Coluna Pensando o Mundo: OSCAR ROMERO: SERVO DE DEUS, ARAUTO DA PAZ

Por Wagner Geribello

“Peço, suplico, ordeno: cessem a repressão”

Essas palavras, ditas de modo contundente e direto, endereçadas aos grupos de extermínio e ao governo salvadorenho, estavam na homilia pronunciada por Oscar Romero, em 23 de março de 1980. No dia seguinte, um atirador de elite do exército interrompia a vida e a missão humanitária do arcebispo de El Salvador, que combateu o bom combate em favor da paz, levando ao extremo a opção cristã pelos oprimidos.

El Salvador, palco da tragédia em que o assassinato de Oscar Arnulfo Romero Galdámez foi o capítulo mais traumático, mas não o único, integra a lista das nações exploradas e atormentadas pelas consequências perversas dos modelos econômicos contemporâneos: concentração de renda, pobreza extrema, violência, brutalidade e o ostracismo ao qual o mundo “evoluído” condena os desvelados.

Monsenhor Oscar Romero/ Crédito: divulgação
Monsenhor Oscar Romero/ Crédito: divulgação

Apesar do dedo no gatilho creditado a um militar da Guarda Nacional salvadorenha, o tiro que matou o arcebispo foi disparado muito antes, no final do Século XIX, quando, por decreto, o governo expropriou as “tierras comunales”, entregues à oligarquia rural, consolidando a monocultura cafeeira de exportação (principalmente para os Estados Unidos) que transformou o campesino em assalariado de baixo ingresso. Daí para frente, a história salvadorenha só fez ampliar a desigualdade, gerando uma elite abastada e poderosa, que não ultrapassa 2% da população e detém 80% da propriedade de terras, ficando, na outra ponta, o grosso da população, a serviço da oligarquia, enquanto mão de obra barata. Em dezembro e janeiro, por exemplo, as aulas são interrompidas, para concentrar o maior volume de braços na colheita do café. Quando a colheita acaba, os trabalhadores são dispensados e o pagamento de salários interrompido, até a próxima safra.

O cenário polarizado, com distribuição de renda próximo de zero, gerou a sucessão de levantes populares e repressão das oligarquias que fazem a história do país. O desespero da pobreza, de um lado, e o apego inegociável ao poder, de outro, formam o caldo de cultura que alimenta e faz crescer a violência. Estimativas referentes à guerra civil, por volta de 1990, apontam números como 80 mil mortos, dos quais 30 mil assassinados, além de qualquer coisa próxima de 10 mil desaparecidos, para um contingente de seis milhões de habitantes. Aliciamento e recrutamento de crianças, ação de milícias e tropas paramilitares orientadas exclusivamente pela violência, destruição de vilarejos inteiros, impunidade dos organismos repressores governamentais e total ausência da justiça são apenas algumas linhas que tecem a trama da violência salvadorenha.

Interessado na manutenção do feudo econômico e sob a desculpa da contenção do comunismo internacional, os Estados Unidos, durante os governos Carter, Reagan e Bush, injetaram cerca de sete bilhões de dólares para armar e pagar militares e paramilitares, levando alguns deles para a Escola das Américas, centro de doutrinação e treinamento de agentes da repressão, militares e policiais de nações latino-americanas, instruídos em tortura, atentados, assassinatos e outras perversidades, com direito a diploma e atestado de “bom aproveitamento”. Há indícios de que o assassino de Romero passou pela famosa e famigerada escola.

Por sua vez, a esquerda, alinhada com as classes populares, também aliciou, doutrinou e recrutou, organizando grupos armados e financiados a partir do exterior, como a Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional.

Assim polarizado, El Salvador chegou à segunda metade do Século XX mergulhado em conflitos sangrentos, que motivaram Romero, como inspirador pacifista, a erguer a voz pelo fim da violência.

A resposta foi o atentado de 24 de março de 1980, na Capela do Hospital Divina Providência, em San Salvador, durante a celebração eucarística por intenção de Sara Meardi Del Pinto, mãe do jornalista Jorge Pinto. Disparado para calar um chamado à paz, o tiro interrompeu a missa e pôs fim à vida de Oscar Romero, aos 63 anos.

Oficialmente, autoria (disparo) e responsabilidade (mandantes) pela morte do arcebispo não foram elucidadas e, portanto, os responsáveis não pagaram pelo crime. Apesar dos acordos de Chapultepec, que marcaram o fim da guerra civil, as condições sociais, políticas e econômicas em El Salvador continuam as mesmas e a violência extremada faz parte do cotidiano nacional.

A voz de Romero, entretanto, não foi calada. Da ONU ao Vaticano, passando por entidades governamentais e não governamentais, algumas religiosas, outras não, nos quatro cantos do planeta o magnicídio é constantemente relembrado e a mensagem cristã de Romero – beatificado pelo Papa Francisco no começo deste ano – volta a ecoar, pedindo, suplicando, ordenando o fim da violência, da injustiça e da desigualdade, em El Salvador, assim como em todos os lugares, entre os seres humanos, todos.