Arquivo da categoria: jp160-2015

EDITORIAL: A velocidade com que a violência se impõe

O conceito do brasileiro cordial já rendeu muito “pano pra manga”, na Academia e fora dela, começando pela paternidade, que uns atribuem ao escritor santista Ribeiro Couto e outros ao historiador Sérgio Buarque de Holanda.

Entretanto, independentemente da origem, teses, propostas, ensaios e muito palpite já permeou conversas e textos exaltando ou questionando a cordialidade da gente brasileira, com sensível acréscimo das dúvidas e desconfianças nos tempos atuais, quando a violência praticamente sufoca anseios ou esperanças de relações sociais baseadas na gentileza.

Ciente e consciente da intensidade e velocidade com que a violência se impõe entre nós, a equipe do Jornal da PUC-Campinas abriu espaço para manifestações de alunos e professores sobre o tema, expresso nas reportagens, artigos e entrevistas desta edição, inteiramente voltada para a reflexão sobre a violência.

Tematizada na violência e mais precisamente na violência que existe mais próxima de todos nós, vale dizer, no Brasil de hoje, a edição traz artigos que tratam da banalização da violência, matérias sobre a agressão física e psicológica que permeia o trote universitário, passando pelo questionamento das pessoas e instituições que usam e abusam da violência, quando deveriam atuar em sentido inverso, como a polícia e profissionais do Poder Judiciário. Para embasar reflexões e questionamentos sobre essa temática, a edição também traz excelente entrevista sobre ética e moral.

Nesta edição, reportagens e artigos que abordam a temática da violência, mostram o comércio de armas, as conseqüências da imprudência no trânsito e os distúrbios de ordem emocional causados pela exposição ou convivência com a violência.

Ações antiviolência também integram o conteúdo da edição de abril/2015, incluindo matéria sobre a Pastoral Carcerária na Região de Campinas, mostrando como e porque os voluntários decidem enfrentar a questão, convivendo – e ajudando – grupos sociais envolvidos com a violência. De quebra, a matéria ainda deixa um recado esclarecedor para pessoas que atribuem à Pastoral Carcerária a questionável missão de “alisar a cabeça” de indivíduos que, de alguma forma, violentaram a sociedade.

Formas de violência dissimuladas, mas, nem por isso, menos predatórias, também integram o elenco de matérias, como o racismo e agressão contra formas de vida que não podem reclamar quando são violentadas, como as florestas, dizimadas pela sanha das motosserras à razão de muitos hectares ao dia. A resposta, mostram estudos e análises, também é violenta: por conta da falta de florestas, crises hídricas contínuas e crescentes ameaçam a geração de energia, o abastecimento dos aglomerados urbanos e a produção de alimentos.

No comentário de cinema, uma proposta de reflexão sobre relações de causa e efeito entre a imagem na tela e o comportamento social. Afinal, cinema estimula a violência social, ou a sociedade estimula a crescente inserção de violência no cinema?

O tema desta edição, sabemos todos, não é bonito, nem agradável, mas o primeiro passo para recobrar e fazer valer a sociedade de homens cordiais, que ilustra o capítulo V do clássico Raízes do Brasil, é encarar a violência e agir para acabar com ela.

Vai aqui, portanto, uma edição do Jornal da PUC-Campinas que pretende deflagrar reflexões e estimular (re)ações.

PUC-Campinas Informa

Colóquio “A identidade da Universidade Católica: em comemoração aos 25 anos da Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae

A PUC-Campinas recebe nos dias 6 e 7 de maio de 2015 o Colóquio A identidade da Universidade Católica: em comemoração aos 25 anos da Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae”, que contará com a presença do Prefeito da Congregação para a Educação Católica, sua Eminência Reverendíssima Cardeal Zenon Grocholewski. O evento é organizado pelo Núcleo de Fé e Cultura da Universidade e será realizado no auditório Dom Gilberto, no Campus I da PUC-Campinas.  As inscrições para o Colóquio podem ser feitas até o dia 4 de maio de 2015, pelo site da Universidade.  A emissão de certificados de participação será realizada mediante a inscrição e participação no evento.

