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Febre amarela, ecologia e outras ações

Logo nos primeiros dias do ano, quando alunos e professores aproveitavam os derradeiros momentos das férias, integrantes do Departamento de Comunicação Social (DCOM) e da Reitoria realizaram reuniões de avaliação e planejamento referentes às edições de 2017 do Jornal da PUC-Campinas. Objetivando melhorar sempre e qualificar cada vez mais o Jornal, as reuniões, entre diversos itens, focaram propostas de assuntos merecedores de destaque nas edições temáticas que vão circular até dezembro.

A Campanha da Fraternidade, a recepção aos alunos ingressantes e a febre amarela formam o elenco de temas centrais, contemplados nesta edição de março de 2017.

Baseada em uma temática de perfil ecológico, mas também de profundo apelo social, a Campanha da Fraternidade remete aos biomas brasileiros, riqueza maior de um País generosamente brindado pela Obra Criadora com exuberância e diversidade de flora, fauna e gente, compondo um presente que merece cuidados e zelo das instituições todas, bem como de todos os cidadãos do Brasil. Nesta edição, você vai conhecer razões, objetivos e detalhes da Campanha da Fraternidade 2017 “Biomas Brasileiros e Defesa da Vida”.

Neste mês, o Jornal da PUC-Campinas relata, também, como foi a recepção aos novos alunos, descrevendo e ilustrando os diversos programas que buscam facilitar a ambientação à vida universitária. Com mais de 75 anos de História, dois Campi, vários Cursos de Graduação, Pós-Graduação e Extensão, bem como atividades diversas, sobretudo nos campos das ciências, das artes e da cultura, a PUC-Campinas é um universo plasmado em uma Instituição que o ingressante precisa conhecer em detalhe, para explorar com intensidade na sua formação profissional, social e pessoal.

A febre amarela, que tem merecido destaque nos meios de comunicação por conta do surto registrado em algumas regiões brasileiras, integra outro destaque entre os temas tratados nesta edição. O assunto é abordado do ponto de vista das ciências médicas, trazendo esclarecimentos e recomendações oportunas, pertinentes e mesmo necessárias para o enfrentamento de uma situação marcada pelo aumento de casos e, por vezes, desconhecimento sobre ações para evitar o contágio e contribuir para reduzir a propagação do problema.

Todavia e infelizmente, essa não é a primeira vez que a região de Campinas se vê às voltas com a febre amarela. Na passagem dos séculos XIX e XX, a população local foi dizimada pela doença, com sérias consequências não só na área da saúde, mas também sérias repercussões econômicas, sociais e administrativas, incluindo ações (e por vezes a falta delas) urbanísticas de saneamento, mudança de hábitos e a noção de que o combate a moléstias dessa espécie vai muito além da competência de médicos e sanitaristas.

O jornal da PUC-Campinas resgata a febre amarela, do ponto de vista histórico e destaca o tratamento do assunto em publicações assinadas por pessoas que são ou foram alunos ou professores desta Universidade.

Além disso tudo, esta edição abre espaço para marcar o Dia da Mulher, traz a agenda atualizada de eventos e realizações e toca diversos outros assuntos, configurando um mosaico especialmente composto pelo público acadêmico, para o público acadêmico, como você.

Inscrições para o Programa PUC-Campinas Empreende vão até o dia 24

Por Sílvia Perez

Com o cenário de crise econômica e desemprego no país, muitas pessoas desejam empreender, começar o próprio negócio, mas nesse momento surgem várias dúvidas: “Por onde eu começo?”, “Qual é o melhor ramo para investir”, entre outras. Se você se identificou com a situação acima não perca tempo, inscreva-se para o Programa PUC-Campinas Empreende 2017, as inscrições vão até o dia 24 de março.

Podem se inscrever alunos ou ex-alunos dos Cursos de Graduação e de Pós-Graduação da Universidade, assim como professores e funcionários da PUC-Campinas.

O PUC-Campinas Empreende inclui dois projetos: Ideias de Negócio e Pré-Incubação de Ideias.

