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Por uma Ecologia Integral

Grandes temas da Encíclica do Papa Francisco foram destaque no Colóquio Laudato Si’: por uma ecologia integral. Evento organizado pelo Núcleo de Fé e Cultura proporcionou reflexões e perspectivas para um futuro mais sustentável

 

Por Amanda Cotrim

O Meio Ambiente vem sendo tema de discussões teóricas e práticas nos últimos anos por diversas instituições e países, com o objetivo de pensar um modo sustentável de sobrevivência, que alie desenvolvimento e preservação de recursos naturais. No entanto, desde 1970, a Igreja Católica iniciou campanhas sobre o Meio Ambiente, chamando a comunidade cristã a pensar sobre o consumo e a degradação da natureza.

“Nesse aspecto, a Igreja Católica no Brasil foi profética”, ressaltou o Reitor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Prof. Dr. Pe. Josafá Carlos de Siqueira, que é formado em Biologia e tem especialização na área, abrindo a primeira mesa de debate do Colóquio Laudato Si’: Por uma Ecologia integral, organizado pelo Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas.

O evento ocorreu meses depois da criação da encíclica “Laudato Si’” (Louvado sejas) do Papa Francisco, que conta com 246 parágrafos divididos em seis capítulos, e a qual acrescenta uma frente à doutrina da Igreja: ao se dirigir às pessoas que habitam o Planeta Terra – sendo ou não cristão – o Papa invoca a solidariedade universal para unir a todos na busca pelo desenvolvimento sustentável e, mais importante, integral.

“O papel das universidades é criar alternativas sustentáveis de vida. Para isso, todas as áreas do conhecimento precisam se aproximar para que a questão do Meio Ambiente seja interdisciplinar e não somente uma área da Biologia. A totalidade e a visão sistêmica são bíblicas. E a Ecologia integral faz parte disso”, afirmou o Reitor Josafá, durante evento.

Outro ponto destacado pelo Reitor da PUC-Rio é a valorização quanto à divulgação científica de uma universidade. “Precisamos divulgar os conhecimentos produzidos pela Academia e a produção de conhecimento adquiridos junto aos projetos de Extensão”.

O docente da Faculdade de Ciências Econômicas, Prof. Me. Ernesto Dimas Paulella, propôs uma conversão ecológica, lembrando um pedido do Papa Francisco. “Levar realmente em consideração a crise ecológica. Reconhecer e agir para mudar. Fazer uma reconciliação com a nossa Casa Comum”. Segundo ele, a partir de uma conversão ecológica prática, no qual também participam o poder público e as empresas, o cristão passa a pensar o mundo de maneira diferente.

O Colóquio também reservou espaço para um debate ético, ecológico, espiritual e midiático da vida no Planeta, reconhecendo o modo sistêmico como a questão ambiental deve ser pensada. O docente da Faculdade de Jornalismo, Prof. Me. Marcel Cheida, lembrou o monopólio midiático e a imposição hegemônica sobre a produção da vida, referindo-se ao consumo, a concentração de riqueza e de poder econômico. “A fortuna de 85 famílias no mundo corresponde a 50% dos bens da população pobre”, destacou Cheida.

Os debates fomentaram a seguinte tese: a questão ecológica não está isolada. Ao contrário, para ela ser compreendida e para que uma mudança aconteça, é preciso pensá-la em sua totalidade.

 “Um ponto que devemos destacar são as relações de trabalho que são desenvolvidas quando a prioridade é a maximização da produção e do lucro. O Meio Ambiente não entra no cálculo econômico das grandes empresas. O mercado não entende o que é ‘valor inestimável’ quando o Papa Francisco fala sobre o Meio Ambiente ser o nosso patrimônio”, criticou docente do Curso de Mestrado em Sustentabilidade e da Faculdade de Direito da PUC-Campinas, Prof. Dr. Josué Mastrodi.

O Meio Ambiente vem sendo tema de discussões teóricas e práticas nos últimos anos / Crédito: Álvaro Jr.
O Meio Ambiente vem sendo tema de discussões teóricas e práticas nos últimos anos / Crédito: Álvaro Jr.

De acordo com o docente da Faculdade de Teologia, e mediador do debate sobre “Educação e Espiritualidade ecológicas para a construção de uma ecologia integral”, Prof. Me. José Donizeti de Souza, a realidade é sempre maior do que a ideia sobre a realidade, por isso, os cristãos devem conhecer a realidade de seu país. “O Papa Francisco diz que, para conhecer a realidade, é necessário começar conhecendo a periferia”, fazendo referência à vocação da PUC-Campinas como instituição de ensino que dialoga com as classes sociais baixas em seus Projetos de Extensão.

Os debatedores ressaltaram que a encíclica do Papa Francisco é um convite à espiritualidade e a uma vida simples, avessa ao consumismo e favorável a um modo de vida sustentável e justo.

O Colóquio Laudato Si’: por uma ecologia integral teve ao todo uma Conferência, cujo tema foi a ecologia integral, ministrado pelo Reitor da PUC-Rio, além de mesas-redondas que discutiram as questões éticas, ecológicas, espirituais, midiáticas, teológicas, econômicas e pedagógicas para uma ecologia integral. O evento foi organizado pelo Núcleo de Fé e Cultura da Universidade e aconteceu nos dias 4 e 5 de maio, no Campus I (Rodovia Dom Pedro I km, 136, Parque das Universidades) da PUC-Campinas.

Colóquio aconteceu nos dias 4 e 5 de maio de 2016/ Crédito: Álvaro Jr.
Colóquio aconteceu nos dias 4 e 5 de maio de 2016/ Crédito: Álvaro Jr.

 

 

 

 

Como o universitário pode se alimentar melhor?

Por Patrícia Frenhani

A questão central é se o aluno mora sozinho ou com a família. Se ele morar sozinho, será preciso mais disciplina e motivação.

O ideal seria avaliar, de forma individualizada, as condições e a alimentação de cada estudante por meio de consulta nutricional, mas, de modo geral, algumas orientações e dicas podem ser relevantes a todos.

O local de armazenamento da comida é fundamental para que o aluno possa ter uma alimentação segura. Ele pode preparar pratos rápidos e saudáveis no final de semana e congelá-los para facilitar o consumo em casa durante a semana.

No final de semana, o aluno também pode higienizar as verduras e legumes, guardá-las em potes na geladeira e, durante a semana, consumir de forma prática. Deve-se apenas planejar a quantidade a ser preparada para que não se deteriorem na geladeira.

Evitar industrializados

Deve-se evitar levar refeições prontas para a faculdade, pois se forem deixadas sem refrigeração para consumo mais tarde, haverá o risco de contaminação e intoxicação alimentar. Se tiver a opção de mantê-las em refrigeração e aquecê-las na hora do consumo, seria uma ótima alternativa. Apenas tomar o cuidado de armazenar a salada crua em pote separado. Mas se o consumo for feito em restaurantes, optar por pratos ou alimentos mais saudáveis no dia a dia.

