Da Campinas do café ao “Vale do Silício” brasileiro

Por Luiz Roberto Saviani Rey

“Vale do Silício Brasileiro”, “Califórnia Brasileira”, esses títulos – verdadeiros apelidos na forma de qualificação positiva e reveladora -, agregados ao perfil e à estrutura industrial-empresarial de Campinas, desde meados anos 1980, descortinam uma configuração extremamente contemporânea e universal de um município que traçou desde o princípio seus desígnios de liderança e de pujança econômica. Uma cidade que produz, com fartura, divisas ao Brasil, e gera empregos de elevada qualificação, característica que advém desde os tempos dos Caminhos de Goiazes, dos primórdios da Vila de São Carlos e das usinas de cana-de-açúcar, a partir do século XVIII, e do rico e portentoso período do Café, entre meados do século XIX e o início do século XX.

Se o desenvolvimento urbano e as grandes obras dos anos 1960 e 1970 – pautados no Plano Viário do engenheiro Prestes Maia, dos anos 1940 -, foram fundamentais para sedimentar a estrutura viária de Campinas. Se eles trouxeram modernidade e inovações urbanísticas, com a construção de longas avenidas de interligação, como os viadutos Miguel Vicente Cury e São Paulo – o “Laurão” -, as vias Suleste, Norte-Sul e Aquidabã, com a reconfiguração das Amoreiras e da John Boyd Dunlop, tornando-a “Cidade do Automóvel”, os anos 1980, menos agitados e, aparentemente pouco produtivos, proporcionaram os efeitos de expansão e vigor industrial da atualidade.

A cidade moldada para o progresso começou a experimentar os benefícios dos avanços tecnológicos a partir de 1985, com a criação da Companhia de Desenvolvimento do Polo de Alta Tecnologia de Campinas (CIATEC), fazendo emergir zonas industriais de tecnologia limpa no entorno dos campi universitários da PUC-Campinas e da Unicamp.

Com o acréscimo do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento (CPqD), uma holding estatal do segmento das telecomunicações, foi possível atrair empresas high tech de porte. Mais de 50 das 500 maiores empresas do mundo nesse ramo estão presentes hoje na Região Metropolitana de Campinas.

Paralelo ao campo econômico, os anos 1980 colocam Campinas nos cenários culturais, revelando ao mundo sua Orquestra Sinfônica Municipal (OSM), já em idade madura e consagrada. Marcados pela transição política, com a saída de um longo período de ditadura militar para um processo de redemocratização, esses anos levaram o Brasil a concentrar suas forças na busca de uma autoafirmação democrática.

Campinas pode desfrutar desse momento, no plano político-cultural, oferecendo a Orquestra como um símbolo da campanha nacional pela eleição direta para a Presidência da República, chamada de “Diretas-já”, a partir de emenda do deputado Dante de Oliveira, não aprovada.

Praça Carlos Gomes em 1989- Acervo do Museu da Imagem e do Som de Campinas
Praça Carlos Gomes em 1989- Acervo do Museu da Imagem e do Som de Campinas

Nos comícios pautados pela presença de imensas plateias, em apoio à proposta das Diretas, a Sinfônica de Campinas, regida pelo maestro Benito Juarez, abria esses eventos efervescentes e ávidos por abertura democrática com a execução do Hino Nacional Brasileiro e a apresentação de peças clássicas de autores consagrados, entre eles o compositor campineiro Antônio Carlos Gomes.

Na década de 1990, Campinas se consolida como uma metrópole, ou mais que isso, como sede portentosa e contemporânea de uma Região Metropolitana em expansão, em que estão presentes características populacionais inéditas para a maioria dos municípios brasileiros.

Sua pujança econômica, o vigor de seu Polo de Tecnologia, de seus serviços e sua dimensão internacional formatam uma população economicamente ativa complexa e altamente qualificada, elevando o município à categoria e importância de estado, a despeito dos problemas suscitados com a conurbação urbana e as necessidades de melhoria em transportes, de resolução de problemas urbanos e de infraestrutura sanitária comuns, que resultam desse crescimento. Nesses cenários de avanços e de emancipação humana e técnica, a PUC-Campinas insere-se com maturidade e relevantes contribuições.

 

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Luiz Roberto Saviani Rey é Professor do Curso de Jornalismo da PUC-Campinas e autor dos livros: A maldição dos eternos domingos sem derby (romance de costumes); O retiro antes da Laguna – Taunay em Campinas (romance histórico); O menino herói da Guerra Paulista – O bombardeio de Campinas (romance histórico) e A crônica é jornalística e brasileira (didático). Crédito: Álvaro Jr.