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Festejar é preciso!

Por Pe. João Batista Cesário, Coordenador da Pastoral Universitária da PUC-Campinas

No Brasil, o mês de junho é período das tradicionais “festas juninas”, que celebram alguns dos santos mais populares da tradição religiosa católica. A festa da memória do nascimento de São João Batista (24/6) foi associada, no imaginário religioso-popular, às festas de Santo Antônio (13/6) e de São Pedro (29/6), ambos muito presentes nas práticas devocionais populares, sempre lembrados e invocados nas mais diversas circunstâncias da vida.

Santo Antônio, ilustre santo português, foi muito cultuado pelos militares em Portugal e no Brasil colonial e imperial. No exército brasileiro, até o final do século XIX, Santo Antônio recebeu as patentes de soldado, alferes, sargento-mor, capitão de cavalaria e tenente-coronel. Foi também nomeado vereador em algumas localidades do país, segundo informa o antropólogo Luiz da Câmara Cascudo, no Dicionário do Folclore Brasileiro (1969). No entanto, Santo Antônio tornou-se muito mais conhecido como “casamenteiro e deparador [ou descobridor] de coisas perdidas”, como relata Rita de Cássia M. P. Amaral, em Festa à brasileira: significados do festejar no país que “não é sério” (Tese de doutorado em Antropologia, na USP, 2008). São Pedro, por sua vez, na religiosidade popular, tem o dom de fazer casarem as viúvas.

São João Batista, celebrado duplamente na liturgia da Igreja Católica, no nascimento (24/6) e na morte (29/8), é responsável por uma das maiores festas populares do Brasil. Na região Nordeste, especialmente, a festa de São João, síntese das festas juninas, ganha dimensões extraordinárias, de forma que nesse período, de acordo com a pesquisa de Rita de Cassia M. P. Amaral, ocorre uma espécie de refluxo migratório, com o retorno de milhares de pessoas que migraram para outras cidades e estados, a fim de participarem das festividades. As cidades de Caruaru, no Pernambuco – conhecida como capital do Forró – e Campina Grande, na Paraíba, são palcos das maiores manifestações, com a realização de vários dias e noites de festejos.

Todavia, com fogueiras, comidas e bebidas típicas, com dança da quadrilha e outras manifestações culturais populares, as festas juninas acontecem em todo o Brasil. Esses festejos, somados a outras festas religiosas e folclóricas que, ao longo do ano, mobilizam milhões de pessoas país afora, garantem ao Brasil a liderança na lista dos países mais festeiros do mundo, seguido por Itália, Portugal e Espanha basca.

Do ponto de vista antropológico, festejar é dimensão constitutiva do ser humano, e, no Brasil não é difícil constatar isso, uma vez que a festa sempre foi elemento definidor do modo de ser dos brasileiros. A festa tem o poder de ajudar a rememorar o passado, elaborar esperanças para o futuro e reunir forças para enfrentar as agruras do presente. Como afirma o teólogo Francisco Taborda, em Sacramentos, práxis e festa: para uma teologia latino-americana dos sacramentos (1990), “a verdadeira celebração se dá não fugindo da realidade de injustiça e opressão, mas reconhecendo-a e superando-a na esperança. Festa não é frivolidade, mas manifestação do mais profundo da vida”. À medida que a festa “tematiza a pessoa, sua existência, sua ação e sua práxis” (TABORDA), ela é capaz de “estabelecer a mediação entre a utopia e a ação transformadora” (AMARAL).

Na Bíblia encontram-se inúmeros relatos das festas que animavam a vida do Povo de Deus, celebradas para marcar momentos decisivos de sua trajetória, reafirmar sua identidade e assegurar seu projeto de vida. A Festa da Páscoa (Ex 12,1-28) fazia memória da libertação do período de escravidão no Egito; a Festa das Semanas, depois chamada Pentecostes, celebrava a alegria dos primeiros frutos colhidos e da vida nova na terra da liberdade (Ex 34,22; Dt 16,9-12); a Festa dos Tabernáculos recordava os quarenta anos vividos no deserto, quando o povo habitava em tendas (Lv 23,33-43). E, além dessas, havia ainda outras festividades que celebravam os momentos mais importantes e plenos de significação na história do Povo de Deus.

No Brasil, como na tradição bíblica, as festas populares, especialmente as juninas, revitalizam as comunidades, possibilitam estreitar laços de convivência e solidariedade e proporcionam lazer coletivo e sociabilidade gratuita, que envolvem as pessoas numa ciranda de fé e alegria.

