Convênio Brasil-Cuba na preservação de patrimônio

Projeto da PUC-Campinas mapeia os bairros Nova Campinas e Terrazas de Vista Alegre, nas cidades de Campinas e Santiago de Cuba, respectivamente. Pesquisa tem o financiamento da CAPES

Por Amanda Cotrim

Após vencer um edital de pesquisa da Coordenação do Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) em convênio com o Ministério da Educação de Cuba, em 2013, a PUC-Campinas realiza desde 2014 o projeto Cidade, Habitação e Patrimônio: experiências compartilhadas entre as cidades de Campinas e Santiago de Cuba, sob a coordenação geral da docente do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo, da Universidade, Profa. Dra. Cristina Schicchi. O objetivo principal é identificar e preservar patrimônios culturais em ambas as cidades, em especial, os recentes e modernos, além de discutir a preservação no âmbito do urbanismo, como os bairros propostos sob o modelo das cidades jardins, tanto no Brasil quanto em Cuba, a exemplo dos bairros jardins projetados pela Companhia City na capital paulista.

“Tanto o bairro Nova Campinas como o Terrazas de Vista Alegre surgem no século XX, num período histórico em que é possível compará-los. Os contextos em que esses bairros se desenvolvem, entretanto, são antagônicos e daí surge a curiosidade científica de compreender os processos históricos de cada um, para entender a realidade de ambos atualmente”, explica a Profa. Dra. Cristina, que também é a coordenadora da equipe de pesquisadores no Brasil, que conta com professores pesquisadores e alunos do curso de Pós-Graduação em Urbanismo da PUC-Campinas.

Terrazas de Vista Alegre/ Crédito: Arquivo da pesquisa
Terrazas de Vista Alegre/ Crédito: Arquivo da pesquisa

Além da produção científica entre Brasil e Cuba, o projeto prevê, ainda, um intercâmbio de docência, isso porque os professores de Cuba vêm ministrar aula na Universidade e os docentes da PUC-Campinas vão a Cuba lecionar, como aconteceu com o docente da Universidade de Oriente, de Santiago de Cuba, Prof. Dr. Carlos Alberto Odio Soto, que está realizando seu pós-doutorado na PUC-Campinas, sob a supervisão da Professora Cristina. “O Professor Carlos ministrou a disciplina Estudos Urbanos Latino-Americanos na pós- graduação em Urbanismo. Foi uma experiência maravilhosa e enriquecedora, porque os alunos puderem se aproximar das questões latino-americanas e compreender o processo histórico em Cuba”, considera a Coordenadora do projeto.

Bairro Terrezas de Vista Alegre pode perder característica, se novos inquilinos transformarem as casas sem um plano ou lei de preservação/  Crédito: Arquivo da pesquisa
Bairro Terrezas de Vista Alegre pode perder característica, se novos inquilinos transformarem as casas sem um plano ou lei de preservação/ Crédito: Arquivo da pesquisa

“Minha pesquisa está em andamento. Tenho, por enquanto, impressões visuais. Chamaram-me a atenção no bairro Nova Campinas os muros. Todos altos. Isso é totalmente diferente de Cuba. E tem dificultado a minha investigação científica. Não consigo fazer o trabalho de campo com facilidade, tenho que pedir permissão para entrar na casa”, revela Soto, que reconhece que a questão da segurança é um diferencial significativo entre os dois países.

Prof. Dr. Carlos Soto realiza pós-doutorado na PUC-Campinas/ Crédito: Amanda Cotrim
Prof. Dr. Carlos Soto realiza pós-doutorado na PUC-Campinas/ Crédito: Amanda Cotrim

De acordo com a Coordenadora do projeto, houve um esvaziamento do bairro Nova Campinas – de classe média alta – por causa da falta de segurança na região. “Boa parte dos moradores migraram para os condomínios fechados ou bairros mais afastados, a partir dos anos 1990. Há muitos inquilinos e muitas casas vazias. O bairro ficou congelado, porque não se pode mexer em suas construções”, explica. Segundo ela, o Nova Campinas chegou a ser indicado para tombamento como patrimônio histórico, mas o processo não foi encerrado ainda. “Esse também é um dos nossos objetivos, compreender como a dinâmica urbana interfere nos dois bairros analisados no projeto e quais os riscos para o patrimônio”.

