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CINEMA – UNIVERSIDADE NA TELA

Mãos uma ao lado da outra, dedos para cima, unidos nas pontas, em ligeiro movimento de atrito…

Sem usar palavras, é assim que o costume determina como expressar grandes quantidades, gesto que se adapta como luva para demonstrar o volume de filmes ambientados ou tematizados na tradicional instituição da universidade. São muitos.

Rápida consulta às listagens de títulos mostra que já foi grande e continua intenso o uso da academia para fazer filmes, alguns fundamentados na realidade, outros nascidos da mente fértil dos roteiristas.

Todavia, se o volume é grande, variedade e originalidade de filmes sobre universidade não são tão extensas. Quanto à origem, por exemplo, os americanos dominam com folga as estatísticas, seguidos pelos britânicos, fazendo minguar, comparativamente, a lista de produções ambientadas nos campi, expressas em idiomas diferentes do inglês.

Fãs do cinema argentino, por exemplo, especialmente de Ricardo Darin, certamente conhecem tese sobre um homicídio, de 2013, em que o mais conhecido ator portenho da atualidade interpreta o professor de Direito envolvido em um crime cometido no campus. Todavia, exemplares como esse são raros, fato que mantém a academia americana muito à frente de todas as outras no quesito “aparecer nas telas”.

Contudo, mesmo no recheado farnel de Tio Sam, alguns elementos da universidade permanecem ausentes dos roteiros, quando se trata dos filmes de ficção. Entre as ausências, figura a história da universidade, seja no sentido totalizador do termo, seja no tratamento de universidades individualmente tomadas.

Portanto, quando vivemos o clima de festa e celebração dos 75 anos da PUC-Campinas e a ideia de história universitária nos vem à cabeça, os neurônios acionam a memória, o computador vasculha os arquivos, sem encontrar evidências de que o cinema ficcional tenha tratado intensamente do tema.

Se a história universitária não frequenta o enredo dos filmes tematizados na academia, então, sobre o que versa essa cinematografia?

As opções são muitas e vão desde comédias, a maior parte muuuuuuito chatas, até biografias romanceadas de acadêmicos que se tornaram famosos, como o matemático John Nash, ganhador do prêmio Nobel. No meio do caminho há dramas, romances, crimes e até espionagem, variedades que o leitor pode escolher navegando a Internet ou nas listas de exibições, como Netflix, entre outras possibilidades de cardápio.

Assim sendo, verificada a carência de filmes que resgatam a história universitária, como seria oportuno e conveniente para a edição de aniversário do Jornal da PUC-Campinas, mas havendo, sempre, o compromisso desta coluna e a expectativa do leitor sobre indicação de pelo menos um título ao mês, a sugestão vai para  Revelações, de Robert Benton, com Anthony Hopnkins, que, em parte, vale pelo desempenho do ator e, em parte, pelo tema, que já faz parte da história, concernente ao comportamento politicamente correto no ambiente universitário.

 

Cinema à mesa

Por Wagner Geribello

Nascida, provavelmente, nos Estados Unidos, ganhou o mundo e a História a associação entre cinema e pipoca como elementos complementares, algo assim como peixe e vinho branco, mantendo o texto no plano da gastronomia.

Todavia, pipoca não é o único e talvez nem o mais importante alimento relacionado ao cinema. Quem já passou dos 60 anos certamente se lembra dos “baleiros” que circulavam nas salas de exibição com uma bandeja de madeira, nivelada à altura da barriga e pendente do pescoço por uma tira de tecido, contendo barras de chocolate, balas diversas e produtos da época como as caixinhas de “Mentex”. Normalmente, eram garotos de baixo ingresso econômico que trocavam trabalho pela possibilidade de ver cinema (o principal divertimento popular da época) sem pagar ingresso.

Aqui no Brasil, nos anos 1970, e um pouco antes que isso, nos Estados Unidos, apareceu o “drive-in”, um pátio de estacionamento de veículos, uma grande tela à frente e serviço de lanchonete, servido em bandejas que ficavam penduradas na janela lateral do veículo, temperando com “hot dog” e “milk-shake” as cenas projetadas na tela.