É significativo que essas festas populares sejam celebradas justamente no início do inverno, tempo de provação e resistência. Ocorre que, como o ipê, árvore tipicamente brasileira que floresce no inverno, a festa também é uma forma de resistência aos sofrimentos, angústias e dores no inverno da vida. A festa é importante, porque reconecta a vida com a utopia. É como escreveu o poeta Tiago de Melo: “Faz escuro, mas eu canto, porque a manhã vai chegar!”.

Vivas a São João, São Pedro e Santo Antônio e muita alegria para toda a Comunidade Universitária nas festas juninas.

 

“O desenvolvimento é o novo nome da paz”

Por Sílvia Perez

A frase que intitula este texto não é nova, foi pronunciada há cinquenta anos pelo hoje Beato Papa Paulo VI, em uma das encíclicas mais importantes da Doutrina social da Igreja Católica, a Populorum Progressio, que significa O Desenvolvimento dos Povos. Este documento, inclusive, foi a inspiração para o Colóquio “Por uma Cultura da Paz, em Comemoração aos 50 anos da Encíclica Populorum Progressio, realizado nos dias 8, 9 e 10 de maio, na PUC-Campinas.

A conferência de abertura do evento foi proferida pelo Bispo Diocesano de São Carlos, Dom Paulo Cézar Costa, que reforçou a importância da encíclica que toma a desigualdade um ponto crucial. “Papa Paulo VI considerou que o desenvolvimento deve ser integral, do homem todo e de todo o homem, o desenvolvimento é fundamental para a paz. Passaram-se cinquenta anos, mas ainda existe grande diferença entre ricos e pobres, existe violência, guerras, pobreza, e para que haja paz é preciso haver justiça, quando não há relações justas, falta a paz”, explicou Dom Paulo.

Com o entendimento de que a paz só será possível a partir do desenvolvimento dos povos, o documento do Papa Paulo VI enfatiza a questão do diálogo. “Papa Francisco retoma a questão propondo a necessidade do diálogo entre os povos e da fraternidade entre as nações para a construção de uma sociedade mais equilibrada, porque a partir do diálogo é possível encontrar soluções”, destacou o Bispo.

O documento do pontífice que colocou a Igreja Católica em solidariedade com os países mais pobres do mundo há cinco décadas continua atual. “Em um mundo globalizado, a solidariedade também deve ser globalizada, inclusive com a percepção da solidariedade dos bens, visando a eliminação do desequilíbrio econômico e olhando para os mais necessitados”, reforçou.

O Colóquio “Por uma Cultura da Paz, em Comemoração aos 50 anos da Encíclica Populorum Progressio” foi organizado pelo Núcleo de Fé e Cultura da Universidade e aconteceu nos Auditórios Dom Gilberto e Cardeal Agnelo Rossi, ambos no Campus I da PUC-Campinas.

 

CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2017 FRATERNIDADE: BIOMAS BRASILEIROS E DEFESA DA VIDA “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2, 15)

Por Pe. José Antonio Boareto – Professor das Faculdades de Teologia, Publicidade e Propaganda, Administração, Educação Física e Artes Visuais da PUC-Campinas

Todos os anos, os bispos do Brasil convidam as comunidades católicas como também a sociedade a refletirem durante o período litúrgico conhecido “tempo da Quaresma” sobre uma temática que implica a necessidade de uma organização social em vista da realidade.

O tempo da Quaresma é um tempo forte de conversão e assim a proposta da Campanha da Fraternidade também é de uma mudança de mentalidade que se reflete em atitude. Tal consciência deve ser dolorosa capaz de ser sensível ao grito da terra e ao grito dos pobres.

Neste ano, a Campanha da Fraternidade traz como tema: Fraternidade: Biomas brasileiros e defesa da vida e lema: “Cultivar e guardar a criação” (Gn. 2, 15). Essa temática está em sintonia com a perspectiva assumida pela Campanha da Fraternidade Ecumênica do ano passado sobre o saneamento básico e ambas estão diretamente relacionadas com a encíclica social do Papa Francisco “Laudato Si’” sobre o Cuidado com a Casa Comum.

Na encíclica, o Papa Francisco propõe a necessidade de uma educação e espiritualidade ecológica que ajude a superar uma mentalidade de dominação e exploração da natureza e do ser humano para uma relação marcada pela ética do cuidado.