No dia 9 do mesmo mês, o Cardeal Zenon Grocholewski celebrará uma missa na Catedral Metropolitana de Campinas

Fique por dentro do Jornal da PUC-Campinas

 Se você quer acompanhar em primeira mão o conteúdo produzido mensalmente pelo Jornal da PUC-Campinas, cadastre-se em nossa mala direta e receba em seu e-mail as reportagens sobre ciência, tecnologia, política, economia e cultura, além de artigos dos professores da Universidade que estão sempre refletindo sobre os assuntos em pauta no Brasil. O castro para a mala direta está disponível no lado direito do computador, na página principal do Jornal da PUC-Campinas

Projeto capacita cooperativas de coleta seletiva

 O projeto de extensão da PUC-Campinas ambiciona a profissionalização das cooperativas de catadores assessoradas pelo Centro de Referência em Cooperativismo e Associativismo (CRCA)/RECICLAMP por meio da elaboração de um Plano de Negócios, com vistas a garantir a evolução do negócio e sua sustentabilidade. Atualmente, estão associadas à RECICLAMP (além da própria) as cooperativas: Antônio da Costa Santos, DiviPaz, Projeto Reciclar, Recoopera, São Bernardo e Unidos pela Vitória.  Ao todo, são cerca de 150 pessoas trabalhando nas cooperativas.Em termos socioeconômicos, as receitas líquidas geradas – deduzidos os custos e encargos – proporcionaram uma renda média mensal em torno de R$ 710.

Apesar de representar um ganho para muitos dos cooperados, havia a percepção entre o CRCA/RECICLAMP e os cooperados que essa realidade poderia ser melhorada com o desenvolvimento de um Plano de Negócios. As atividades propostas acontecem por meio de oficinas temáticas que associam os elementos do Plano de Negócios as questões e situações experimentadas pelas cooperativas. Saiba mais, clicando aqui. 

 Urbanista Raquel Rolnik na PUC-Campinas

 A filósofa e urbanista Raquel Rolnik realizou palestra sobre o tema “Direito à cidade: Porque nossas cidades continuam tão precárias?”, no dia 16 de março de 2015. O evento fez parte do Ciclo de Palestras do Programa de Educação Tutorial (PET) da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Durante o evento, Raquel ressaltou ser preciso que os arquitetos e urbanistas presentes se inclinassem sobre questões como o acesso à cidade enquanto direito de todos e a visão política sobre a cidade. Raquel Rolnik graduou-se em Arquitetura e Urbanismo e Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), onde atualmente faz parte do corpo docente. Realizou o Mestrado também pela USP e o Doutorado pela New York University (NYU) e fez parte do corpo docente da FAU da PUC-Campinas entre os anos de 1985 e 2007. Foi Diretora de Planejamento da Cidade de São Paulo (1989-1991), além de relatora especial do Conselho de Direitos Humanos da ONU para o Direito a Moradia Adequada (2008-2011 e 2013-2014).

Espaço Pró-Reitoria de Administração

Segura é assunto sério

4-banner2-jornal-site-pucc-2014

Por Pró-Reitoria de Administração

Para contribuir para a segurança nos campi, a PUC-Campinas dispõe de corpo de segurança próprio composto por Vigias e Inspetores de Alunos que atuam nos campi em postos fixos ou móveis. Em complemento às atividades, são utilizadas motocicletas e automóveis com identificação visual e luminosa.

 Todos os integrantes do serviço recebem treinamento rotineiro que tem como objetivos principais o adequado atendimento ao público, a atuação preventiva por meio da ostensividade, a orientação à Comunidade Interna e a garantia de ambientes seguros.

Como equipamentos auxiliares, a Universidade dispõe de modernos aparelhos de rádiocomunicação e de sistema de câmeras de monitoramento, controlados por uma Central de Emergência, cuja intervenção pode ser solicitada pelo telefone 3343-7387. Registre-se, também, o constante relacionamento com os órgãos de segurança pública para a atuação nos ilícitos que ocorrem na área externa da Instituição. Nesse sentido, a Universidade faz-se representar nas reuniões mensais dos Conselhos de Segurança Comunitária, Integrado de Polícia e de Trânsito e Transportes.

A Pró-Reitoria de Administração é responsável pela Segurança nos campi/ Crédito: Álvaro Jr.
A Pró-Reitoria de Administração é responsável pela Segurança nos campi/ Crédito: Álvaro Jr.

Vale lembrar que segurança é dever de todos, daí seguem algumas dicas para a Comunidade Interna:

 – mantenha os objetos pessoais sob sua guarda;

– estacione seu veículo nos bolsões internos e nas vagas demarcadas para tal;

– respeite a sinalização de trânsito interna;

– dê preferência para os pedestres;

– respeite as restrições da Lei Antifumo e das normas internas;

– utilize caixas eletrônicos em locais que tenha movimento de pessoas;

– transite em grupo na área externa da Universidade;

– não porte, ostensivamente, objetos ou valores;

– denuncie ilícitos pelo telefone 3236-3040 e utilize a opção do registro eletrônico de ocorrências pelo site da Secretaria de Segurança Pública.

