Arquivo da categoria: jp162-2015

EDITORAL

Restringir a palavra cultura ao campo das artes, da literatura e da erudição não é um exercício de todo estranho ao senso comum. Entretanto, no campo da antropologia, o termo cultura vai além e tem vastidão e alcance proporcionais ao conjunto de todos os saberes e comportamentos de uma determinada representação social, das práticas religiosas à comida que vai ao prato, passando por todas as formas de ser e agir que expressam, no plano da realidade social, valores e crenças de todas as gentes.

Do mesmo modo, o conceito de patrimônio, inicialmente tomado como categoria restrita a alguns planos da organização social, como, por exemplo, a arquitetura dos tempos passados, evoluiu e cresceu no seu alcance, traçando rota similar e paralela ao dimensionamento cada vez mais amplo do significado antropológico de cultura. Assim, em termos atuais, quase tudo o que compõe a cultura – de um povo, uma etnia, um grupo social, ou mesmo de toda a humanidade – pode converter-se em patrimônio que, além da materialidade das coisas, como prédios e monumentos , inclui, ainda, a imaterialidade das expressões, como dança e música, além daquilo que não é obra do ser humano, os chamados patrimônios da Natureza, como florestas e geleiras.

Frente ao alcance do conceito e a oportunidade de eventos relacionados com o patrimônio, verificados recentemente, esta edição do Jornal da PUC-Campinas é dedicada aos exercícios de investigação, classificação, valorização e preservação de fatos e agentes que integram ou têm perspectivas de integrar o patrimônio, que por assim dizer, delimita uma área específica no salão da História.

Sentidos, conceitos, significados e significantes do termo patrimônio são abordados no artigo escrito pela professora doutora Janaina Camilo, historiadora e coordenadora do Museu da PUC-Campinas, enquanto o artigo da professora doutora Cristina Betioli Ribeiro Marques, da Faculdade de Letras, comenta causas e conseqüências sociais do cruzamento entre língua falada, língua escrita e poesia popular, ficando  o Superintende do Hospital e Maternidade Celso Pierro, doutor Antonio Celso de Moraes, a tarefa de apresentar um patrimônio com mais de 35 anos de atuação na saúde e no ensino, em toda a Região, o Hospital Universitário da PUC-Campinas.

Enquanto os articulistas convidados redigiam seus textos, a equipe do Jornal da PUC-Campinas cuidou da produção de uma entrevista e três reportagens ligadas ao patrimônio. Uma sobre o convênio com a Universidade Oriente para pesquisas de patrimônio urbano de Campinas e Santiago de Cuba, outra apresentando o Trabalho de Conclusão de Curso que trata da degradação da Mata do Quilombo, em Barão Geraldo e a terceira sobre o grupo de dança Jongo Dito Ribeiro.

A sugestão cinematográfica sobre Narradores de Javé completa o cardápio dos temas diretamente ligados ao patrimônio e à preservação, mas esta edição tem ainda reportagens e artigos sobre imigrações forçadas e uma entrevista com a ex-aluna que escreveu um livro reportagem sobre refugiados internacionais no Brasil, além informações sobre ciência, pesquisa e cultura, tornando o conteúdo, no conjunto, muito apropriada ao período de retorno aos campi para as atividades acadêmicas do segundo semestre.

PUC-Campinas Informa

Homenagem

No dia 3 de julho de 2015, a PUC-Campinas perdeu a professora mais antiga da Instituição. Faleceu, em Campinas, aos 81 anos, a Profa Nair Leme Fobé, que teve atuação destacada como docente da Faculdade de Letras, durante 45 anos.

A professora se graduou, em 1955, na PUC-Campinas, em Letras Anglo-Germânicas e fez especialização em Filosofia e História da Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em 1982. Cursou Pós-Graduação em Literatura Inglesa, na Universidade de São Paulo (USP), em 1961, e Literatura da Fonética Inglesa, na Universidade de Exeter, na Inglaterra, em 1962. Atuou como supervisora de Práticas de Ensino da PUC-Campinas, além de ser tradutora e revisora das revistas Letras, Humanitas e Comunicarte.

Nas redes sociais, alunos, ex-alunos, professores e colegas de trabalho prestaram suas homenagens, destacando a generosidade e a dedicação da ex-docente ao mundo das Letras e à sala de aula.

Mostra de Profissões 2015 reúne mais de 50 cursos

A Mostra de Profissões 2015 da PUC-Campinas acontecerá nos dias 20 (quinta-feira), 21 (sexta-feira) e 22 (sábado) de agosto, das 14h às 22h no estacionamento do 2º Piso (P2) do Shopping Center Iguatemi Campinas.

Os visitantes poderão obter dos professores e alunos da Universidade, informações sobre os mais de 50 Cursos de Graduação oferecidos pela Instituição e participar das atividades propostas durante a programação. O acesso é gratuito.

O 2º Piso (P2) do Shopping Center Iguatemi fica na Avenida Iguatemi, 777, Vila Brandina, Campinas/SP.

Amamentação entra no debate jurídico

Lei em São Paulo permite que mulheres possam amamentar em qualquer local público e incentivam a discussão sobre o tema. Para ajudar na compreensão do tema, a TV PUC-Campinas realizou uma reportagem sobre essa lei, a partir de um debate jurídico.

Confira clicando aqui

Espaço Pró-Reitoria de Administração: “Bem com a vida”

O novo programa da PUC-Campinas, intitulado “Bem com a vida”,  engloba diversos projetos, que se vinculam aos inúmeros aspectos que envolvem uma vida saudável. O trabalho realizado passa desde a orientação e conscientização primária em relação a temas como estresse, tabagismo, alcoolismos, alimentação, dentre outros, até a realização da atividade física com orientação.

A Universidade também mantém o projeto PIC da PUC, que proporciona atividades físicas gratuitas aos funcionários e alunos da Instituição.