De uma forma geral, o estudante pode levar lanches práticos e seguros para consumir nos intervalos, como frutas e barras de cereal (com baixo teor de açúcar). As castanhas, nozes e frutas secas constituem uma possibilidade de lanche rápido, saudável e de fácil armazenamento. Apenas tomar cuidado com a quantidade, pois são mais calóricas.

O ponto chave e mais relevante da alimentação hoje consiste em evitar os alimentos industrializados, devido ao alto teor de gorduras saturadas e trans, açúcar e sódio, como por exemplo, sucos de caixinha e em pó, macarrão instantâneo, salgadinhos de pacote, frango empanado, refeições congeladas, refrigerantes, biscoitos. Tomar cuidado também com a ingestão frequente dos embutidos e carnes processadas como hambúrguer, salsicha, linguiça, bacon, presunto, mortadela, salame. Os alunos, por causa da correria, acabam comendo esse tipo de alimento por ser mais prático. Mas a boa notícia é que tem como fazer uma comida prática, rápida, gostosa e saudável e o nutricionista poderá ajudar nas escolhas e no preparo de receitas diversificadas.

Dica para o aluno que estuda a noite e trabalha

Para o aluno que estuda no período noturno, uma dica seria jantar antes de ir para aula. No intervalo, ele pode comer uma fruta, uma barra de cereal ou castanha e, quando chegar em casa, fazer um refeição leve, por exemplo um lanche natural com pão integral, queijo branco, requeijão light ou patê de atum ou sardinha sem óleo (feito com ricota ou iogurte desnatado), com folhas verdes, tomate, cenoura ralada e um suco natural. Uma torta de liquidificador, preparada antecipadamente, também é uma opção prática e pode representar uma refeição completa se incluir farinha integral ou aveia, verduras, legumes e fonte proteica (carne moída ou frango desfiado) na receita. Como sobremesa preferir as frutas.

É importante salientar que não adianta consumir exageradamente os produtos com menor teor de gordura ou light, como o peito de peru, requeijão light e queijo branco, pois estes ainda contêm gordura e energia. Assim, a dica seria evitar comê-los em grandes quantidades e/ou de forma muito frequente. Muitas vezes, os jovens acham que porque o produto é light, é possível consumir à vontade. Mas isso é um engano. Da mesma forma, o refrigerante zero ou diet contém adoçante que não é saudável como se pensa, ocasionando, muitas vezes, alguns efeitos colaterais como dores de cabeça, além de deixar o nosso paladar menos sensível ao açúcar, não ter nenhum valor nutricional, aumentar o risco de osteoporose e constituir um hábito nada saudável, substituindo alimentos mais nutritivos, como um suco de fruta natural, ou mesmo a água, que acaba sendo pouco ingerida no dia.

Quanto comer nas refeições?

A metade do prato deve ser constituída de verduras e legumes crus e cozidos. A outra metade é dividida ao meio entre fontes de proteínas – carnes ou ovos e leguminosas (feijão, lentilha, ervilha, soja) – e alimentos ricos em energia, como arroz, milho, macarrão, batata ou mandioca, dando preferência aos cereais integrais.

É fundamental comer de três em três horas para manter o metabolismo ativo e o gasto energético e também para não ficar com muita fome nas refeições e, assim, controlar o consumo.

Eu diria para os estudantes se lembrarem de beber água, sendo recomendados dois litros por dia. Uma dica é ficar com uma garrafa de 500 ml ao lado, e enchê-la quatro vezes ao dia.

Nem todo integral é integral

É também preciso ficar atento aos produtos que se apresentam “integrais” na embalagem, como os pães, pois, muitas vezes, têm mais farinha branca do que integral na receita. O desafio é olhar e compreender os rótulos. Os ingredientes estão descritos na ordem decrescente em teor, assim, aquele que aparece primeiro é que está em maior quantidade no produto. O verdadeiro pão integral é aquele que apresenta 100% de farinha integral, mas estes estão em minoria nos mercados e padarias.

É preciso seguir, com maior frequência, uma alimentação mais natural e variada em frutas, verduras e legumes, sendo que os alimentos gordurosos, como a pizza, e açucarados como o refrigerante e o sorvete, não são proibidos, mas devem ser controlados na frequência e na quantidade. Assim, a base alimentar precisa ser saudável, apresentando como pontos chaves a moderação – em frequência e quantidade – e variedade.

É preciso voltar a consumir os alimentos naturais e evitar os industrializados, que, em longo prazo, contribuem para o desenvolvimento das doenças crônicas como o excesso de peso ou obesidade, hipertensão, diabetes e colesterol elevado.

Quem estiver interessado em mais dicas, esclarecimento de dúvidas, ou tiver interesse em receber um atendimento individualizado, deve procurar um profissional nutricionista para ajudá-lo a seguir uma alimentação mais saudável, prática e, desta forma, viver com mais qualidade de vida.

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Profa. Dra. Patrícia Frenhani é docente da Faculdade de Nutrição da PUC-Campinas/ Crédito: Álvaro Jr. 

 

Os desafios da agricultura familiar

Por Regina Longo

No mundo moderno em que se pensa a agricultura (atualmente, também conhecida como agronegócio) como uma atividade relacionada basicamente aos grandes negócios, aos grandes latifúndios e à exportação em larga escala de grãos, como a soja e o milho, de carne e de cana-de-açúcar, falar de agricultura familiar tornou-se algo paradoxal.

Paradoxal no sentido de que é uma atividade com tão pouca visibilidade em um mundo em que a prioridade é a produção de mercadorias e para grandes mercados. Dessa forma, não é necessário ir muito longe para resgatar a importância da agricultura familiar, que além de pioneira e milenar vem acompanhando a humanidade na formação dos núcleos urbanos culminando no estabelecimento das sociedades atuais.

Nesse contexto, como não discutir a importância de uma agricultura que é a principal responsável pela produção dos alimentos que chegam às mesas dos brasileiros? A agricultura familiar responde por cerca de 70% dos alimentos consumidos em todo o País. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2006, 87% da mandioca, 70% do feijão, 46% do milho, 34% do arroz, 58%, do leite, 59% dos suínos, 50 das aves, 30% dos bovinos e 21% do trigo produzidos no Brasil são oriundos da agricultura familiar, sem falar, ainda, na produção de frutas e hortaliças.