Espaço Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários

3-banner2-jornal-site-pucc-2014

Cursos de Extensão têm maior adesão dos últimos quatro anos

 Por Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários

 Encerraram-se, no dia 6 de março, as inscrições dos Planos de Trabalho de Extensão a serem desenvolvidos por alunos bolsistas no ano de 2015. A boa notícia é que foram feitas 83 inscrições, o maior número dos últimos quatro anos, relacionadas aos Projetos de Extensão dos docentes dos cinco Centros da Universidade.

 O resultado do processo seletivo será divulgado no dia 31 de março, com início das atividades em 1º de abril. Serão concedidas 60 bolsas com valor de R$ 400,00 (quatrocentos reais) para dedicação de 24 horas semanais.

 Outras informações sobre os Projetos de Extensão institucionais da Universidade podem ser consultadas aqui. 

Espaço Pró-Reitoria de Graduação

Informações sobre a disciplina que está cursando? Consulte o Plano de Ensino da Disciplina

Por Pró-Reitoria de Graduação

O aluno pode visualizar o Plano de Ensino das Disciplinas que estão sendo cursadas acessando na Área Logada do Aluno, clicando em Acadêmico (no rodapé). Na opção “Informativo Acadêmico” deve ser selecionado o link “código da disciplina”.

O Plano de Ensino da Disciplina é um documento elaborado pela Faculdade com a participação dos professores e do Núcleo Docente Estruturante e aprovado pelo Conselho de Faculdade e Pró-Reitoria de Graduação (PROGRAD). Ele contém a ementa, os objetivos específicos, a avaliação do processo de aprendizagem e estratégias de recuperação, a bibliografia (básica e complementar) e o conteúdo programático.

PROGRAD-m

 Manual do Aluno da Graduação

Informações e orientações sobre o Calendário Acadêmico, Matrícula, frequência, infraestrutura, telefones, bibliotecas, entre outras.  Este manual, destinado aos alunos dos cursos de Graduação (Bacharelados, Licenciaturas e Superiores de Tecnologia) e sequencial da PUC-Campinas, contém informações importantes para a vida na Universidade, e responde a muitas questões do cotidiano que o discente deve conhecer, desde o seu ingresso na PUC-Campinas. Ele permite ao aluno a tranquilidade de vivenciar a Universidade ao conhecer adequadamente seus direitos e deveres. O Manual do Aluno da Graduação está disponível na Área Logada do Aluno, clicando em Documentos.

Coluna Pensando o Mundo: Cultura de Paz

Campanha da Fraternidade 2015 – “Eu vim para servir” (cf. Mc 10,45)

O cartaz da Campanha da Fraternidade que, por tantas vezes, foi idealizado segundo a temática própria de cada ano pela PUC-Campinas, traz, neste ano, a conhecida imagem do Papa Francisco realizando a cerimonia do lava pés, na quinta-feira Santa. A comovedora imagem do Papa que lava os pés de menores reeducados e que nem sequer, por motivos de segurança, puderam mostrar seu rosto, nos transmite não só o memorial litúrgico da Semana Santa, mas a laboriosa observância do mandado recebido do Senhor: Vós me chamais Mestre e Senhor e dizeis bem, porque eu o sou. Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também (Jo 13, 13-15).

Curiosamente, a palavra de Jesus ainda ecoa contraditória num tempo tão marcado por violências, desencontros e eufemismos vazios. Numa massificada cultura da prosperidade sem limites, na qual cada um quer ter a resposta final em tudo, o que vale mais será o resultado financeiramente visível. Nesse contexto, é realmente desafiador se imaginar ser servidor da Paz. Até mesmo a própria “paz” deixou para muitos de ser uma atitude pessoal primária e tornou-se artigo de luxo, organizado e articulado em pautas das mais variáveis mesas de debates. Nesse sentindo, é realmente espantoso que Deus feito homem venha nos dizer: Porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos (Mc 10,45).

Ser servidor da Paz é ser anunciador convicto de uma nova humanidade que, marcada pela desordem do passado e até do presente, se lança corajosa e confiante à escuta do Evangelho. Não é ser alheio ao mundo, mas estar no meio dele com nossos esforços diários em nossas subidas e descidas e acreditar na possibilidade da existência não pautada no vazio frio do relacionar-se distante e comercial, mas na sustentada e acalentadora mão estendida de Deus, que nos direciona para a comunhão. Isso não implica uma negação da ordem existente, mas a transformação dela, na crença que nosso cotidiano, que pode ser tão monótono e terrível, seja transformado numa capacidade de entender a graça surpreendente do amor divino que se apresenta num sorriso, numa mão estendida num gesto de confiança.

