Arquivo da categoria: cinema

Dicas de Cinema

Por Armando Martinelli

Como Nossos Pais

Como Nossos Pais, último longa-metragem da diretora Laís Bodanzky (Bicho de sete cabeças, As melhores coisas do mundo) sagrou-se o grande vencedor do Festival de Gramado 2017, com seis premiações: Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Atriz (Maria Ribeiro), Melhor Ator (Paulo Vilhena), Melhor Atriz Coadjuvante (Clarisse Abujamra) e Melhor Montagem (Rodrigo Menecucci). Assim como em seus filmes anteriores, Laís Bodanzky mantém seu estilo afinado de planos de conjunto para filmar vários personagens, close-ups nos rostos, luz natural, pequenos diálogos para conduzir a trama. Dessa forma, ela consegue explorar a performance dos atores centrais, em especial, Maria Ribeiro, que interpreta Rosa, personagem principal do filme que sintetiza o drama vivido pelas mulheres que são mães e filhas ao mesmo tempo, com a sobrecarga de suas funções diárias, especialmente em uma sociedade que ainda é refém do modelo patriarcal. Em exibição no circuito comercial de cinema do país, Como Nossos Pais ainda conta com a participação especial do músico, compositor e escritor Jorge Mautner, no papel do pai de Rosa.

Confira o trailer do filme – https://www.youtube.com/watch?v=-_8t-3PG8Qk

FRIDA

Com o roteiro baseado fielmente no livro de Hayden Herrera, o filme Frida, (2002) sobre a vida da pintora mexicana Frida Kahlo, dirigido por Julie Taymor, perpassa a história da artista desde a sua adolescência até o ano de sua morte, com destaque para momentos fundamentais de sua vida, como o trágico acidente que lhe causou múltiplas fraturas; seu relacionamento com o pintor mexicano Diego Rivera; suas viagens pelo mundo; seu amor pelos animais; seus momentos boêmios e suas opções políticas. Com trilha sonora belíssima e fotografia primorosa, o filme também conta com ótimas atuações de Salma Hayek (Frida Kahlo) e Alfred Molina (Diego Rivera), sendo opção para os amantes da arte e todos interessados em conhecer a vida de uma mulher à frente do seu tempo.

O filme se encontra no catálogo do aplicativo Netflix

Confira o trailer _ https://www.youtube.com/watch?v=-CTM7FcY1LE

ELA

Por Armando Martinelli

A solidão em tempos virtuais, em que o ser humano tem inúmeras interações, vários contatos, mas pouquíssima presença física é o pano de fundo para essa história vencedora do Oscar de Melhor Roteiro Original, em 2014

Há limites para o amor? E se os traumas reais forem tão fortes a ponto de apontarem outras soluções? O filme Ela (no original Her), dirigido por Spike Jonze, conta a história de Theodore (interpretado magistralmente por Joaquin Phoenix). Theodore adquire um revolucionário sistema operacional de inteligência artificial e conhece Samantha (Scarlett Johansson), a voz desse moderno aparelho.

Theodore é um homem em busca da felicidade, mas só a enxerga se for apoiada no outro, independentemente da presença física.  Samantha é uma verdadeira inteligência artificial, embora não tenha cérebro, possui uma mente. E essa mente lhe permite interagir de forma complexa com Theodore. É justamente sobre essa inesperada relação que trata este incrível filme, situado em uma Los Angeles futurista, com belíssima fotografia a explorar nuances da metrópole e o vazio existente mesmo entre milhões de pessoas.

Além disso, Jonze lança indagações sobre a imagem que criamos sobre nós mesmos e sobre os outros, especialmente quando nos envolvemos virtualmente. O quanto existe de projeção no amor, em especial, com os limites imaginativos ampliados pela ausência de realidade?

Confira trailer do filme (Ela se encontra no catálogo do aplicativo Netflix)

https://www.youtube.com/watch?v=TggD91pV6KE

A praia: Filme narra perda de ingenuidade de jovem mochileiro

Por Cauê Nunes, Mestre em Divulgação Cultural e Científica pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, Graduado em Jornalismo pela PUC-Campinas, Docente da Faculdade de Ciências Sociais da PUC-Campinas, Diretor, Editor e Roteirista de Cinema.