Hoje, a comilança cinematográfica, renascida no “shopping center”, continua apostando na pipoca, mas inclui refrigerante e guloseimas outras, com direito a console no braço da poltrona para facilitar o “picnic”.

Todavia, quando se trata de cinema, comida não é só acompanhamento, mas embute, também, na história da sétima arte, uma significativa quantidade de filmes tematizados em comida, ou na falta dela.

Os documentários ganham de longe no tratamento do tema, quantitativamente considerado, indo desde o questionamento da fome como fez, por exemplo, José Padilha, em Garapa, ou Jorge Furtado no curta Ilha das Flores, até produções que tratam do inverso, ou seja, do excesso alimentar, como o filme de Estela Renner, Muito Além do Peso, sobre obesidade infantil.

O cinema de ficção também registra muitas (e eventualmente boas) incursões pela gastronomia, com ampla variedade de abordagens.

Em 1973, Marco Ferrer dirigiu A Comilança, uma estranha e muito crítica história sobre um grupo de amigos que se internam em uma casa de campo decididos a morrer de tanto comer… e conseguem!

Pouco mais de uma década depois, em 1987, Gabriel Axel dirigiu a Festa de Babette, ambientado no interior da Dinamarca do século XIX, que termina com um lauto banquete de iguarias sofisticadas da culinária francesa, preparadas pela jovem Babette, emigrada daquele país.

Em 1998, Ettore Scola reuniu Vittorio Gassman, Fanny Ardant, Marie Gillain e Giancarlo Giannini em um restaurante, em que ocorre todo o enredo de O Jantar, incluindo as ponderações da personagem interpretada por Giannini sobre as características de um verdadeiro “bife à milanesa”.

Em tempos mais recentes, o argelino radicado na França, Abdellatif Kechiche, fez o Segredo do Grão, cujo principal protagonista, por assim dizer, é o cuscuz marroquino.

O diretor turco, Tassos Boulmetis, também resgata pitadas da gastronomia mediterrânea no excelente O Tempero da Vida, enquanto Juliet Binoche e Johnny Depp estão em Chocolate, produção americana dirigida por Lasse Hallström, ambientada na França.

Entretanto, quando se trata de comida, ou da falta dela, como mencionado no início deste comentário, talvez a incursão ficcional mais ousada do cinema tenha acontecido em 1973, quando o diretor Richard Fleisher colocou nas telas Soylent Green (exibido no Brasil como No Mundo de 2020, à Beira do Fim), com Charlton Heston e Edward G. Robinson, prevendo um (à época) distante futuro no qual a alimentação dos seres humanos (?) é suprida por biscoitos feitos de… seres humanos (??).

Enfim, o cardápio que mistura cinema e comida é grande, basta escolher e assistir.

Bom apetite!

Wagner Geribello é Doutor em Educação e Consultor Editorial do Jornal da PUC-Campinas

 

Crítica de Cinema: O Homem Elefante

Por Wagner Geribello

Tinha um nome, Joseph Merrick, mas era (e ficou, historicamente falando) mais conhecido como Homem Elefante. A história é real, aconteceu na Inglaterra vitoriana e, em 1980, foi transformada em filme por David Lynch, com John Hurt, Anthony Hopkins, John Gielgud e Anne Babcroft no elenco.

Portador de uma doença degenerativa que deforma 90% do seu corpo, Merrick mastiga o pão que o diabo amassou, exibido em um circo como “a mais degradante forma a que um ser humano poderia chegar”, despertando a curiosidade da massa ignara e rendendo alguns xelins de lucro para o dono do circo.

A vida de Merrick começa a mudar ao atrair a atenção do médico Frederick Treves, interessado em estudar e, na medida do possível, tratar do infortunado senhor.

Na trilha e nos trilhos desse enredo, Lynch compõe uma das melhores peças que o cinema já produziu sobre o preconceito e a maldade social em relação ao diferente, mostrando a facilidade com que as pessoas desprezam e fazem sofrer aqueles que, por uma razão qualquer, no caso a deformidade física extremada, fogem aos padrões sociais vigentes, seja de estética, seja de comportamento.

