Concílio Vaticano II: seu significado e sua recepção

Prof Dr. Pe. Paulo Sérgio Lopes Gonçalves

O Concílio Vaticano II (162-1965) é um dos eventos mais importantes da Igreja Católica na era contemporânea. Anunciado em 1959 e convocado em 1961 pelo papa João XXIII, esse Concílio significou o encerramento do Concílio Vaticano I (1869-1870) que havia sido suspenso pelo papa Pio IX em função da guerra franco-prussiana e assumindo a perspectiva teológico-pastoral, recepcionou e levou a cabo um processo de renovação interna da Igreja e de seu modo de relacionar-se com o mundo contemporâneo. Abraçou uma postura de renovação interna da Igreja em suas estruturas para que se constituíssem em espaços de comunhão e de fraternidade, de diálogo com o mundo contemporâneo, sentindo “as alegrias e as esperanças, as tristezas e angústias da humanidade de hoje” (cf. Gaudium et Spes n. 1), para promover o aggiornamento, sendo a luz de Cristo para todos os povos, sacramento universal de salvação mediante o ecumenismo, o diálogo interreligioso, a contribuição profunda com a unidade dos povos e com a emergência do novo ser humano, constituído de espírito de alegria, de justiça, de bondade, de paz e de amor.

Quando o Concílio Vaticano II foi encerrado aos 08 de dezembro de 1965, um grande entusiasmo tomou conta de cristãos e de outras pessoas de boa vontade. O desafio emergente era a recepção, compreendida como o modo de sua atualização nas diferentes realidades do mundo contemporâneo. Nesta perspectiva, os bispos fortaleceram suas estruturas de colegialidade episcopal mediante a efetividade das Conferências Episcopais, das Assembléias Gerais do Episcopado – como exemplo têm-se as Assembléias do Episcopado Latino-americano realizadas em Medellín (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007) –, a recuperação dos Sínodos e a apresentação do Papa como o bispo de Roma que, na caridade, preside o colégio episcopal. Os bispos foram fortalecidos em suas Igrejas particulares e locais, efetivando a comunhão nas instâncias de colegialidade episcopal, principalmente as Conferências Episcopais, nas instâncias diocesanas com o respectivo Presbitério e Laicato, levando a cabo a concepção da Igreja como Povo de Deus, fundamentalmente ministerial, servidor e munido da esperança escatológica. Estruturas eclesiais de comunhão e participação foram criadas tanto no âmbito mundial quanto nacional, regional, diocesano e paroquial. Assim, devem ser entendidos os conselhos pastorais e administrativos das diferentes instâncias eclesiais.

Emergiram e consolidaram-se realidades eclesiais comprometidas com a evangelização do mundo contemporâneo, tanto em termos de anúncio explícito de Jesus Cristo através da catequese, da homilia e da teologia pastoral, como em termos sociais mediante o impulso e a realização de movimentos históricos de transformação social, política, econômica e social. Neste sentido, compreende-se a concepção de “Igreja dos Pobres” proferida pelo papa João XXIII aos 11/09/1962 e levado a cabo nas formas de Comunidades Eclesiais de Base, de atividades pastorais sociais diversas e práticas pessoais comprometidas com a dignidade humana, a justiça e a paz.

No âmbito da theologia mundi, preocupada com a relação entre Deus e mundo, surgiram as teologias contextuais – teologia da libertação latino-americana, teologia asiática, teologias africanas –, teologias da cultura – pós-moderna, negra e indígena –, teologias do genitivo – teologia da mulher, teologia feminista, teologia do feminino –, teologias das religiões, teologia ecológica. Essas teologias respondem à pergunta: como falar de Deus a partir das diversas realidades – aqui se trata da concepção clássica de loci theologici – compreendidas em sua especificidade vital, sem perder a universalidade própria da revelação cristã? Para isso, a inteligência da fé, que é própria da teologia, tem na filosofia sua companheira – partner – que lhe possibilita compreender o ser humano e o mundo em sua totalidade e nas ciências os elementos constitutivos para a compreensão das realidades específicas. Todas essas teologias possuem um espírito de diálogo e de apresentação das possibilidades de eficácia da fé cristã.

É também constatável que não tem faltado tensões de diversas ordens na recepção do Concílio, porém é verdade que a Igreja está imbuída de um espírito dialógico, ecumênico e de comprometimento com a emergência do homem novo e com a nova criação, porque a Igreja tem consciência de sua missão: ser sacramento de salvação para todos os povos, zelando e cuidando da humanidade com confiança e com amor, para que esta possa resplender o rosto do Cristo, o filho do Deus, que é Amor e que ama a todos os seres humanos e a todas as criaturas desde a eternidade.

Prof Dr. Pe. Paulo Sérgio Lopes Gonçalves- Programa de Pós Graduação em Ciências da Religião – CCHSA