Da febre amarela surgiu uma Fénix: a tragédia da febre amarela em Campinas – Século XIX

Por Prof. Dra. Janaína Valéria Pinto Camilo – Diretora da Faculdade de História da PUC-Campinas

Ainda na primeira metade do século XIX, a cidade de Campinas, no embalo da onda positivista, experimentava grandes transformações políticas, econômicas e culturais observadas, sobretudo, nas modificações da urbe. As famílias abastadas enriqueciam com a agricultura cafeeira e a cidade vivia em clima de requinte, tendo sido visitada por D. Pedro II em 1846. No ano de 1889,  Campinas recebeu pavimentação das ruas, calçadas, mercados, jardins, fontes, chafarizes, iluminação pública, rede de águas e esgotos, transportes para novos bairros, estabelecimentos de ensino, associações culturais, artísticas e recreativas, lojas de qualidade de influência francesa, instituições filantrópicas e assistenciais, associações esportivas, núcleos coloniais que se formaram com a vinda dos primeiros imigrantes europeus que substituíram o trabalho africano escravo, indústrias, tipografia, jornais, livrarias…

Acompanhando a onda de modernização, em 1872, Campinas recebeu a estrada ferro da Companhia Paulista, depois substituída pela Mogiana, que ligava a cidade diretamente à São Paulo, sendo o Porto de Santos o destino final, dinamizando, assim, a exportação do café.

Mas este ambiente moderno, rico e próspero foi quebrado pela epidemia de febre amarela. Durante alguns anos imaginava-se que a febre amarela era exclusiva das zonas litorâneas e que a Serra do Mar resguardava as cidades do planalto paulista. Entretanto, no ano de 1889, uma forte epidemia subiu a Serra e foi aparecer em Campinas, considerada então a capital agrícola da província. A partir desse momento a cidade acabou atingida por sucessivas epidemias em 1890, 1892, 1896 e 1897.[1]

No ano de 1889, estudos indicam que três quartos da população de Campinas, na época com aproximadamente vinte mil habitantes, deixou a cidade. Os mais abastados fugiam para outras regiões não atingidas pela epidemia. Outros, com menos posses, procuram se afastar da cidade, indo para a zona rural. A cidade ficou praticamente deserta, no espaço de 45 dias.[2]

Ficou a cargo da Junta Central de Saúde Pública, criada em 1850, arregimentar médicos que pudessem acudir a população de Campinas. Foi quando chegou à cidade Adolpho Lutz, que mesmo tendo ficado apenas dois meses (abril e maio) observou em suas Reminiscências sobre a febre amarela, publicada em 1930, que os mosquitos eram transportados pela estrada de ferro, fato comprovado por seus estudos comparativos dos atendimentos que realizou, em casos esporádicos e isolados, de febre amarela em funcionários do correio e da ferrovia e em pessoas que nunca tinham visitado Campinas.[3]

Estacao Mogiana 1890
Fonte: Campinas Virtual

O ciclo de contágio foi interrompido em 1897, com uma série de intervenções urbanas e obras de saneamento. “As ações afetaram diretamente a vida dos habitantes, não apenas melhorando a salubridade local, mas também criando problemas de ordem prática, como demolições, interdições e milhares de intimações para reformas de casas e prédios. Os cortiços e habitações coletivos foram combatidos tenazmente pela polícia sanitária, tão temida quanto a polícia comum, pois tinha o poder de deixar famílias inteiras desabrigadas”[4].

Ao lado dos hospitais, como a Santa Casa de Misericórdia e das enfermarias criadas pelo Circolo Ilaliano, várias sociedades foram criadas para atender a população pobre. Foi o caso da Sociedade Protetora dos Pobres, criada a 7 de abril de 1889. Em 1890, preocupado com o significativo aumento do número de órfãs das vítimas da febre amarela, o médico Francisco Augusto Pereira Lima fundou o Asilo de Órfãs, ligado à Santa Casa de Misericórdia. Além destas, foi criada em 1897, por iniciativa de Maria Umbelina Alves Couto, esposa do comerciante Antônio Francisco de Andrade Couto, com o apoio do Cônego João Batista Correia Néry e do casal Barão e Baronesa de Resende e de Francisco Bueno de Miranda, uma instituição para abrigar os órfãos da febre amarela.

Após 1897, os anos que se seguiram foram dedicados à recuperação da cidade: “A febre matou a cidade… Felizmente, os trabalhos de saneamento livraram-na do mal e pôde ela ressurgir das próprias cinzas, a repetir a lenda da fênix que, mui de proposito, figura no seu brasão de armas. Mas ressurgimento foi lento”[5]

A tragédia da febre amarela em Campinas, no século XIX, rendeu à cidade o apelido de cidade-fênix – a cidade sobrevivente -, mas que em pleno século XXI, ainda precisa lutar e renascer todos dias diante de uma iminente epidemia de febre amarela.

Largo do Rosario 1885
Fonte: Campinas Virtual

 

[1] http://www.bvsalutz.coc.fiocruz.br/html/pt/static/trajetoria/volta_brasil/campinas.php

[2] Ibidem

[3] http://www.bvsalutz.coc.fiocruz.br/html/pt/static/trajetoria/volta_brasil/campinas.php

[4] Campinas: cidade-laboratório da febre amarela. Blog de HCS-Manguinhos. [viewed 28 July 2015]. Available from: http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/campinas-cidade-laboratorio-da-febre-amarela/

[5] GODOY, João Miguel Teixeira de, MEDRANO, Lilia Inés Zanotti de, TRUJILLO, Maria Salete Zulzke et alii. Arquidiocese de Campinas: subsídios para a sua História. Campinas: Ed. Komedi, 2004, p.  40.