 

No filme “A Praia” (2000), de Danny Boyle, o ator Leonardo DiCaprio interpreta Richard, um jovem mochileiro em busca de aventuras na Tailândia. Durante o percurso, o rapaz descobre que a vida é mais complexa do que imagina.

Por meio de um conhecido, ele descobre um mapa de uma praia “secreta”, em que não há turistas, um paraíso quase intocado. Lá, viveria uma comunidade alternativa, uma espécie de sociedade hippie, que recusa o modo de vida do mundo contemporâneo.

Richard convence um casal de amigos e os três saem à procura da praia. Depois de muita dificuldade eles conseguem encontrar o local, mas a realidade é bem diferente do esperado. A comunidade existe e, no início, recebe bem os novos visitantes. De fato, parece ser uma comunidade hippie, vivendo de modo libertário, longe das opressões do mundo capitalista. Aos poucos, Richard percebe os problemas. Primeiro, quem quer sair da comunidade não consegue, já que o local é “secreto” e deve permanecer como tal. Segundo, ele descobre que o grupo sobrevive cuidando de uma plantação de maconha para traficantes locais. Na verdade, a comunidade, que seria isolada, está totalmente integrada à lógica econômica.

Uma das cenas marca muito bem o processo de perda do vislumbre do jovem pela comunidade. Um dos membros foi ferido por um tubarão e passa dias gritando de dor, criando um grande desconforto entre as demais pessoas. Eles decidem deixar o homem no meio da floresta para morrer longe e parar de incomodar. A tal “sociedade alternativa” reproduz o processo de exclusão social, assim como nas sociedades contemporâneas.

O diretor Danny Boyle, conhecido pelo filme “Trainspotting”, faz diversas mudanças de ritmo, dando à obra um aspecto desigual: ora se aproxima do filme de ação, ora opta por algo mais introspectivo e experimental, no entanto o filme toca em diversos assuntos importantes.

O que chama a atenção é a mudança do protagonista durante a viagem, já que no início é um jovem ingênuo em busca de aventuras superficiais e ao final é alguém que enxerga o mundo como ele é, em todas as suas contradições.

Dicas de Cinema

Por Armando Martinelli

Festival Varilux de Cinema Francês 2017

De 7 a 21 de junho, 55 cidades brasileiras, incluindo Campinas, receberão o Festival Varilux de Cinema Francês 2017, que apresentará os mais recentes filmes estrelados por Catherine Deneuve, Gérard Depardieu, Juliette Binoche, Marion Cotillard, Guillaume Canet e Omar Sy, entre outros expoentes do Cinema Francês.

Além de conhecerem a diversidade de gêneros e temáticas da nova cinematografia francesa, o público também poderá assistir ao clássico “Duas Garotas Românticas” – que completa 50 anos e será exibido em cópia restaurada no Festival.

Confira no site (www.variluxcinemafrances.com) a relação de filmes, sinopses, trailers, e informações sobre as sessões, com horários e salas.

Mais informações pelo:
Facebook: Festival Varilux de Cinema Francês (/variluxcinefrancês)
Instagram: @variluxcinefrances
Youtube: Festival Varilux de Cinema Francês.

Gabriel e a Montanha

Previsto para chegar aos cinemas nacionais no segundo semestre, o longa-metragem “Gabriel e a Montanha”, dirigido por Felipe Barbosa, fez sua estreia mundial no dia 21/5, durante a Semana da Crítica, mostra paralela do Festival de Cannes, na França, sendo agraciado com o prêmio de Revelação. O filme retrata a viagem do carioca Gabriel Buchmann pela África, com o objetivo de analisar de perto a pobreza e se qualificar para um doutorado em políticas públicas na Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA).

Baseado em anotações, e-mails de Gabriel para a mãe e a namorada, além de entrevistas com pessoas que cruzaram seu caminho na África, o filme recria os países visitados e as condições da viagem realizada logo após finalizar sua graduação em Economia.

Este é o segundo longa-metragem de ficção dirigido por Felipe Barbosa, que esteve à frente do elogiado “Casa Grande” (2014), ganhador do prêmio do público no Festival do Rio.

Confira uma cena disponibilizada do filme:
https://www.youtube.com/watch?v=WzqOhIKYjsk

Fogo no Mar: O drama dos refugiados e a indiferença da sociedade

 

Fogo no Mar, dirigido por Gianfranco Rosi, foi um dos filmes apresentados na 1a Mostra de Cinema Italiano de Campinas, acontecida de 06 a 13 de abril, que contou com exibições e debates na PUC-Campinas.

