: as inovações que criam novos produtos e as inovações que melhoram o processo produtivo. A aspirina, a caneta esferográfica, o forno de micro-ondas, os televisores, o notebook, o tablet e os smartphones são exemplos de inovações de produto. As reduções de custos e o aumento da produtividade são exemplos de mudanças que podem resultar de inovações de processo. As inovações de produtos são as mais conhecidas da população em geral. Por isso, quando falamos de inovações tecnológicas, é comum pensarmos somente nos novos produtos, principalmente nos eletrônicos.

As inovações de processo são tão importantes quanto às inovações de produto para uma vida confortável e segura. Um exemplo é o caso da produção de alimentos. De acordo com dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), entre 1960 e 2010, a população mundial cresceu de 3,1 para 6,5 bilhões de pessoas. Apesar disso, no mesmo período, o crescimento da produção mundial de alimentos superou o crescimento populacional. Ou seja, em 2010, a produção mundial per capita de alimentos era maior do que em 1960, a despeito da população ter se duplicado neste período. O crescimento da produção agrícola neste período foi resultado basicamente do aumento do rendimento por hectare. Entre 1961 e 2006, enquanto a produção agrícola aumentou 150%, a área cultivada aumentou menos que 30%. O crescimento do rendimento, por sua vez, só foi possível pela difusão e adoção de muitas inovações de processo, que além de aumentar a produtividade por hectare, permitiram a redução de custos de produção.

A importância da tecnologia para a qualidade de vida no século atual será tão ou mais importante do que no século passado. Enquanto no século passado o grande desafio foi o aumento da produção e da renda per capita, no atual o desafio será o do desenvolvimento sustentável, que consiste em conciliar o crescimento econômico e demográfico com a preservação ambiental. De acordo com estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU), a população mundial deverá aumentar de 7,3 bilhões de pessoas em 2015 para 8,5 bilhões em 2030. Ainda assim, a renda per capita continuará crescendo, principalmente nos países megapopulosos como China e Índia. O crescimento demográfico e o crescimento da renda per capita mundial pressionarão a demanda de diversos bens e serviços intensivos em recursos naturais. Ocorrendo o crescimento previsto da população e da renda, em 2030 as demandas por energia, água e alimentos deverão aumentar, respectivamente, em 50, 40 e 35%. Além disso, em 2014, 768 milhões de pessoas no mundo não tinham acesso à água tratada, 2,5 bilhões não tinham condições sanitárias adequadas e 1,3 bilhão de pessoas não tinham acesso a eletricidade. Portanto, o mundo precisará crescer tanto para atender a demanda oriunda do crescimento populacional e da renda quanto para atender as necessidades dos que hoje ainda não usufruem de condições de vida minimamente aceitáveis.

Assim, a tecnologia será fundamental para desenvolvermos processos produtivos mais sustentáveis, sobretudo nos setores críticos, como na produção de alimentos e de energia. Não por acaso, um dos objetivos da Agenda 2030, que estabeleceu os objetivos do desenvolvimento sustentável, se refere à necessidade de modernizar a infraestrutura e capacitar as indústrias para torná-las sustentáveis, aumentando a eficiência no uso de recursos naturais e adotando tecnologias e processos produtivos mais limpos e menos poluentes. Para que isso seja possível, a Agenda recomenda “fortalecer a pesquisa científica e melhorar as capacidades tecnológicas de setores industriais em todos os países”.

Enfim, as inovações tecnológicas serão condições necessárias para que possamos assegurar padrões sustentáveis tanto de produção quanto de consumo. Muitas inovações atuais, já disponíveis para os consumidores, apresentam atributos que favorecem tanto o uso mais eficiente de recursos naturais quanto à diminuição de resíduos. Como exemplo, podemos destacar as lâmpadas de LED, que possuem maior eficiente energético, e os automóveis elétricos e híbridos, que poluem bem menos.

 

Casas Sustentáveis

Por Prof. Me. Fábio de Almeida Muzetti – Diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Campinas

Desde a Revolução Industrial, nos séculos XVIII e XIX, a busca por sistemas construtivos racionalizados para suprir a grande demanda de êxodo rural para as novas cidades que estavam se constituindo tem sido uma premissa para a sociedade.

Da grande concentração de pessoas, o resultado foi a consolidação de cidades poluídas, com grande consumo energético, com problemas sociais, de mobilidade urbana, como conhecemos.

Desde o início do século XX, principalmente após as grandes guerras mundiais, a necessidade da reconstrução de uma Europa devastada nos fez debruçar sobre projetos que racionalizassem procedimentos construtivos, com bom desempenho em conforto, com baixo custo, sem gerar desperdícios. A causa modernista, aplicando procedimentos da indústria na construção, foi a primeira busca para construções sustentáveis, respeitando-se a cultura da época.

Hoje, no século XXI, dado o fracasso parcial desses modelos modernistas, com os avanços tecnológicos de geração de energia, tratamento e reaproveitamento de água e esgoto, com o surgimento de novos materiais, tecnologias de comunicação, internet das coisas e a consciência (cultura) dos cidadãos para com a preservação do meio ambiente, a arquitetura contemporânea tem como agenda obrigatória o melhor desempenho possível das edificações com o menor impacto ambiental.

Tanto nas pesquisas, como no mercado, os projetistas estão se debruçando sobre novos conceitos de projetos, aplicando toda a tecnologia possível para o bem-estar das pessoas e preservação do meio ambiente.

A sociedade contemporânea cobra nos projetos das casas contemporâneas a utilização de madeira reflorestada, sistemas construtivos racionalizados, autossuficiência energética; na sua construção, gerar o mínimo de resíduos, sendo ao mesmo tempo economicamente viável e socialmente justa.

Este é um futuro promissor e sem volta, que já está sendo muito cobrado no presente, que, de certa maneira, retoma a agenda da arquitetura modernista, não como um estilo, e sim como uma causa, adequada aos novos tempos e culturas.