Muito tempo já passou desde que Treves retirou Merrick do circo e, repito a ressalva, na medida do possível, deu-lhe alguma dignidade, aliviando seu sofrimento, moral e físico (por conta da deformação, Merrick tinha problemas sérios de saúde, que iam da respiração à impossibilidade de deitar-se para dormir, passando por dores no corpo, dificuldade de locomoção e outros). Também já faz algum tempo que o filme foi produzido e exibido no circuito comercial. Todavia, as questões todas existentes na história e levantas por Lynch no filme continuam atualíssimas em uma organização social na qual os indivíduos se estranham por conta das diferenças de cor, aparência, características mentais e/ou cognitivas e até da orientação política, que leva o médico a recusar paciente e entidades representativas da classe endossarem esse tipo de comportamento social de troglodita.

Descontados alguns discursos cá e lá, de modo geral e na sua maior parte, a sociedade qualifica como estorvo e aberração portadores de deficiência e pessoas que, por qualquer razão, desviam do padrão vigente (obesidade, por exemplo). Salvo uns poucos aliados e contra muitos indiferentes e outro tanto de adversários, a aceitação, incorporação e valorização desse pessoal tem acontecido por méritos próprios, quer dizer, pela ação deles mesmos, no sentido de se imporem socialmente, mandando o preconceito para o lugar de onde nunca deveria ter saído… o ostracismo.

Assim, nesses tempos em que a individualidade é exaltada e as pessoas são estimuladas a competir, vendo no outro um concorrente, para qualificar a solidariedade como defeito de fracos ou ingênuos, filmes como o Homem Elefante são recomendados como gatilhos da consciência, para que a gente entenda, de vez por todas, que a única função social da diferença é que ela nos torna todos iguais.

Pesquisa rapidíssima na Rede mostrou dois endereços em que o filme pode ser encontrado (e assistido): aqui e aqui.  Talvez existam outros. Vale a pena ver e divulgar.

Wagner Geribello é Doutor em Educação e Consultor do Jornal da PUC-Campinas.

Cinema: Também a Chuva é metáfora bíblica entre água e justiça

Por Wagner Geribello

Produção cooperada franco-espanhola-mexicana, assinada pela diretora espanhola Iciar Bollain, Também a Chuva (También la Lluvia, no original) repete, no título e no enredo, a metáfora bíblica entre água e justiça social, do livro de Amós, usada como lema da Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2016.

A linguagem metacinematográfica escolhida pela diretora leva o espectador à região de Cochabamba, Bolívia, acompanhando a produção de um filme sobre o descobrimento da América. A escolha do local tem razões evidentes e não muito éticas. O produtor, espanhol, precisa de nativos sul-americanos para a figuração e a concentração indígena daquela região boliviana reduz os custos de produção, via baixa remuneração dos contingentes contratados para atuar no filme, como extras.

Esse ponto inicial cria condições para que o elenco de extras tome contato com a história da conquista da América, marcada pela dominação, exploração e agressão praticadas pelos conquistadores europeus. Assim, cada cena de sofrimento, submissão e martírio protagonizada pelos extras, reproduzindo sofrimento, submissão e martírio dos seus ancestrais, coloca os indígenas frente à sua própria condição de explorados, martirizados e submissos também no presente, por exemplo, ganhando pouco, mas trabalhando muito no set de filmagem.

Produção cooperada franco-espanhola-mexicana, assinada pela diretora espanhola Iciar Bollain/ Crédito: Divulgação
Produção cooperada franco-espanhola-mexicana, assinada pela diretora espanhola Iciar Bollain/ Crédito: Divulgação

A disposição de reivindicar direitos e justiça a partir da consciência social nascida nas locações de filmagem vem à tona quando o Governo boliviano privatiza o fornecimento de água na região, restringindo tão somente à via econômica o acesso ao abastecimento, fato que acaba envolvendo o elenco de extras em manifestações populares contra a tirania econômica.

Bom esclarecer que a tentativa de privatização realmente aconteceu naquela região boliviana, desencadeando o que ficou conhecido como a Guerra da Água, entre janeiro e abril de 2000, quando uma revolta popular obrigou o presidente Hugo Banzer a reverter a privatização e cancelar o contrato com a Bechtel Corporation, empresa americana interessada na exploração econômica da água boliviana.

