Desafios para as Cidades Inteligentes no Brasil

Por Sílvia Perez

A Organização das Nações Unidas (ONU) tem apontado, com certa preocupação, o fato de a população mundial estar se tornando cada vez mais urbanizada. Nesse contexto, o desenvolvimento urbano passa a ser mais um desafio coletivo enfrentado no mundo todo, devido, dentre outras causas, aos processos não planejados presentes no crescimento das cidades. Esse crescimento desordenado, muitas vezes, tem gerado impactos negativos na infraestrutura urbana, com problemas nas mais diversas áreas como transporte e trânsito, poluição, saneamento, iluminação, habitação, entre outros.

Planejar a ocupação dos espaços na cidade garante a melhor organização e distribuição do território, proporciona desenvolvimento econômico já que o planejamento vai determinar quais locais serão utilizados para moradia, comércio, serviços e lazer, garantindo, assim, uma mobilidade urbana melhor. Conhecer todo ambiente urbano, seus entornos, com suas fragilidades e potenciais a serem explorados, a idiossincrasia de sua população, com suas necessidades e expectativas, se constitui no desafio deste novo século.

Dentro desse quadro, uma nova abordagem é discutida na atualidade e, inclusive, tem sido implantada em muitas cidades do mundo que buscam fazer frente a esta realidade. De acordo com o docente e pesquisador da PUC-Campinas, Prof. Dr. David Bianchini, aos poucos, um novo conceito foi se constituindo, em meio à complexidade desse desafio. “Esse conceito, nascido incialmente apenas como Cidades Digitais, avançou para Cidades Inteligentes, cresceu ainda mais como Cidades Inteligentes e Sustentáveis e, por fim, amadurece mais recentemente para Cidades Inteligentes, Sustentáveis e Humanas”, explica.

A ideia envolve a possibilidade de um planejamento territorial mais complexo ao utilizar-se da tecnologia mais recente em seus processos, gerando uma cadeia interligada e sustentável. O objetivo é conseguir oferecer ao cidadão lazer, trabalho, escolas, enfim tudo que for preciso para uma vida com qualidade. No mundo atual, organizações importantes como, por exemplo, a ISO (International Organization for Standardization), já se voltam para ajudar nessa tarefa e apontam indicadores internacionais que permitem medir os níveis de sustentabilidade, qualidade de vida e bem-estar (Os leitores que desejaram ir mais além poderão consultar a Norma ABNT NBR ISO 37120:2017).

Bianchini destaca que, aqui no Brasil, uma das primeiras iniciativas nesse campo, é o Projeto das Cidades Digitais, que foi instituído por meio da Portaria no 376, de 19 de agosto de 2011, publicada no Diário Oficial da União, em 22 de agosto de 2011. “É de significativa importância para o Brasil a existência de um projeto estruturante cuja meta busca favorecer a criação de uma cultura digital em nossa sociedade”, afirma.

O docente e pesquisador reforça que é importante salientar que a presença de infraestrutura adequada permite o início de todo esse processo. “A iniciativa governamental no Programa Nacional de Banda Larga (PNBL) busca montar uma infraestrutura que viesse a viabilizar a existência de serviços, aplicativos, dentre muitos outros projetos”, complementa.

Atualmente, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações tem o projeto Minha Cidade Inteligente, que define uma Cidade Inteligente como um território que traz sistemas inovativos e tecnologias da informação e comunicação (TICs) dentro da mesma localidade. “O projeto Minha Cidade Inteligente objetiva, além da implantação de redes e sistemas de alta capacidade, implantar serviços e infraestrutura de monitoramento e acompanhamento das condições locais, permitindo gerar dados para criação de aplicações inovadoras, bem como permitir o amplo acesso às informações. Além disso, buscará prover às localidades alta capacidade de formação e capacitação da população.”, detalha o edital do projeto.

Os projetos para a criação de Cidades Inteligentes no país vão muito além do que fornecer internet gratuita para a população, consistem em mapear o município, para garantir informações como o monitoramento do trânsito para modificar a ordem dos semáforos automaticamente se necessário. Outra característica de uma cidade inteligente e sustentável é o uso de energia “limpa”, como a solar ou a eólica, a redução dos índices de emissão de poluentes e o uso de tecnologia para otimizar serviços e melhorar a qualidade de vida da população.

No entanto, segundo especialistas são muitos os desafios para a implantação de uma Cidade Inteligente no Brasil. ‘Esses desafios passam pela busca de soluções que envolvem a sustentabilidade dos projetos. Além de implantar é preciso garantir a manutenção pelo próprio município e, aí, esbarra-se no orçamento, onde obter e manter continuadamente os recursos necessários para esse fim? Uma estrutura adequada para capacitar servidores públicos nessas cidades para que aconteça uma gestão e uso adequado da rede e dos serviços (uso e gestão de aplicativos de e-governo, por exemplo)?”, detalha Bianchini.

O cenário, apesar de difícil, ainda poderá possibilitar que o país se aproxime do ideal, já que muitas cidades se empenham realmente em atender os requisitos que as tornem inteligentes. Vão assim se destacando em áreas determinadas, apontadas como inteligentes em categorias específicas, como por exemplo, as categorias mobilidade, meio ambiente, energia, economia, urbanismo, educação, dentre outras.

Em Campinas, por exemplo, o Portal oficial da Prefeitura (http://www.campinas.sp.gov.br), traz uma notícia que revela que o município busca destaque na área. “Campinas se preparou, nos últimos quatro anos, para se tornar uma das referências do País como cidade inteligente, feito que a colocou como a cidade (não capital) mais inovadora do Brasil, segundo ranking do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação”, relata a nota.