Foto Coluna Pensando o Mundo Cultura de Paz

Vir para Servir é justamente olhar confiante para o próximo, reclamar sua conduta coerente em meio a sua responsabilidade comum, é ser um samaritano para tantos feridos nas estradas de nosso tempo; é denunciar os erros que violam os direitos e fomentar a justiça que está atenda a todos. Tarefa evidentemente nada fácil e até insuperável se não for alicerçada pelo Evangelho. O mesmo Evangelho que fez Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce e tantas outras pessoas de boa vontade se colocar no meio da violência como semeadores da Paz. Aliás, se colocar neste caminho é se encontrar na mira da perseguição, da incompreensão é ser alvo das articuladas forças que lucram com o mal.

Não é raro encontrarmos muitos que se prostram cansados, desanimados e não compreendidos por terem, no meio desse campo de guerra, se lançado na semeadura da paz. Ser servidor do próximo, da paz do bem não é tarefa simples e nem pode ser ideológica ou de modismo é sim ser como disse o Papa Francisco aos Jovens no Rio de Janeiro “sejam revolucionários”. Revolucionários do Amor de Deus, que acolhe, perdoa e aponta o caminho da mudança da misericórdia que caminha com a justiça. Da violência que é destruída pelo perdão. Nesse sentido, mais uma vez é Jesus quem nos ensina, pois após ter sido traído, violado em todos os seus direitos e levado para a desonrosa morte na cruz ele perdoa, e ao perdoar nos abre um caminho novo, o caminho da Paz.

Assim, num tempo marcado pela violência, pela luta desumana de interesses privados, pela massificação da pessoa reencontraremos nosso verdadeiro existir quando despojados de tudo isso nos colocarmos em frente ao nosso próximo numa atitude evangelicamente fraterna. Estar a serviço não é estar em submissão, mas estar perante a grandeza de Deus que nos aceita, nos encontra e nos ama. Não obstante a violência que nos cerca é admirável a mensagem de Jesus Cristo que, ao ressuscitar, depois de ter perpassado por toda a sua vida, ser traído, injustiçado, maltratado e assassinado, deixa como mensagem aos Apóstolos: Deixo-vos a paz; a minha paz vos dou. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não permitais que vosso coração se preocupe, nem vos deixeis amedrontar (Jo 14, 27). Feliz Páscoa a todos!!!

Prof. Dr. Adriano Broleze é Doutor em Direito Canônico e Docente na PUC-Campinas

A violência contra as florestas e a crise hídrica do Sudeste Brasileiro

Por Rafael Faria

No dia 21 de março, comemorou-se o Dia Internacional das Florestas e, não por acaso, no dia 22, o Dia Mundial da Água. As florestas estão intimamente relacionadas à disponibilidade de recursos hídricos no planeta. A Terra, chamada pelo astrônomo Carl Sagan de pálido ponto azul, possui a maior parte de sua crosta coberta por água, mas apenas uma ínfima parte desta é água doce e líquida. Uma pequena porção que necessita das florestas para que se mantenha perene e conservada. As áreas florestais do globo são verdadeiras usinas de serviços ambientais: a produção e a purificação da água representam apenas dois deles. Nesse contexto, o desmatamento é uma das piores formas de violência contra o meio ambiente e contra a humanidade.

O desmatamento é uma das piores formas de violência contra o meio ambiente e contra a humanidade/  Crédito: Álvaro Jr.
O desmatamento é uma das piores formas de violência contra o meio ambiente e contra a humanidade/ Crédito: Álvaro Jr.

Desde a segunda metade de 2012, a crise hídrica no Sudeste brasileiro vem se agravando e pode ser consequência dessa interação violenta com as florestas do Brasil. A população passou por verões anomalamente secos, em especial, em 2014. É certo que as razões para a diminuição do regime de chuvas são complexas e não há uma única resposta para a pergunta: “por que não choveu?”. Muitos especialistas apontam que o desmatamento deve ter participação crucial nesse cenário.

O Sudeste brasileiro está inserido em latitudes médias, em que, normalmente, em outras porções do globo, há condições climáticas de aridez, pois os ventos vindos de latitudes baixas chegam secos. Muitos acreditam que o Sudeste brasileiro e as regiões próximas não são desérticos graças às massas de ar úmidas que aqui chegam provindas, principalmente, da Amazônia.