Coluna Pensando o Mundo: Homenagem a Nair Fobé

Poema  favorito da Professora Nair Fobé fala sobre escolhas que fazem a diferença

Por Profa. Dra. Maria de Fátima Amarante- Diretora do Curso de Letras

No dia 3 de julho de 2015, a PUC-Campinas se despediu da Professora Nair Leme Fobé. Docente da Faculdade de Letras por 45 anos, Mrs. Fobé deixou grandes lições de ensinar e traduzir.

Para honrar sua memória, publicamos seu poema favorito. Mrs. Fobé sempre o declamava para incentivar os alunos a refletirem sobre suas escolhas pessoais e profissionais, enfatizando, com o poeta, que tomar a estrada menos percorrida é que faz toda a diferença. A professora Nair Leme Fobé, ao escolher educar, certamente fez a diferença na vida de seus alunos e, por meio deles, continuará a fazê-lo.

“Duas estradas se abriam em um bosque, e eu Tomei a menos trilhada”/ Crédito: Divulgação
“Duas estradas se abriam em um bosque, e eu
Tomei a menos trilhada”/ Crédito: Divulgação

 

Tradução: A estrada não trilhada

Duas estradas se abriam em um bosque amarelado/ E sentindo não poder ambas percorrer/ Sendo um só viajante, por muito tempo me detive/ E observei uma até quão longe pude/ Até onde, na vegetação, ela se curvava.

Então olhei a outra, tão boa quanto a primeira,/E tendo talvez o melhor apelo,/Por ser gramada e ansiar por uso;/Apesar de o trilhar de ambas/Ter  sido quase o mesmo.

E, naquela manhã, em ambas igualmente jaziam/ Folhas que passo algum pisara./Ó, deixei a primeira para outro dia!/Mas, como um caminho leva a outro,/Duvidei de que algum dia ali voltaria.

Com um suspiro isto direi/Em algum lugar em um futuro distante: Duas estradas se abriam em um bosque, e eu Tomei a menos trilhada/ E isto fez toda a diferença.

 Abaixo, segue a seleção de algumas manifestações de alunos e ex-alunos da Profa Nair, nas redes sociais:

 You will eternally live through the language you so carefully taught to hundreds and hundreds of us. May you always speak through us. Daniel Paula

Depois de 45 anos de PUC-Campinas, muitos ex-alunos devem estar se sentindo como eu, meio sem saber como fica o mundo sem a Fobé. Espero que cada um deles lembre-se de uma de suas tiradas afiadas ou de uma de suas aulas, para que ela fique entre nós mais um pouco e ganhe seu lugar entre as figuras míticas, onde só quem é inesquecível consegue estar. Obrigada, querida Fobé. Que falta você fará! Júlia de Almeida

Mrs. Fobé, sem delongas, MUITO obrigada. Obrigada pela paixão, pela paciência, pelas piadas, pelos puxões de orelha, pelo zelo, pelo carinho, por ser sido você. Graças à senhora, hoje leio obras da literatura inglesa sem medo, mas com prazer. Tenho minhas histórias particulares com a Mrs. Fobé e, com elas, seguirei feliz, pois tive o prazer de ter vivido ao lado dessa grande personalidade. Sua alma será eterna em nossos corações. “O que temos para hoje é saudade.” Brysda Rocha

Uma perda muito grande! A Fobé não só me ensinou, mas me fez apaixonar pela língua e por ensinar. Um exemplo que sempre carregarei no meu coração! Vai fazer MUITA falta! Débora Dutra

 Ouvi falar sobre a fama da Fobé antes mesmo de entrar na PUC-Campinas pela excelente profissional que ela era. Não tive a oportunidade de tê-la como minha professora, o que sempre foi meu maior desejo. Mas ela foi muito mais do que isso. Ela foi uma grande amiga. Que o Espírito Santo console a família e amigos desse fenômeno incomparável e inigualável chamado Fobé! Márcio José

Afinal, o que é patrimônio?

Por Janaina Camilo

A palavra patrimônio pode ser entendida de diferentes formas. Na antiguidade, estava relacionada com a herança familiar, sobretudo quando dirigida aos pateres famílias. No século XVIII, em meio à efervescência dos acontecimentos políticos e sociais que desenharam a Revolução Francesa, patrimônio passou a ser entendida como assunto do Estado, que providenciou as primeiras ações de proteção dos monumentos de valor histórico, sobretudo aqueles que remetiam às memórias do antigo regime, mas não para exaltá-los, mas para mostrar a vitória do vencedor revolucionário. Dessa forma, patrimônio e memória iam ao encontro da representação do poder.

No século XIX, patrimônio passa a ser relacionado à construção das identidades. Preservavam-se monumentos materiais (móvel ou imóvel) com o objetivo de construir tradições comuns, que simbolizavam o poder das nações, por exemplo, a língua e os costumes nacionais. Por esse viés, o significado de patrimônio estava diretamente relacionado ao conceito de fronteira, já que esta não se afirma pelos tratados assinados, mas pela dinâmica de convivência entre os homens. Assim, patrimônio limitava-se, basicamente, ao histórico e ao arquitetônico, representando a construção das identidades e, portanto, era assunto político.

Ao longo do século XX, patrimônio recebeu outra conotação, mais dinâmica e abrangente. Ele passou a ser, também, cultural e ambiental, pois, uma vez que hoje concebemos o ambiente como um produto da ação dos homens, portanto, da cultura.

Relacionar patrimônio com os conceitos de identidades, cultura e memória, antecede à chegada do Estado/ Crédito: Álvaro Jr.
Relacionar patrimônio com os conceitos de identidades, cultura e memória, antecede à chegada do Estado/ Crédito: Álvaro Jr.

