De onde vem o medo da Matemática?

Por Prof. Me. Valdomiro Placido dos Santos – Docente da Faculdade de Matemática da PUC-Campinas

O avanço do conhecimento científico e tecnológico das últimas décadas impressiona até os estudiosos de tecnologias. A transformação digital que estamos vivendo, a Internet das Coisas, o Big Data, o desenvolvimento de veículos autônomos, a automatização dos processos industriais e comercias, entre outros, têm exigido habilidades e competências matemáticas cada vez mais sofisticadas. Enquanto a vida dos usuários de tecnologias é facilitada com a introdução de novos recursos, aplicativos e gadgets, os desenvolvedores de tecnologias precisam se apropriar de conhecimentos e ferramentas matemáticas cada vez mais elaboradas para criar novos produtos.

Não obstante a crescente demanda por profissionais com alto grau de conhecimento matemático nas empresas de alta tecnologia, o ensino de matemática caminha na direção oposta, principalmente na educação básica. O que corrobora essa tese é o baixo desempenho dos estudantes desse nível de ensino nas avaliações nacionais e internacionais. Na última avaliação do Ideb (índice de desempenho da educação básica), realizada em 2015, a média nacional em Matemática foi de 267 pontos no Ensino Médio, enquanto o mínimo esperado para o desempenho ser considerado adequado era um score de 320 pontos. Ficamos 17% abaixo do mínimo esperado. Também em 2015 foi realizada uma avaliação do Pisa, cuja lista inclui 70 países participantes da OCDE. Nesta avaliação, o desempenho dos estudantes brasileiros em Matemática regrediu, retornando ao nível em que estávamos em 2009, performance que derrubou o Brasil da 59ª posição do ranking para a 63ª.

O que muitos se perguntam é o que revelam esses dados? O resultado do Ideb significa, por exemplo, que a maioria desses estudantes, ao entrar em um supermercado e se deparar com dois pacotes de açúcar, um de 2 kg, custando R$4,00, e outro de 5 kg, custando R$9,00, não saberá usar a matemática para decidir qual dos dois pacotes é mais vantajoso adquirir, mesmo com números de proporções tão evidentes. O leitor pode relutar em acreditar, mas é a realidade da aprendizagem da matemática no nosso País. O que se pergunta imediatamente é como a escola não consegue ensinar competências matemáticas tão elementares. Aqui chegamos a uma das origens do medo da matemática. A solução desse tipo de problema, na educação básica, é ensinada através da dispensável e não recomendável regra de três. Frequentemente, os estudantes fazem: 2 está para 4, assim como 5 está para x, em que x é o valor correspondente ao pacote de 5 kg.  Utilizando esse esquema “prático”, o estudante cai no beco das equações algébricas (encontrar o valor de x), o que, convenhamos, não é nada prático para se fazer nos corredores de um supermercado, pois, geralmente, demanda papel e lápis. Se soubesse usar o conhecimento aritmético, o estudante, com uma única operação mental de divisão, tomaria a decisão correta.

Como poderá gostar de matemática um adolescente que não consegue utilizá-la sequer no supermercado, mesmo percebendo que ela é necessária? Sabemos que nossos adolescentes se envolvem facilmente com desafios de raciocínio em games com considerável nível de complexidade, ao mesmo tempo que fogem da matemática que oferece os mesmos desafios e as ferramentas apropriadas e estruturadas para enfrentá-los. Nossos jovens têm medo da matemática, porque não conseguem usufruir de seus benefícios mais elementares. Para a maioria desses jovens, a matemática remete mais à exclusão do que à inclusão. Nesse contexto, é imperativo que nossas Faculdades de Matemática concentrem seus esforços em formar professores capacitados para resgatar nos nossos jovens o encantamento pelas aplicações da matemática, das mais cotidianas e triviais às de alta tecnologia.