Outra informação interessante é que 85% dos estabelecimentos agropecuários do país são da agricultura familiar. Em termos absolutos, são 4,3 milhões de estabelecimentos agropecuários. Entretanto, a área ocupada pela agricultura familiar era de apenas 80,25 milhões de hectares, (IBGE, 2006). Assim observa-se que no Brasil, 24% das terras agricultáveis pertencem aos pequenos produtores familiares, segundo dados do Censo Agropecuário. Mesmo assim, a agricultura familiar é responsável por mais de 80% dos empregos gerados no campo, o que evidencia a importância desse segmento na geração de trabalho e renda e também na contenção do êxodo rural.

Devemos entender a agricultura familiar, desta forma, como aquela que é feita nas pequenas propriedades/ Crédito: Álvaro Jr.
Devemos entender a agricultura familiar, desta forma, como aquela que é feita nas pequenas propriedades/ Crédito: Álvaro Jr.

E para entender melhor a agricultura familiar é necessário compreender quem são esses produtores rurais que fazem chegar as nossas mesas o que comemos todos os dias. Segundo a Constituição brasileira, materializada na Lei no 11.326, de julho de 2006, considera-se agricultor familiar aquele que desenvolve atividades econômicas no meio rural e que atende alguns requisitos básicos, tais como: não possuir propriedade rural maior que 4 módulos fiscais (um módulo fiscal, resumidamente, é uma unidade de terra cujo tamanho é definido pelo poder municipal e varia entre 5 e 100 hectares); utilizar predominantemente mão de obra da própria família nas atividades econômicas de propriedade; e possuir a maior parte da renda familiar proveniente das atividades agropecuárias desenvolvidas no estabelecimento rural.

Devemos entender a agricultura familiar, desta forma, como aquela que é feita nas pequenas propriedades, por famílias que conseguem sua renda com os produtos que plantam, colhem e fazem chegar todos os dias em nossas mesas. É feita por pessoas que trabalham a terra, normalmente sem, ou, às vezes, com pequenas máquinas, que usam pouco ou, às vezes, nem utilizam adubos e defensivos agrícolas. O alimento que comemos é fruto do trabalho de inúmeras famílias espalhadas por todo o Brasil, que, muitas vezes, passam despercebidas em um mundo acelerado e desatento, que, por vezes, não tem ideia de que os alimentos são frutos de um trabalho diário que vai muito além das gôndolas dos supermercados.

Assim, o grande desafio da sociedade atual vai além de aumentar a produção de alimentos de forma a atender a demanda de uma população ainda crescente. Mas, também, está na valorização daqueles que fazem da terra seu sustento e que nos agraciam, diariamente, com nosso alimento.

 Profa. Dra. Regina Longa é Engenheira Agrônoma e docente no curso de Engenharia Ambiental da PUC-Campinas

Alimentos e agrotóxicos: uma relação histórica e danosa

Por Marcela Nascimento

O termo agrotóxico é amplamente utilizado nas conversas cotidianas, das escolas às mesas de bar, mas será que todo mundo sabe mesmo o que isso quer dizer? Agrotóxicos são definidos pela Lei Federal no 7.802, de 11 de julho de 1989, abrangendo os produtos e os agentes de processos físicos, químicos ou biológicos, destinados ao uso nos setores de produção, no armazenamento e beneficiamento dos produtos agrícolas, nas pastagens, na proteção de florestas, nativas ou implantadas, e de outros ecossistemas e também de ambientes urbanos, hídricos e industriais, cuja finalidade seja alterar a composição da flora ou da fauna, a fim de preservá-las da ação danosa de seres vivos considerados nocivos. Ou seja, inseticidas, fungicidas, herbicidas entre outros “cidas” utilizados para evitar danos em culturas agrícolas, florestais e em seu armazenamento.

O uso dessas substâncias remonta ao início do século passado primeiramente com o diclorodifeniltricloroetano ou DDT. Esse composto químico foi utilizado inicialmente para o controle da malária, depois, juntamente com outros compostos foi utilizado nos cultivos agrícolas para o controle de pragas e até como armas químicas na primeira guerra mundial. Entretanto, foi após a chamada “revolução verde”, um processo de mudança da política agrícola mundial, pós-segunda guerra mundial, visando à modernização do campo para acabar com a fome do pós-guerra, que os agrotóxicos passaram a ser utilizados em grande escala, sobretudo no final da década de 1960, após o desenvolvimento das sementes transgênicas resistentes ao glifosato (herbicida).

Logo nos anos iniciais da década de 1970, o uso do DDT foi proibido em quase todo o mundo, sobretudo após as denúncias de Rachel Carson em seu livro “Primavera Silenciosa”. Mas não era só o DDT, a essa altura, diversos outros pesticidas já haviam sido desenvolvidos e estavam sendo utilizados em larga escala para conseguir manter o modelo monocultor extensivo da produção de alimentos mundial. Modelo este muito susceptível ao ataque de pragas e que por este motivo demanda enormes quantidades de produtos para viabilizar sua produção, desde fertilizantes para a manutenção da fertilidade da terra, herbicidas para evitar a competição com plantas daninhas, inseticidas para controlar insetos que danificam a cultura, fungicidas para garantir a produção em áreas tropicais e pesticidas para garantir que o alimento armazenado não seja danificado. Só que esses produtos deixam resíduos tanto no ambiente como nos alimentos.

Já é bem documentado na literatura científica que esses produtos podem causar diversos problemas de saúde, tanto em quem trabalha diretamente na sua aplicação (que em muitos casos não utilizam os equipamentos se proteção, seja por ignorância seja por negligência do empregador), como em quem consome. Em casos leves de intoxicação podem ocorrer dores de cabeça, mal-estar, fraqueza, tonturas, náuseas e azia, por exemplo, seja pela exposição excessiva a determinado produto ou pelo consumo ou exposição prolongada à determinada substância. Além disso, problemas graves de saúde podem se manifestar muito tempo após a exposição ou seu consumo excessivo como alguns tipos de câncer, malformações congênitas, distúrbios endócrinos, cardíacos, neurológicos e mentais.

Relatores da Organização das Nações Unidas (ONU) fizeram, em 2015, um apelo à comunidade internacional, solicitando que seja suspenso, imediatamente o uso de pesticidas na produção de alimentos, argumentando que os resíduos desses pesticidas perigosos são frequentemente encontrados no alimento que consumimos impedindo o direito individual de ter acesso à alimentação segura e saudável.

A despeito disso, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA), desde 2009 o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, consumindo mais de 1 milhão de toneladas por ano, o que representa o consumo médio de 5,2 kg de veneno agrícola por habitante. De acordo com o documento publicado pelo INCA, em abril de 2015, 70% dos alimentos in natura consumidos no país estão contaminados por agrotóxicos, dos quais, segundo a Anvisa, 28% contêm substâncias não autorizadas.