Patrimônio cultural pode ser tangível e intangível (material e imaterial) e está conceitualmente envolvido com a dinâmica das mudanças espaciais e temporais, que não são, portanto, estáticas e, por isso, está diretamente envolvido numa trama de acontecimentos que envolvem a memória e a identidade. Assim, o sentido de patrimônio exige outras ações como o da preservação e salvaguarda, já que o processo identitário revela, consciente ou inconscientemente, o que somos e o que queremos ser e, daí, a importância do que preservar, por que preservar e o que preservar.

No Brasil, as transformações do significado de patrimônio não foram diferentes e passaram a ser ações de política pública, a partir de 1923, quando o deputado Luiz Cedro apresentou um projeto de criação da “Inspetoria dos Monumentos Históricos dos Estados Unidos do Brasil”, com o objetivo de conservar os imóveis públicos ou particulares, que no ponto de vista da história ou da arte revistam, um interesse nacional.

Em 1936, Mário de Andrade escreveu o projeto que se tornou lei somente um ano depois, pelo qual se entendia por Patrimônio Artístico Nacional todas as obras, nacional ou estrangeira, pertencentes aos poderes públicos, e a organismos sociais e a particulares nacionais, a particulares estrangeiros, residentes no Brasil. Mesmo que o autor modernista tenha se preocupado com as obras de arte, naquela época, no Brasil, a política patrimonial era coordenada pelo Serviço do Patrimônio Artístico Nacional (SPHAN), sendo a sua principal ação a preservação de bens materiais imóveis (cidades, fortificações, prédios) e, por isso, a política patrimonial era conhecida como “pedra e cal” e a decisão do que se tombar era uma disputa política entre modernistas e os neocoloniais.

Em 1988, com a promulgação da Constituição Nacional, sobretudo o artigo 216, o patrimônio brasileiro ganhou outra temática, a dos bens intangíveis (as celebrações, o saber fazer, as formas de expressão e os lugares), sendo o registro autorizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) por meio do decreto no 3.551, de 2000, que instituiu o registro de bens cultuais de natureza imaterial.

Dessa forma, portanto, concluímos que quando relacionamos patrimônio com os conceitos de identidades, cultura e memória, provocamos outra forma de interpretação subjetiva: a de que sua existência antecede à chegada do Estado.

Profa. Dra. Janaina Camilo é Diretora do Curso de História da PUC-Campinas

Museu arquidiocesano de Arte Sacra de Campinas

Por Pe. Rafael Capelato

O Museu Arquidiocesano de Arte Sacra de Campinas (MAAS) foi fundado, em 1964, pelo Arcebispo Dom Paulo de Tarso Campos (1941-1968). O primeiro conjunto de peças destinado a constituir o acervo foi reunido por iniciativa do próprio Dom Paulo que solicitou a diversas paróquias antigas, a doação de obras de valor histórico e artístico. Além disso, ele fez doação de sua coleção pessoal para o acervo inicial. O primeiro edifício a sediar tais peças sacras localizava-se na Avenida Aquidabã e contava com amplo espaço. O primeiro curador foi o historiador Celso Maria de Mello Pupo, que organizou o museu e inventariou as obras então reunidas. Seu inventário continua sendo o mais completo para o conhecimento do acervo artístico da entidade.

Pe. Rafael Capelato/ Arquivo: Arquidiocese
Pe. Rafael Capelato/ Arquivo: Arquidiocese

Consta no Diário Oficial do Estado de São Paulo, a. LXXV, n. 107, (11/6/1965), 94 que “Entre os seus objetivos: organizar e manter um museu histórico e de arte sacra; promover conferências e cursos de museologia, de divulgação de fatos, acontecimentos e de arte sacra; organizar e manter um serviço de documentação e arquivo da Arquidiocese de Campinas; promover periodicamente exposição e mostras de documentos históricos e de arte sacra; elaborar o inventário artístico da Arquidiocese, defendendo seu patrimônio histórico, ou melhor, patrimônio artístico, velando pela sua conservação e recolhendo ao museu as peças de maior valor que não estejam habitualmente entregues ao culto”. Os apelos pelo cuidado com os bens patrimoniais artísticos da Igreja Católica por parte da Santa Sé e de esferas do governo local, somados à vasta cultura e zelo artístico de Dom Paulo culminaram, então, com a ideia da fundação.

Em 2014, o Museu Arquidiocesano de Campinas completou o cinquentenário de sua fundação, após não poucas intempéries. Na ocasião o Arcebispo Metropolitano, Dom Airton José dos Santos, decidiu transferi-lo para o Palácio Episcopal, no bairro Nova Campinas. Dom Airton alude à necessidade de espaço físico mais adequado que abrigue e valorize o rico acervo, bem como para melhores condições de acessibilidade do público, dentro de um projeto que visa também fazer do mesmo edifício um centro de memórias da Igreja de Campinas. Está em andamento a transferência das obras e operacionalização de um novo plano expográfico, adequado à nova sede.

A equipe que está trabalhando nesse processo é composta pelo Doutor em História e Bens Culturais da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana – Roma, Padre Rafael Capelato; pela Doutora em História pela Universidade de São Paulo (USP), Professora Janaína Camilo; pela Doutoranda em História da Arte pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Paula Elizabeth de Maria Barrantes; pelo Graduado em História pela PUC-Campinas, Luiz Raphael Tonon; pelo Graduado em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), Thiago Avansi; pelo Graduado em História pela UNESP, Gabriel Amstalden; pelo Graduado em História pela PUC-Campinas, Diego da Silva Souza; e pelo Formado em restauro de arte sacra, Padre João Augusto Pezzuto.

Padre Rafael Capelato: Diretor ad hoc da transferência e reorganização do MAAS, Vigário Geral da Arquidiocese de Campinas.