O Coordenador do Programa, Tiago Aguirre, explica a diferença entre os projetos: “O projeto Ideias de Negócio apoia a criação de grupos interdisciplinares e a experimentação de ferramentas para modelagem de negócios utilizadas por Startups e Corporações, estimulando a formação de uma comunidade de empreendedores. Já o projeto Pré-Incubação de Ideias atua no processo de validação das ideias de negócio por meio do relacionamento com potenciais clientes do produto ou serviço idealizado, no desenvolvimento do protótipo de um produto, processo ou serviço, estimulando a criação de novas empresas que ofereçam ao mercado produtos ou serviços diferenciados”, destaca.

Mais informações sobre o programa e inscrições estão disponíveis no link: https://www.puc-campinas.edu.br/proext/programa-puccampinas-empreende/.

 

Departamento de Medicina do Trabalho da PUC-Campinas inicia trabalho de ergonomia para os funcionários

Por Sílvia Perez

Para melhorar a qualidade da saúde dos colaboradores da PUC-Campinas, o Departamento de Medicina do Trabalho (DMT) da Universidade deu início, no mês passado, a uma análise ergonômica que vai percorrer todos os departamentos da Instituição, por meio da contratação da Fisioterapeuta do Trabalho, Natália Baroni. A ergonomia é o conjunto de disciplinas que estuda cientificamente a relação entre o homem e seus meios, métodos e espaços de trabalho.

A avaliação é feita nos postos de trabalho, relacionando o ambiente, a organização, as ferramentas utilizadas e o desenvolvimento das atividades com a função desempenhada. A partir dessa análise é feito um laudo que propõe melhorias que garantam a melhor adaptação do colaborador com suas atividades de trabalho, sejam elas melhorias nos postos, no ambiente ou na organização do trabalho em conjunto com os equipamentos utilizados.

De acordo com a Enfermeira do Trabalho do DMT, Fernanda Brognaro dos Santos, a contratação de uma Fisioterapeuta do Trabalho é um sonho antigo do departamento. “Queríamos um profissional específico para realizar a análise ergonômica dos colaboradores, porque a ergonomia ajuda na melhoria da qualidade de vida, uma vez que proporciona um ambiente de trabalho mais seguro e saudável”, ressaltou.

Além das análises ergonômicas, Natália Baroni dará, também, orientações posturais e treinamentos sobre a utilização adequada dos equipamentos, além de propor adaptações de mobiliários e equipamentos em todos os Campi.

Cuidando da Saúde

O programa Cuidando da Saúde, desenvolvido pelo DMT da PUC-Campinas, vai oferecer três palestras motivacionais neste mês de março. O objetivo do projeto é estimular a conscientização da comunidade no que diz respeito às situações de risco à saúde, já que hábitos saudáveis melhoram a qualidade de vida dentro e fora do trabalho.

 

Cuidando da Saúde – Palestras Motivacionais
Campus I Campus II Col. Aplicação PIO XII
28/03/2017 29/03/2017 30/03/2017
14h 14h 14h
Prédio H02 – Sala 900 Auditório da Biblioteca Sala de Multimeios

 

 

Achados e Perdidos

O Departamento de Segurança Universitária da PUC-Campinas dispõe de um controle de objetos perdidos e que ficam disponíveis nos Campi.

A procura por objetos perdidos com identificação, como documentos, pastas e carteiras, pode ser feita no Campus I pelo telefone (19) 3343-7123 ou diretamente na Administração do Departamento de Segurança Universitária, sala 19 do prédio da antiga Reitoria, no horário das 8h às 12h e das 13h às 17h ou na Base da Segurança, no prédio H-00. No Campus II, a consulta pode ser feita pelo telefone (19) 3343-6869 ou na Base da Segurança (próximo das quadras poliesportivas).

Os objetos permanecem à disposição dos interessados pelo prazo de 90 dias.

Objetos não procurados, tais como cadernos, livros, pastas e peças de roupas serão encaminhados para a Pastoral Universitária para doação às Instituições de caridade.

Grupos de Trabalhos para a construção de Trilhas de Aprendizagem

A Pró-Reitoria de Graduação lança mão, em 2017, de 8 Grupos de Trabalhos (GTs) constituídos por professores Integradores Acadêmicos (IAGs) de diferentes Centros para, juntamente com os Grupos de Apoio Pedagógicos (GAPs), continuar sua atuação centrada na figura do ALUNO, estando ele na sala de aula, realizando atividades práticas laboratoriais ou de estágio, compartilhando conhecimentos com profissionais de instituições parceiras, realizando monitoria, Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) ou Atividades Complementares.

