Cinema e Literatura: Um conto de Natal

Por Ricardo Pereira

A seis dias do Natal de 1843, o britânico Charles Dickens escreveu aquele que pode ser considerado o conto definitivo sobre a data, “A Christmas Carol”. Escrito para pagar algumas dívidas do autor, em menos de uma semana foram vendidos 6 mil exemplares. No Brasil são inúmeras as edições e traduções desta obra que aportuguesa é conhecida por aqui como “Um Conto de Natal”. Aliás, não há como desconsiderar os motivos que levaram Dickens a escrevê-lo – suas dívidas – da leitura do conto.

Nas pouco mais de 60 páginas da edição original estão presentes todas as características da literatura de Dickens produzida em meio ao avanço da Revolução Industrial na Inglaterra. O autor é – ao lado do francês Victor Hugo – pioneiro no protagonismo que dá ao proletariado na literatura. Toda a sua obra pode ser vista como grandes painéis sobre a situação da classe trabalhadora na Inglaterra, aquilo que Friedrich Engels analisou com dados, Dickens preencheu com humanidade, diria mesmo que as duas obras se complementam.

“Socialista utópico”, Dickens não apostava numa revolução vinda do proletariado, mas numa generosidade que acreditava escondida nos mais ricos que movidos pelo acumulo de capital ainda não estavam conscientes de toda a miséria que produziam, por conta disto, a sua volta. O protagonista de “Um Conto de Natal”, o velho sovina Ebenezer Scrooge representaria bem os elementos desta classe que precisavam ser conscientizados. Mas não é o espírito do comunismo que faz o avarento mudar, mas a visita de três outros espíritos que representariam os Natais do passado, do presente e do futuro. Enquanto os dois primeiros espíritos funcionam como uma alerta para Scrooge, o terceiro espírito vem para lhe tirar a vida, pois o futuro dele distanciando-se de todos por ganância redundaria numa morte solitária. O conto de Dickens não fez a revolução, mas ajudou a reforçar a ideia de que tocados pelo “espírito natalino” todos nos tornamos mais solidários, ainda que seja apenas para escamotear nossos próprios fantasmas.

O cinema não tardou a explorar o conto de Dickens e já em seus primeiros anos de vida, em 1901, foi realizada sua primeira adaptação, um curta-metragem de onze minutos que sintetizava seus principais trechos. De lá para cá foram mais de 60 adaptações para o cinema, algumas voltadas mais para o público infantil como “Os Fantasmas de Scrooge” dirigida por Robert Zemeckis em 2009 e outras que dialogam mais com o público adulto como “Adorável Avarento” com Albert Finney no papel de Scrooge. Até a Disney fez sua versão do conto, em “O Natal do Mickey” de 1983 coube ao Tio Patinhas representar o avarento (aliás, o nome original de Patinhas, Scrooge McDuck, se baseia no personagem de Dickens). É verdade que nenhuma destas obras teceu grandes críticas ao capitalismo – como era de se esperar.

A mais feliz de todas as adaptações coube a Richard Donner que em 1988 rodou para o Natal daquele ano, o filme “Os Fantasmas Contra-Atacam”, nele Bill Murray interpretava Scrooge como o diretor de uma rede de televisão que preocupado apenas com audiência não importava em exibir programas que exploravam a violência. Na vida pessoal seu comportamento antissocial e desprezível produzia inimigos e afastava parentes. A visita dos três espíritos do conto original de Dickens são os pontos altos do filme bem como a atuação de Bill Murray, ainda hoje, um dos melhores atores do gênero. Se você não conhece nenhum dos filmes citados aqui fique atento à programação das emissoras de tevê na semana do Natal, provavelmente verá algum deles, são mais tradicionais, nesta época, que o próprio peru.

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Ricardo Pereira se formou em Jornalismo na PUC-Campinas em 1999. É jornalista e crítico de Cinema.