Crítica de Cinema: O Homem Elefante

Por Wagner Geribello

Tinha um nome, Joseph Merrick, mas era (e ficou, historicamente falando) mais conhecido como Homem Elefante. A história é real, aconteceu na Inglaterra vitoriana e, em 1980, foi transformada em filme por David Lynch, com John Hurt, Anthony Hopkins, John Gielgud e Anne Babcroft no elenco.

Portador de uma doença degenerativa que deforma 90% do seu corpo, Merrick mastiga o pão que o diabo amassou, exibido em um circo como “a mais degradante forma a que um ser humano poderia chegar”, despertando a curiosidade da massa ignara e rendendo alguns xelins de lucro para o dono do circo.

A vida de Merrick começa a mudar ao atrair a atenção do médico Frederick Treves, interessado em estudar e, na medida do possível, tratar do infortunado senhor.

Na trilha e nos trilhos desse enredo, Lynch compõe uma das melhores peças que o cinema já produziu sobre o preconceito e a maldade social em relação ao diferente, mostrando a facilidade com que as pessoas desprezam e fazem sofrer aqueles que, por uma razão qualquer, no caso a deformidade física extremada, fogem aos padrões sociais vigentes, seja de estética, seja de comportamento.

Muito tempo já passou desde que Treves retirou Merrick do circo e, repito a ressalva, na medida do possível, deu-lhe alguma dignidade, aliviando seu sofrimento, moral e físico (por conta da deformação, Merrick tinha problemas sérios de saúde, que iam da respiração à impossibilidade de deitar-se para dormir, passando por dores no corpo, dificuldade de locomoção e outros). Também já faz algum tempo que o filme foi produzido e exibido no circuito comercial. Todavia, as questões todas existentes na história e levantas por Lynch no filme continuam atualíssimas em uma organização social na qual os indivíduos se estranham por conta das diferenças de cor, aparência, características mentais e/ou cognitivas e até da orientação política, que leva o médico a recusar paciente e entidades representativas da classe endossarem esse tipo de comportamento social de troglodita.

Descontados alguns discursos cá e lá, de modo geral e na sua maior parte, a sociedade qualifica como estorvo e aberração portadores de deficiência e pessoas que, por qualquer razão, desviam do padrão vigente (obesidade, por exemplo). Salvo uns poucos aliados e contra muitos indiferentes e outro tanto de adversários, a aceitação, incorporação e valorização desse pessoal tem acontecido por méritos próprios, quer dizer, pela ação deles mesmos, no sentido de se imporem socialmente, mandando o preconceito para o lugar de onde nunca deveria ter saído… o ostracismo.

Assim, nesses tempos em que a individualidade é exaltada e as pessoas são estimuladas a competir, vendo no outro um concorrente, para qualificar a solidariedade como defeito de fracos ou ingênuos, filmes como o Homem Elefante são recomendados como gatilhos da consciência, para que a gente entenda, de vez por todas, que a única função social da diferença é que ela nos torna todos iguais.

Pesquisa rapidíssima na Rede mostrou dois endereços em que o filme pode ser encontrado (e assistido): aqui e aqui.  Talvez existam outros. Vale a pena ver e divulgar.

Wagner Geribello é Doutor em Educação e Consultor do Jornal da PUC-Campinas.