Para atingir esse objetivo, os GTs irão desenvolver projetos voltados à construção de Trilhas de Aprendizagem como a gamificação (GT: Estratégias Inovadoras de Aprendizagem), implantar o projeto “Atividades Complementares: módulos para uma Comunidade de Aprendizagem e Formação” em cada Centro (GT: Atividades Complementares), aprimorar a Avaliação do Ensino (GT: Avaliação de Ensino), concretizar o Escritório de Talentos e Carreiras voltado a atender os alunos que buscam estágios (GT: Estágio), promover parceria da Universidade com Instituições Públicas e Privadas em projetos colaborativos (GT: Integração Graduação X Sociedade), verificar demandas da sociedade em busca de novas oportunidades visando à criação de novos cursos e atualização dos existentes (GT: Tendências da Educação Superior), fomentar e criar espaços de discussão dos projetos de Capacitação dos Docentes (GT: Programa Permanente de Capacitação dos Professores), aprimorar a qualidade do Trabalho de Conclusão de Curso (GT: TCC).

Assim, com projetos diversificados, busca-se fomentar o processo dinâmico-reflexivo da prática pedagógica acerca de seus fundamentos conceituais, estratégicos e operacionais, de modo que os processos de mudança sejam orientados por parâmetros que garantam a identidade universitária e promovam um ensino cada vez mais inovador.

 

Da febre amarela surgiu uma Fénix: a tragédia da febre amarela em Campinas – Século XIX

Por Prof. Dra. Janaína Valéria Pinto Camilo – Diretora da Faculdade de História da PUC-Campinas

Ainda na primeira metade do século XIX, a cidade de Campinas, no embalo da onda positivista, experimentava grandes transformações políticas, econômicas e culturais observadas, sobretudo, nas modificações da urbe. As famílias abastadas enriqueciam com a agricultura cafeeira e a cidade vivia em clima de requinte, tendo sido visitada por D. Pedro II em 1846. No ano de 1889,  Campinas recebeu pavimentação das ruas, calçadas, mercados, jardins, fontes, chafarizes, iluminação pública, rede de águas e esgotos, transportes para novos bairros, estabelecimentos de ensino, associações culturais, artísticas e recreativas, lojas de qualidade de influência francesa, instituições filantrópicas e assistenciais, associações esportivas, núcleos coloniais que se formaram com a vinda dos primeiros imigrantes europeus que substituíram o trabalho africano escravo, indústrias, tipografia, jornais, livrarias…

Acompanhando a onda de modernização, em 1872, Campinas recebeu a estrada ferro da Companhia Paulista, depois substituída pela Mogiana, que ligava a cidade diretamente à São Paulo, sendo o Porto de Santos o destino final, dinamizando, assim, a exportação do café.

Mas este ambiente moderno, rico e próspero foi quebrado pela epidemia de febre amarela. Durante alguns anos imaginava-se que a febre amarela era exclusiva das zonas litorâneas e que a Serra do Mar resguardava as cidades do planalto paulista. Entretanto, no ano de 1889, uma forte epidemia subiu a Serra e foi aparecer em Campinas, considerada então a capital agrícola da província. A partir desse momento a cidade acabou atingida por sucessivas epidemias em 1890, 1892, 1896 e 1897.[1]

No ano de 1889, estudos indicam que três quartos da população de Campinas, na época com aproximadamente vinte mil habitantes, deixou a cidade. Os mais abastados fugiam para outras regiões não atingidas pela epidemia. Outros, com menos posses, procuram se afastar da cidade, indo para a zona rural. A cidade ficou praticamente deserta, no espaço de 45 dias.[2]

Ficou a cargo da Junta Central de Saúde Pública, criada em 1850, arregimentar médicos que pudessem acudir a população de Campinas. Foi quando chegou à cidade Adolpho Lutz, que mesmo tendo ficado apenas dois meses (abril e maio) observou em suas Reminiscências sobre a febre amarela, publicada em 1930, que os mosquitos eram transportados pela estrada de ferro, fato comprovado por seus estudos comparativos dos atendimentos que realizou, em casos esporádicos e isolados, de febre amarela em funcionários do correio e da ferrovia e em pessoas que nunca tinham visitado Campinas.[3]

Estacao Mogiana 1890
Fonte: Campinas Virtual

O ciclo de contágio foi interrompido em 1897, com uma série de intervenções urbanas e obras de saneamento. “As ações afetaram diretamente a vida dos habitantes, não apenas melhorando a salubridade local, mas também criando problemas de ordem prática, como demolições, interdições e milhares de intimações para reformas de casas e prédios. Os cortiços e habitações coletivos foram combatidos tenazmente pela polícia sanitária, tão temida quanto a polícia comum, pois tinha o poder de deixar famílias inteiras desabrigadas”[4].