Sendo assim, nos cabe, enquanto cidadãos, procurar alimentos livres de agrotóxicos, nos unir na luta por uma política nacional efetivamente regulatória com relação ao uso de agrotóxico, bem como ao incentivo real às formas de produção mais sustentáveis e responsáveis, repensando no atual modelo de produção agrícola baseado em monocultura de grande escala, além de exigir uma maior fiscalização quanto ao cumprimento das normas e regulamentações.

Somente é produzido aquilo que as pessoas consomem, se nós nos recusarmos a consumir produtos contaminados por agrotóxicos, os produtores e as indústrias alimentícias terão de buscar tecnologias alternativas, sendo esse o nosso papel como consumidor consciente.

Prof. Dra. Marcela Nascimento é docente no curso de Ciências Biológicas da PUC-Campinas

 

Brasil é primeiro mundo em tecnologia agrícola

Por Amanda Cotrim

O brasileiro já vivenciou uma época em que a fome era um dos grandes problemas sociais. Não que ela tenha deixado de ser, mas esse problema diminuiu nos últimos anos. Não por acaso, o Brasil foi o país que mais reduziu a fome e a desnutrição, o que lhe rendeu reconhecimento internacional. Nesse aspecto, é possível afirmar que o Brasil é um dos poucos países que conquistou sua soberania alimentar e isso se deve a algumas razões, como: investimento em tecnologia e políticas públicas. Essa é a avaliação do diretor do curso de Ciências Econômicas da PUC-Campinas, Prof. Dr. Izaias de Carvalho Borges.

“O Brasil é um dos poucos países do mundo que conquistou tanto a segurança quanto a soberania alimentar. Quando uma população supera o desafio na produção de alimentos, ela passa a se preocupar com a qualidade desse alimento”. Mas ele ressalta que o alimento no Brasil poderia ser mais barato e de melhor qualidade se houvesse mais políticas públicas e, principalmente, pressão popular para a diminuição de agrotóxicos na plantação, à exemplo da Europa. O docente também destaca que a diminuição nos preços dos alimentos está relacionada ao transporte.  “O Brasil perde nas estradas 20% da produção de grãos. Além disso, o transporte por caminhão é mais caro e transporta menos, sem contar as rodovias que são sem asfalto. O valor da logística é que encarece o alimento”.

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Confira a entrevista na íntegra:

Defina, conceitualmente, o que é soberania alimentar e segurança alimentar?

Soberania alimentar é a capacidade que um país tem de alimentar sua população, em um período de tempo, sem precisar de outros países para isso; é ter uma oferta capaz de atender às necessidades básicas da população. Já a segurança alimentar, é garantir uma quantidade básica de calorias por pessoa. De forma geral, o Brasil é um dos poucos países do mundo que conquistou tanto a segurança quanto a soberania.

 Qual é a sua avaliação sobre o Brasil no cenário mundial?

 A nossa produção per capta de alimento é suficiente para atender toda a população; produzimos além do que consumimos. Eu digo, sem sombra de dúvidas, que, em produção de alimentos, o Brasil é destaque. É um dos maiores exportadores de alimentos. Se pensarmos nos próximos 50 anos e levarmos em conta o crescimento populacional, o meio ambiente e a restrição de recursos naturais no mundo, como a água e a terra, o Brasil é o país que aparece com mais potencial. Temos áreas agrícolas que não estão sendo utilizadas, ou seja, não há necessidade de desmatar a Amazônia e o Pantanal. Também temos bastante disponibilidade de água doce- apesar da crise hídrica no Estado de São Paulo-. E, por fim, temos a nossa vocação para a agricultura e avançamos em termos tecnológicos. O Brasil é primeiro mundo em tecnologia agrícola.

A soberania alimentar passa pela saúde alimentar. Como avalia o uso de agrotóxicos na produção de alimentos, considerando que o Brasil é um dos campeões no uso do veneno?

 Quando acabou a Segunda Guerra Mundial, o grande desafio era aumentar a produção de alimentos e alimentar a população. Nesse sentido, pensando em Brasil, esse modelo foi muito bem-sucedido: o crescimento da produção de alimentos foi maior que o crescimento populacional. A quantidade de terra para a produção cresceu pouco se compararmos a década de 1960 e a década de 2000, no entanto, a produtividade cresceu muito. O que está por trás disso? A tecnologia (mecanização), agrotóxicos e o melhoramento genético de plantas. Eles são os responsáveis pelo aumento de produção de alimentos no Brasil. Mas, se por um lado, alcançamos isso, por outro, tivemos um problema sobre a qualidade dos alimentos e sobre o meio ambiente; a nossa agricultura é totalmente dependente da irrigação, gastando 40% da água que é consumida em todo o território nacional. A preocupação sobre o uso excessivo de agrotóxicos começou nos anos 1990 nos países ricos, porque a questão da produção de alimentos já tinha deixado de ser um problema. Quando a fome deixa de ser o problema, as pessoas começam a se preocupar com qualidade. Mas por que alguns agrotóxicos são proibidos na Europa e no Brasil não? Por pressão popular. O nosso desafio, hoje, é tornar a agricultura mais sustentável, almejando não só a quantidade, mas a qualidade. Eu não vejo alternativa que não seja a tecnologia. O país está investindo nisso, mas não na velocidade necessária. À medida que a agricultura se torna mais sustentável, a saúde alimentar é maior.

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As empresas têm interesse em investir nas pesquisas de inovação e tecnologia para que o dano ao meio ambiente seja o menor possível, e para que os agrotóxicos sejam extintos?

 No Brasil, o investimento em pesquisas vem do setor público, por meio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e de universidades. As grandes multinacionais estão preocupadas com os produtos de alcance mundial, como a soja, o milho e a cana de açúcar. Do ponto de vista econômico, elas não estão interessadas em pesquisa. Nesses casos, é preciso políticas ambientais. No Estado de São Paulo, por exemplo, há uma lei que proíbe as empresas de fazerem a queima na plantação de cana de açúcar. Temos muitas leis ambientais no Brasil, mas falta fiscalização. Por outro lado, a população vem mudando sua relação com a alimentação. As pessoas estão mais exigentes. E o desrespeito ao meio ambiente, com desmatamento e o uso abusivo de agrotóxico tem uma resposta rápida. Se o produtor quiser continuar no mercado, terá de se adaptar à nova realidade.

Pensando nessa gama de atores, com diferentes interesses sobre o meio ambiente, o Brasil está conseguindo respeitar as múltiplas características culturais dos povos?

Temos problemas sérios que precisam ser resolvidos e nós temos condições de resolver. Se olharmos só a produção, o Brasil é um sucesso. Mas quando você se volta para outras realidades, percebemos que temos problemas históricos que não foram resolvidos, como os conflitos agrários: camponeses, terra indígena. A questão fundiária no Brasil é distinta da questão agrícola. A questão agrária não foi resolvida: a terra, as relações de trabalho, grilagem, conflito com quilombolas e tribos indígenas. Em algumas regiões, esses conflitos são muito mais complicados, porque o Brasil tem áreas que pertencem à União, mas não consegue fiscalizar, o que facilita a grilagem; regiões em que o modelo de agricultura é atrasado.