Interessante é ressaltar que o Papa Francisco frisa na encíclica que estamos diante de uma única crise socioambiental e não duas. Esta compreensão traz uma nova perspectiva e mesmo paradigma, chamado por ele na “Laudato Si’” de ecologia integral.

Quando compreendemos essa fundamentação, podemos entender o por que da preocupação dos bispos com estas temáticas que não tratam simplesmente de uma atenção ao meio ambiente, mas com toda a biodiversidade e sociodiversidade presente nos biomas brasileiros.

Por meio da Campanha da Fraternidade deste ano, os bispos, em sintonia com o significado profundo do tempo da Quaresma, convidam as comunidades e a todas as pessoas a uma conversão ecológica.

Os bispos querem demonstrar que é possível ao povo brasileiro redescobrir sua vocação de ser cultivador (cuidador) e guardador da criação e assim estabelecer nova relação filial e criatural com Deus Criador e de fraternidade com a natureza e o próximo em nosso país.

 

Coluna Pensando o Mundo: Trabalho infantil

Por Cristina Reginato Hoffmann e Miguel Augusto Nassif Travençolo

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) ocupa-se, desde 1998, com o propósito de efetiva abolição do trabalho infantil, para a promoção do trabalho decente, sendo a proteção da infância um dos fundamentos para a sua criação, em 1919. Já dentre as primeiras normas internacionais da OIT aparece a proibição do trabalho para menores de 14 anos nas indústrias, adotada no Brasil no final de 1935.

Antes disso, em 1891, houve a primeira norma no Brasil proibindo o trabalho para os menores de 12 anos nas fábricas da capital, salvo na condição de aprendiz, a partir dos 8 anos. A Constituição brasileira de 1934, primeira a regulamentar o trabalho, proibiu o trabalho para o menor de 14 anos.

A atual Constituição brasileira, de 1988, inicialmente proibia o trabalho para o menor de 14 anos, salvo na condição de aprendiz, texto alterado em 1998, passando a proibir o trabalho para o menor de 16 anos, salvo na condição de aprendiz, a partir dos 14 anos.

Nos anos de 2001 e 2002 foram adotadas, no Brasil, normas internacionais da OIT impondo a adoção de medidas que garantam a proibição e a eliminação das piores formas de trabalho infantil e o compromisso de seguir uma política nacional que assegure a efetiva abolição do trabalho infantil. Tais ações estão contidas no Plano Nacional de Emprego e Trabalho Decente, como parte da Agenda Nacional de Trabalho Decente, lançada em nosso país em 2006.

O trabalho infantil pode ser considerado um fenômeno de múltiplas causas e consequências, decorrente de um grave problema social. Produz efeitos nefastos e possui uma estreita ligação com a condição econômica das famílias. Muitos dos meninos e meninas que se encontram realizando alguma forma de trabalho infantil estão fora da escola, e suas famílias estão em situação de vulnerabilidade econômica e social.

Dentre as tarefas mais comuns que consideramos trabalho infantil destacamos o doméstico, a venda de doces, bolos e derivados nas esquinas e semáforos, bem como o recolhimento de latas, lixos e papelões, muitas vezes com produtos tóxicos, perigosos e cortantes, armazenados em locais públicos para despejo de lixos. No campo, o trabalho infantil continua acontecendo em lavouras, pecuária, agricultura, mineração e, inclusive, em carvoarias.

Os efeitos prejudiciais causados às crianças pela prática do trabalho infantil podem ser físicos, quando as crianças ficam expostas a risco de lesões físicas e doenças, e também psicológicos, podendo apresentar ao longo da vida dificuldades para estabelecer vínculos afetivos e sociais, afastando-se de pessoas de sua idade, e aumentando as chances de abandono escolar.

A OIT diz que para uma vida bem-sucedida o trabalho precoce nunca foi estágio necessário para a criança. Qualquer que seja o tipo de trabalho que a criança exerça, rotineiro ou não, as tarefas adequadas à sua idade serão prejudicadas, tal como explorar o mundo, apropriar-se de conhecimentos e exercer seu direito de desenvolver-se com dignidade, de ser criança.

