Cinema: Criança e Política

Por Wagner Geribello

A esteira de consequências nefastas deixada pela política não é pequena e vai das mais brandas, como indispor pessoas de orientações ideológicas diferentes, até eventos mais graves, como enfrentamentos, prisão, tortura e morte, envolvendo tanto aqueles que militam e atuam politicamente, mas também respingando em inocentes, que pagam pelo que não fizeram.

Crianças estão na ponta da lista de inocentes em cujas contas são debitadas cobranças geradas pelos descaminhos da política. O cinema já tratou do assunto diversas vezes, incluindo o cinema latino-americano que, no início deste século, colocou duas excelentes produções sobre o tema: uma brasileira, dirigida por Cao Hamburguer, e outra argentina, assinada por Marcelo Pineyro.

O filme nacional, O ano em que meus pais saíram de férias, foi lançado no ano 2000 e o argentino, Kamtchatka, três anos depois, focando a personagem central: o garoto brasileiro, Mauro, na faixa dos dez anos e Harry, o garoto argentino, mais ou menos da mesma idade, ambos filhos de militantes de esquerda, perseguidos pelas ditaduras que infestaram este subcontinente, por quase trinta anos.

Nas duas produções, a intenção é mostrar que, apesar do distanciamento consequente do desconhecimento inocente, crianças sofrem muito quando o exercício da política escapa dos contornos mínimos de civilidade para mergulhar no universo da violência.

Nos filmes em comentário, Mauro e Harry sofrem a dor da separação, medo, angústia e incerteza, sem saber exatamente o motivo, porque a lógica do confronto político-ideológico não cabe na interpretação orientada pela inocência (leia-se pureza) infantil.

Assim, além de delatar o confronto político por conta do seu saldo de violência, os diretores mostram como a lógica infantil supera a racionalidade adulta, deixando transparecer que melhor seria a sociedade nortear-se por aquela, em vez de conduzir-se por esta.

Vale conferir as duas produções, lembrando, ainda, duas curiosidades: uma sobre o título do filme argentino, relacionado com o jogo War, e a outra, sobre o filme brasileiro, que teve locações externas em Campinas, mais exatamente na confluência das ruas General Marcondes Salgado e Luzitana, uma quadra além da Casa de Saúde de Campinas, escolhido pelo perfil de época da arquitetura das construções ali existentes.

Professor Doutor Wagner Geribello é Doutor em Educação e crítico de cinema.