Ensino e Saúde: Hospital da PUC-Campinas, um patrimônio regional

Por Antônio Celso de Moraes

O Hospital e Maternidade Celso Pierro (HMCP), o Hospital da PUC-Campinas, funciona há mais de 35 anos e nasceu da necessidade de servir como base para a capacitação e prática dos alunos da Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), que, neste ano, completa 40 anos. O Hospital caminha em conjunto com a PUC-Campinas, a Sociedade Campineira de Educação e Instrução (SCEI), sua mantenedora, e a Igreja Católica e tem como missão cuidar da educação e da saúde de sua comunidade.

Dr. Antonio Celso de Moraes: “O HMCP cresceu com a cidade de Campinas” / Crédito: Álvaro Jr.
Dr. Antonio Celso de Moraes: “O HMCP cresceu com a cidade de Campinas” / Crédito: Álvaro Jr.

São quase quatro décadas de contribuição para o ensino, a pesquisa e a promoção da saúde. Hoje, o Hospital atende as dez faculdades da área da saúde do Centro de Ciências da Vida (CCV) da PUC-Campinas, bem como a faculdade de Serviço Social. Como Hospital Universitário, possui, também, os Programas de Residência Médica e Multiprofissional, que já contribuíram para a formação de mais de mil duzentos e cinquenta médicos de todo o Brasil.

Criado inicialmente para ser um Hospital-Escola, não deixou de lado o assistencialismo. Localizado na região noroeste da cidade de Campinas, que abrange cerca de 190 mil habitantes, distribuídos por diversos bairros de população simples, situados entre as rodovias Anhanguera e Bandeirantes, faz divisa com os municípios de Hortolândia, Sumaré e Monte Mor, oferece atendimento à população mais carente. Além disso, atende a Região Sudoeste com 240 mil habitantes, bem como a demanda das 19 cidades que compreendem a Região Metropolitana de Campinas (RMC).

O HMCP cresceu com a cidade de Campinas, especialmente em atendimento e complexidade. Hoje, realiza anualmente mais de 2 milhões de atendimentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) sendo que Campinas possui 1.154.617 habitantes e 660 mil atendimentos são de convênios privados, com mais de 30 operadoras de saúde e atendimento particular. Como centro de excelência na Região Metropolitana de Campinas (RMC), o Hospital possui Certificação Nível 2 de Qualidade pela Organização Nacional de Acreditação (ONA), que garante qualidade e segurança no atendimento prestado. No Brasil, há, aproximadamente, 6 mil hospitais, sendo que, menos de 224 são acreditados.

O HMCP mostra, dia a dia, que é um hospital completo, com equipe multidisciplinar, certificado para atendimentos de alta complexidade, com destaque em traumatologia, neurologia e cardiologia. A cardiologia (adulto/infantil) é referência no Estado de São Paulo, com índices de resultado em parâmetros internacionais.

Na última década, a produtividade do HMCP quadruplicou consequência do trabalho em equipe e do apoio da Mantenedora e da Universidade na gestão de recursos e investimentos destinados ao Hospital.

Uma Instituição que ensina,  acredita e desenvolve a humanização/ Crédito: Álvaro Jr.
Uma Instituição que ensina, acredita e desenvolve a humanização/ Crédito: Álvaro Jr.

Uma Instituição que ensina, beneficia a população, acredita e desenvolve a humanização em seu ambiente. Trata-se de um local em que é propícia a troca de experiências de vida entre alunos, professores, colaboradores, cidadãos comuns e a Igreja Católica, com base em sua missão de ‘prestar atendimento na área da saúde e contribuir para a geração e promoção do conhecimento, considerando sua orientação cristã e seu caráter de Hospital Universitário’.

Dr. Antônio Celso de Moraes- Superintendente do HMCP

 

Mundo sem fronteiras? Livro-reportagem reabre debate sobre refugiados

Valeria Graziano se formou em Jornalismo na Universidade, trabalhou na ONU e, hoje, pesquisa questões que envolvem migrações e refúgios. Valeria conversou com o Jornal da PUC-Campinas sobre a imigração forçada, direitos humanos e xenofobia. Segundo ela, pesquisas mostram que o aumento da xenofobia na Europa, por exemplo, acontece justamente em momentos de crescimento econômico. Por isso, segundo Valeria, “a associação direta entre crise econômica e financeira com o aumento da hostilidade é uma falácia”. Confira a entrevista completa.

Por Amanda Cotrim

O ano era 2006. Valeria Graziano tinha 21 anos e estava no último ano da graduação de Jornalismo, na PUC-Campinas. Preparava-se para a realização do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Embora tenha decidido estudar jornalismo, Valeria sempre gostou das relações internacionais. Pensar questões relacionadas às migrações forçadas, conflitos armados, direitos humanos e globalização, balançava e ainda balança o coração da jornalista. A partir disso, não teve dúvidas: decidiu unir o jornalismo e as relações internacionais. O resultado foi o livro-reportagem “A esperança além da fronteira”, que teve orientação do Prof. Dr. Glauco Cortez. Em seu livro, Valeria contou a história de quatro seres humanos, de quatro países: Congo, Colômbia, Sérvia e Irã. Personagens/vítimas de guerra civil, conflito armado, perseguição étnica e religiosa. “Diferentes origens. Diferentes problemas. Mesmo destino: Brasil. Chegaram aqui sob a condição de refugiados. Ao atravessar a fronteira, os problemas não desapareceram. Apenas transformaram-se”, diz o livro. “Muitas vezes, os imigrantes são alvo de preconceito e intolerância no país que o ‘acolheu’”, denuncia Valeria. Para ela, a falta de acesso a informações sobre guerras e conflitos nessas partes esquecidas do planeta faz com que suas consequências se tornem também desconhecidas.