Vencedor do Urso de Ouro (melhor filme) no Festival de Berlim 2016 o documentário prima por uma produção requintada, que se divide em duas perspectivas centradas em Lampedusa, pequena ilha italiana, localizada na região da Sicília, e que se tornou porto para os refugiados oriundos de barco ao continente europeu. Por meio do retrato do aparato militar organizado pelo governo italiano para resgatar os refugiados, e do dia a dia praticamente inalterado dos moradores da pequena província, o diretor constrói uma metáfora belíssima sobre a Europa e a indiferença da maioria das pessoas com esse drama social.

O caminho escolhido parece ser o de abraçar essa contradição e repassá-la ao espectador. Mas, mesmo que não totalmente em linguagem direta, as nuances são perceptíveis, principalmente, nas escolhas estéticas do filme. Em um campo há a utilização de câmeras mais lentas acompanhando o ritmo dos moradores da ilha, conduzidos pelo garoto Samuele e suas pequenas diversões cotidianas, como atirar com estilingue nos pássaros, por outro há o drama dos refugiados, dos mais variados países, confinados a línguas não compreensíveis, e a falta de destino. Essa rotina é captada por uma câmera mais vibrante, com tomadas e cortes ágeis. A diferença parece demarcar o contraste dos moradores da ilha com suas vidas lentas, consolidadas, enraizadas, com o movimento dos imigrantes, fugitivos em busca de algum caminho, de um recomeço.

Os pedidos dramáticos de socorro captados, interceptados pelos oficiais italianos, as cenas de resgate registradas, inclusive com a chegada de pessoas mortas em meio às péssimas condições de viagens, contrastam com as metáforas que permeiam o filme e servem como maior direcionamento do pensamento de Rosi. Em uma delas, após um exame oftalmológico, o garoto Samuele descobre ter uma das vistas preguiçosa, e passa boa parte do filme com um dos olhos tapado. Esse treinamento para olhar com olho que não está acostumado a ver é o exercício de consciência proposto por Fogo no Mar, para que as mazelas tão flagrantes daquelas pessoas possam ser acolhidas por uma reflexão que extrapole as limitações tradicionais, de uma sociedade contaminada pela intolerância e xenofobia.

Fogo no Mar é, talvez, o representante contemporâneo mais significativo de uma estética do documentário que não se propõe a ser explicativo, com ênfase na realidade. Ao contrário, insere poesia e emoção para potencializar o real. Como citado em entrevistas a veículos de comunicação, o Diretor Giafranco Rosi elege Robert Flaherty, autor de clássicos como Nanuk o Esquimó, O Homem de Aran e Louisiana Story, sua grande referência. Em Lousiana Story, Flaherty conta a história do petróleo pelos olhos de um garoto, assim como Rosi narra um dos principais dramas contemporâneos pelo olhar de outro menino.

O CINEMA E O SAGRADO

Por Prof. Me Arnaldo Lemos Filho, professor das Faculdades de Ciências Sociais, Direito, Educação e Serviço Social

A exibição do filme “Silêncio”, de Martin Scorcese nos oferece a oportunidade de analisar as relações entre o cinema e o sagrado. A própria palavra silêncio estrutura a narrativa, referindo-se a três níveis: uma complexa questão teológica, a resistência do meio japonês à evangelização e a fé dos católicos japoneses perseguidos. Na alma do padre Rodrigues, personagem central, a dúvida instala-se: onde está Deus perante o sofrimento dos seus filhos?

O filme permite discutir a possibilidade de o sagrado ser expresso na tela. Historicamente, todas as artes possuem suas raízes na religião. Em todas as suas manifestações primitivas, as artes se inspiraram nas crenças religiosas. O cinema, “la sola arte non nata del culto” teve, ao contrário das outras artes, origens eminentemente profanas. Nascido do desenvolvimento moderno da técnica, no contexto do cientificismo e da ideologia do progresso do homem, é profano também por sua estrutura industrial e comercial.

O cinema pode trazer as questões de fé e da religião cristã. Mas quais são os limites e o poder da imagem para a expressão do sagrado e do religioso?