Marco da resistência ao poder do capital, essa página da história contemporânea da Bolívia demonstra que os movimentos populares têm força para reverter tendências de imposição global do pensamento político-econômico único, como proposto pelo Consenso de Washington, em 1989, e anualmente reforçado em fóruns como Davos e congêneres.

Desse modo, a responsabilidade sobre nossa “Casa Comum”, que inclui preservação e acesso universal, justo e equânime aos bens naturais, em especial água e alimentos, proposta pela Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016, encontra respaldo e apoio em obras como esta, estimulando reflexões sobre direito e justiça.

Ah, sim, uma última colocação: o contrato de privatização assinado entre o governo boliviano e a Bechtel chegava ao absurdo de tornar ilegal a captação da água que cai do céu, prevendo, por exemplo, punição pela colocação de bacias no telhado para colher a água da chuva, uma vez que até essa passava a ter dono, fato que sugeriu o título do filme, disponível na Internet, no site de filmes on-line grátis.

 

 

 

Cinema: Colossus 1980

Por Wagner Geribello

Perguntas, dirigidas ao pessoal ligado em informática, que sabe (ou acha que sabe) tudo sobre computador: O que é Colossus? E Guardian?

Não sabe? Então você não conhece uma das mais saborosas produções que o cinema de ficção-científica já realizou sobre computadores: Colossus, 1980 (ou Projeto Forbin, de acordo com o título original).

Muitas e diversas razões fazem da produção, dirigida por Joseph Sargent, um excelente comentário cinematográfico, crítico e irônico, sobre essa curiosa maquineta chamada computador, que invade todos os momentos e todos os cantos da chamada sociedade contemporânea.

A primeira curiosidade é a idade do filme, que já conta quarenta anos (lançamento em 1970) sem deixar de ser atual em relação à temática da dominação do homem pelo computador. Além disso, o roteiro é muito bom, em especial no tratamento das linguagens que permitem certo entendimento dos seres humanos com a máquina, da máquina com os seres humanos e da máquina com outra máquina. Mais que isso, o diretor fez um bom trabalho, transformando esses componentes do roteiro em linguagem cinematográfica.

Produzido em plena Guerra Fria, Colossus 1980 começa quando o governo americano anuncia a submissão de todo gerenciamento e operacionalidade (vale dizer, o disparo de armas) do sistema de defesa a um computador com superqualidades, como capacidade praticamente ilimitada de armazenamento de dados e uma equivalente rapidez de processamento. O resultado, esperado, é a criação de um escudo intransponível a qualquer ação militar, por conta da precisão e velocidade de resposta e retaliação do computador, batizado Colossus. Todo arsenal nuclear é colocado sob controle da máquina, dispensando a  intervenção humana.

  Após a ativação do sistema, quando todo mundo está indo para casa desfrutar paz e segurança, aparece o problema: os inimigos soviéticos (sempre eles) anunciam um sistema similar. As duas máquinas se percebem, iniciam uma conversa baseado em cálculos primários, que vai acelerando e sofisticando, até escapar à capacidade de compreensão e acompanhamento dos (reles) mortais e, após o namoro matemático, decidem gerenciar conjuntamente os sistemas de defesa, à revelia dos seres humanos. Assim, o criador do projeto (americano), o dr. Forbin do título original, inicia um combate de “esperteza” para neutralizar as supermáquinas pensantes (?). A relação de Forbin com as máquinas é, no mínimo, interessante, como no ponto em que ele “explica” a necessidade que os seres humanos têm de amor e sexo, atividades desconhecidas (ou pelo menos pouco importantes) para os computadores.

 Sem jamais negar a carapuça de ficção-científica feita para divertir, Colossus 1980 não errou muito na previsão da submissão ao computador que o (então) futuro traria aos seres humanos. A necessidade cada vez mais intensa dessa máquina prodigiosa e, talvez perigosa, que faz o pano de fundo do filme, manifesta-se, por exemplo, neste comentário, que não teria sido escrito nem o internauta poderia ler, não fosse o computador, do qual somos, irrecorrivelmente, dependentes (ou prisioneiros, como sugere o filme).

