Crônica: Irmãos Haitianos

Por Miriam Guedes Santiago Krindges

Em um belo dia de Inverno, estava eu navegando na internet, quando alguém postou uma informação sobre a chegada dos imigrantes haitianos à cidade de São Paulo e das dificuldades de acomodação e de alimentação pelas quais passavam.

“Desejo que essas pessoas que estão vindo para cá, realizem os seus sonhos” / Crédito: arquivo pessoal
“Desejo que essas pessoas que estão vindo para cá, realizem os seus sonhos” / Crédito: arquivo pessoal

Como boa cristã, quis ajudar, mas, moro no interior do Rio Grande do Sul e, desse modo, fica difícil viajar até São Paulo só pra doar alguns poucos quilos de arroz e um cobertor. Foi quando eu “acordei” e percebi que a “boa cristã” poderia ajudar os haitianos que estão morando há 1 ano aqui bem pertinho, na minha cidade.

Nem preciso dizer como esse despertar foi horrível. Essas pessoas moram aqui bem perto e eu nunca fiz nada para ajudá-las. Mas, dizem que tudo acontece na hora certa e, talvez, agora seja a hora.

Fui até a casa daqueles 29 homens que moram em um antigo hospital. Ofereci-me para dar aulas de Português e a primeira resposta foi: “não podemos pagar”. Prontamente eu lhes disse que não queria receber e que estava fazendo aquilo para ajudá-los.

“Eu aprendo mais com eles do que eles comigo” / Crédito: arquivo pessoal
“Eu aprendo mais com eles do que eles comigo” / Crédito: arquivo pessoal

Os olhos daqueles guerreiros brilharam mais do que os meus próprios olhos quando ganho chocolate do meu marido! Eles ficaram tão felizes que parecia que eu estava oferecendo a melhor oportunidade do mundo. Valeu muito a pena viver para ver esse momento.

A partir daí as coisas só melhoraram. Conseguimos o local, o material escolar e até uma professora de Português de verdade. Meus “alunos” não teriam só uma “professora genérica”. E as aulas começaram.

Essa é a melhor experiência que tive nesses meus 28 anos de vida. Cada aula é um aprendizado. Acho que eu aprendo mais com eles do que eles comigo. São homens sérios, respeitadores, marcados pela vida e cheios de esperança por melhores dias.

Foram dois os acontecimentos que mais me marcaram e fui obrigada a disfarçar para não chorar: o primeiro foi o dia em que um dos mais brilhantes alunos me disse: “já percebi que algumas pessoas não gostaram que viemos pra cá”.

Isso doeu em mim, pois o que ele disse é verdade! Muitos brasileiros não querem a vinda dos haitianos. O mais engraçado é que em um país formado pela “mistura” de tantos povos, somos todos filhos de imigrantes, uns trazidos à força, outros, fugindo da fome, de guerras, e outros em busca de um amanhã melhor.

Esse rapaz, particularmente, tem intenção de ficar no Brasil. Ele perdeu muitas coisas no Haiti, e não somente bens materiais, ele perdeu seus parentes, os amigos, os entes queridos. Talvez, a razão de ele estar vivo é ter vindo para o Brasil. Ele, assim como os demais, não teve opção de escolha, era a única oportunidade de viver, e de garantir a subsistência.

O segundo acontecimento marcante aconteceu quando fui explicar o significado da palavra “solidão”. Estávamos trabalhando o texto da música “Fico assim sem você”, de Claudinho e Buchecha. Um aluno disse: “Solidão é estar longe da nossa família, nem dá para pensar sobre isso. Estamos tão longe, é muito triste”.

Sim é muito triste. Toda a minha família mora em São Paulo, mas eu falo com meus pais todos os dias, nos vemos regularmente e, mesmo assim, sinto saudade do contato físico, do abraço. Esses rapazes haitianos não sabem quando encontrarão seus familiares de novo. Acredito que essa é a maior dificuldade enfrentada por eles. Não ser aceito no Brasil por uma minoria xenofóbica e ignorante é relativamente “fácil”, difícil mesmo é perder um ente querido e não poder se despedir. Com meus alunos estou aprendendo muita coisa boa, principalmente a amar e a sentir orgulho do meu país.

Quando penso que pessoas boas olham para o Brasil e enxergam uma esperança de dias melhores, fico envergonhada da minha ingratidão. Nosso país é lindo e está recebendo de braços aberto pessoas destruídas e ainda oferece a essas pessoas a oportunidade de recomeçar a sua vida aqui, isso é lindo, é maravilhoso!

Desejo que essas pessoas que vêm para o Brasil realizem os seus sonhos, que sejam felizes como eu sou, e que a sua cultura enriqueça ainda mais a nossa cultura e que cresçamos juntos. Que saibamos que o mundo é de todos, pois se não está bom aqui, que as pessoas tenham o direito de ir morar em outro lugar, sem barreiras e sem preconceitos, e que nós nos aproximemos dessas pessoas, pois elas têm muito a nos ensinar sobre sua cultura, suas crenças e seus costumes e, é claro, nós também temos muito a ensinar para eles. Assim, poderemos formar uma sociedade mais pluralista.

Meu discurso não é utópico! Tudo é possível, basta querer! Eu tive vontade de ensinar a língua portuguesa para os haitianos e o faço, com muita alegria. Se você quiser, também poderá ajudar. Isso está no coração de cada um.

Miriam Guedes Santiago Krindges / Crédito: arquivo pessoal
Miriam Guedes Santiago Krindges / Crédito: arquivo pessoal

Tenham todos um Bonjour!

Miriam Guedes Santiago Krindges formou-se em 2010 no curso de Direito da PUC-Campinas