Profa. Dra. Cristina Reginato Hoffmann é docente na Faculdade de Direito

Miguel Augusto Nassif Travençolo é aluno do 5o ano de Direito da PUC-Campinas

A Foto que ilustra esse artigo é de Marcello Casal Jr, da Agência Brasil.Brasil

Coluna Pensando o Mundo: Mal – Estar na inclusão: como (não) se faz

Por Ruth Maria Rodrigues Gare

 Você já deve estar achando que este é mais um livro falando de inclusão de pessoas com deficiência e provavelmente pensando: mais um livro defendendo a inclusão e toda aquela teoria, os problemas enfrentados pelos alunos com deficiência na escola, citação de documentos oficiais como Declaração de Salamanca, etc. Claro que conhecer todos estes documentos é muito importante e são imprescindíveis para a reflexão sobre os direitos dos alunos com necessidades educacionais especiais, e saber o que é discutido na comunidade acadêmica é muito produtivo, porém, um posicionamento responsável contribui para práticas mais promissoras, inclusivas e humanizadas nos contextos educacionais.

"Com certeza será uma leitura prazerosa onde os autores que contribuem com a obra vão desfilando diversos teóricos"_ Divulgação
“Com certeza será uma leitura prazerosa onde os autores que contribuem com a obra vão desfilando diversos teóricos”_ Divulgação

Não, este livro traz muito mais do que isso, o tema é a Inclusão sim, mas a brincadeira com a expressão “mal-estar” na verdade é a tentativa dos organizadores e dos seus autores de levarem o leitor a repensar de forma cuidadosa as questões de inclusão.

Ao refletir sobre o sujeito da inclusão, os textos apresentados o levarão para além dos estereótipos construídos nos discursos que emergem nas escolas pelas metanarrativas de professores e comunidade escolar, os dizeres do lugar comum.

Com certeza será possível compreender que imbricado no título Mal-estar na inclusão: como (não) se faz, o “não” revela a possibilidade de ver nas ações inclusivas o lugar ocupado pelos sujeitos protagonistas. Não se trata de invenções ou simples arcabouço teórico, mas de pessoas reais que de alguma forma, por meio de diferentes práticas de ensino-aprendizagem, conseguiram superar os desafios propostos pelos contextos educacionais e viveram momentos de transformações.

A obra está dividida em duas partes, na primeira os sujeitos enunciadores apresentam um posicionamento, segundo as próprias organizadoras, responsável e produtivo do ponto de vista da psicanálise; já na segunda parte, o olhar crítico trata da governamentalidade dos corpos.

Essa divisão deve-se ao referencial teórico, pois os artigos foram desenvolvidos à luz da perspectiva discursivo-desconstrutivista, segundo as organizadoras, numa possível interface com a psicanálise lacaniana.

Complicado!!!! Não!! Com certeza será uma leitura prazerosa onde os autores que contribuem com a obra vão desfilando diversos teóricos: BAUMAN, Z.; CAPOVILLA, F,C;  CORACINI, M.J.R.F; DELEUZE, G;  FREIRE, P;  ORLANDI, E.; FOUCAULT, M; FREUD, S; QUADROS, R.M;  SASSAKI, R.; SKLIAR, C.;  MANTOAN, M.T.E;  VIGOTSKY, L.S;  entre outros, a lista é grande, mas, muito rica. São 14 artigos que se harmonizam no sentido de mostrar abordar a inclusão como dispositivo biopolítico da governamentalidade em nome de uma causa democrática.

As organizadoras do livro, a professora Drª Márcia Aparecida Amador Mascia da Universidade São Francisco, atua no curso de Pós-Graduação Stricto Sensu e sua pesquisa gira em torno das questões de ensino-aprendizagem de línguas para ouvintes e surdos, em diferentes contextos educacionais. Problematiza os modos de subjetivação e identificação dos sujeitos no mundo contemporâneo. A professora Elzira Yoko Uyeno professora da Unitau produzia (faleceu antes da publicação do livro em 2014) com pesquisas no eixo temático: exclusão e resistência (Unicamp). A Juliana Santana Cavallari (Fatec) possui como temas de pesquisa práticas discursivo-pedagógicas, avaliação, análise de material didático de língua estrangeira, práticas inclusivas, tradução e modos de subjetivação.

O livro que Mal-Estar na Inclusão: como (não) se faz, foi publicado pela Editora Mercado de Letras em 2014 e pode ser encontrado nas melhores livrarias a um preço bem acessível. São 360 páginas de um material, denso, sério e atualizado, com uma prática repensada em múltiplas dimensionalidades.