As árvores de uma floresta funcionam como verdadeiras bombas bióticas que, por meio da evapotranspiração, produzem vapor d’água para a atmosfera. Normalmente, os ventos úmidos vindos do litoral vão ficando cada vez mais secos à medida que adentram o continente, mas, na Amazônia, os ventos vindos do Atlântico se mantêm úmidos até o interior do continente, graças à referida bomba biótica. Parte desse vapor d’água é transportado até as latitudes médias, até o Sudeste brasileiro. Tais massas de ar úmido são conhecidas como “rios voadores”, um nome apropriado, dado que a quantidade de água bombeada, diariamente, para a atmosfera, pela Floresta Amazônica, é maior do que a quantidade de água diariamente transportada para o Oceano Atlântico pelo Rio Amazonas.

O que acontece, então, quando a usina de serviços ambientais amazônica é tratada com violência? Sem tentar responder a complexa pergunta de “por que pouco choveu nos últimos anos” com uma única resposta, é tentador e é lógico de se pensar que o desmatamento da Floresta Amazônica certamente pode ter consequências no regime hídrico da Região Sudeste.

As florestas, além de atuarem como bombas bióticas, são cruciais para a infiltração da água que chove, para a manutenção das reservas subterrâneas e perenidade das nascentes. As bacias de captação das principais represas do Sistema Cantareira estão extremamente degradadas, com pouca cobertura vegetal nativa. Se há pouca floresta, há baixo índice de infiltração da água e, portanto, as reservas subterrâneas podem não ser suficientes para evitarem que uma nascente seque em uma época de aridez.

natureza_20150327_Álvaro Júnior_Dcom_PUC Campinas-0003

Dessa forma, há também de se pensar que a crise hídrica pode ser resultado da violência contra as florestas da Região Sudeste. Assim, na Amazônia, não tão próxima, ou na Mata Atlântica e no Cerrado, é urgente que a valoração do meio ambiente se torne pauta política prioritária e que a violência contra as usinas de serviços ambientais seja amenizada.

 Prof. Dr. Rafael Faria é docente na Faculdade de Engenharia Ambiental e Faculdade de Ciências Biológicas da PUC-Campinas

 

Sabe com quem está falando? O Papel Social do Juiz

 Por Luis Arlindo Feriani

Em um Estado Democrático de Direito, o Juiz é um representante de um dos poderes do Estado, cabendo a ele interpretar a lei, extraindo dela o seu real significado para poder aplicá-la de maneira correta e justa.

O juiz absolutamente distante da realidade vivida no processo transforma-se em verdadeiro “ente inerte”, como se fosse um processador das informações, sem se preocupar com as minúcias do caso concreto, com a efetividade dos direitos e com as garantias fundamentais.

O ativismo judicial defende que o juiz, ao atuar no processo, não deve restringir-se à aplicação da letra da lei, interpretando-a em um sentido literal, e sim interpretando-a com base nos fundamentos constitucionais da justiça social e do amplo acesso à Justiça.

O Profissional não pode esquecer-se de que o exercício do cargo implica responsabilidade não só no processo, mas também pelo respeito necessário ao cargo e à sua função. Se a sociedade exige conduta ética com relação aos ocupantes de cargos eletivos, com veiculação ampla na mídia quando algum ato impróprio é praticado, evidenciando a necessidade de respeito pela função desempenhada, o que é cobrado pela sociedade em geral, o juiz deve ter a consciência de que os ocupantes de cargos do Judiciário não estão longe desse controle, devendo ter respeito pelos cargos que ocupam, os quais também exigem atuação ética, tanto na função de julgador, quanto na vida pessoal, inclusive no que diz respeito às questões financeiras, familiares e comportamentais.

Assim, além da necessidade de ter respeito para com todas as pessoas, sem pretensão de qualquer privilégio em decorrência do cargo, o juiz deve fazer de tudo para não se envolver em polêmicas ou fatos que sejam prejudiciais à imagem do Judiciário.

Sabemos que o juiz não é visto como um ser comum no seu meio social, mas sim, uma pessoa que serve como referência, que deve assumir o compromisso de zelar pela imagem que dele faz a sociedade, para o bem do Judiciário e da própria coletividade. Com efeito, o juiz que vive longe do povo, terá mais dificuldade para a apuração da verdade e a realização da Justiça, comprometendo o prestígio do Judiciário. Pois bem, é necessário quebrar esse padrão de distanciamento, desmistificando a inacessibilidade, sem descurar da conduta ilibada.