Em minha opinião, rever demarcação de terras indígenas é o caminho mais curto para a destruição ambiental. O Brasil não precisa de mais terra para expandir a agricultura, basta investir em tecnologia. Podemos nos desenvolver sem desmatar uma única árvore. Mas as questões políticas e históricas são o nosso grande problema: muitas vezes, os políticos são os grandes proprietários de terra, o que produz um conflito de interesse e um retrocesso. Temos leis, mas precisamos de fiscalização.

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Qual é a sua avaliação sobre o modelo de agronegócio que existe no Brasil?

O agronegócio inclui a agricultura, empresas que fornecem insumos, que compram da agricultura, enfim. Agricultura é apenas a atividade dentro da fazenda. O agronegócio é o sistema, que participa de 40% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. No entanto, nós temos alguns problemas. Grande parte das produtoras de insumos (tecnologia como maquinários e agrotóxicos) não é brasileira. Quando você tem um agronegócio que exporta majoritariamente grãos, isso é uma deficiência, porque o país só ganha o preço do saco da soja. Mas se ele exportasse o óleo, ganharia o valor agregado e geraria trabalho e renda. O Brasil continua sendo o maior exportador de café do mundo; exporta para Alemanha por 400 dólares, que refina o café e vende por 700. E, muitas vezes, o Brasil compra esse café.

O Brasil, segundo dados da Embrapa, de 2014, desperdiça 40 mil toneladas de alimentos todos os dias. Com esse número, a própria Embrapa estima que 19 milhões de pessoas poderiam ser alimentadas. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) diz que o Brasil está entre os 10 países que mais desperdiçam. Qual é o motivo desse desperdício?

 A logística não é a única, mas é a principal razão. Nossa produção se dá em grande medida na Região Centro-Oeste, que está distante dos portos; e o transporte que predomina no Brasil é o rodoviário. Precisaríamos de trem. Só com o transporte por caminhões, o Brasil perde nas estradas 20% da produção de grãos. Além disso, o transporte por caminhão é mais caro e transporta menos, sem contar as rodovias que são sem asfalto. Os grandes países não entendem o motivo pelo qual o Brasil transporta grãos em caminhões. O valor da logística é que encarece o alimento. Por exemplo: a distância média, hoje, dos produtos que chegam às Centrais de Abastecimento de Campinas (Ceasa), é de 400 km.

Por que o Brasil ainda importa alguns alimentos como o trigo, que vem da Argentina. O país não teria condições de produzir trigo?

 O Brasil é um grande importador de trigo. Isso se deve a questões climáticas. O país produz trigo, mas não conseguimos produzir o suficiente para atender à demanda. Daria para produzir, mas a um custo muito elevado. E temos um acordo de comércio comum. Não vejo problemas em importar da Argentina.

 Não é contraditório que mesmo o Brasil sendo o quinto maior território do mundo, com dimensões territoriais e situado em latitudes favoráveis, não tenha conseguido acabar com a fome?

 A fome era um tema recorrente no discurso dos candidatos à presidência da República no final dos anos 1980 e durante a década de 1990. Mas, nas ultimas três eleições (2006- 2010-2014), esse tema desapareceu do debate porque, nos últimos 15 anos, o Brasil foi o país que mais reduziu a fome e a desnutrição. Isso se deu, primeiro por causa do fim da inflação, que ocorreu com o Plano Real, em 1994; também tivemos o aumento da produtividade agrícola, fazendo com que o preço dos alimentos caísse no país, a despeito do aumento nos últimos três anos. Além disso, nós temos programas de transferência de renda e políticas específicas, como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) que subsidia crédito para a agricultura familiar, a responsável pelo alimento que vai para a mesa dos brasileiros. Tanto que hoje o nosso maior problema é o sobrepeso.

O Brasil conseguiu chegar mais próximo da erradicação da fome, tanto que nosso exemplo é exportado como modelo para outros países. Para que não haja retrocesso, é fundamental que o Estado continue investindo em políticas sociais. No mundo inteiro, a agricultura depende do Estado; em alguns países, depende mais, em outros, menos. Agora, precisamos zerar a fome e trabalhar a qualidade da alimentação.

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Em que medida é possível investir e ter um modelo de agricultura familiar capaz de atender ao mercado interno? Seria possível pensar em abastecimento por cidades?

 Essa ideia de que a agricultura familiar como subsistência ainda existe não é sustentável. Antes do êxodo rural, tudo era produzido no campo e consumido pelas famílias. No mundo moderno, nem o agricultor familiar vive sem celular. Ou seja, ele precisa pensar numa produção que tenha um excedente para poder sobreviver para além do que ele produz para se alimentar. Mesmo o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) não quer esse modelo de subsistência.

Nos Estados Unidos há muitas experiências sobre uma agricultura mais perto da cidade, valorizando a produção local. A agricultura familiar perto da cidade diminui o custo de transporte e possibilita o controle e a fiscalização do estado sobre o que está sendo produzido. Em muitos países, a agricultura familiar foi adotada como prática. Em relação ao Brasil, avalio que ela nunca foi tão valorizada e nunca tivemos tantos estudos sobre a sua importância. Porém, na Região Metropolitana de Campinas estamos na contramão disso. Diminuímos nossa produção e isso se deve ao fato de empresas terem vindo para cá, as construções de condomínios. Houve uma expansão que produziu um impacto nos preços dos terrenos; a terra ficou cara. A região está longe de uma produção local, infelizmente.

O Pronaf foi criado como uma política de crédito, para que o agricultor possa comprar insumo, semente melhorada, trator. Mas ele só tem acesso ao crédito se colocar o produto no mercado, e, atualmente, a agricultura familiar é voltada para a demanda interna. Agora, se ela é capaz de alimentar uma cidade, eu não tenho dúvidas de que a agricultura familiar seria capaz disso. Para termos uma ideia: de acordo com o último censo agropecuário (que já tem 10 anos) e de estudos em outros países, atualmente, 80% da produção de alimentos no mundo é realizada por pequeno e médio agricultor. Eu acredito que é possível termos agricultura familiar e agronegócio, porque precisamos produzir cana de açúcar e precisamos de arroz. A grande e a pequena agricultura são complementares. Agricultura familiar está acontecendo, mas de modo silencioso.

As pessoas que podem pagar têm recorrido aos produtos orgânicos. Por que eles são mais caros?