Você, caro leitor, está convidado para essa leitura que com certeza revelará singularidades da inclusão que o ajudarão a percebê-la como substância e não apenas forma, como possibilidade real e com responsabilidade.

Boa leitura !!

Prof.ª Drª Ruth Maria Rodrigues Gare é docente no curso de Letras da PUC-Campinas

 

 

Coluna Pensando o Mundo: Campanha da Fraternidade 2016

Por Pe. João Batista Cesário

“Casa Comum, Nossa Responsabilidade” é o tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica deste ano, animada pelo lema retirado de um versículo da profecia de Amós: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça como riacho que não seca” (Am 5,24). Ecumênica, esta Campanha é organizada pela quarta vez pelas Igrejas que integram o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil – CONIC -, precedida pelas Campanhas de 2000, 2005 e 2010.

O objetivo geral desta Campanha é garantir o direito ao saneamento básico para todas as pessoas e comprometer os cristãos, à luz da fé, no empenho por “políticas públicas e atitudes responsáveis que garantam a integridade e o futuro de nossa Casa Comum” (Texto Base CF-2016, n. 26). Dentre os objetivos específicos destacam-se os propósitos de “unir Igrejas, expressões religiosas e pessoas de boa vontade na promoção da justiça e do direito ao saneamento básico; estimular o conhecimento da realidade local em relação aos serviços de saneamento básico; incentivar o consumo responsável dos dons da natureza, principalmente da água; […] acompanhar a elaboração e a execução dos Planos Municipais de Saneamento Básico; […] [e] desenvolver a compreensão da relação entre ecumenismo, fidelidade à proposta cristã e envolvimento com as necessidades humanas básicas” (Id.).

O debate acerca do saneamento básico, proposto para a sociedade pelas Igrejas cristãs envolvidas nesta Campanha, se justifica porquanto, atualmente, “as preocupações no âmbito do saneamento passam a incorporar não só questões de ordem sanitária, mas também de justiça social e ambiental” (Ibid., n.33). E tudo que interessa à vida humana, de igual forma deve interessar à comunidade cristã. Afinal, como ensina o Concílio Vaticano II, as alegrias, esperanças, tristezas e angústias da humanidade, sobretudo dos pobres e daqueles que sofrem, são também as alegrias, esperanças, tristezas e angústias dos cristãos, de forma que não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no coração da Igreja de Cristo (Cf. Gaudium et Spes, n. 1).

Com efeito, alguns dados acerca das condições de saneamento no Brasil são alarmantes. Senão vejamos: de acordo com levantamento do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento Básico (SNIS), de 2013, mais de 100 milhões de brasileiros ainda não têm coleta de esgotos nos locais em que moram; somente 39% dos esgotos coletados são tratados; e diariamente são despejados na natureza o equivalente a 5 mil piscinas olímpicas sem tratamento – a depender da profundidade, uma piscina olímpica comporta aproximadamente 2.500m3 de água! (Cf. Texto Base CF-2016, n. 40)

Além disso, de acordo com o sistema de informações do Ministério da Saúde, DATASUS, em 2013 foram registradas mais de 340 mil internações no país causadas por infecções gastrointestinais, decorrentes das precárias condições de saneamento a que boa parte da população brasileira está submetida.  Em 2014, de acordo com estudo do Instituto Trata Brasil e do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, cerca de 300 mil pessoas se afastaram do trabalho por conta de diarreias resultantes da baixa qualidade do saneamento básico disponível à população, o que implicou a perda de 900 mil horas de trabalho (Ibid. n. 42.97). As crianças são as maiores vítimas da falta de saneamento, uma vez que “substâncias tóxicas e bactérias provocam alergias respiratórias, nasais, intestinais e de pele que vão permanecer com essa criança por muito tempo. As crianças mais afetadas são aquelas que têm entre 0  e 5  anos” (Ibid. 99).

A Palavra de Deus nos ensina que a natureza e todos os elementos criados são dons de Deus e a humanidade é responsável por sua preservação, de forma a garantir o bem comum, a vida abundante para todos. Os profetas bíblicos, como Amós e outros, denunciam a perda da harmonia e do equilíbrio nas relações dos homens com Deus, dos homens entre si e destes com a natureza. Na perspectiva profética, direito e justiça é recolocar as coisas no devido lugar, restaurar a integridade da criação segundo o projeto original de Deus.