A noção de sagrado é complexa e ambígua. Os termos “sagrado” e “religioso” não são idênticos, pois um tema religioso não constitui condição necessária nem suficiente para se atingir o sagrado. Muitos filmes de santos ou de temas bíblicos não têm nada de sagrado. Por outro lado, um filme pode atingir a evocação do sagrado sem possuir um tema estritamente religioso.

Daí se inferem duas vias, ou melhor, duas leis na evocação do sagrado no cinema: uma, a transcendência que se encarna, a outra, aquela que acentua a encarnação da transcendência. Na primeira via, o cinema atinge o sagrado por um estilo de transparência, pela ascese e austeridade no cenário, na iluminação e na música. São poucos os filmes que alcançam a expressão do sagrado por essa via e devem seu êxito aos dons verdadeiramente criadores de seus diretores.

Na segunda via, a encarnação da transcendência, o cinema se coloca dentro de seus limites, procurando atingir o sagrado inserindo a transcendência no carnal, no cotidiano. A face de um homem pode tornar-se para seus irmãos a face humana de Deus: um santo, um pobre, um pecador. Escolhendo enraizar-se na banalidade e insignificância do cotidiano, tais filmes se aproximam do mistério da Encarnação.

Ao assistir ao filme, procure definir qual via Scorcese escolheu para expressar o sagrado.

Veja o trailer do filme: https://www.youtube.com/watch?v=cdQwu7SEuZQ

 

Pedra De Paciência: Mergulho Na Alma Feminina

Por Prof. Dr. José Estevão Picarelli – Diretor-Adjunto CEATEC da PUC-Campinas

Quem já experimentou sabe que o aparentemente simples ato de desabafar ajuda a aliviar ou a aceitar melhor o sofrimento ou as angústias. Faz alguma diferença, mas não importa fundamentalmente, se o desabafo acontece no confessionário da igreja, na sessão de terapia, na mesa do bar ou em um ombro amigo. Desabafar é socializar sentimentos, publicar sofrimentos, desnudar segredos íntimos, lavar a alma, por para fora o que dentro incomoda.

Em algumas regiões do planeta, onde a humilhação e a opressão à mulher são práticas comuns e, pasmem, às vezes até legais, a sabedoria feminina se faz necessária e presente. De mãe para filha, as mulheres ensinam umas às outras a escolher uma pedra para fazer o papel de ouvido amigo. Isso mesmo, um pedaço de rocha, chamada pedra de paciência. Assim, a mulher, quando angustiada, conversa reservadamente com a pedra que atravessou seu caminho. Neste mineral companheiro são descarregadas frustrações e injustiças. Quando essa pedra é quebrada, a mulher acredita que também suas angustias viraram pó.

 Indicado como melhor filme estrangeiro para o Oscar de 2014, Pedra de Paciência é o título do belíssimo filme do diretor Atiq Rahini, produção cooperada de França, Alemanha e Afeganistão. A película é ambientada em uma região deste último país, destruída pela guerra santa islâmica. Em uma paisagem de ruínas, uma mulher vive o desespero de cuidar de seu marido, jihadista ferido e em coma. Na sua imensa solidão, moldada pela cultura fundamentalista, por costumes e hábitos machistas e desfavoráveis, ela busca, no desabafo, uma saída para a vida. Julgando que os ouvidos do marido estão surdos pelo coma, ela abre, numa sincera confissão, a sua mais profunda intimidade Em um monólogo, a atriz iraniana Golshifeh Farahani, dá uma interpretação maravilhosa dessa personagem cujo nome, nem mesmo o filme, deixa conhecer.

Em pouco mais que uma hora e trinta minutos ficamos surpresos em saber que, em que pese a falta de água, a fome e as bombas, existem coisas que podem machucar mais e que podemos encontrar do nosso lado, uma mulher vivendo a mesma condição feminina.

Cinema e Literatura: Um conto de Natal

Por Ricardo Pereira

A seis dias do Natal de 1843, o britânico Charles Dickens escreveu aquele que pode ser considerado o conto definitivo sobre a data, “A Christmas Carol”. Escrito para pagar algumas dívidas do autor, em menos de uma semana foram vendidos 6 mil exemplares. No Brasil são inúmeras as edições e traduções desta obra que aportuguesa é conhecida por aqui como “Um Conto de Natal”. Aliás, não há como desconsiderar os motivos que levaram Dickens a escrevê-lo – suas dívidas – da leitura do conto.

