EDITORAL

Restringir a palavra cultura ao campo das artes, da literatura e da erudição não é um exercício de todo estranho ao senso comum. Entretanto, no campo da antropologia, o termo cultura vai além e tem vastidão e alcance proporcionais ao conjunto de todos os saberes e comportamentos de uma determinada representação social, das práticas religiosas à comida que vai ao prato, passando por todas as formas de ser e agir que expressam, no plano da realidade social, valores e crenças de todas as gentes.

Do mesmo modo, o conceito de patrimônio, inicialmente tomado como categoria restrita a alguns planos da organização social, como, por exemplo, a arquitetura dos tempos passados, evoluiu e cresceu no seu alcance, traçando rota similar e paralela ao dimensionamento cada vez mais amplo do significado antropológico de cultura. Assim, em termos atuais, quase tudo o que compõe a cultura – de um povo, uma etnia, um grupo social, ou mesmo de toda a humanidade – pode converter-se em patrimônio que, além da materialidade das coisas, como prédios e monumentos , inclui, ainda, a imaterialidade das expressões, como dança e música, além daquilo que não é obra do ser humano, os chamados patrimônios da Natureza, como florestas e geleiras.

Frente ao alcance do conceito e a oportunidade de eventos relacionados com o patrimônio, verificados recentemente, esta edição do Jornal da PUC-Campinas é dedicada aos exercícios de investigação, classificação, valorização e preservação de fatos e agentes que integram ou têm perspectivas de integrar o patrimônio, que por assim dizer, delimita uma área específica no salão da História.

Sentidos, conceitos, significados e significantes do termo patrimônio são abordados no artigo escrito pela professora doutora Janaina Camilo, historiadora e coordenadora do Museu da PUC-Campinas, enquanto o artigo da professora doutora Cristina Betioli Ribeiro Marques, da Faculdade de Letras, comenta causas e conseqüências sociais do cruzamento entre língua falada, língua escrita e poesia popular, ficando  o Superintende do Hospital e Maternidade Celso Pierro, doutor Antonio Celso de Moraes, a tarefa de apresentar um patrimônio com mais de 35 anos de atuação na saúde e no ensino, em toda a Região, o Hospital Universitário da PUC-Campinas.

Enquanto os articulistas convidados redigiam seus textos, a equipe do Jornal da PUC-Campinas cuidou da produção de uma entrevista e três reportagens ligadas ao patrimônio. Uma sobre o convênio com a Universidade Oriente para pesquisas de patrimônio urbano de Campinas e Santiago de Cuba, outra apresentando o Trabalho de Conclusão de Curso que trata da degradação da Mata do Quilombo, em Barão Geraldo e a terceira sobre o grupo de dança Jongo Dito Ribeiro.

A sugestão cinematográfica sobre Narradores de Javé completa o cardápio dos temas diretamente ligados ao patrimônio e à preservação, mas esta edição tem ainda reportagens e artigos sobre imigrações forçadas e uma entrevista com a ex-aluna que escreveu um livro reportagem sobre refugiados internacionais no Brasil, além informações sobre ciência, pesquisa e cultura, tornando o conteúdo, no conjunto, muito apropriada ao período de retorno aos campi para as atividades acadêmicas do segundo semestre.