Valeria Graziano, ex-aluna da PUC-Campinas/ Crédito: Arquivo Pessoal
Valeria Graziano, ex-aluna da PUC-Campinas/ Crédito: ACNUR Brasil/V. Graziano

A relação de Valeria com os direitos humanos não se esvaziou no Trabalho de Conclusão de Curso. Depois de formada, a ex-aluna da PUC-Campinas trabalhou no Departamento de Comunicação da Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados no Brasil – Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) e defendeu seu mestrado em Desenvolvimento, Sociedade e Cooperação Internacional, pela Universidade de Brasília. Atualmente, estuda Cultura, Política e Identidades na Universidade de São Paulo. Em 2015, quase 10 anos depois de Valeria ter escrito seu livro, o tema continua atual.  Confira a entrevista que o Jornal da PUC-Campinas realizou com a ex-aluna.

Por que esse tema “provocou” você enquanto cursava o último ano de graduação em Jornalismo?

Eu tinha 21 anos, estava no último ano da graduação em Comunicação Social – Jornalismo. Embora tenha decidido estudar jornalismo, sempre gostei muito do campo das relações internacionais e de pensar questões relacionadas às migrações forçadas, conflitos armados, direitos humanos e globalização. Cheguei à conclusão de que poderia unir as duas áreas para desenvolver meu TCC.

Conforme eu pesquisava os conflitos armados contemporâneos, ia descobrindo a realidade extremamente difícil em que vivem milhões de refugiados por todo o mundo, os quais sofrem ameaças permanentes, violências de todo tipo e violações sistemáticas de direitos humanos. E onde estavam esses conflitos e essas histórias na mídia tradicional brasileira? Naquela época, o grupo de refugiados que mais crescia no Brasil era o de colombianos. Apesar disso, a crise humanitária vivida no país vizinho era (e ainda é) invisibilizada pela mídia tradicional brasileira, que continua a comprar grande parte das matérias para seus cadernos internacionais de agências estrangeiras, as quais estão totalmente inseridas na lógica de interesses do capitalismo global. Cheguei à conclusão de que narrar as histórias de vidas de refugiados seria uma forma de dar visibilidade aos milhões de excluídos e vítimas diretas dessa nova ordem internacional, que continua a resultar em aumento de conflitos armados, guerras civis, perseguições a minorias étnicas e religiosas, torturas e massacres pelo mundo, os quais são constantemente ignorados pela mídia brasileira. Essa inexistência de informações sobre tais conflitos e de um debate crítico na mídia tradicional sobre suas causas, responsabilidade dos países desenvolvidos e dos organismos internacionais, bem como as consequências para a população civil, resultam em preconceito, intolerância e violência contra as principais vítimas dessa lógica: os refugiados.

 No livro você conta a história do Abdul*, que tinha 21 anos e nasceu no Irã, da Ana*, da antiga Iugoslava, da Karen*, da Colômbia, que na época tinha 17 anos e do Johnnie*, da República Democrática do Congo. Como foi o processo de apuração e do contato com as fontes? Você já conhecia essas pessoas?

(*) Os nomes dos refugiados das entrevistas foram trocados por questão de segurança.

Não, eu não conhecia nenhum deles. Aliás, até então, nunca tinha tido contato com nenhuma pessoa na condição de refúgio. Entrei em contato com a Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, que é uma das organizações não governamentais que trabalha em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) no Brasil para prestar assistência humanitária e apoiar no processo de integração dos refugiados que chegam ao país. Estive diversas vezes no Centro de Acolhida para Refugiados mantido pela Cáritas, na cidade de São Paulo, em que pude conversar com os funcionários e também com refugiados que chegavam ao local. No processo de definição das histórias que contaria no livro, considerei importante abordar histórias de refugiados que chegavam de diferentes regiões e que fugiam por motivos diversos. Conto no livro a história de um refugiado da República Democrática do Congo, que fugiu da guerra civil que assolava o país na virada do século; de uma refugiada da Colômbia, país que vive uma situação de conflito armado e violência generalizada; de uma refugiada da Sérvia, que sofreu perseguição étnica durante o conflito nos Balcãs, na década de 1990; e de um refugiado do Irã, que foi vítima de perseguição religiosa em seu país, na década de 1980.

Foi muito importante durante esse processo o contato com o escritório do ACNUR, em Brasília, para que eu pudesse entender as questões jurídicas, ou seja, os tratados internacionais e legislações nacionais relativas ao tema, a ter acesso às estatísticas oficiais sobre refúgio no mundo e no Brasil, e a entender melhor como funciona o trabalho desenvolvido pelo ACNUR e a articulação com as instituições nacionais – governamentais e não governamentais – envolvidas no processo de acolhida, reconhecimento do status de refugiado e no processo de integração local.

Qual foi o maior desafio na realização do livro reportagem?

Realizar as entrevistas e fazer com os refugiados contassem em detalhes suas histórias com certeza foi o maior desafio, especialmente com relação àqueles que estavam a menos tempo nessa condição de refúgio, já que era muito difícil para eles relembrar todo o sofrimento vivido, a perda de familiares e amigos, as violências de que foram vítimas, tudo que deixaram para trás.

O que mais tocou você?

Todas as histórias me tocaram muito, não tem como não se sentir chocada diante de tanta injustiça, violência, violação de direitos básicos, e indignada ao lembrar que os responsáveis pelas decisões políticas nacionais e internacionais que geraram tais situações de violência generalizada ou perseguições individuais em sua maioria seguem impunes.

Ainda tem contato com as personagens/vítimas?

Não. Logo depois que terminei a graduação, me mudei para Brasília e acabei perdendo o contato com eles.

Precisamos de uma democracia que seja verdadeiramente intercultural/ Crédito: Arquivo Pessoal
Precisamos de uma democracia que seja verdadeiramente intercultural/ Crédito: ACNUR BRASIL/ V. Graziano

Apesar de o seu livro ter sido escrito em 2006 (há quase 10 anos), o tema ainda é bem atual.

