Coluna Pensando o Mundo: Mal – Estar na inclusão: como (não) se faz

Por Ruth Maria Rodrigues Gare

 Você já deve estar achando que este é mais um livro falando de inclusão de pessoas com deficiência e provavelmente pensando: mais um livro defendendo a inclusão e toda aquela teoria, os problemas enfrentados pelos alunos com deficiência na escola, citação de documentos oficiais como Declaração de Salamanca, etc. Claro que conhecer todos estes documentos é muito importante e são imprescindíveis para a reflexão sobre os direitos dos alunos com necessidades educacionais especiais, e saber o que é discutido na comunidade acadêmica é muito produtivo, porém, um posicionamento responsável contribui para práticas mais promissoras, inclusivas e humanizadas nos contextos educacionais.

"Com certeza será uma leitura prazerosa onde os autores que contribuem com a obra vão desfilando diversos teóricos"_ Divulgação
“Com certeza será uma leitura prazerosa onde os autores que contribuem com a obra vão desfilando diversos teóricos”_ Divulgação

Não, este livro traz muito mais do que isso, o tema é a Inclusão sim, mas a brincadeira com a expressão “mal-estar” na verdade é a tentativa dos organizadores e dos seus autores de levarem o leitor a repensar de forma cuidadosa as questões de inclusão.

Ao refletir sobre o sujeito da inclusão, os textos apresentados o levarão para além dos estereótipos construídos nos discursos que emergem nas escolas pelas metanarrativas de professores e comunidade escolar, os dizeres do lugar comum.

Com certeza será possível compreender que imbricado no título Mal-estar na inclusão: como (não) se faz, o “não” revela a possibilidade de ver nas ações inclusivas o lugar ocupado pelos sujeitos protagonistas. Não se trata de invenções ou simples arcabouço teórico, mas de pessoas reais que de alguma forma, por meio de diferentes práticas de ensino-aprendizagem, conseguiram superar os desafios propostos pelos contextos educacionais e viveram momentos de transformações.

A obra está dividida em duas partes, na primeira os sujeitos enunciadores apresentam um posicionamento, segundo as próprias organizadoras, responsável e produtivo do ponto de vista da psicanálise; já na segunda parte, o olhar crítico trata da governamentalidade dos corpos.

Essa divisão deve-se ao referencial teórico, pois os artigos foram desenvolvidos à luz da perspectiva discursivo-desconstrutivista, segundo as organizadoras, numa possível interface com a psicanálise lacaniana.

Complicado!!!! Não!! Com certeza será uma leitura prazerosa onde os autores que contribuem com a obra vão desfilando diversos teóricos: BAUMAN, Z.; CAPOVILLA, F,C;  CORACINI, M.J.R.F; DELEUZE, G;  FREIRE, P;  ORLANDI, E.; FOUCAULT, M; FREUD, S; QUADROS, R.M;  SASSAKI, R.; SKLIAR, C.;  MANTOAN, M.T.E;  VIGOTSKY, L.S;  entre outros, a lista é grande, mas, muito rica. São 14 artigos que se harmonizam no sentido de mostrar abordar a inclusão como dispositivo biopolítico da governamentalidade em nome de uma causa democrática.

As organizadoras do livro, a professora Drª Márcia Aparecida Amador Mascia da Universidade São Francisco, atua no curso de Pós-Graduação Stricto Sensu e sua pesquisa gira em torno das questões de ensino-aprendizagem de línguas para ouvintes e surdos, em diferentes contextos educacionais. Problematiza os modos de subjetivação e identificação dos sujeitos no mundo contemporâneo. A professora Elzira Yoko Uyeno professora da Unitau produzia (faleceu antes da publicação do livro em 2014) com pesquisas no eixo temático: exclusão e resistência (Unicamp). A Juliana Santana Cavallari (Fatec) possui como temas de pesquisa práticas discursivo-pedagógicas, avaliação, análise de material didático de língua estrangeira, práticas inclusivas, tradução e modos de subjetivação.

O livro que Mal-Estar na Inclusão: como (não) se faz, foi publicado pela Editora Mercado de Letras em 2014 e pode ser encontrado nas melhores livrarias a um preço bem acessível. São 360 páginas de um material, denso, sério e atualizado, com uma prática repensada em múltiplas dimensionalidades.

Você, caro leitor, está convidado para essa leitura que com certeza revelará singularidades da inclusão que o ajudarão a percebê-la como substância e não apenas forma, como possibilidade real e com responsabilidade.

Boa leitura !!

Prof.ª Drª Ruth Maria Rodrigues Gare é docente no curso de Letras da PUC-Campinas