Em busca muito rápida e imperfeita, considerando as limitações de conhecimento de informática, não encontrei a versão completa de Colossus 1980 gratuitamente disponível na internet, mas existem ofertas do filme em DVD e, talvez, em  opções pagas, como Netflix e PopcornTime. Vale procurar, pois a diversão compensa… e intriga.

Cinema: Sertão, Patrimônio e História

Por Wagner Geribello

Quando dirigiu o segundo longa metragem da sua carreira, em 2004, Eliana Caffé acrescentou mais um título à lista do que existe de bom e marcante na produção cinematográfica brasileira: Narradores de Javé.

Diante da ameaça de ver seu vilarejo, desaparecer do mapa,  os habitantes decidem reivindicar para o local a condição de patrimônio e, assim garantir sua sobrevivência.
Diante da ameaça de ver seu vilarejo, desaparecer do mapa, os habitantes decidem reivindicar para o local a condição de patrimônio e, assim garantir sua sobrevivência.

Disponível no YouTube , além de bom cinema, nos seus aspectos técnicos (direção, elenco, roteiro), o filme é muito apropriado para estimular o debate e elencar considerações sobre o tema desta edição do Jornal da PUC-Campinas, o patrimônio.

Diante da ameaça de ver seu vilarejo, no interior nordestino, desaparecer do mapa, encoberto pelas águas de uma represa, os habitantes decidem reivindicar para o local a condição de patrimônio e, assim garantir sua sobrevivência.

A decisão se mostra apropriada, mas está atrelada ao registro histórico do lugar, que, por sua vez, depende do domínio da escrita, pois a cronologia “evolutiva” cultural classifica como pré-históricas as sociedades ágrafas.

Antonio Biá, interpretado por José Dumont, único adulto alfabetizado do povoado, recebe a incumbência de colocar no papel a história de Javé. Munido de caderno e lápis começa a coleta dos depoimentos, lembranças e memórias referentes aos atos, fatos e gentes relevantes ao aparecimento e desenvolvimento do vilarejo.

A partir daí, o filme tange diversos e diferentes itens pertinentes e impertinentes à história, enquanto ciência e modo reconhecido de narrativa oficial.

Questões como oralidade histórica e história oral, valor histórico de monumentos e/ou documentos, como mencionaria Le Goffe, história popular versus história oficial, cultura material e cultura imaterial, bem como relevância e irrelevância de próceres, mitos e lendas na constituição da história estão entre os itens que o filme coloca em debate, direta ou indiretamente, enquanto Antonio Biá vai ouvindo múltiplas e diferentes versões dos narradores (da história) de Javé, as quais ele mesmo distorce, altera e reconstrói a partir da premissa que adota como orientação do seu registro: “uma coisa é o fato acontecido, outra coisa é o fato escrito”.

Por trás das narrativas, ora ingênuas, ora míticas, sempre desprovidas de erudição e quase nunca fundamentadas na verdade, o filme traz ao espectador uma visão muito lúcida e intrigante dos aspectos que constituem o verdadeiro patrimônio imaterial, representado pela cultura, nos seus diversos desdobramentos, como língua falada, religiosidade e fabulação, contrapondo esses aspectos à cultura dominante, moderna, marcada pela pseudoerudição, na qual legitima o direito de menosprezar e dominar formas ditas marginais e popularescas de cultura, remetendo-as ao ostracismo e ao esquecimento, simbolizados pelo fundo do lago que submerge o vilarejo.

Com a chegada do progresso e da modernidade, representados pela represa hidrelétrica e a consequente dispersão dos habitantes, a expectativa de fazer história e constituir patrimônio é substituída pelo apagamento da memória e pela morte material e imaterial de Javé.

Wagner Geribello é Consultor no Jornal da PUC-Campinas e Doutor em Educação

Cinema: O Homem da Terra

Por Wagner Geribello

O historiador e professor universitário, John Oldman, está de partida e convida a namorada e mais cinco colegas professores para uma reunião de despedida, na qual apresenta duas surpresas: uma garrafa de uísque da melhor qualidade, para irrigar o encontro e a revelação de que já conta 14 mil anos de idade e ainda não conheceu a velhice, nem a morte!