Por isso, nesta Campanha, as Igrejas cristãs nela comprometidas, desejam reacender no coração da sociedade o empenho pelo cuidado da criação, como responsabilidade decorrente da fé. Atitudes bem concretas são propostas, como conhecer bem a realidade do saneamento nas cidades em que habitamos; promover educação para a sustentabilidade; conhecer as estruturas legais existentes para poder participar efetivamente do encaminhamento das questões do saneamento; adotar o reuso da água e a utilização da água da chuva; cuidar do manejo dos resíduos sólidos, entre outras.

Enfim, como se canta no Hino da CFE deste ano, “justiça e paz, saúde e amor têm pressa / mas, não te esqueças, há uma condição: / o saneamento de um lugar começa / por sanear o próprio coração”. Trata-se, então, de promover grande mudança de perspectiva na sociedade, de romper com o egoísmo  individualista, para retomar o caminho da solidariedade e do compromisso com o bem comum, do interesse coletivo, da solidariedade comunitária, para garantir direito, justiça e vida para todos!

Pe. João Batista Cesário- Pastoral Universitária

Coluna Pensando o Mundo: JUBILEU DE DIAMANTE

 

Por Wagner Geribello

Caracterizado pelo brilho inigualável, tonalidades diversas, refração da luz branca nas cores do arco-íris, disposição peculiar dos átomos de carbono que o tornam mais compacto e resistente que qualquer outra matéria natural, a pedra que só pode ser riscada por outra similar faz jus à máxima de que “o diamante é para sempre” e, portanto, escolhido para simbolizar a longevidade e a consistência das instituições que atingem o jubileu dos 75 anos de atividades.

Em 2016, a Pontifícia Universidade Católica de Campinas vai comemorar seu Jubileu de Diamante, reunindo muita história de sucesso para ser contada e outro tanto de entusiasmo para o tempo que sucede essa comemoração.

A PUC-Campinas nasceu ousada e inovadora, plantando em Campinas a semente do ensino superior quando essa atividade era escassa no Brasil e praticamente um monopólio das capitais estaduais.

Em 1941, docentes e funcionários da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras ocuparam o casarão da Rua Marechal Deodoro, antiga residência da família Souza Aranha, para receber 233 candidatos ao processo vestibular dos Cursos de formação de professores.

Desse passo inicial, até os dias de hoje, quando milhares de alunos frequentam dezenas de Cursos e Programas de Graduação e Pós-Graduação, em três campi, a PUC-Campinas escreveu páginas e inscreveu conquistas na história da educação brasileira, incluindo a representativa cifra de 160 mil alunos formados.

Quando uma instituição atinge essas marcas, nada mais esperado que um período de comemoração, que abra espaço para resgatar em detalhes, relembrar com afeto e divulgar com entusiasmo essa história de conquista e sucesso. Para isso, está em preparação um calendário amplo e variado de eventos que farão de 2016 um ano especial na PUC-Campinas, envolvendo toda a comunidade acadêmica.

Diretamente envolvido com a comemoração do Jubileu de Diamante, o Jornal da PUC-Campinas vai dedicar espaço para divulgar e registrar eventos e acontecimentos referentes à data, mas vai, também, contribuir diretamente para o resgate histórico da Universidade e das pessoas a ela relacionadas, abrindo espaço permanente para efemérides, matérias, entrevistas e artigos que aproximem a comunidade acadêmica atual do passado e do presente da Universidade.

Nesta edição temática do Jornal da PUC-Campinas, dedicada à ciência, o resgate histórico assinala o momento em que a Instituição começou sua produção científica formal, com a implantação do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Psicologia.

Período de transição, marcado por profundas reformas na constituição e organização da atividade universitária no País, a entrada na década de 1970 registrou uma série de mudanças na então Universidade Católica de Campinas, a mais significativa delas ocorrida em 8 de setembro de 1972, por força do Decreto Sacra Congregatio pro Institutione Catholica, constituindo a Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

Esse período foi marcado, também, pela consolidação da pós-graduação stricto sensu nas universidades brasileiras, que além do Ensino e da Extensão assumiram com mais intensidade o terceiro elemento constitutivo do tripé das competências universitárias, a Pesquisa.

A PUC-Campinas, uma vez mais, esteve entre as primeiras Instituições Particulares de Ensino Superior localizadas fora das capitais de Estado a investir na pós-graduação, instituindo o Mestrado em Psicologia. No ano seguinte, iniciativa similar foi aplicada à área de Linguística e, antes do fim da década, em 1977, a pós-graduação stricto-sensu chegou à Biblioteconomia e à Filosofia.