No Brasil de nossos dias, em que a revelação diária de tantos casos de corrupção diminuem a confiança da população nos órgãos públicos, necessita-se de pessoas que sejam paradigmas de virtudes, que possam quebrar preconceitos com relação aos sujeitos do Estado, por meio de uma conduta digna de ser seguida. O Juiz pode ser esse sujeito, em que, no âmbito de sua jurisdição, seja respeitado por todos e que inspire a crença no julgamento justo e imparcial do Judiciário.

Feriani é Doutor em Direito Processual Civil pela PUC-SP- Juiz de Direito de Entrância Final Aposentado/ Crédito: Álvaro Jr.
Feriani é Doutor em Direito Processual Civil pela PUC-SP- Juiz de Direito de Entrância Final Aposentado/ Crédito: Álvaro Jr.

Se pensarmos em termos numéricos, é relativamente simples para que isso seja a realidade, uma vez que temos cerca de 10 juízes para cada 100 mil habitantes, ou seja, aproximadamente 20 mil juízes, considerando-se uma população em torno de 200 milhões. No final de 2013, o Conselho Nacional de Justiça divulgou que foram afastados 64 juízes por condutas incompatíveis com o cargo, ou seja, um percentual, de certa forma, bastante pequeno.

Não se pode deixar de considerar que o acesso à magistratura de primeiro grau faz-se por concurso público de provas e títulos, ou seja, o critério é meritório dentro do estado democrático de direito em que vivemos. E, apesar da preocupação das bancas examinadoras com relação à vida pregressa dos candidatos, sempre será possível alguma falha de seleção, como também uma mudança de comportamento do candidato após a sua aprovação.

Pode-se até mesmo deduzir que um juiz ao optar por uma conduta que contraria a ética que norteia a sua elevada função, está comprometendo o estado democrático de direito, porque de forma direta, está incentivando a população, principalmente a mais humilde, a desacreditar na própria Justiça e, consequentemente, a se rebelar com relação ao cumprimento das ordens e determinações judiciais, fazendo assim, com que não se alcance com a celeridade desejada a paz social, que é o primado maior do exercício da jurisdição consagrado na nossa Constituição Federal.

 Prof. Dr. Luis Arlindo Feriani, docente titular de Direito Processual Civil da PUC-Campinas

 

Comércio de armas não pode ser defendido economicamente

Por Izaias de Carvalho

:  Na média mundial, 41% dos assassinatos foram cometido com armas de fogo em 2012/ Crédito: Álvaro Jr.
Na média mundial, 41% dos assassinatos foram cometido com armas de fogo em 2012/ Crédito: Álvaro Jr.

Num mundo em que aproximadamente um bilhão de pessoas não conseguem atender, de acordo com a FAO (Agência das Nações Um idas para Agricultura e Alimentação), suas necessidades básicas de alimentação, o comércio de armas se destaca como um negócio lucrativo e em expansão. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisas da Paz de Estocolmo (Stockholm International Peace Research Institute, SIPRI), as vendas de armas e serviços militares das 100 maiores empresas da indústria bélica totalizaram 402 bilhões de dólares em 2013. Apesar da pequena redução observada entre 2011 e 2013, no período de 2002 à 2013 as vendas dessas empresas aumentaram 45%. Ente os maiores importadores de armas do mundo estão países pobres, com carências de infraestrutura e com sérios problemas de segurança alimentar, tais como Índia, Paquistão e alguns países da África e da América Latina.

O mercado brasileiro de armas também é crescente, a despeito do Estatuto do Desarmamento, de dezembro de 2003, que aumentou as restrições para compra e posse de armas de fogo no país. A evolução do mercado de armas no Brasil nas últimas três décadas pode ser dividida em dois períodos. No primeiro período, que vai do início dos anos 1983 à 2003, o que observamos foi uma verdadeira “corrida armamentista” em que a população tentou por vias próprias garantir a sua proteção. Nesse período ocorreram a expansão do “negócio” da segurança privada e a difusão de armas de fogo entre a população de maneira geral.  Esta expansão esteve associada com as consequências da crise econômica do período conhecido como “década perdida”. De um lado, o aumento da criminalidade, consequência das elevadas taxas de desemprego e de inflação. De outro lado, a deterioração financeira do estado, que limitou drasticamente sua capacidade de investimentos em áreas diversas, dentre elas, a segurança pública.

No segundo período, que se inicia de 2003, o mercado continuou a se expandir, mas num ritmo menor do que no período anterior. Na média nacional, o Estatuto do Desarmamento, não foi suficiente para reduzir o tamanho do mercado, no máximo ele reduziu a taxa de crescimento. Além do mais, em alguns Estados, principalmente nas Regiões Norte e Nordeste, as vendas de armas voltaram a crescer no ritmo acelerado do período anterior ao Estatuto.