Nas pouco mais de 60 páginas da edição original estão presentes todas as características da literatura de Dickens produzida em meio ao avanço da Revolução Industrial na Inglaterra. O autor é – ao lado do francês Victor Hugo – pioneiro no protagonismo que dá ao proletariado na literatura. Toda a sua obra pode ser vista como grandes painéis sobre a situação da classe trabalhadora na Inglaterra, aquilo que Friedrich Engels analisou com dados, Dickens preencheu com humanidade, diria mesmo que as duas obras se complementam.

“Socialista utópico”, Dickens não apostava numa revolução vinda do proletariado, mas numa generosidade que acreditava escondida nos mais ricos que movidos pelo acumulo de capital ainda não estavam conscientes de toda a miséria que produziam, por conta disto, a sua volta. O protagonista de “Um Conto de Natal”, o velho sovina Ebenezer Scrooge representaria bem os elementos desta classe que precisavam ser conscientizados. Mas não é o espírito do comunismo que faz o avarento mudar, mas a visita de três outros espíritos que representariam os Natais do passado, do presente e do futuro. Enquanto os dois primeiros espíritos funcionam como uma alerta para Scrooge, o terceiro espírito vem para lhe tirar a vida, pois o futuro dele distanciando-se de todos por ganância redundaria numa morte solitária. O conto de Dickens não fez a revolução, mas ajudou a reforçar a ideia de que tocados pelo “espírito natalino” todos nos tornamos mais solidários, ainda que seja apenas para escamotear nossos próprios fantasmas.

O cinema não tardou a explorar o conto de Dickens e já em seus primeiros anos de vida, em 1901, foi realizada sua primeira adaptação, um curta-metragem de onze minutos que sintetizava seus principais trechos. De lá para cá foram mais de 60 adaptações para o cinema, algumas voltadas mais para o público infantil como “Os Fantasmas de Scrooge” dirigida por Robert Zemeckis em 2009 e outras que dialogam mais com o público adulto como “Adorável Avarento” com Albert Finney no papel de Scrooge. Até a Disney fez sua versão do conto, em “O Natal do Mickey” de 1983 coube ao Tio Patinhas representar o avarento (aliás, o nome original de Patinhas, Scrooge McDuck, se baseia no personagem de Dickens). É verdade que nenhuma destas obras teceu grandes críticas ao capitalismo – como era de se esperar.

A mais feliz de todas as adaptações coube a Richard Donner que em 1988 rodou para o Natal daquele ano, o filme “Os Fantasmas Contra-Atacam”, nele Bill Murray interpretava Scrooge como o diretor de uma rede de televisão que preocupado apenas com audiência não importava em exibir programas que exploravam a violência. Na vida pessoal seu comportamento antissocial e desprezível produzia inimigos e afastava parentes. A visita dos três espíritos do conto original de Dickens são os pontos altos do filme bem como a atuação de Bill Murray, ainda hoje, um dos melhores atores do gênero. Se você não conhece nenhum dos filmes citados aqui fique atento à programação das emissoras de tevê na semana do Natal, provavelmente verá algum deles, são mais tradicionais, nesta época, que o próprio peru.

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Ricardo Pereira se formou em Jornalismo na PUC-Campinas em 1999. É jornalista e crítico de Cinema.

 

Cinema: Criança e Política

Por Wagner Geribello

A esteira de consequências nefastas deixada pela política não é pequena e vai das mais brandas, como indispor pessoas de orientações ideológicas diferentes, até eventos mais graves, como enfrentamentos, prisão, tortura e morte, envolvendo tanto aqueles que militam e atuam politicamente, mas também respingando em inocentes, que pagam pelo que não fizeram.

Crianças estão na ponta da lista de inocentes em cujas contas são debitadas cobranças geradas pelos descaminhos da política. O cinema já tratou do assunto diversas vezes, incluindo o cinema latino-americano que, no início deste século, colocou duas excelentes produções sobre o tema: uma brasileira, dirigida por Cao Hamburguer, e outra argentina, assinada por Marcelo Pineyro.

O filme nacional, O ano em que meus pais saíram de férias, foi lançado no ano 2000 e o argentino, Kamtchatka, três anos depois, focando a personagem central: o garoto brasileiro, Mauro, na faixa dos dez anos e Harry, o garoto argentino, mais ou menos da mesma idade, ambos filhos de militantes de esquerda, perseguidos pelas ditaduras que infestaram este subcontinente, por quase trinta anos.