A criação desses Programas consolidou a produção científica na Universidade que, atualmente, oferece programas completos (mestrado e doutorado) em diversas áreas do conhecimento. Esse movimento de ampliação e consolidação da pós-graduação implicou o aprimoramento da titulação do corpo docente, instalação de laboratórios e áreas específicas para atividades de pesquisa, além de inserir a Universidade no ambiente de pesquisa, incluindo habilitação para participar de editais das agências governamentais de fomento, com acesso a verbas e bolsas de pesquisa.

Assim, no Jubileu de Diamante, a PUC-Campinas comemora não só inegável contribuição ao Ensino, como também se coloca como importante polo gerador de conhecimento no cenário brasileiro.

Prof. Dr. Wagner Geribello é Consultor do Jornal da PUC-Campinas

 

 

Coluna Pensando o Mundo: Rui Campos, da Geografia

Por Juleusa Maria Theodoro Turra

Despojamento e rigor; estas palavras procuram relembrar, ou apresentar, a pessoa e o professor Rui Ribeiro de Campos ( 1948-2015).

Nascido em Piquete, Vale do Paraíba paulista, chegou a Campinas para estudar, cursando Filosofia nesta PUC-Campinas entre os anos de 1967 e 1970.

Ao relatar este período, em depoimento à Revista Série Acadêmica, número 21, Especial Licenciaturas , Rui Campos nos contou :

Nos tempos de estudante, pelo horário do curso superior que fazia (era vespertino), era difícil arranjar emprego, exceto algumas aulas. Com a minha situação econômica apertadíssima, apareceram aulas de Geografia em um curso supletivo. Aliás, poderiam ser aulas de História, Português ou outra disciplina. Na situação em que me encontrava tentaria qualquer uma.

A chegada à Geografia foi uma circunstância, mas o tema da ‘aula-teste’ foi uma escolha: Subdesenvolvimento.  Entre 1973 e 1976 está Rui Campos cursando Licenciatura em Geografia, na turbulenta passagem do curso de Estudos Sociais (Licenciatura Curta) para a Licenciatura Plena.

A situação econômica apertadíssima não foi esquecida: o despojamento, como o desapossar-se, marcou sua trajetória: sempre o mínimo necessário, sem consumismos, sem modismos.

Não viajou de avião, tampouco compareceu a eventos enquanto os filhos eram novos: evitava despesas e a possibilidade de se acidentar. Protegia os filhos e os criava para o mundo.

O rigor.  Rigorosamente prepara as aulas, as revia, trabalhava o texto e produzia um material para estudo dos alunos; não perdia a pontualidade e não permitia que outros o fizessem. Algumas destas aulas geraram capítulos de sua dissertação de Mestrado (cursado na Educação da PUC-Campinas entre 1993 e 1997) e da tese de Doutorado (Unesp entre 1999 e 2004). Mais recentemente geraram ou inspiraram capítulos de seus livros.

Sobre as aulas, manifestou-se no depoimento já mencionado:

 […] elaborar o material trabalhado em sala de aula e me realizar na principal tarefa da atividade de ensino: proporcionar o pensar a partir do conteúdo proposto […]

 Proporcionar o pensar. Para tanto, Rui que adorava as palavras, o que o fazia adorar letras de músicas. Recuperava expressões, substituía outras expressões e procurava surpreender. Seus ex-alunos souberam sobre os conflitos na Ásia Ocidental, ouviram e anotaram exemplos das intervenções dos estadunidenses na América Central e Caribe.  Puderam compreender a exploração de recursos naturais. Também receberam ensinamentos de Potamologia.

Com igual persistência procurou conhecer, minuciosamente, autores que não tinham grande circulação e que, por esta razão, ofereciam possibilidades para pensar sobre suas vidas e produções, pensar a geografia e a liberdade.  Em Angra dos Reis, na Universidade Federal Fluminense, pode desenvolver as suas disciplinas de forma autoral, retomando seus temas e autores queridos. Lá faleceu e conhecemos o quão foi cativante, sendo nome do Centro Acadêmico.

A persistência, até mesmo a intransigência, foram condições de, com suas armas – a palavra e o exemplo pessoal – levar em frente o que foi quase uma missão: proporcionar e provocar o pensar e não deixar ao esquecimento o que foi a ditadura, que marcou o início de sua vida adulta e o impediu de estudar tudo o que queria ou necessitava.

