Coluna Pensando o Mundo: Rui Campos, da Geografia

Por Juleusa Maria Theodoro Turra

Despojamento e rigor; estas palavras procuram relembrar, ou apresentar, a pessoa e o professor Rui Ribeiro de Campos ( 1948-2015).

Nascido em Piquete, Vale do Paraíba paulista, chegou a Campinas para estudar, cursando Filosofia nesta PUC-Campinas entre os anos de 1967 e 1970.

Ao relatar este período, em depoimento à Revista Série Acadêmica, número 21, Especial Licenciaturas , Rui Campos nos contou :

Nos tempos de estudante, pelo horário do curso superior que fazia (era vespertino), era difícil arranjar emprego, exceto algumas aulas. Com a minha situação econômica apertadíssima, apareceram aulas de Geografia em um curso supletivo. Aliás, poderiam ser aulas de História, Português ou outra disciplina. Na situação em que me encontrava tentaria qualquer uma.

A chegada à Geografia foi uma circunstância, mas o tema da ‘aula-teste’ foi uma escolha: Subdesenvolvimento.  Entre 1973 e 1976 está Rui Campos cursando Licenciatura em Geografia, na turbulenta passagem do curso de Estudos Sociais (Licenciatura Curta) para a Licenciatura Plena.

A situação econômica apertadíssima não foi esquecida: o despojamento, como o desapossar-se, marcou sua trajetória: sempre o mínimo necessário, sem consumismos, sem modismos.

Não viajou de avião, tampouco compareceu a eventos enquanto os filhos eram novos: evitava despesas e a possibilidade de se acidentar. Protegia os filhos e os criava para o mundo.

O rigor.  Rigorosamente prepara as aulas, as revia, trabalhava o texto e produzia um material para estudo dos alunos; não perdia a pontualidade e não permitia que outros o fizessem. Algumas destas aulas geraram capítulos de sua dissertação de Mestrado (cursado na Educação da PUC-Campinas entre 1993 e 1997) e da tese de Doutorado (Unesp entre 1999 e 2004). Mais recentemente geraram ou inspiraram capítulos de seus livros.

Sobre as aulas, manifestou-se no depoimento já mencionado:

 […] elaborar o material trabalhado em sala de aula e me realizar na principal tarefa da atividade de ensino: proporcionar o pensar a partir do conteúdo proposto […]

 Proporcionar o pensar. Para tanto, Rui que adorava as palavras, o que o fazia adorar letras de músicas. Recuperava expressões, substituía outras expressões e procurava surpreender. Seus ex-alunos souberam sobre os conflitos na Ásia Ocidental, ouviram e anotaram exemplos das intervenções dos estadunidenses na América Central e Caribe.  Puderam compreender a exploração de recursos naturais. Também receberam ensinamentos de Potamologia.

Com igual persistência procurou conhecer, minuciosamente, autores que não tinham grande circulação e que, por esta razão, ofereciam possibilidades para pensar sobre suas vidas e produções, pensar a geografia e a liberdade.  Em Angra dos Reis, na Universidade Federal Fluminense, pode desenvolver as suas disciplinas de forma autoral, retomando seus temas e autores queridos. Lá faleceu e conhecemos o quão foi cativante, sendo nome do Centro Acadêmico.

A persistência, até mesmo a intransigência, foram condições de, com suas armas – a palavra e o exemplo pessoal – levar em frente o que foi quase uma missão: proporcionar e provocar o pensar e não deixar ao esquecimento o que foi a ditadura, que marcou o início de sua vida adulta e o impediu de estudar tudo o que queria ou necessitava.

Um pouco disto está na dedicatória do seu livro Breve História do Pensamento Geográfico Brasileiro, lançado em 2011: a todos os que resistiram, não importando a maneira,  nas ditaduras e ainda perseguem seu  ideal por uma sociedade mais justa.

Prof. Dra. Juleusa Maria Theodoro Turra, docente no curso de Geografia, Turismo e Engenharia Civil