Bairro Nova Campinas fica a 2 km do centro da cidade/ Crédito: Arquivo da pesquisa
Bairro Nova Campinas fica a 2 km do centro da cidade/ Crédito: Arquivo da pesquisa

No bairro Vista Alegre, em Santiago de Cuba, há uma preocupação dos pesquisadores e do governo cubano em relação a essa nova conjuntura política e econômica em Cuba. Com a venda de imóveis, as casas preservadas pela Revolução Cubana agora podem transformar-se. “Os casarões de Terrazas de Vista Alegre, por exemplo, são antigos, pertenciam a um bairro de classe média alta antes da Revolução Cubana; eram verdadeiros palacetes. Depois, os casarões foram destinados a instituições de governo e à habitação. Mas agora que os imóveis podem ser vendidos, se os novos proprietários decidem transformar as casas sem ter um plano ou lei de preservação, isso pode descaracterizar o bairro”, teme Soto. Já no bairro Nova Campinas, a pressão é para que o comércio avance na região. “Mas o comércio também pode descaracterizar o patrimônio”, pontua Cristina.

A pesquisa conjunta sobre os dois bairros deve ser encerrada em 2017. Além do projeto central de comparação entre Nova Campinas e Terrazas de Vista Alegre, há pesquisas paralelas que envolvem Brasil e Cuba, realizadas por professores pesquisadores e alunos, como é o caso do estudo da Prof. Dra. Renata Baesso, que pretende fazer um paralelo entre a formação das cidades de Campinas e Cuba, principalmente em razão do patrimônio das fazendas de café em ambos contextos. Ou como fez o também pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo, Prof. Dr. Wilson Ribeiro dos Santos Jr., que foi a Cuba ministrar um curso sobre urbanismo e realizar uma pesquisa sobre os espaços públicos no bairro de Terrazas de Vista Alegre e a aluna de mestrado Helena Vilela Santos, que também está fazendo um estudo comparativo entre as praças do centro de Santiago de Cuba e de Barra Mansa (RJ) sob a orientação da Profa. Cristina.

“Independentemente de resultados científicos, o projeto está sendo muito enriquecedor. Nos cursos de Arquitetura e Urbanismo, por exemplo, nossa discussão é muito voltada para a relação entre arquitetura e cidade. Somos muito urbanos, quase 80% da população da América Latina está nas cidades”, comenta a professora Cristina. “Já em Cuba, ao contrário, após a Revolução, se investiu num conhecimento muito mais profundo sobre planejamento e construção no campo”, completa o Prof. Soto. “No final de tudo, o intercâmbio acadêmico é que enriquece as nossas pesquisas”, resume Cristina.

 Confira os participantes das equipes no Brasil e em Cuba

Pesquisadores brasileiros: Profa. Dra. Maria Cristina da Silva Schicchi (Coordenadora), Prof. Dr. Wilson Ribeiro dos Santos Jr. e Profa. Dra. Renata Baesso, pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da PUC-Campinas.

Pesquisadores cubanos: Profa. Dra. Arq. Milene Soto Suárez (Coordenadora), Prof. Dr. Arq. Carlos Alberto Odio Soto e Profa. Dra. Arq. Maria Teresa Muñoz Castillo, pesquisadores da Universidad de Oriente, Facultad de Construcciones, Departamento de Arquitectura y Urbanismo.

SERVIÇO: 

Em setembro, nos dias 14 e 15, a PUC-Campinas realizará o evento “Jornadas em Urbanismo – Brasil e Cuba”, com palestras e oficinas entre alunos, professores do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo e os pesquisadores cubanos que virão para Campinas em missão de trabalho e estudo.