 O orgânico é um alimento que a população o entende como natural: sem veneno, sem fertilizante. As técnicas são “à moda antiga”, sem melhoramento genético. Alguns países incluem no conceito orgânico à sustentabilidade ambiental e social para comprar de algumas empresas, o que inclui as relações de trabalho nesse conceito. Ele é mais caro, porque ele  custa mais para produzir. Quando o produtor pulveriza o veneno na plantação, ele reduz a taxa de perda por pragas em 5%. A forma de combater a praga é mais custosa, se não for pulverizar o veneno, há de se tirar as pragas com a mão, o que significa contratar pessoas, o que deixaria o produto mais caro. O fato de produzir orgânico, a produção cai pela metade, pois o custo é maior e a produção é menor. Se não vender mais caro, fica inviável. Mas é importante dizer que o interesse do orgânico coincide com o interesse ambiental e de mercado.  Tem um público. No Brasil, no entanto, o orgânico ainda é mercado de nicho (classe), de certo nível de renda e de instrução. Já na Alemanha e na Inglaterra, mais de 50% da produção é orgânico.

 

As fotos dessa entrevista são de Álvaro Jr. 

Serviços em bares e restaurantes e o direito do consumidor

Por Maria Helena Campos de Carvalho

A Lei no 8.078/90 é conhecida como o Código de Defesa do Consumidor. No entanto, são muitas as confusões e incompreensões sobre esse tema, pois, usualmente os cidadãos se defrontam com direitos alegados, o que, de fato, inexistem no Código. Já, em outras oportunidades, desconhece o consumidor que um direito seu foi lesado e ele teria amparo legal.

Uma das áreas que causam preocupação e interesse crescente é a concernente à alimentação. Seja no fornecimento de produtos ou no seu manuseio, há de se estabelecer quais são os direitos básicos do consumidor.

Assim, saber qual é o limite de “sujeira tolerada” pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) é uma informação importante. Por exemplo, é tolerada a venda e consumo de chá de camomila com até cinco insetos inteiros mortos por 25g. Claro que o consumidor não visualiza os insetos, e tem aqueles insetos não permitidos pela ANVISA, mas é claro que ao leigo isso choca.

Há uma tabela interessante, abaixo, apenas como indicativa desses elementos que não causam lesão. Ora, se estão autorizados ou entende-se não serem aptos a causar lesão, nesses casos, o que se dá é o mero dissabor do consumidor, sem direito à indenização.

Assunto diverso é o consumo de alimentos estragados, seja por terem o prazo de validade (elemento essencial que deve constar de todos os mantimentos) vencido, seja pelo depósito e armazenamento impróprios. Claro está que nessas hipóteses houve lesão ao direito do consumidor, uma vez que sua saúde e integridade não podem ser expostas ou colocadas em risco pelos fabricantes, restaurantes e congêneres.

Se isso vier a provocar um problema de saúde, será um acidente de consumo. O consumidor tem o direito de pleitear a indenização pelo prejuízo causado, e, eventualmente, dependendo das circunstâncias de cada caso, por dano moral. Se for acidente de consumo, cabe pedir o dano moral. Se for verificado o problema antes do consumo, o cliente pode solicitar a troca do produto, seu dinheiro de volta, mas não poderá pleitear dano moral.

Quando se fala em indenização, isso abrange todo o prejuízo sofrido: gastos hospitalares, medicamentos, despesas feitas com a finalidade de sanar o mal causado pela ingestão de alimentos inadequadamente preparados.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo.
Fonte: Jornal Folha de S. Paulo.

Entenda-se: um restaurante deve garantir, entre outras coisas, acesso fácil para cadeirante; cardápio com descrição do conteúdo dos pratos; ao menos um cardápio em braile e um com outra língua além do português; cardápio visível, seja na porta do estabelecimento, seja logo em sua entrada, de tal sorte a permitir que o consumidor tenha uma noção da proposta do restaurante e o preço ali praticado, sem ter que sentar-se e depois sentir a humilhação de sair sem consumir, pois, o restaurante não é adequado ao seu padrão de consumo.

De igual forma, no cardápio, ou anunciado logo na entrada, o restaurante deve deixar explícitas as formas de pagamento permitidas, posto que o cliente não pode ser surpreendido no caixa com a alegação de que não se aceita aquela determinada forma de pagamento.

Esses são cuidados e atenções que o consumidor pode ter como forma inclusive de selecionar os bons restaurantes. A efetivação do código do consumidor se dá no dia a dia, com a atenção constante do consumidor, o zelo no respeito a seus direitos, e a certeza de que conta com órgãos fiscalizatórios sempre atentos, como a Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor (PROCON). Seja um consumidor diligente. Aponte as deficiências, questione e exija seus direitos!

 Maria Helena Campos de Carvalho é Mestre em Direito Constitucional e professora de Direito do Consumidor da PUC-Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.

Maria Helena Campos de Carvalho é Mestre em Direito Constitucional e professora de Direito do Consumidor da PUC-Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.

 

 

 

Um olhar psicanalítico sobre o transtorno alimentar

Pesquisa aponta que os sofrimentos de pessoas com transtorno alimentar se refugiam nos corpos como expressão daquilo que não pode ser dito. Tese foi defendida na Pós-Graduação de Psicologia

 

Por Amanda Cotrim

Realizar uma pesquisa científica nunca é uma tarefa fácil. Há inúmeros “problemas de pesquisa” pelo caminho. No caso da doutora pelo Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Psicologia da PUC-Campinas, Maria Salete Junqueira Lucas, o desafio se ancorava em estabelecer o grau de confiabilidade de uma pesquisa qualitativa que considerasse a subjetividade e um número menor de participantes, com o objetivo de pensar a clínica psicanalítica contemporânea.

“Ainda na área da saúde, existe um viés positivista com o clássico paradigma biomédico. Mas também existe o outro lado de uma medicina que não é apenas baseada em evidências e que admite a subjetividade, os aspectos psicossociais que sustentam a pessoa”, justifica a psicóloga, que teve orientação da Profa. Dra. Tânia Mara Marques Granato.

Logo no início da sua profissão, Maria Salete se deparou com uma paciente de 15 anos que se recusava a comer e que demonstrava um grande sofrimento diante das exigências de “ter que crescer”, além do seu confronto com sentimentos de amor, ódio, inveja e ciúmes de sua mãe. “Toda essa confusão de sentimentos fez com que ela escolhesse o corpo como defesa sobre o que poderia ser nomeado e elaborado. O corpo sofria pela alma”, relata.

A pesquisa considerou a figura paterna ligado a causa do transtorno alimentar/ Reprodução
A pesquisa considerou a figura paterna ligado a causa do transtorno alimentar/ Reprodução

Sua pesquisa de doutorado considerou a figura paterna ligado a causa do transtorno alimentar, além do papel da família. Pesquisas sobre transtornos alimentares já haviam indicado a dificuldade da relação mãe e filha como aspecto originário dos transtornos alimentares. “Minha pesquisa coloca essa questão de mãe e filha, mas traz um questionamento de que a função paterna também precisa ser escutada e tratada. Há uma fome de pais e essa fome pode ter desencadeado o sintoma alimentar também”, relaciona.