Nas duas produções, a intenção é mostrar que, apesar do distanciamento consequente do desconhecimento inocente, crianças sofrem muito quando o exercício da política escapa dos contornos mínimos de civilidade para mergulhar no universo da violência.

Nos filmes em comentário, Mauro e Harry sofrem a dor da separação, medo, angústia e incerteza, sem saber exatamente o motivo, porque a lógica do confronto político-ideológico não cabe na interpretação orientada pela inocência (leia-se pureza) infantil.

Assim, além de delatar o confronto político por conta do seu saldo de violência, os diretores mostram como a lógica infantil supera a racionalidade adulta, deixando transparecer que melhor seria a sociedade nortear-se por aquela, em vez de conduzir-se por esta.

Vale conferir as duas produções, lembrando, ainda, duas curiosidades: uma sobre o título do filme argentino, relacionado com o jogo War, e a outra, sobre o filme brasileiro, que teve locações externas em Campinas, mais exatamente na confluência das ruas General Marcondes Salgado e Luzitana, uma quadra além da Casa de Saúde de Campinas, escolhido pelo perfil de época da arquitetura das construções ali existentes.

Professor Doutor Wagner Geribello é Doutor em Educação e crítico de cinema.

CINEMA – UNIVERSIDADE NA TELA

Mãos uma ao lado da outra, dedos para cima, unidos nas pontas, em ligeiro movimento de atrito…

Sem usar palavras, é assim que o costume determina como expressar grandes quantidades, gesto que se adapta como luva para demonstrar o volume de filmes ambientados ou tematizados na tradicional instituição da universidade. São muitos.

Rápida consulta às listagens de títulos mostra que já foi grande e continua intenso o uso da academia para fazer filmes, alguns fundamentados na realidade, outros nascidos da mente fértil dos roteiristas.

Todavia, se o volume é grande, variedade e originalidade de filmes sobre universidade não são tão extensas. Quanto à origem, por exemplo, os americanos dominam com folga as estatísticas, seguidos pelos britânicos, fazendo minguar, comparativamente, a lista de produções ambientadas nos campi, expressas em idiomas diferentes do inglês.

Fãs do cinema argentino, por exemplo, especialmente de Ricardo Darin, certamente conhecem tese sobre um homicídio, de 2013, em que o mais conhecido ator portenho da atualidade interpreta o professor de Direito envolvido em um crime cometido no campus. Todavia, exemplares como esse são raros, fato que mantém a academia americana muito à frente de todas as outras no quesito “aparecer nas telas”.

Contudo, mesmo no recheado farnel de Tio Sam, alguns elementos da universidade permanecem ausentes dos roteiros, quando se trata dos filmes de ficção. Entre as ausências, figura a história da universidade, seja no sentido totalizador do termo, seja no tratamento de universidades individualmente tomadas.

Portanto, quando vivemos o clima de festa e celebração dos 75 anos da PUC-Campinas e a ideia de história universitária nos vem à cabeça, os neurônios acionam a memória, o computador vasculha os arquivos, sem encontrar evidências de que o cinema ficcional tenha tratado intensamente do tema.

Se a história universitária não frequenta o enredo dos filmes tematizados na academia, então, sobre o que versa essa cinematografia?

As opções são muitas e vão desde comédias, a maior parte muuuuuuito chatas, até biografias romanceadas de acadêmicos que se tornaram famosos, como o matemático John Nash, ganhador do prêmio Nobel. No meio do caminho há dramas, romances, crimes e até espionagem, variedades que o leitor pode escolher navegando a Internet ou nas listas de exibições, como Netflix, entre outras possibilidades de cardápio.

Assim sendo, verificada a carência de filmes que resgatam a história universitária, como seria oportuno e conveniente para a edição de aniversário do Jornal da PUC-Campinas, mas havendo, sempre, o compromisso desta coluna e a expectativa do leitor sobre indicação de pelo menos um título ao mês, a sugestão vai para  Revelações, de Robert Benton, com Anthony Hopnkins, que, em parte, vale pelo desempenho do ator e, em parte, pelo tema, que já faz parte da história, concernente ao comportamento politicamente correto no ambiente universitário.