Cinema: Sertão, Patrimônio e História

Por Wagner Geribello

Quando dirigiu o segundo longa metragem da sua carreira, em 2004, Eliana Caffé acrescentou mais um título à lista do que existe de bom e marcante na produção cinematográfica brasileira: Narradores de Javé.

Diante da ameaça de ver seu vilarejo, desaparecer do mapa,  os habitantes decidem reivindicar para o local a condição de patrimônio e, assim garantir sua sobrevivência.
Diante da ameaça de ver seu vilarejo, desaparecer do mapa, os habitantes decidem reivindicar para o local a condição de patrimônio e, assim garantir sua sobrevivência.

Disponível no YouTube , além de bom cinema, nos seus aspectos técnicos (direção, elenco, roteiro), o filme é muito apropriado para estimular o debate e elencar considerações sobre o tema desta edição do Jornal da PUC-Campinas, o patrimônio.

Diante da ameaça de ver seu vilarejo, no interior nordestino, desaparecer do mapa, encoberto pelas águas de uma represa, os habitantes decidem reivindicar para o local a condição de patrimônio e, assim garantir sua sobrevivência.

A decisão se mostra apropriada, mas está atrelada ao registro histórico do lugar, que, por sua vez, depende do domínio da escrita, pois a cronologia “evolutiva” cultural classifica como pré-históricas as sociedades ágrafas.

Antonio Biá, interpretado por José Dumont, único adulto alfabetizado do povoado, recebe a incumbência de colocar no papel a história de Javé. Munido de caderno e lápis começa a coleta dos depoimentos, lembranças e memórias referentes aos atos, fatos e gentes relevantes ao aparecimento e desenvolvimento do vilarejo.

A partir daí, o filme tange diversos e diferentes itens pertinentes e impertinentes à história, enquanto ciência e modo reconhecido de narrativa oficial.

Questões como oralidade histórica e história oral, valor histórico de monumentos e/ou documentos, como mencionaria Le Goffe, história popular versus história oficial, cultura material e cultura imaterial, bem como relevância e irrelevância de próceres, mitos e lendas na constituição da história estão entre os itens que o filme coloca em debate, direta ou indiretamente, enquanto Antonio Biá vai ouvindo múltiplas e diferentes versões dos narradores (da história) de Javé, as quais ele mesmo distorce, altera e reconstrói a partir da premissa que adota como orientação do seu registro: “uma coisa é o fato acontecido, outra coisa é o fato escrito”.

Por trás das narrativas, ora ingênuas, ora míticas, sempre desprovidas de erudição e quase nunca fundamentadas na verdade, o filme traz ao espectador uma visão muito lúcida e intrigante dos aspectos que constituem o verdadeiro patrimônio imaterial, representado pela cultura, nos seus diversos desdobramentos, como língua falada, religiosidade e fabulação, contrapondo esses aspectos à cultura dominante, moderna, marcada pela pseudoerudição, na qual legitima o direito de menosprezar e dominar formas ditas marginais e popularescas de cultura, remetendo-as ao ostracismo e ao esquecimento, simbolizados pelo fundo do lago que submerge o vilarejo.

Com a chegada do progresso e da modernidade, representados pela represa hidrelétrica e a consequente dispersão dos habitantes, a expectativa de fazer história e constituir patrimônio é substituída pelo apagamento da memória e pela morte material e imaterial de Javé.

Wagner Geribello é Consultor no Jornal da PUC-Campinas e Doutor em Educação