Consumo, logo existo

Por Arnaldo Lemos

Um dos objetivos específicos da Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE), neste ano, que tem como lema “Nossa Casa, Nossa Responsabilidade”, é “incentivar o consumo responsável dos dons da natureza, principalmente da água”.

Segundo o documento da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a combinação do acesso à água potável e ao esgoto sanitário é condição para se obter resultados satisfatórios também na luta para a erradicação da pobreza e da fome, para a redução da mortalidade infantil e para a sustentabilidade ambiental. Há de se ter em mente que “justiça ambiental” é parte integrante da “justiça social”.

O objetivo da CFE nos leva a refletir sobre a sociedade de consumo e sua aparência. A sociedade de consumo surge mais forte com a Revolução Industrial e se caracteriza, antes de tudo, pela aquisição “do supérfluo”, do excedente, do luxo.

Isso traz, como consequência, a constante insatisfação, a insaciabilidade em que o final do ato consumista é o próprio desejo de consumo. Dalai Lama afirma que, quanto mais você ganha, mais você cria necessidade que antes não existia.

A afirmação de Descartes, “penso, logo existo”, marcou a razão humana como única forma de existência. Por meio da dúvida, segundo o filósofo, você chegaria à conclusão de que você pensa (cogito) e, se você pensa, você existe.

O capitalismo alterou o cogito cartesiano “penso, logo existo” para “consumo, logo existo”. Para existir, precisamos consumir o tempo todo. Telefones celulares, computadores, aparelhos de televisão, câmeras fotográficas caem em desuso e são descartados com uma velocidade assustadora. Mészáros diz que vivemos na sociedade descartável que se baseia na “taxa de uso decrescente dos bens e serviços produzidos”, ou seja, o capitalismo não quer a produção de bens duráveis e reutilizáveis. Bauman conclui que vivemos numa “economia de engano”, pois o capitalismo, ao não querer a produção de bens duráveis e reutilizáveis, utiliza-se da publicidade para convencer o consumidor da necessidade de produtos supérfluos.

Já no século XIX, Karl Marx dizia que o capitalismo nada mais é do que um grande depósito de mercadorias. E o trabalho humano se torna também uma mercadoria, pois se toda mercadoria é produto do trabalho, ao trocar mercadorias, o homem compara trabalho humano. A mercadoria expressa, pois, relações sociais e aparece como uma coisa dotada de valor de uso e de valor de troca. A mercadoria 500,00 se relaciona com a mercadoria menino-que-faz-pacotes. A mercadoria 50,00 se relaciona com uma aula de um professor. A mercadoria 150,00 se relaciona com um dia de trabalho de uma faxineira. Um apartamento estilo “mediterrâneo” é um modo de viver. Uma calça jeans griffe X é uma vida jovem. Tudo vira mercadoria.

E a mercadoria, conclui Marx, torna-se um fetiche assim como o dinheiro também é um fetiche. A mercadoria é um fetiche no sentido religioso da palavra: uma coisa que existe por si e em si. Ela é produzida pelo trabalho humano, mas tal como o fetiche, se desgarra dele e tem poder sobre eles e os domina. E os homens constroem templos de adoração, os shopping-centers, em que vão adorar as mercadorias nas vitrines, como objetos de desejo.

‘O consumo de bens e serviços, muitas vezes supérfluos, tem um significado simbólico. A economia de mercado, centrada no lucro e não nos direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos. O valor simbólico da mercadoria figura acima de sua utilidade. Não se compra uma calça, compra-se uma ‘Calvin Klein’; não se adquire um carro, e sim uma ‘Ferrari’; não se adquire uma bolsa, mas uma ‘Louis Vitton’. Somos dominados pelo fetiche, subordinados e cada vez mais dependentes dele, tal como os crentes diante do sagrado.

Vale a pena lembrar o famoso “passeio socrático”. Sócrates era um filósofo grego que viveu séculos antes de Cristo. Também gostava de passear pelas ruas comerciais de Atenas. E, assediado por vendedores como nós, respondia: ‘Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz’.

Professor Arnaldo Lemos é licenciado em Filosofia, Mestre em Ciências Sociais e docente nos cursos do Centro de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (CCHSA) da PUC-Campinas