Infelizmente, ainda é muito atual. Naquele ano em que escrevi o livro (2006), o total da população de preocupação do ACNUR (refugiados, solicitantes de refúgio, deslocados internos, apátridas) chegava a 19 milhões – incluindo 9,2 milhões de refugiados reconhecidos pela ONU e 5,6 milhões de deslocados internos, que são aquelas pessoas que são obrigadas a fugir pelos mesmos motivos que os refugiados, mas que não chegam a atravessar fronteiras internacionais, ou seja, fogem para outras regiões dentro do seu próprio país. De acordo com os últimos dados, esse total ultrapassa atualmente 42 milhões pessoas. No dia 20 de junho, quando é celebrado o Dia Mundial do Refugiado, o ACNUR lançou seu relatório anual e apresentou números ainda maiores. O que chamou minha atenção ao comparar os números de 2006 com os atuais é o impressionante crescimento no número de deslocados internos, o que revela não apenas mudanças nas características dos conflitos, mas também as consequências das políticas migratórias cada vez mais rígidas nos países desenvolvidos e o aumento da intolerância e da xenofobia em todo o mundo na última década. E, ainda, o contínuo crescimento da população total de preocupação do ACNUR demonstra o grande fracasso da resposta da comunidade internacional diante do aumento das situações de conflito armado e de crises humanitárias nas últimas décadas. Embora tenham crescido em número e tipos as operações de paz e humanitárias da ONU em todo o mundo, a população civil continua a ser a principal vítima desses conflitos.

A partir da sua experiência na área profissional e acadêmica, como você avalia o clima de hostilidade que os brasileiros vêm promovendo em relação aos imigrantes, principalmente os oriundos de países ditos mais pobres, como Haiti e da África? Por que isso ocorre e o que deve ser feito para combater a intolerância e o preconceito em relação aos imigrantes?

Em primeiro lugar, é importante ressaltar que esse aumento da hostilidade com relação ao estrangeiro, o aumento da xenofobia e da violência contra o imigrante ou refugiado, infelizmente é percebido atualmente não apenas no Brasil, mas em muitas partes do mundo, especialmente após os atentados terroristas no início do século nos Estados Unidos (2001), Madri (2004) e Londres (2005). Esses atentados legitimaram e deram força aos discursos mais conservadores e que têm resultado em políticas migratórias mais rígidas, bem como na criminalização e na securitização da questão da imigração. As correntes políticas anti-imigratórias passam a articular terrorismo, crimes transnacionais e imigração irregular, e a noção de ameaça iminente e a necessidade de proteger o Estado contra essas ameaças fazem com que esses discursos se proliferem. Assim, passam a fazer associar “islamismo” e “terrorismo”, por exemplo, e chegam a resgatar o discurso da “pureza racial europeia”, o qual num passado bastante recente resultou em grandes tragédias para toda a humanidade. É importante ressaltar, ainda, que algumas pesquisas mostram que o aumento da xenofobia na Europa, por exemplo, acontece justamente em momentos de crescimento econômico, por isso a associação direta entre crise econômica e financeira com o aumento da hostilidade é uma falácia, a questão é muito mais complexa. Não são as lógicas econômicas e financeiras diretamente que geram essa hostilidade – aliás, os trabalhos realizados por imigrantes têm sido fundamentais para o crescimento econômico em muitos países desenvolvidos -, mas as decisões políticas nacionais e no âmbito dos organismos multilaterais, as quais resultam em processos de exclusão social, étnica e cultural. Por isso entendo que o aumento da xenofobia é um problema político, social e cultural, e não apenas econômico, embora todas essas lógicas estejam intrinsicamente relacionadas.

Falando especificamente do Brasil, o que existe é um grande desconhecimento com relação aos conflitos contemporâneos e às situações que resultam em crises humanitárias, violência generalizada e perseguições. Esses conflitos e crises são ignorados pela mídia tradicional do país e, quando aparecem nas notícias são tratados a partir das informações oficiais produzidas por governos ou pelas agências internacionais, o que resulta em uma postura pouco ou nada crítica por parte da mídia e no tratamento superficial dessas questões. Como consequência, existe também um grande desconhecimento sobre o que é ser refugiado. E o desconhecimento, somado ao crescimento dos discursos políticos anti-imigratórios que associam a imigração irregular com o terrorismo e com crimes transnacionais, resulta em medo, preconceito, violência, xenofobia.

Por isso é tão importante e urgente o debate sobre a regulação da mídia no Brasil. É preciso repensar o papel e a responsabilidade dos veículos de comunicação. É fundamental também o investimento em políticas públicas nas mais diversas áreas que promovam a educação intercultural, políticas públicas que não apenas incluam a diferença de maneira formal e burocrática, mas que promovam a valorização e a inclusão dessa diferença nas estruturas do Estado e da sociedade. Os discursos oficiais sobre diversidade ou multiculturalismo revelam-se insuficientes e continuam restritos aos âmbitos da educação e da cultura. É preciso pensar essa questão da diferença de maneira mais ampla, com vistas a construir uma democracia que seja verdadeiramente intercultural.

O aumento da xenofobia é percebido não apenas no Brasil/ Crédito: Arquivo Pessoal
O aumento da xenofobia é percebido não apenas no Brasil/ Crédito: ACNUR BRASIL/ V. Graziano

Em sua opinião, por que o Brasil é uma escolha para esses imigrantes?