Ao lado dos hospitais, como a Santa Casa de Misericórdia e das enfermarias criadas pelo Circolo Ilaliano, várias sociedades foram criadas para atender a população pobre. Foi o caso da Sociedade Protetora dos Pobres, criada a 7 de abril de 1889. Em 1890, preocupado com o significativo aumento do número de órfãs das vítimas da febre amarela, o médico Francisco Augusto Pereira Lima fundou o Asilo de Órfãs, ligado à Santa Casa de Misericórdia. Além destas, foi criada em 1897, por iniciativa de Maria Umbelina Alves Couto, esposa do comerciante Antônio Francisco de Andrade Couto, com o apoio do Cônego João Batista Correia Néry e do casal Barão e Baronesa de Resende e de Francisco Bueno de Miranda, uma instituição para abrigar os órfãos da febre amarela.

Após 1897, os anos que se seguiram foram dedicados à recuperação da cidade: “A febre matou a cidade… Felizmente, os trabalhos de saneamento livraram-na do mal e pôde ela ressurgir das próprias cinzas, a repetir a lenda da fênix que, mui de proposito, figura no seu brasão de armas. Mas ressurgimento foi lento”[5]

A tragédia da febre amarela em Campinas, no século XIX, rendeu à cidade o apelido de cidade-fênix – a cidade sobrevivente -, mas que em pleno século XXI, ainda precisa lutar e renascer todos dias diante de uma iminente epidemia de febre amarela.

Largo do Rosario 1885
Fonte: Campinas Virtual

 

[1] http://www.bvsalutz.coc.fiocruz.br/html/pt/static/trajetoria/volta_brasil/campinas.php

[2] Ibidem

[3] http://www.bvsalutz.coc.fiocruz.br/html/pt/static/trajetoria/volta_brasil/campinas.php

[4] Campinas: cidade-laboratório da febre amarela. Blog de HCS-Manguinhos. [viewed 28 July 2015]. Available from: http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/campinas-cidade-laboratorio-da-febre-amarela/

[5] GODOY, João Miguel Teixeira de, MEDRANO, Lilia Inés Zanotti de, TRUJILLO, Maria Salete Zulzke et alii. Arquidiocese de Campinas: subsídios para a sua História. Campinas: Ed. Komedi, 2004, p.  40.

Febre Amarela e a influência no saneamento

Por Prof. Me. Thiago Amin – Professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Campinas

 

A crise da Febre Amarela em Campinas, cujo ápice se deu em 1889, foi uma das muitas crises de saúde pública influenciadas pelas péssimas condições de saneamento das cidades brasileiras (e de outros países), naquele período.

O enfrentamento dessa crise foi um dos principais motores da ascensão do Urbanismo como ciência contemporânea, a partir do pensamento higienista, que entendia necessário pensar, planejar e regular a cidade do século vindouro. Só assim seria possível proteger o ar, a água e o solo, de modo a construir um ecossistema urbano mais saudável e livre de doenças.

Um exemplo de intervenção higienista foi a retificação do Córrego do Serafim, chamado de Canal do Saneamento, que hoje ocupa o canteiro central da Avenida Orosimbo Maia.

Desinfectorio Municipal 1890
Fonte: Campinas Virtual

Uma vez que as águas carregavam (e ainda hoje carregam) os dejetos e resíduos da atividade humana, que trazem consigo inúmeras doenças, e seu acúmulo em áreas urbanas pode se transformar no habitat ideal para a proliferação de outras tantas, desenvolveram-se projetos de canais de escoamento, retificação de córregos e rios, sistemas de drenagem de diferentes tipos que tinham como objetivo fazer com que as águas pluviais e residuárias se afastassem o mais rapidamente possível das áreas de ocupação humana.