A expansão do mercado de armas no Brasil é algo preocupante, porque ele está associado com uma dolorosa e vergonhosa estatística: o país com o maior número de assassinatos no mundo! De acordo com o Estudo Global sobre Homicídios (Global Study on Homicide), publicado pela UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes) em 2013, em 2012 o homicídio doloso causou a morte de 437 mil pessoas em todo o mundo. No Brasil a quantidade assassinatos no mesmo ano foi de 50,1 mil pessoas. Enquanto a população brasileira representa cerca de apenas 3% da população mundial, o número de assassinados no Brasil representa 11,5% do total de pessoas assassinadas no mundo.

De acordo o mesmo estudo, na média mundial, 41% dos assassinatos foram cometido com armas de fogo em 2012. Na América Latina, entretanto, as armas de fogo responderam por 66% do total de homicídios. No Brasil, em algumas regiões, esta taxa chegava a 90%.

Dado que há evidências de que a difusão de armas de fogo contribui para o aumento da taxa de homicídios e, ao contrário daqueles que defendem a livre comercialização de armas, não possui efeito sobre a taxa de crimes contra a propriedade – pode-se concluir que o aumento do comércio de armas no Brasil dificilmente pode ser defendido do ponto de vista econômico, uma vez que ele resulta em muitos mais custos do que benefícios para a sociedade.

Prof. Dr. Izaias de Carvalho é Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da PUC-Campinas

Trotes violentos e as relações de poder

Por Amanda Cotrim

*colaboração: Eduardo Vella

O ingresso de estudantes nas universidades brasileiras, no início do ano letivo, passou a ser acompanhado por um problema crônico: o trote universitário violento. A transição do ensino médio para a vida universitária é um processo tradicionalmente ritualizado, mas de acordo com o especialista em trotes violentos, Prof. Dr. Antonio Ribeiro Almeida Júnior, as intimidações, violências físicas e humilhações, por exemplo, não têm nenhuma relação com rito de passagem. Em seu livro “Anatomia do Trote Universitário”, produzido em 2007, como tese de livre-docência na Universidade de São Paulo (USP), o especialista afirma que o trote violento se estabelece em uma relação de poder. Segundo ele, um grupo político disputa o controle de uma dada situação e cria hierarquias, como o calouro que pedirá dinheiro no semáforo para o seu veterano, entre outros exemplos.

O trote é proibido na PUC-Campinas, que, há mais de 10 anos, desenvolve projetos e ações para recepcionar e integrar os recém-chegados ao espaço universitário, por meio de atividades solidárias com idosos, crianças, meio ambiente, entre outras. Além disso, a Universidade apura denúncias e fatos referentes a trotes violentos, como os que foram relatados recentemente à Comissão Processual de Inquérito (CPI) da Assembléia Legislativa de São Paulo, sobre violações de direitos humanos nas Faculdades Paulistas. Duas sindicâncias internas, abertas em 2014 pela Universidade, apuram participação e responsabilidades em ações de intimidação, ameaças e ocorrência de trotes humilhantes e violentos. As Sindicâncias estão em fase de apuração.

Trote Solidário: uma ação que beneficia quem faz e quem recebe
Trote Solidário: uma ação que beneficia quem faz e quem recebe

O Professor Dr. José Donizeti, que responde pela Coordenadoria Geral de Atenção à Comunidade Interna (CACI) e é Presidente do Comitê de Acolhida aos Calouros, explica que em 2009 a Universidade instituiu um Grupo de Trabalho para a criação de projeto orgânico de recepção aos calouros e de combate ao trote. O Grupo propôs uma série de ações, de caráter contínuo, gerenciadas pelo Comitê Permanente de Acolhida aos Calouros, incluindo material informativo contra a violência do trote, o Fone Trote ((19) 3343-7241) para denúncias, guia e site do calouro, cadastro digital de denúncias de trotes violentos, comissões de sindicâncias, acolhimento ao calouro denunciante e a realização de ações solidárias, em substituição ao trote, oportunizando e estimulando o relacionamento entre calouros e veteranos.

: Para o Prof. Dr. José Donizeti, vivemos em uma sociedade extremamente hierarquizada/ Crédito: Álvaro Jr.
Para o Prof. Dr. José Donizeti/ Crédito: Álvaro Jr.