Temos que diferenciar as migrações da condição de refúgio. Embora a imigração também seja em geral forçada, ou seja, as pessoas se sentem pressionadas pelas condições econômicas e sociais a abandonar seus lares para tentar construir uma nova vida em outros países, ainda assim é uma condição diferente do refúgio. No caso do refúgio, a pessoa não tem escolha, ou ela foge, ou vai morrer, seja por um contexto de violência generalizada, ocasionada por um conflito armado, por exemplo, seja por uma perseguição individual devido à sua religião, etnia, orientação sexual, etc. No caso do refúgio é muito difícil que a pessoa consiga escolher o país de destino. Ela está vivendo uma situação de ameaça, de perigo iminente, e foge para onde consegue. Na década de 1980, cresceu significativamente o número de refugiados angolanos no Brasil, os quais fugiam da guerra civil e chegavam ao país pela proximidade linguística e cultural. Chegam também refugiados de diversos outros países africanos, muitos deles vêm escondidos em porões de navios e descobrem que estão no Brasil somente ao desembarcar. No caso da Colômbia e do Haiti, a proximidade geográfica contribuiu para a vinda de uma significativa população para o país. Além disso, muitos outros refugiados chegam ao Brasil por meio do programa de reassentamento do ACNUR, ou seja, chegam como refugiados em países e por algum motivo não podem continuar nele – seja porque esses países não reconhecem seu status de refugiado ou porque continuam a sofrer ameaças -, eles são reassentados pelo ACNUR em um terceiro país, e o Brasil faz parte desse programa de reassentamento.

Numa situação como essa, percebemos que o mundo não é tão sem fronteiras assim…

Não mesmo. Tenho pesquisado bastante sobre essas contradições inerentes à globalização – ou melhor, globalizações, no plural – e, em especial, à sua fase mais recente, marcada pelo capitalismo global. Embora esses processos mais recentes relacionados ao fenômeno da globalização tenham criado um fluxo de capitais e mercados sem precedentes, as fronteiras se fecham cada vez mais para os seres humanos. É preciso lembrar que a globalização é um processo bastante desigual, assimétrico. Enquanto uma minoria, especialmente em países desenvolvidos, se beneficia das facilidades promovidas pela globalização, por outro lado, as fronteiras têm se tornado muito mais rígidas para as populações mais pobres do planeta, as quais deixam para trás suas famílias para tentar construir uma nova vida em outro país, mas que acabam barradas pelas políticas migratórias. As barreiras são cada vez mais altas e fortes especialmente naqueles países responsáveis pelas decisões políticas e econômicas tomadas no âmbito dos organismos internacionais e que resultam em intervenções e conflitos internos. E, quando as vítimas desses conflitos conseguem atravessar uma fronteira internacional, as barreiras permanecem não mais como um muro de concreto, mas a partir da criminalização de sua condição e de sua identificação como imigrante ilegal e, de maneira mais profunda e complexa, na forma de barreiras simbólicas, ou seja, os imigrantes e refugiados continuam a sofrer com as políticas migratórias rígidas, que dificultam a integração, a busca por um trabalho, com a violência do Estado, e também com a xenofobia e o preconceito das populações locais. As fronteiras simbólicas estão ali, presentes no dia a dia de um migrante ou refugiado. Estamos muito longe da possibilidade de construção de uma cidadania universal, embora os entusiastas da globalização falem em desaparecimentos de todas as fronteiras.

SERVIÇO:

O livro A Esperança além da Fronteira, de Valeria Graziano, está disponível para consulta na biblioteca da PUC-Campinas, no Campus I da Universidade.

Informações em: (19) 3343-7058

 

Marcado no Nascimento

Por Luís Renato Vedovato

O Jornal Correio Popular, de Campinas, noticiava, em 2009, a preocupação da administração pública do município com a vinda de moradores de rua para o seu território.  Realidade bastante semelhante com os desentendimentos entre França e Itália, no episódio dos tunisianos em Ventimiglia, cidade italiana, em 2011, ou dos africanos que se dirigem à Europa hoje e dos haitianos no Brasil.

Esses casos, apesar de representarem um microcosmo, mostram que a exclusão não atinge apenas os estrangeiros. A exclusão ataca aqueles que são identificados como “outros”. Atinge todos aqueles que são tidos como diferentes. O paradoxo é gigante ao se imaginar que os índios americanos alcançaram o direito pleno à nacionalidade estadunidense apenas em 1924, e, sem dúvida, estavam no seu país de origem.

Segundo os dados estatísticos disponíveis, tanto de forma absoluta quanto relativa, nunca houve uma quantidade tão grande de migrantes como a que existe hoje e o número deles decerto está num crescente. Quase todos os países do mundo são e continuarão sendo afetados pelo aumento da circulação de pessoas pelo globo.

Migração está ligada umbilicalmente a outras importantes questões globais, como pobreza, desenvolvimento e direitos humanos/ Crédito: Álvaro Jr.
Migração está ligada umbilicalmente a outras importantes questões globais, como pobreza, desenvolvimento e direitos humanos/ Crédito: Álvaro Jr.

O papel do Estado é o de criar uma política de migração, para demonstrar sinais da sua posição no mundo e seu relacionamento com as pessoas, de forma a permitir a troca de conhecimentos e a diversidade cultural.

É crucial entender, no entanto, que a migração está ligada umbilicalmente a outras importantes questões globais, como pobreza, desenvolvimento e direitos humanos. Perceber que estamos num único planeta pode contribuir para o auxílio de pessoas e para a sustentabilidade.

A migração também traz consigo questões desafiadoras, pois há várias formas de exploração abusiva dos indivíduos, que, por experimentarem grande dificuldade de inserção social no seu destino, acabam tendo violados os seus direitos fundamentais, trabalhando ou vivendo em ambientes degradantes. Ficar atento a isso também amplia a proteção aos indivíduos.

Os desafios para o futuro são muito grandes, mas só poderão ser vencidos se o planeta for entendido como pertencente a todos/ Crédito: Álvaro Jr.
Os desafios para o futuro são muito grandes, mas só poderão ser vencidos se o planeta for entendido como pertencente a todos/ Crédito: Álvaro Jr.