Começa assim O Homem da Terra, produção americana, de 2007, assinada por Richard Schenkman, protagonizada por um elenco reduzidíssimo (não mais que uma dezena de pessoas aparece em todo o filme) e tão desconhecido como o diretor, que sustentam um filme com a rara qualidade de fugir da mediocridade e a não menos rara sensibilidade de considerar como ativos os neurônios do espectador.

Teatro filmado, com toda a narrativa concentrada em três ambientes, O Homem da Terra é um dos poucos exemplares da cinematografia de todos os tempos que aborda, na mesma obra, temas científicos e religiosos, como pode comprovar uma rápida garimpada na Internet.

Pouco indicado para o público que associa à monotonia conteúdos reflexivos, o filme agrada adeptos do cinema que foge da mesmice e experimenta linguagens diferentes, como a valorização do diálogo como principal recurso narrativo.

Após servir o uísque e colocar a pauta da conversa, Oldman induz Harry, biólogo, Dan, antropólogo, Edith, literata cristã, Will, psicólogo e Art, arqueólogo, que veio para a reunião acompanhado de uma aluna, a trocar ideias sobre possibilidades e desdobramentos da sua revelação, classificada por todos como brincadeira, apesar de o historiador insistir na sua veracidade, por mais absurda que pareça.

O grupo entra em um jogo hegeliano de questionamento sobre amplitude, dimensão e (in)certeza do conhecimento científico, buscando lógica a partir de premissas absurdas. Da finitude biológica às interpretações do tempo, a conversa tangencia modos e meios que norteiam (ou desnorteiam) o entendimento que os seres humanos têm da realidade e de si mesmos, desde as suas origens, lembrando que a magia de um século, pode ser ciência no século subsequente e conhecimento jamais se descola da dúvida.

A divagação deságua na filosofia e entra pela religião, misturando saber e crença, ora interpretados como elementos complementares, ora dissociados em corpos antagônicos, que não podem ocupar o mesmo lugar, ao mesmo tempo, plagiando Arquimedes.

Baseado em suposições, premissas, propostas e teses, o diálogo aborda diferentes assuntos, tangencia diversas concepções do mundo e levanta pontos interessantes, como a formação do historiador, creditada mais à dedicação ao estudo que à possibilidade de viver e presenciar fatos e ocorrências da história.

Seja pelo valor do tema, ou pela concepção da forma, O Homem da Terra tem quase tudo do filme interessante, exceto o final, que o apego do diretor ao modelo hollywoodiano de história fechada prolonga além do ponto em que deveria terminar e força a rotulação do filme como ficção científica.

Mesmo assim, como O Homem da Terra está disponível no YouTube (com e sem legenda) e aproveitando o clima do colóquio sobre religião e ciência que polarizou a PUC-Campinas este mês, vale a pena experimentar.

A violência na telona: do desenho animado ao sadismo

Por Wagner Geribello

Nem mais, nem menos… no cinema, a violência não está além ou aquém da freqüência e intensidade em que existe na sociedade. Portanto, não há muita verdade nas teses e comentários que endereçam ao cinema dose exagerada na abordagem da violência. O que a sétima arte faz é reproduzir proporcionalmente, na tela, o que a sociedade produz sobejamente na realidade.

A História mostra que não demorou muito para a violência ocupar as telas, logo depois dos Lumiére apresentarem ao mundo a possibilidade técnica da imagem em movimento. A mesma História também mostra que o cinema multiplicou por muito o viés, o modo e o ângulo de tratamento da violência, percorrendo um leque amplo, que vai da incorporação direta (leia-se reprodução visual e sonora da violência) à crítica contundente, passando pela denúncia, pelo questionamento e até pela apologia.

Do “inocente” desenho animado em que a personagem enfia outra no moedor de carne, provocando risos divertidos da platéia infantil, até ensaios de sofisticado sadismo, usando e abusando da própria “metafísica” da violência (leia-se violência além da instância corpórea), como acontece na adaptação cinematográfica da peça de Edward Albee, Quem tem medo de Virginia Woolf (1966), dirigida por Mike Nichols, a violência encontrou e continua encontrando modos diversos para projetar-se na tela.