Um pouco disto está na dedicatória do seu livro Breve História do Pensamento Geográfico Brasileiro, lançado em 2011: a todos os que resistiram, não importando a maneira,  nas ditaduras e ainda perseguem seu  ideal por uma sociedade mais justa.

Prof. Dra. Juleusa Maria Theodoro Turra, docente no curso de Geografia, Turismo e Engenharia Civil

Coluna Pensando o Mundo: Homenagem a Nair Fobé

Poema  favorito da Professora Nair Fobé fala sobre escolhas que fazem a diferença

Por Profa. Dra. Maria de Fátima Amarante- Diretora do Curso de Letras

No dia 3 de julho de 2015, a PUC-Campinas se despediu da Professora Nair Leme Fobé. Docente da Faculdade de Letras por 45 anos, Mrs. Fobé deixou grandes lições de ensinar e traduzir.

Para honrar sua memória, publicamos seu poema favorito. Mrs. Fobé sempre o declamava para incentivar os alunos a refletirem sobre suas escolhas pessoais e profissionais, enfatizando, com o poeta, que tomar a estrada menos percorrida é que faz toda a diferença. A professora Nair Leme Fobé, ao escolher educar, certamente fez a diferença na vida de seus alunos e, por meio deles, continuará a fazê-lo.

“Duas estradas se abriam em um bosque, e eu Tomei a menos trilhada”/ Crédito: Divulgação
“Duas estradas se abriam em um bosque, e eu
Tomei a menos trilhada”/ Crédito: Divulgação

 

Tradução: A estrada não trilhada

Duas estradas se abriam em um bosque amarelado/ E sentindo não poder ambas percorrer/ Sendo um só viajante, por muito tempo me detive/ E observei uma até quão longe pude/ Até onde, na vegetação, ela se curvava.

Então olhei a outra, tão boa quanto a primeira,/E tendo talvez o melhor apelo,/Por ser gramada e ansiar por uso;/Apesar de o trilhar de ambas/Ter  sido quase o mesmo.

E, naquela manhã, em ambas igualmente jaziam/ Folhas que passo algum pisara./Ó, deixei a primeira para outro dia!/Mas, como um caminho leva a outro,/Duvidei de que algum dia ali voltaria.

Com um suspiro isto direi/Em algum lugar em um futuro distante: Duas estradas se abriam em um bosque, e eu Tomei a menos trilhada/ E isto fez toda a diferença.

 Abaixo, segue a seleção de algumas manifestações de alunos e ex-alunos da Profa Nair, nas redes sociais:

 You will eternally live through the language you so carefully taught to hundreds and hundreds of us. May you always speak through us. Daniel Paula

Depois de 45 anos de PUC-Campinas, muitos ex-alunos devem estar se sentindo como eu, meio sem saber como fica o mundo sem a Fobé. Espero que cada um deles lembre-se de uma de suas tiradas afiadas ou de uma de suas aulas, para que ela fique entre nós mais um pouco e ganhe seu lugar entre as figuras míticas, onde só quem é inesquecível consegue estar. Obrigada, querida Fobé. Que falta você fará! Júlia de Almeida

Mrs. Fobé, sem delongas, MUITO obrigada. Obrigada pela paixão, pela paciência, pelas piadas, pelos puxões de orelha, pelo zelo, pelo carinho, por ser sido você. Graças à senhora, hoje leio obras da literatura inglesa sem medo, mas com prazer. Tenho minhas histórias particulares com a Mrs. Fobé e, com elas, seguirei feliz, pois tive o prazer de ter vivido ao lado dessa grande personalidade. Sua alma será eterna em nossos corações. “O que temos para hoje é saudade.” Brysda Rocha

Uma perda muito grande! A Fobé não só me ensinou, mas me fez apaixonar pela língua e por ensinar. Um exemplo que sempre carregarei no meu coração! Vai fazer MUITA falta! Débora Dutra

 Ouvi falar sobre a fama da Fobé antes mesmo de entrar na PUC-Campinas pela excelente profissional que ela era. Não tive a oportunidade de tê-la como minha professora, o que sempre foi meu maior desejo. Mas ela foi muito mais do que isso. Ela foi uma grande amiga. Que o Espírito Santo console a família e amigos desse fenômeno incomparável e inigualável chamado Fobé! Márcio José