Coluna Pensando o Mundo: Cultura de Paz

Campanha da Fraternidade 2015 – “Eu vim para servir” (cf. Mc 10,45)

O cartaz da Campanha da Fraternidade que, por tantas vezes, foi idealizado segundo a temática própria de cada ano pela PUC-Campinas, traz, neste ano, a conhecida imagem do Papa Francisco realizando a cerimonia do lava pés, na quinta-feira Santa. A comovedora imagem do Papa que lava os pés de menores reeducados e que nem sequer, por motivos de segurança, puderam mostrar seu rosto, nos transmite não só o memorial litúrgico da Semana Santa, mas a laboriosa observância do mandado recebido do Senhor: Vós me chamais Mestre e Senhor e dizeis bem, porque eu o sou. Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também (Jo 13, 13-15).

Curiosamente, a palavra de Jesus ainda ecoa contraditória num tempo tão marcado por violências, desencontros e eufemismos vazios. Numa massificada cultura da prosperidade sem limites, na qual cada um quer ter a resposta final em tudo, o que vale mais será o resultado financeiramente visível. Nesse contexto, é realmente desafiador se imaginar ser servidor da Paz. Até mesmo a própria “paz” deixou para muitos de ser uma atitude pessoal primária e tornou-se artigo de luxo, organizado e articulado em pautas das mais variáveis mesas de debates. Nesse sentindo, é realmente espantoso que Deus feito homem venha nos dizer: Porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos (Mc 10,45).

Ser servidor da Paz é ser anunciador convicto de uma nova humanidade que, marcada pela desordem do passado e até do presente, se lança corajosa e confiante à escuta do Evangelho. Não é ser alheio ao mundo, mas estar no meio dele com nossos esforços diários em nossas subidas e descidas e acreditar na possibilidade da existência não pautada no vazio frio do relacionar-se distante e comercial, mas na sustentada e acalentadora mão estendida de Deus, que nos direciona para a comunhão. Isso não implica uma negação da ordem existente, mas a transformação dela, na crença que nosso cotidiano, que pode ser tão monótono e terrível, seja transformado numa capacidade de entender a graça surpreendente do amor divino que se apresenta num sorriso, numa mão estendida num gesto de confiança.

Foto Coluna Pensando o Mundo Cultura de Paz

Vir para Servir é justamente olhar confiante para o próximo, reclamar sua conduta coerente em meio a sua responsabilidade comum, é ser um samaritano para tantos feridos nas estradas de nosso tempo; é denunciar os erros que violam os direitos e fomentar a justiça que está atenda a todos. Tarefa evidentemente nada fácil e até insuperável se não for alicerçada pelo Evangelho. O mesmo Evangelho que fez Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce e tantas outras pessoas de boa vontade se colocar no meio da violência como semeadores da Paz. Aliás, se colocar neste caminho é se encontrar na mira da perseguição, da incompreensão é ser alvo das articuladas forças que lucram com o mal.

Não é raro encontrarmos muitos que se prostram cansados, desanimados e não compreendidos por terem, no meio desse campo de guerra, se lançado na semeadura da paz. Ser servidor do próximo, da paz do bem não é tarefa simples e nem pode ser ideológica ou de modismo é sim ser como disse o Papa Francisco aos Jovens no Rio de Janeiro “sejam revolucionários”. Revolucionários do Amor de Deus, que acolhe, perdoa e aponta o caminho da mudança da misericórdia que caminha com a justiça. Da violência que é destruída pelo perdão. Nesse sentido, mais uma vez é Jesus quem nos ensina, pois após ter sido traído, violado em todos os seus direitos e levado para a desonrosa morte na cruz ele perdoa, e ao perdoar nos abre um caminho novo, o caminho da Paz.

Assim, num tempo marcado pela violência, pela luta desumana de interesses privados, pela massificação da pessoa reencontraremos nosso verdadeiro existir quando despojados de tudo isso nos colocarmos em frente ao nosso próximo numa atitude evangelicamente fraterna. Estar a serviço não é estar em submissão, mas estar perante a grandeza de Deus que nos aceita, nos encontra e nos ama. Não obstante a violência que nos cerca é admirável a mensagem de Jesus Cristo que, ao ressuscitar, depois de ter perpassado por toda a sua vida, ser traído, injustiçado, maltratado e assassinado, deixa como mensagem aos Apóstolos: Deixo-vos a paz; a minha paz vos dou. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não permitais que vosso coração se preocupe, nem vos deixeis amedrontar (Jo 14, 27). Feliz Páscoa a todos!!!

Prof. Dr. Adriano Broleze é Doutor em Direito Canônico e Docente na PUC-Campinas