As redes de coleta e afastamento de esgoto, os reservatórios e o abastecimento de água potável, entre tantos outros investimentos, também são oriundos desse mesmo objetivo, da modernização urbana que foi uma resposta, em grande parte, à epidemia de Febre Amarela que matou e deslocou milhares de pessoas na cidade de Campinas.

O resultado urbanístico e de manejo das águas urbanas, hoje, é bastante discutível, mas isso é outra história.

Para quem quiser saber mais:

“Campinas – O Voo do Saneamento”, de José Pedro Soares Martins.

“O Saneamento de Campinas e a Modernização da cidade: a Implementação dos Sistemas de Águas e Esgotos (1840-1923)”. Dissertação de Mestrado do Prof. João Manuel Verde dos Santos, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo.

 

FEBRE AMARELA: ESTUDOS E NARRATIVAS

Por Prof. Dr. Wagner José Geribello – Assessor Especial da Reitoria da PUC-Campinas

Entre os derradeiros meses de 2016 e os primeiros de 2017, o substantivo febre, adjetivado pela palavra amarela, tem aparecido com frequência na comunicação formal, informal e oficial de Campinas, expressando sobressalto e apreensão com a expansão da doença, ao mesmo tempo que resgata, do passado, triste memória da devastação que a moléstia causou à cidade, na passagem do século XIX para o século XX.

Mesmo assim, se aparece com frequência nos dias de hoje, o tema nunca foi totalmente esquecido, bastando lembrar que entre os livros publicados em Campinas, em 1996, vários trazem referência à epidemia, incluindo o estudo dos cantos e dos antros da cidade, do historiador José Roberto do Amaral Lapa, a análise das relações entre Campinas e a modernidade, do arquiteto Ricardo Badaró, uma visão histórica e artística de Duílio Battistoni Filho e o que, provavelmente, é o estudo mais completo da epidemia, assinado pelo médico e também historiador, Lycurgo de Castro Santos Filho.

Antes disso, em 1984, A Febre Amorosa, do jornalista Eustáquio Gomes, publicado em forma de folhetim, nas edições do Correio Popular e também em livro, levava o leitor “aos dias negros” da epidemia, como pode ser lido no primeiro parágrafo da obra.

Tempos depois, em 2002, na publicação póstuma da tese de doutoramento do arquiteto Antonio da Costa Santos, “Campinas, das Origens ao Futuro”, o tema retorna, como também centraliza a obra de Jorge Alves de Lima, “O Ovo da Serpente”, publicada em 2013.

Além de tratar ou fazer referência a um acontecimento trágico da história campineira, os livros citados têm, ainda, outro elemento comum: seus autores integram ou integraram os corpos discente ou docente (ou ambos), da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, constatação que empresta significado e significância à contribuição de pessoas que passaram pela Universidade à história e à memória da cidade.

Amaral Lapa, Eustáquio Gomes e Alves de Lima foram, respectivamente, alunos dos Cursos de História, Jornalismo e Direito, cumprindo, pós-formatura, carreiras de sucesso, o primeiro destacando-se como fundador do Centro de Memória da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o segundo como Coordenador da área de comunicação social da mesma instituição. Alves de Lima, por sua vez, atuou na área jurídica, em diversos setores da administração municipal.

Antonio da Costa Santos foi aluno e professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo, assassinado pouco tempo depois de ter sido eleito prefeito da cidade que ele amava e conhecia, como demonstra a citada tese de doutoramento. Lycurgo Santos Filho estudou medicina e atuou na área, mas sempre manteve sólida ligação com a História, respondendo pela obra mais citada e, provavelmente, a mais completa até agora produzida sobre a Febre Amarela em Campinas, entre 1889 e 1900. Na PUC-Campinas, foi professor de História da Cultura.

Odilon Nogueira de Mattos, destacado professor de História da PUC-Campinas também tem escritos que tangem o tema e títulos de sua autoria citados em trabalhos afins, como acontece em Santos Filho, citado por Battistoni e no livro de Badaró, que, por sua vez, é citado por Amaral Lapa. Essa rede de citações recíprocas confirma e consolida a contribuição da Universidade, nas pessoas de seus ex-alunos e professores, para o conhecimento da História de Campinas, nos seus momentos mais pujantes, tanto quanto nas situações de aflição e tragédia, como foi a epidemia de Febre Amarela, que, em um só dia, ceifou a vida de mais de 50 residentes, como consta de textos assinados por gente que faz história, gente da PUC-Campinas.