Só o biológico, aponta Maria Salete, não consegue expressar a complexidade humana, por isso, a importância da psicanálise: olhar para o inconsciente, analisar as narrativas das pessoas e facilitar que pensamentos e sentimentos sejam externalizados, auxiliando na elaboração daquela dor que não havia sido falada. “O analista também vive essas narrativas. A minha pesquisa contribui para poder compreender o espaço intersubjetivo e intrasubjetivo na relação terapêutica”.

Como acessar esse sofrimento

 Para conseguir fazer o estudo, a pesquisadora se utilizou do encontro psicanalítico, um método que abarca um processo gradual e não um objetivo dado em princípio. A doutora em Psicologia explica que o “espaço psicanalítico pressupõe a participação do analista e do analisado na experiência emocional da dupla, de onde pode emergir um novo conhecimento”.

Maria Salete conta que o ambiente é fundamental para o amadurecimento do ser humano, por isso, quando nascemos, segundo ela, estamos desamparados, e, nesse aspecto, a mãe ou a pessoa que cuidará de nós, é quem nos ajudará a realizarmos diversas “tarefas psicossomáticas”. “A integração psicossomática é o objetivo final para o sentimento de existir, sendo que o transtorno alimentar representa a dificuldade para que a integração se realize, acusando que o alojamento da psique no corpo não se deu de maneira satisfatória, criando obstáculos para o processo de desenvolvimento”, contextualiza.

 Tratamento interdisciplinar

 Segundo ela, os transtornos alimentares são patologias com origem multifatorial e, por isso, é importante que a psicanálise estabeleça comunicações com diversas áreas do conhecimento para um atendimento interdisciplinar. “Há uma chance maior para que o paciente seja mais bem atendido quando trabalhamos em rede. Poder trabalhar juntamente com um psiquiatra, uma nutricionista, um clínico geral, um educador físico, coloca em evidência as limitações de cada área”, ressalta.

E acrescenta: “Eu preciso de um psiquiatra para medicar o impulso incontrolável de um paciente com bulimia, que come e vomita incessantemente; ou um paciente deprimido, que pensa em se matar por se sentir aprisionado com seu sintoma”, justifica.

Cultura da magreza

 De acordo com a psicóloga, o estudo possibilitará a instrumentalização de intervenções que possam auxiliar o paciente a lidar melhor com seu psiquismo e com o seu corpo para ter uma melhor qualidade de vida. “Para isso, é fundamental que desenvolvamos programas preventivos nas escolas com o objetivo de debater as evidências de crianças e adolescentes em relações aos seus corpos, principalmente diante de uma cultura da magreza”. A pesquisadora ressalta a importância de a sociedade debater a imposição de um padrão de beleza, para que isso não seja naturalizado. “Os pacientes não mostram críticas e nem consciência de que esse padrão perverso teria um papel na eclosão de transtornos alimentares”, constata.

Ela também lembra que o tratamento de um paciente que sofre de transtorno alimentar também precisa contar com o apoio da família: “A partir do momento que a família acolhe, ela passa a entender o sofrimento do transtorno alimentar e passa a se responsabilizar pelo tratamento do paciente. Por meio da psicoterapia psicanalítica, os analistas podem auxiliar os pacientes numa verdadeira transformação psíquica”, finaliza.

 

A influência da mídia nos hábitos alimentares

Se o público não está preparado para ser crítico da publicidade, a influência da mídia será ainda maior

Por Amanda Cotrim

As telas contemporâneas estão no dia a dia das pessoas: televisão, revista, jornal, computador, outdoor. São vitrines as quais influenciam o cotidiano. Como toda vitrine, há um vendedor – a Publicidade -, um instrumento importante para a propagação de hábitos de consumo e alimentares. Ela é parte de um sistema que estabelece um padrão de consumo. “Ainda que a publicidade não tenha toda a responsabilidade, ela tem grande influência pela sua capacidade de persuadir a sociedade”, defende o docente da Faculdade de Publicidade e Propaganda da PUC-Campinas, Prof. Dr. João Brito.

Prof João Brito é docente no curso de Publicidade e Propaganda/ Crédito: Álvaro Jr.
Prof João Brito é docente no curso de Publicidade e Propaganda/ Crédito: Álvaro Jr.

Para o docente, a propaganda cumpre uma função comercial, por isso, é tão difícil identificar no dia a dia o que é e o que não é publicidade. Pensando em mídias como televisão, que está no cotidiano das pessoas, essa distinção torna-se ainda mais difícil para a população: “A propagação de hábitos alimentares em novelas é uma grande influência social, porque quando o público vê uma celebridade consumindo, ele toma aquilo como uma atitude a se seguir”, compara.

Trata-se de um sistema: a novela levanta a bola e a publicidade corta. O telejornalismo faz a mesma coisa: as notícias angustiantes cumprem certo papel, porque depois vêm os comerciais que vão amenizar o que passou no jornal”, critica.

E quando a “audiência” são crianças? A responsabilidade da mídia aumenta? Para João Brito, sim. “Se o público não está preparado para ser crítico da publicidade, ele vai ser influenciado. Por isso, o mais importante é uma educação crítica sobre o papel da mídia desde cedo”, defende.

Em 2014, foi aprovada resolução que classifica como abusiva todas as formas de “publicidade e comunicação mercadológica destinadas à criança, com a intenção de persuadi-la para o consumo de qualquer produto ou serviço”, diz o texto.

Quando o assunto é hábitos alimentares e crianças a publicidade tem ainda mais influência, mesmo que a peça publicitária não seja direcionada exclusivamente para uma criança. “Ela pode assimilar a propaganda mesmo não sendo para ela. No entanto, é preciso dizer que isso não aconteceria se houvesse uma regulação ética e legal da mídia, e que não fosse vista como censura, para que as pessoas tenham discernimento sobre o que elas devem consumir desde cedo”.

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A regulamentação, segundo o professor de Publicidade e Propaganda, resolve uma parte, mas não tudo. Para ele, é preciso que a família se coloque como responsável e que ela saiba que a mídia influencia a sociedade e quando ela está fora das normas da Constituição Federal. “As pessoas não costumam gostar muito de falar sobre Constituição, Direitos, Educação. Só uma consciência crítica vai diminuir a influência da mídia sobre a população”, aposta. “A questão é: existe interesse para que o consumidor seja instruído?” questiona o docente.