O cinema, assim como a sociedade, não escapa da violência/ Crédito: divulgação
O cinema, assim como a sociedade, não escapa da violência/ Crédito: divulgação

O cinema já visitou e continua visitando o exercício completo da violência. Do racismo à guerra, as causas da agressão humana às formas de vida, principalmente as semelhantes que, infelizmente, não são poucas, o cinema já encarou todas, incluindo desigualdade socioeconômica, antagonismo religioso e violência “da moda”, como o “bullying” (o próprio anglicismo uma violência ao idioma pátrio) que medra na escola, onde civilidade deveria ser a tônica, por definição. Faz parte da lista, ainda, o confronto político fundamentado no ódio, como a pequena burguesia brasileira tem expressado em rede social, grande imprensa, passeata, arruaça e micropanelaço no espaço gourmet.

Assim, como a sociedade não escapa da violência (em casa, no trânsito, na família, no logradouro público, no evento esportivo, no templo religioso), o cinema também não.

Todavia, também há posturas, protestos e polêmicas antiviolência, na sociedade e no cinema. São muitos os filmes focados na crítica, questionamento e negação da violência, incluindo obras antibélicas e pacifistas, como Limoeiro (Título original Lemon Tree, produção israelense de 2008, dirigida por Eran Riklis), bem como o questionamento da violência no cotidiano social (ver A onda, produção alemã de 2008, dirigida por Denis Gansel).

No extremo oposto ao pacifismo e para além da violência banalizada e gratuita, na qual o cinema americano é imbatível, a busca da legitimação (característica tão presente no violento como a brutalidade) também tem lugar na tela, como pode ser observada em A espada de Gideon (produção canadense de 1968, dirigida por Michael Anderson) que interpreta a violência desproporcional (para mais) como resposta mais adequada à violência original, engrenagem básica do mecanismo que condena a sociedade ao interminável ciclo de agredidos tornados agressores e vice-versa.

Assim, aproveitando o tema desta edição do Jornal da PUC-Campinas, fica o recado, aliás já conhecido dos cinemeiros, que, em todos os matizes, modos, formas e para todos os efeitos, a violência não é um item que a sociedade desconhece… nem o cinema.

Filme aborda transição para o imperialismo

Por Wagner Geribello

“Verdadeira aula de História”… assim começa um dos comentários sobre o filme Queimada, postado no site Adorocinema, ao que caberia acrescentar atualíssima.

Filme Queimada

Realizado em 1969, Queimada está entre os (poucos) filmes em que o tempo age como sobre o vinho, melhorando cada vez mais.

Assinado por um mestre inconteste da filmografia politicamente engajada, o italiano Gillo Pontecorvo e ambientado em uma ilha caribenha fictícia, que dá título ao filme, a obra recorre aos postulados mais fundamentais da análise histórica marxista para desvelar tramas e artimanhas da exploração que sustenta o modo de produção e a organização sócio-política genericamente classificados como Capitalismo, em especial nos termos da globalização contemporânea.

Marcando a passagem do colonialismo (dominação direta) para o imperialismo (dominação indireta), a narrativa traz Marlon Brando interpretando o aventureiro Willian Walker (andarilho não é só uma coincidência no perfil da personagem), enviado à ilha para fomentar rebeliões e derrubar o domínio português, estimulando o nacionalismo e a constituição como nação independente.

Manipulador habilidoso, Walker instiga a rebelião aliciando líderes e organizando grupos guerrilheiros entre a população escrava que sustenta a monocultura canavieira da ilha, promovendo, também, a substituição da exploração escravocrata pelo liberalismo, incluindo a mão de obra assalariada “livre”. A comparação das relações entre marido, esposa e prostituta, simbolizando patrão, escravo e empregado é um momento marcante do filme, atestando a incomparável habilidade narrativa cinematográfica de Pontecorvo no tratamento crítico de temáticas políticas.

Os escravos lutam, ganham, mas não levam. Walker convence a liderança negra que a conquista da liberdade não significa capacidade para governar. A burguesia branca assume o poder e os negros voltam à condição subalterna, com a substituição da opressão colonialista lusitana pela exploração imperialista britânica.

Parte da liderança negra retoma a luta, agora contra os novos opressores e Walker é enviado uma vez mais para Queimada, com a missão de caçar e exterminar o líder que ele mesmo criara.