 

A dignidade e a vocação da mulher: um olhar antropológico à luz da Revelação

Por Prof. Me. Lúcia Maria Quintes Ducasble Gomes – Professora das Faculdades de Teologia, Biblioteconomia, Ciências Biológicas, Medicina e Enfermagem da PUC-Campinas

O Dia Internacional da Mulher, comemorado no dia 08 de março, retoma importantes discussões sobre o lugar da mulher na sociedade contemporânea. Apesar de indiscutíveis conquistas terem sido realizadas nas últimas décadas a favor da mulher, um longo e árduo caminho terá que ser percorrido até que a mulher seja considerada a altura de sua dignidade. Do ponto de vista teológico, “a estrada do pleno respeito da identidade feminina passa pela Palavra de Deus, que identifica o fundamento antropológico da dignidade da mulher, apontando-o no desígnio de Deus sobre a humanidade” (JOÃO PAULO II. Carta às mulheres, n.6). Compreender a razão e as consequências da decisão do Criador de fazer existir o ser humano permitirá reconhecer à dignidade e a vocação da mulher, como também falar da sua presença na sociedade e na Igreja.

No livro do Gênesis 2, 18-25, a mulher (‘iššah) é criada por Deus da costela do homem (‘iš)”, porque não era bom que o homem estivesse só (cf. Gn 2,18))  e é colocada como um outro eu, sendo imediatamente reconhecida pelo homem “como carne da sua carne e osso dos seus ossos” (Gn 2, 23). Esta passagem bíblica indica que o homem existe somente como “unidade dos dois” e, enquanto imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 27), inaugura a definitiva auto revelação de Deus uno e trino, unidade viva na comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo (cf. JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Mulieris dignitatis, n.7). O texto bíblico deixa claro a igualdade existente entre o homem e  a mulher. Contudo, quando a “unidade dos dois” é descumprida e de um algum modo prejudica a mulher, o ato em si impacta a dignidade do homem. “Efetivamente, em todos os casos em que o homem é responsável de quanto ofende a dignidade pessoal e a vocação da mulher, ele age contra a própria dignidade pessoal e a própria vocação” (JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Mulieris dignitatis, n.10). A reflexão teológica ainda afirma que o ser humano, tanto homem como mulher, é a única criatura na terra que Deus quis por si mesma; ao mesmo tempo, precisamente esta criatura única não pode se encontrar plenamente senão por um dom sincero de si mesma (cf. CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Pastoral Gaudium et spes, n.24).  Esta afirmação, de natureza ontológica, indica a dimensão ética da vocação de todo ser humano. Assim, a mulher não pode se encontrar a si mesma, viver a sua vocação e a sua dignidade senão na perspectiva da doação. Nesse contexto,  Maria, máxima expressão do gênio feminino, com o seu sim à Deus se torna modelo de mulher e realização do ser humano, isto porque “ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher” (Gl 4,4), manifestando a singular dignidade da mulher adquirida na elevação sobrenatural à união com Deus, em Jesus Cristo, que determina a finalidade da existência de todo homem (cf. JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Mulieris dignitatis, n.4).

A dignidade da mulher testemunha o amor que ela recebe de Deus para, também, ela amar. Nesse sentido, “o paradigma bíblico da mulher revela a verdadeira ordem do amor que constitui a vocação da mesma mulher e que por fim se concretiza e se exprime nas múltiplas vocações da mulher no mundo e na Igreja” (cf. JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Mulieris dignitatis, n.30).

Preconceito X Tolerância? Apontamentos para a igualdade entre homens e mulheres

Por Prof. Dra. Stela Cristina de Godoi – Professora das Faculdades de Ciências Sociais, Publicidade e Propaganda, Direito, Psicologia, Jornalismo e Administração da PUC-Campinas

A sociologia guarda uma característica singular que poderia ser definida, segundo Octavio Ianni, como uma “técnica de autoconsciência científica da realidade”. Ou seja, partimos do presente, das “incertezas vivenciais”, para compreender as principais conexões de sentido entre as estruturas sociais e a experiência social, entre a sociedade e o indivíduo, entre o passado e o presente.

