Arquivo da categoria: cinema

PRIMEIRA GRANDE GUERRA

Por Wagner Geribello

Faz exatamente um século que as mais importantes potências (da época) envolveram-se na carnificina conhecida como Primeira Guerra Mundial ou Primeira Grande Guerra.

A barbárie, que medrou nos campos de batalha entre 1914 e 1918, serviu de tema para muitas e diferentes manifestações das artes plásticas, literatura, teatro e cinema, redundando em obras famosas, como “Adeus às Armas” (E. Hemingway), “Nada de Novo no Fronte” (E. M. Remarque) e outras não tão famosas, como “Johnny vai à Guerra”, mas nem por isso de qualidade inferior.

f1

Ao contrário de Hemingway, o autor de “Johnny vai à Guerra” é pouco conhecido, mas quem aprecia cinema já cruzou com seu talento. “Exodus”, “Spartacus” e “Pappillon” são alguns dos (bons)
filmes roteirizados por Dalton Trumbo, embora, nem sempre, seu nome apareça nos créditos. Perseguido pela praga macartista nos anos 1950, assim como centenas de outros roteiristas, foi acusado de “comunista” e impedido de trabalhar, obrigando-se a escrever sob pseudônimo ou repassar o crédito do seu trabalho para outras pessoas. Wood Allen fez um filme sobre o tema, chamado “Testa de Ferro por Acaso”, que termina com uma lista de roteiristas perseguidos; Dalton Trumbo lá está.

Trumbo escreveu o livro em 1939 e, ele mesmo, fez a adaptação e dirigiu a versão cinematográfica, em 1971, cinco anos antes de sua morte.

“Johnny vai à Guerra” foi a única investida de Trumbo como diretor, que resultou em uma jóia preciosa da cinematografia de todos os tempos.

f2

Respeitado no meio artístico e cinematográfico como intelectual de convicções fortes e coragem (foi convocado, mas não aceitou delatar ou incriminar colegas de trabalho perante o famigerado Comitê de Atividades Antiamericanas da Câmara de Representantes dos Estados Unidos, nos anos 1950), Trumbo teve muito apoio para realizar o filme. Atores como Jason Hobards e Donald Sutherland (que interpreta Deus) aceitaram integrar o elenco recebendo “cachês” simbólicos. Cineastas de peso, como o espanhol Luis Buñel, fizeram sugestões e estimularam o trabalho do diretor.

O resultado, uma obra prima, que pode ser comprada e/ou locada em DVD e está disponível gratuitamente na Internet; é um libelo pacifista. Narra a história (baseada em acontecimentos reais) de um jovem soldado voluntário americano atingido por uma granada, nos campos de combate europeus, durante a Primeira Grande Guerra. Braços e pernas decepados, rosto desfigurado, sem as faculdades da voz e da visão, o soldado é recolhido ao hospital. O roteiro é baseado nas lembranças da personagem e suas tentativas para estabelecer contato com médicos e enfermeiras, base para Trumbo desfilar devastadora crítica à guerra e seus promotores.

A cada sequência, mostrando sofrimento, dor e angústia do ser humano, Trumbo derruba balelas como patriotismo, liberdade, soberania, motivação religiosa e argumentos que tais, normalmente convocados por políticos, poderosos e insanos para legitimar conflitos armados.

Lançado no auge da destruição do Vietnã e dos vietnamitas pelos americanos, o filme ajudou pacifistas e pessoas sensatas, mundo afora, a desvendar o (verdadeiro) rosto sanguinário de Tio Sam e a exercer pressão para pôr fim àquela guerra. Nem os americanos, nem a humanidade aprenderam a lição. Foram guerrear em outros locais e continuam agindo belicosamente até hoje.

Por isso, o filme, que abomina a mais abominável criação humana, permanece atual, um século depois do início do conflito em que é ambientado, pois as guerras, infelizmente, continuam acontecendo.

Veja o filme na íntegra: 

Água na tela

CINEMA

A escassez nos reservatórios que abastecem grandes cidades da Região Centro-Sul e usinas hidroelétricas tem colocado a água nas manchetes e no debate público. Regime de chuva atípico e administração pública deficiente aparecem como vilões causadores do problema, cuja solução virá com a estação das águas e mais investimento público no setor. Todavia, a questão do abastecimento de água se espraia muito além das fronteiras brasileiras e incorpora variáveis mais críticas que regime de chuva e administração pública.

Atualmente, fatias significativas da população mundial padecem de escassez crítica, cenário que vai agravar-se com o crescimento vegetativo da população e aumento do consumo per capita que vem embutido na dinâmica da economia e nos conceitos de boa qualidade de vida. Futuristas de plantão apostam que a água será cada vez mais rara e cara. Gente como o “CEO” da Nestlé já deu o recado: “A água deve ser das empresas e os outros devem pagar por ela”. Frase alarmista? Infelizmente não. A Nestlé já tem projetos nesse sentido e não está sozinha no negócio. No mundo todo, em especial nas nações ricas, existem corporações gestando projetos para lucrar (muito) com a água.

Assunto sério, que tem agendamento inferior ao merecido no debate público, a questão merece mais atenção e conhecimento para evitar que a voracidade econômica suplante o desenvolvimento social, como já acontece com petróleo e transgênicos.

pag12-2Dois filmes encaram a questão da água e ajudam muito a entender o tema.

“A Corporação” (Mark Achbar) é um documentário canadense, lançado no Festival Internacional do Filme de Toronto, em 2003, que mostra como e porque as empresas se constituem em corporações e as dimensões do poder dessas instituições globais. Com muito detalhe e informação, parte do filme mostra a tentativa de privatizar e mercantilizar o abastecimento público de água na Bolívia, por corporações internacionais.

O mesmo tema aparece em “Até apag12-3 Chuva” (Iciar Bollain) ou “También La Lluvia”, no original espanhol. Com roteiro de Paul Laverty, a produção espanhola, de 2010, é um filme dentro de outro filme, mostrando uma equipe cinematográfica trabalhando em Cochabamba, Bolívia, em uma película histórica sobre a conquista espanhola. Enquanto trabalha como figurante, a população local resiste à tentativa de privatização da água (a mesma descrita no documentário citado) e acaba envolvendo, também, a equipe técnica e os atores. A produção, que conta com Luis Tosar e Gael Garcia Bernal no elenco, faturou uma razoável coleção de prêmios e citações em Festivais e Mostras, classificando-se como cinema da melhor qualidade.

As duas produções são fáceis de encontrar no mercado, existe muita informação sobre ambas na Internet e valem um bom debate acadêmico.