Dom Helder Camara, um peregrino da justiça e da paz

Livro resgata história do arcebispo de Olinda e Recife, que lutou pela libertação da população pobre mundial

Por Amanda Cotrim

“Se ajudo um pobre, me chamam de humanista. Se questiono a pobreza, me chamam de comunista”. Essa frase é uma das marcas de Dom Helder Camara, um dos nomes mais importantes da Igreja Católica no Brasil e no Mundo, no século XX. Nem capitalista e nem comunista, Dom Helder era, acima de tudo, um homem religioso que lutou em vida pela libertação do povo pobre, explorado e marginalizado. Seu lema: “os homens fazem história”, e por isso, segundo Dom Helder, podem romper com o todo sistema de exploração e opressão. Esse e outros detalhes de sua vida são contados no livro “Dom Helder Camara – Um Profeta-peregrino da justiça e da paz”, do Diretor da Faculdade de Filosofia da PUC-Campinas, Professor Edvaldo Araújo, resultado de sua tese de doutorado. “A finalidade desse estudo foi compreender a vida e o pensamento de Dom Helder”. O livro tem cerca de 600 páginas e é uma realização da Editora Ideias Letras.

O livro do Professor Edvaldo Araújo é resultado de sua tese de doutorado/ Crédito: Álvaro Jr.
O livro do Professor Edvaldo Araújo é resultado de sua tese de doutorado/ Crédito: Álvaro Jr.

A trajetória de Dom Helder é reconhecida internacionalmente. No Brasil, o arcebispo emérito de Olinda e Recife recebeu o título de cidadão honorário em 30 cidades do país, 14 prêmios por sua atuação pela paz, quatro indicações ao Prêmio Nobel da Paz, além de 32 títulos de Doctor Honoris Causa, sendo 18 no exterior e 14 no Brasil. Em abril de 2015, o Vaticano autorizou a abertura do processo de canonização de Dom Helder, o pedido para que a Santa Sé, em Roma, analisasse a possibilidade de declarar o religioso santo foi enviado em 2014 pelas Arquidioceses de Olinda e do Recife.

“A notícia sobre a abertura do processo de beatificação de Dom Helder é o reconhecimento da Igreja sobre sua atuação que, a partir da perspectiva da fé, batalhou pela construção de um mundo mais justo e mais humano”, afirma Araújo. Segundo o professor, Dom Helder atuou principalmente no processo de libertação do povo latino-americano, buscando que toda a teoria e reflexão partissem de uma prática e, principalmente, que levassem a uma prática mais consciente e libertadora. “Ele acreditava que a superação do sofrimento do povo da América Latina, da África e da Ásia, regiões exploradas, pudesse se transformar em esperança capaz de mudar o sentido da história”, defende o professor Araújo.

Segundo Dom Helder, a realidade de injustiça social que traz consigo a negação do ser humano, era uma injustiça institucionalizada, é um pecado que “se encarna nas estruturas da sociedade, que se manifesta no abismo entre ricos e pobres”, explica Araújo. Entre as consequências dessa realidade de desigualdade social estão: a marginalização da pessoa humana, a contradição, o escândalo, a indiferença, o egoísmo e a espiral da violência. Segundo Araújo, para Dom Helder, a ausência de ética possibilitava a situação para violência atuar, e por isso toda violação da pessoa humana, social, cultural, econômica e política precisa ser banida da História.

Prof. Dr. Edvaldo Araújo é diretor da Faculdade de Filosofia da PUC-Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.
Prof. Dr. Edvaldo Araújo é diretor da Faculdade de Filosofia da PUC-Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.

A tese do professor Araújo, defendida em Roma, na Faculdade Teresianum, em 2004, é dividida em três partes, que correspondem aos deslocamentos geográficos e às transformações do pensamento de Dom Helder. A primeira fase vai de 1909 a 1936, com a formação familiar e os primeiros anos de sacerdócio, período vivido em Fortaleza, no Ceará. A segunda fase é de 1936 a 1964, no Rio de Janeiro, narrando o momento em que Dom Helder se confronta com a realidade enfrentada pelos pobres. Já a última fase é de 1964 a 1999, em que ele viveu na Arquidiocese de Olinda e Recife e trabalhou na defesa dos direitos humanos, “lutando pela justiça, se fazendo voz de quem não tem voz”, explica Araújo.

“Dom Helder rompeu o silêncio da cumplicidade e foi ao cerne do problema, ao denunciar a situação de violência institucionalizada, gerada por uma estrutura de dependência colonial e neocolonial. Ele toma posição diante do futuro: assume a tarefa transformadora e libertadora”, considera Araújo. Dom Helder Câmara morreu aos 90 anos, em Recife, no dia 27 de agosto de 1999. Atuou como um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e do Conselho Episcopal Latino Americano (CELAM) e foi um grande defensor dos direitos humanos e atuando contra o regime civil militar no Brasil.