Nesse sentido, tendo em vista o debate aberto no mês de março acerca da condição feminina, a sociologia tem um papel importante nos espaços de reflexão sobre as diferenças socialmente construídas entre homens e mulheres. Qual a força exercida pelas estruturas sociais sobre a vida das mulheres ao longo da história? Faz sentido pensar nas desigualdades de gênero como uma forma de preconceito contra as mulheres?

Preconceito é um julgamento sobre o outro que se manifesta em uma postura de intolerância. Seria a tolerância, o seu oposto? A igualdade entre homens e mulheres depende da tolerância dos homens? Na ideia de tolerância já está implícita a noção de que o outro seja portador de diferenças inatas que precisam ser toleradas, pela “grandeza” daquele que se pensa superior.

Do ponto de vista da sociologia, quando conjecturamos a possibilidade de enfrentamento das desigualdades entre homens e mulheres não se trata de cultuar o império moral da tolerância, mas sim de desconstruir representações que povoam o imaginário que subalternizou as mulheres ao longo da história. Ou seja, trata-se de exercitar uma forma de pensamento dialético e relacional. Precisamos pensar nas mulheres não de modo essencialista, como tais, mas como o que são as mulheres em relação aos homens como seres sexualmente identificados.

Resiste ainda no nosso imaginário social – que se manifesta sem filtros morais na linguagem informal, nos xingamentos e provérbios populares – um gabarito pelo qual medimos o indivíduo em suas práticas sociais, a sexuação binária. O critério moderno ocidental para (des)qualificar o sujeito envolve a posição que este ocupa (ou deveria ocupar) na divisão sexual do trabalho, do tempo e espaço social.

Desde quando fazer “coisa de mulher” virou xingamento? A sociologia não se coloca a tarefa de definir cronologicamente o momento histórico em que as estruturas e práticas sociais patriarcais se difundiram plenamente. Todavia, para as sociedades latino-americanas, a prerrogativa das leis ibéricas, para a qual as mulheres eram tidas como imbecilitas sexus é, certamente, uma expressão contundente dessas representações que subalternizou as mulheres.

Vale lembrar que essa mentalidade jurídica emanada pelas elites coloniais foi refratada de modos distintos entre as mulheres, dependendo de sua condição étnico-racial e econômica. Por exemplo, entre as mulheres populares, a união matrimonial e o trabalho se apresentava como meio necessário para sua sobrevivência e não como forma de preservação da propriedade. Assim, contraditoriamente, viviam, em relação às mulheres da elite branca, em outras formas de controle social que prescindiam da clausura completa no espaço doméstico.

Por outro lado, como trabalhadoras, as mulheres foram a categoria social mais ameaçada em sua integridade física, psíquica e moral pelo avanço do processo de modernização. Como mão de obra barata, mulheres e crianças serviram desde o início da Revolução Industrial para rebaixar as condições de existência de toda a classe trabalhadora. Ademais, sua inserção no mercado de trabalho formal não resultou numa menor incumbência aos trabalhos reprodutivos, intrinsicamente invisíveis dentro dos sistemas patriarcais de pensamento.

As pesquisas qualitativas e as intervenções feministas junto às mulheres mostram que elas mesmas nem sempre se dão conta de que trabalham numa jornada abusiva dentro e fora de casa. Para muitos setores da população, ainda hoje o trabalho masculino nas atividades domésticas é visto como “ajuda”, como “colaboração”. Segundo dados do IBGE, as mulheres, em sua dupla jornada, têm trabalhado cada vez mais que os homens nos últimos 10 anos. Em 2014, constatou-se que, dentro de casa, a jornada das mulheres é de aproximadamente 21 horas, mais que o dobro da dos homens.

Assim, para um combate efetivo do “preconceito” contra as mulheres é preciso fazer muito mais do que propagar princípios. É necessário um envolvimento da sociedade civil e do Estado para a construção de uma outra divisão sexual do tempo e do trabalho. Precisamos produzir uma nova conjuntura que permita duplamente, às mulheres, o tempo e espaço social necessário para o desenvolvimento de suas potencialidades (ao lado e não atrás dos homens) e, às crianças, o ambiente familiar e as condições sociais para que a próxima geração possa efetivamente saltar para fora do círculo da violência de gênero e da naturalização das desigualdades, das quais as crianças são, em geral, testemunhas e vítimas potenciais.