Responsabilidade das indústrias de alimentos

Apesar de segmentada, vem despontando um nicho de pessoas que valoriza a boa alimentação e a mudança nos hábitos alimentares. “As empresas alimentícias têm tido mais consciência para amenizar os problemas de alimentos de má qualidade. Temos produtos um pouco melhores e uma possibilidade de consumo mais saudável. Mas, qual é o alcance disso?” interroga o docente, fazendo referências às classes sociais que não podem comprar produtos saudáveis, porque são mais caros.

“Um exemplo de que as empresas estão percebendo que precisam ter uma responsabilidade social, foi uma propaganda de uma marca de refrigerante em uma revista. Nela, o pai mostrava para o filho beber menos refringentes e ter um consumo consciente. Foi uma mensagem sutil, mas quando a empresa reconhece a sua responsabilidade, é um avanço”.

Para o docente, a mídia não deveria educar tanto a sociedade. “Hoje, a TV educa mais que um professor em sala de aula. Na aula, por mais que o professor se esforce a TV é como se fosse uma verdade. Quem está na TV é porque chegou lá e aquilo forma a nossa opinião”, constata.

“O caminho para mudar esse cenário é a educação crítica sobre a mídia e uma regulamentação. As empresas não podem fazer o que querem na TV e na Rádio, que são concessões públicas. Eu defendo um equilíbrio. Temos de estar vigilantes para não nos deixarmos influenciar tanto pela publicidade”.

 

 

 

Comida perpetua a cultura

Por Amanda Cotrim

Diga-me o que tu comes que eu te direi quem és”. É dessa forma que a Diretora do Curso de Turismo da PUC-Campinas, Profa. Me. Francis Pedroso, aborda a importância da gastronomia como elemento constitutivo de identidade. A comida que consumimos tem relação íntima com as características geográficas, culturais e históricas da região em que ela é produzida. “Os alimentos mais quentes e gordurosos, por exemplo, são típicos de regiões mais frias; já os alimentos mais leves, são provenientes de regiões mais quentes”, explica.

Acarajé tornou-se patrimônio cultura brasileiro/ Reprodução
Acarajé tornou-se patrimônio cultura brasileiro/ Reprodução

O Brasil, segundo Francis, sempre foi o país do sabor, desde as frutas exóticas até a produção de café, o que justifica essa vocação do país para a gastronomia. “Na década de 2000, no entanto, com a criação do Ministério do Turismo, em 2003, a gastronomia passou a ser promovida como valor turístico, o que coincide com a profissionalização da gastronomia brasileira”, contextualiza.

A comida é a materialidade dos valores de determinados lugares, por isso, para a Professora Francis, uma comida bonita, bem-feita e tradicional sempre será procurada por turistas, o que é “excelente do ponto de vista econômico e fundamental para o turismo. A gastronomia perpetua a cultura”, afirma.

A Diretora do Curso de História da Universidade, Profa. Dra. Janaina Camilo, explica que as tradições culturais brasileiras, principalmente aquelas manifestadas nas comidas, estão diretamente associadas às práticas religiosas e, portanto, às identidades culturais. “Exemplo disso é o ‘pato no tucupi’, comida paraense servida especialmente no almoço do domingo do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, padroeira dos paraenses. Analisando antropologicamente, o pato é uma ave dos pratos típicos da nobreza europeia, que veio parar no Brasil durante o processo de colonização. Já o tucupi é um caldo extraído da mandioca, raiz cultivada pelos povos indígenas da Amazônia”, contextualiza a historiadora.

Pato no tucupi é uma comida típica do Pará/ Reprodução
Pato no tucupi é uma comida típica do Pará/ Reprodução

A Professora Janaina aponta que a preferência do brasileiro por doces não é à toa, uma vez que a doçaria é um hábito dos povos árabes, que, segundo ela, estavam miscigenados com os portugueses que colonizaram o Brasil. “No dia de São Cosme e São Damião distribuímos doces às crianças, uma tradição que nem todos sabem a origem”.

A importância de alguns pratos é tão grande que alguns se tornam patrimônios culturais, como foi caso do acarajé da Bahia, que se tornou patrimônio imaterial do Brasil, em 2015. O prato, explica a historiadora, conta com forte presença africana em seus ingredientes, como é o caso do dendê, e no próprio modo se preparar a comida. “Nesse sentido, portanto, o acarajé não é o resultado da mistura de temperos, mas o saber fazer o prato, com todo o ritual que o envolve, como a arrumação do tabuleiro, a preparação da mesa, o uso de trajes próprios, como as roupas brancas enfeitadas com colares de contas e panos coloridos”. O acarajé, antes de ter se tornado Patrimônio Cultural brasileiro, havia sido reconhecido como Patrimônio Cultural de Salvador, pela Câmara Municipal da cidade, em 2009.

Profa. Janaína Camilo é diretora no curso de História/ Crédito: Álvaro Jr.
Profa. Janaína Camilo é diretora no curso de História/ Crédito: Álvaro Jr.



 

Profa. Francis é diretora do curso de Turismo/ Crédito: Álvaro Jr.
Profa. Francis é diretora do curso de Turismo/ Crédito: Álvaro Jr.

A Diretora do Curso de Turismo elencou alguns pratos típicos de cada região, para que o leitor possa apreciar quando estiver nesses lugares. A Região Norte do Brasil tem como ‘cartão’ de visita os peixes de rio doce e o açaí. “Turistas de várias partes do mundo vêm para o Brasil atrás do açaí”, brinca Francis. Já a carne de sol, as moquecas e a tapioca são alimentos típicos da Região Nordeste, ainda que a região tenha uma gastronomia muito rica. A Região Sul, no entanto, conserva certo hábito pelo consumo de doces diversificados, como o café colonial, além, é claro, lembra a professora, do churrasco gaúcho e vinhos. “Também destacaria os frutos do mar do estado de Santa Catarina, que são excelentes”.

O Sudeste, por sua vez, explica Francis, tem forte influência africana, daí pratos como angu com quiabo e frango, típicos de Minas Gerais, o Virado à Paulista, a Moqueca Capixaba, a produção de salgadinhos típicos de camarão empanados do Rio de Janeiro, além da doçaria portuguesa, do arroz, feijão e da feijoada. “Na Região Centro-Oeste temos a riqueza do Cerrado. As frutas – como o pequi – e os doces provenientes dessas frutas são uma das marcas da região, além de peixes, feijão tropeiro e arroz carreteiro, que, segundo a docente, é conhecida como ‘a comida dos viajantes’”.

Comidas tradicionais x fast food

 Para a Diretora do Curso de Turismo, o fast food não conseguiu acabar com os pratos tradicionais, ao contrário. “Cresceu muito o slow food. E nós começamos a ter mais consciência sobre o alimento saudável, o que torna a gastronomia mais atrativa. Comer não é ‘fast’. Comer é um prazer. O ato de consumir comida requer tempo”, defende.