A luta leva o caos e a miséria à ilha e as imagens apresentadas na tela nos remetem a outras estampadas na mídia contemporânea colhidas em nações como o Haiti, cuja história praticamente reproduz o roteiro do filme.

Seja como aula de história, seja como crítica política, seja, ainda, como obra de arte que desnuda a lastimável organização social que, até agora, conseguimos fazer, como seres humanos, Queimada faz parte daquela relação de filmes que leva o espectador a pensar criticamente a globalização, apesar de produzido muito antes do termo virar moda.

Cinema: Consciência Negra

Por Wagner Geribello

O registro dos feitos e desfeitos do ser humano mostra que raças diferentes quase sempre se estranham e muitas vezes se agridem, deixando cicatrizes profundas no tecido social. Por isso, não há tempo algum na História e nenhum lugar do Planeta isentos de conflitos étnicos.

Novata, em termos históricos, a civilização brasileira, simultaneamente, aglutinou e segregou raças distintas, demonstram pensadores como Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro, fazendo-se multirracial na constituição biológica e plurirracial na formação cultural, mas nem por isso vazia de preceitos distorcidos e preconceitos ostensivos, arraigados na (de)formação social da nossa gente.

Adotando a tonalidade da pele como principal fator de identificação racial, os exercícios sociais de segregação e integração, no mais das vezes, dividem o Brasil em negros e não-negros, adotando a dualidade como parâmetro de comportamento, seja quando adota medidas compensatórias, como a legislação sobre cotas raciais no ingresso universitário, seja no caminho oposto, como manifestações difamatórias observadas em eventos esportivos. Enfim, para o bem e para o mal, a sintonia racial no Brasil ainda é questão pendente, merecedora de atenção, reflexão, debate e análise.

Entre os compartimentos da organização social que se ocupam da temática, destaque para o espaço e o talento da arte, como demonstram quadros de Portinari, livros de Mário de Andrade, poesias de Castro Alves e músicas de Martinho da Vila, por exemplo. Nesse conjunto, o cinema tem um peso significativo, reunindo muitas e boas películas que projetam diferentes aspectos da questão racial.

Assim, considerando a recente comemoração da quarta edição (desde que virou lei) do Dia da Consciência Negra, em novembro, o Jornal da PUC-Campinas indica diversos filmes sobre relações raciais, incluindo ficção e documentários, pra gente pensar depois de assistir e debater depois de pensar.

CONFIRA:

“Barravento” (1962), Glauber Rocha.
“Congo” (1972), Arthur Omar.
“Em Compasso de Espera” (1973), Antunes Filho.
“O amuleto de Ogum” (1974), Nelson Pereira dos Santos.
“Xica da Silva” (1976), Carlos Diegues.
“O Poder do Machado de Xangô” (1976), Paulo Gil Soares.
“Cordão de Ouro” (1977), Antonio Carlos Fontoura.
“Tenda dos Milagres” (1977), Nelson Pereira dos Santos.
“Quilombo” (1984), Carlos Diegues
“Chico Rei” (1985), Walter Lima Jr.
“Jubiabá” (1987), Nelson Pereira dos Santos.
“Abolição” (1988), Zózimo Bulbul.
“A Negação do Brasil” (2000), Joel Zito Araújo.
“Brasil – uma história inconveniente” (2000), Phil Grabsky.
“Casa-Grande e Senzala” (2001), Nelson Pereira dos Santos.
“Milton Santos, pensador do Brasil” (2001), Silvio Tendler.
“Vista Minha Pele” (2003), Joel Zito Araújo.
“Filhas do Vento” (2004), Joel Zito Araújo.
“A Cidade das Mulheres” (2005), Lázaro Faria.
“Cafundó” (2005), Clovis Bueno e Paulo Betti.
“Casa de Santo” (2005), Antonio Pastori.
“Preto contra branco” (2005), Wagner Morales.
“Dança das Cabaças – Exu no Brasil” (2006), Kiko Dinucci.
“Atabaque Nzinga” (2007), Octavio Bezerra.
“Zumbi Somos Nós” (2007), Coletivo Frente 3 de Fevereiro.