Como educador, Donizeti coloca a questão além de um fato pontual. Segundo ele, a sociedade brasileira, marcada pela história da escravidão, tem traços de violência e hierarquização que ajudam a explicar o trote violento. “As relações sociais em nosso país são marcadas pela desigualdade, com forte hierarquização dos indivíduos entre seres superiores e subalternos, o que dificulta a construção da cidadania e da ética, que se dá a partir da igualdade de direitos”, expõe. De acordo com ele, as universidades brasileiras não estão deslocadas dessa realidade, não há separação entre universidade e sociedade. “Há relações próprias em cada uma dessas instâncias, mas o indivíduo que está na universidade também vive em espaços sociais do país”, contextualiza.

Em artigos sobre violência e educação, a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa reflete sobre motivos que ajudam a explicar a violência como trote e bullying. Entre as causas está o individualismo: “Vivemos um momento em que o prazer do indivíduo está acima de tudo. Mas é preciso pensar: até que ponto minha satisfação implica a lesão ao outro?”, questiona. Em suas pesquisas, a psiquiatra relata que a busca excessiva da autossatisfação não considera o outro ser humano.

“O sentido do trote como rito de passagem, integrando veteranos e calouros, se perde quando há violência, seja ela física ou discursiva”, aponta o antropólogo e docente na Faculdade de Ciências Sociais da PUC-Campinas, Prof. Me. Caue Nunes. O docente ressalta que não é possível estabelecer, em princípio, relações entre os trotes violentos e cursos tradicionais, como, por exemplo, medicina, uma vez que casos de violência acontecem em diversos cursos. “De fato, vivemos em uma sociedade hierarquizada e violenta, que gera processos sociais violentos. Não somos cordiais. O trote violento é um reflexo disso”, afirma Nunes. “Daí, podemos pensar se a violência é inata ou uma construção sociocultural. Se for a segunda opção, entendo que o que é aprendido pode ser desaprendido”, complementa Donizeti.

Em setembro de 2014, os fatos denunciados no disque trote durante aquele ano foram comunicados ao Ministério Público de Campinas. A apuração é conduzida, sob sigilo, na Delegacia de Investigações Gerais da cidade. Quanto às sindicâncias internas da Universidade, informa o coordenador da Divisão de Logística e Serviços, Israel Barros, as penalidades serão ou não impostas, decorrente do resultado da apuração, seguindo o Regimento Interno da Universidade.

 Estudar para entender e mudar

Em fenômenos como o trote violento há três grupos que precisam ser assistidos: o agredido, o agressor e a plateia, representada pelas pessoas que viram a agressão. “Não adianta ser contra o trote violento, se não nos posicionamos quando o presenciamos ou sabemos que ele acontece”, explica o professor Donizetti. “Aqui na PUC-Campinas trabalhamos com o agressor e também com a prevenção. Precisamos, além disso, atender o agredido”, afirma. E continua: “É o momento das universidades se debruçarem cientificamente sobre esses fenômenos e buscar entender o que faz com que indivíduos vejam a violência e não a denunciem? O que faz com que alguém se submeta a essas situações de violência?”, questiona Donizeti.

 Novo desafio para a educação superior:

“Quando ele entra na universidade, o jovem está em formação; ele não chega pronto ao ambiente do ensino superior”, afirma o Coordenador da CACI. Segundo Donizeti, além de punir, a Universidade está trabalhando para compreender o trote violento enquanto um problema social, para oferecer, a partir daí, apoio às vitimas e às famílias, tanto de quem sofreu a violência, quanto daquele que praticou o trote violento. “É fundamental que as Instituições de Ensino Superior estudem e compreendam a cultura juvenil e a violência social, para proporem ações de enfrentamento e combate ao trote, além de entender um pouco o educando que se encontra em seus espaços educacionais. Talvez este seja um dos grandes desafios da educação brasileira, hoje.”, ressalta. Donizeti defende que o professor possa ter além de uma formação específica da sua área, uma formação pedagógica capaz de entender a cultura do jovem no momento presente. “Vivemos em uma sociedade de consumo, onde predominam os valores estéticos, em detrimento dos valores éticos. A PUC-Campinas trabalha para fortalecer a competência ética e política, como componente importante na formação científica e profissional”, resume.

Na relação entre violência e educação são detectados três aspectos:
Existe a violência na escola: a instituição sofre os impactos da violência social, que a perpassa.
Existe a violência da escola: processos violentos produzidos pela própria instituição e que ocorrem quando há uma incompreensão pela instituição do perfil de educandos e suas especificidades; quando há uma gestão autoritária da instituição.
Existe a violência contra a escola: depredação do patrimônio escolar/universitário.