A condição de migrante é determinada por a pessoa se encontrar em Estado com o qual não possui o vínculo de nacionalidade, definido, como se sabe, pelo Estado soberano, o qual, de fato, tem a possibilidade de regular o trânsito de estrangeiros por suas fronteiras. Esse Estado alcança, para tanto, amparo no Direito Internacional que reconhece aos Estados soberanos o direito de regular ou proibir a entrada de estrangeiros em seu território. Assim, a migração é um processo que afeta toda dimensão social existente e que se desenvolve na sua própria dinâmica complexa.

Os desafios para o futuro são muito grandes, mas só poderão ser vencidos se o planeta for entendido como pertencente a todos, tendo suas riquezas divididas de forma a não olvidar da existência dos direitos humanos e não se negligenciarem as necessidades de proteção da sustentabilidade do planeta, pois, trata-se de nosso futuro comum e conjunto.

Luís Renato Vedovato é Doutor em Direito Internacional e Professor na Faculdade de Direito da PUC-Campinas

Língua e poesia popular: entre a fala e a escrita

Por Cristina Betioli Ribeiro Marques

Quando o assunto é língua materna, muitas ideias passam pela cabeça dos seus usuários: o vínculo com a terra pátria, o canal para relembrar e contar histórias, o meio para registrar e difundir conhecimento, o instrumento identificador do sujeito humano inserido em sua cultura.

Embora sejamos todos conhecedores intuitivos dos aspectos constituidores de nosso idioma – afinal, dispomos dele constantemente, no dia a dia – nem sempre atentamos para questões socioculturais essenciais que o definem. Uma dessas questões é a profunda diferença entre língua falada e língua escrita. Os usos dessas duas modalidades, embora apoiados numa competência linguística que é comum a todos os usuários de um idioma, servem a propósitos distintos. As variedades linguísticas presentes na língua falada – e para citar um exemplo, consideremos os diversos sotaques brasileiros – nem de longe podem ser plenamente transpostas para a língua escrita. Essa limitação se dá por uma questão absolutamente técnica: a escrita não dispõe de símbolos gráficos suficientes para representar toda a variedade sonora que uma língua pode apresentar.

A literatura de cordel é, simultaneamente, patrimônio material e imaterial brasileiro/ Crédito: Divulgação
A literatura de cordel é, simultaneamente, patrimônio material e imaterial brasileiro/ Crédito: Divulgação

Se esse fato fosse apenas um dado teórico, menos mal; mas infelizmente não é. A escrita, embora seja uma modalidade de uso da língua desenvolvida artificialmente e muito mais recente que a fala na história da humanidade, ganhou estatuto de superioridade depois dos antigos estudos alexandrinos que inauguraram, a partir da literatura grega, a prescrição de regras para o “bom uso” do idioma. As gramáticas tradicionais que conhecemos têm filiação nesses estudos que, historicamente, foram desprestigiando a modalidade falada em detrimento da escrita. O resultado disso, na tradição de ensino de português no Brasil, é o conhecido bordão de que “não sabemos português”. Ora, como é que pode haver uma nação constituída de falantes que não sabem a própria língua? Qual o lugar reservado aos usuários do idioma que são iletrados? Questionamentos como estes devem-nos levar a repensar os aspectos definidores de língua materna, como patrimônio imaterial muito mais complexo do que aparenta.

Dentre os produtos-símbolo da cultura brasileira, temos um exemplo que ilustra de forma sui generis o lugar que a tradição oral pode ocupar. O gênero de texto conhecido como “literatura de cordel” nos mostra como pode ser controversa a polarização entre língua falada e língua escrita. No exemplo em questão, as duas modalidades podem estar numa relação de continuidade com a qual a gramática normativa não consegue lidar. Até mesmo o uso do termo “literatura”, para uma poesia que na sua origem era composta e transmitida oralmente, pode ser inadequado. As narrativas poéticas de cordel têm história nas cantorias improvisadas, com participação eufórica de auditórios que se misturavam aos cantadores, desde meados do século XIX, predominantemente nas antigas “províncias do Norte” (período em que ainda não se conhecia a separação regional do “Nordeste”). Nessa época, os índices de alfabetização no Brasil eram baixíssimos e, ainda mais, nas regiões que se distanciavam da capital do Império e dos centros cultural e economicamente mais estabelecidos, como Recife e Bahia. Por esse motivo, os populares poemas em redondilhas maiores e rimas regulares, eram compostos por poetas não alfabetizados, com extraordinária memória e engenho para a improvisação, que faziam renome em suas comunidades e atraíam público para reverenciar sua performance.

Profa. Dra. Cristina Betioli Ribeiro Marques/ Crédito: Álvaro Jr.
Profa. Dra. Cristina Betioli Ribeiro Marques / Crédito: Álvaro Jr.

A poesia popular dos cantadores nortistas ganharia formato impresso em folhetos, amarrados por cordéis em varais de exposição nas feiras populares, no início do século XX. Produzidos e impressos em pequenas tipografias particulares, esses folhetos começam a conferir autoria a poetas como Leandro Gomes de Barros e Francisco das Chagas Batista. A partir de então, as composições que eram predominantemente orais ganham o prestígio de literatura impressa; no entanto, nessa literatura, perdurará o caráter misto de criações com traços da fala transpostos para a escrita.

Podemos dizer que a literatura de cordel, por representar um registro híbrido da nossa língua, é, simultaneamente, patrimônio material e imaterial brasileiro. Seus temas versam sobre atualidades, amor, sofrimento, fábulas, valentia e, em tempos de soberania da escrita… o valor da instrução para a dignidade do homem. Nas palavras do poeta João Martins de Athayde, em “A desventura de um analfabeto ou o homem que nunca aprendeu a ler” (1945): “Abram-se as portas da escola,/ para este povo entrar,/ a fim de obter a esmola/ do saber que vai buscar,/ porque o analfabetismo,/ deixa o homem no ostracismo,/ faz a vergonha do lar”.

Profa. Dra. Cristina Betioli Ribeiro Marques é  Docente na Faculdade de Letras da PUC-Campinas