Eleições 2014 e a “explosão de ódio”

Um dos resultados não previstos do recente processo eleitoral foi a assim chamada “explosão de ódio” entre diferentes setores, grupos sociais e regiões que apoiaram, principalmente no segundo turno, os candidatos à presidência da república. O impacto foi de tal proporção que os grandes veículos de comunicação passaram a mencionar a ideia de um “país dividido”. Os próprios Dilma Rousseff e Aécio Neves fizeram menção, em seus respectivos discursos, à necessidade de união e diálogo entre os brasileiros. Me chamou a atenção uma possível descriminação da população paulista, com tendência estatística de apoio ao candidato Aécio Neves, em relação aos nordestinos e nortistas, também numericamente propensos a apoiar a candidata Dilma, geralmente descritos como “boiada eleitoral”, manipulados pela política assistencial do Governo. Racismo eleitoral? Não pude deixar de notar, no entanto, um teor discriminatório também em postagens e mensagens presentes nas
redes “sociais” que defendiam apoio explícito a Dilma Rousseff. Seus propositores denunciavam o elitismo dos apoiadores de Aécio e a falta de “racionalidade” desses que “não veem” o quão “bem-sucedido” foram os anos petistas na presidência da república.

Algumas postagens, oriundas de diferentes internautas, traziam a
mensagem “precisa desenhar?” acompanhada de dados estatísticos “científicos” que comprovariam tal argumento. São irracionais os eleitores de Aécio?

Alguns analistas têm atribuído tamanha virulência ao processo de fortalecimento das estratégias de marketing na condução das campanhas eleitorais, o que implicaria o esgotamento do processo eleitoral enquanto um espaço de debate franco de ideias, propostas e projetos políticos em prol dos ataques pessoais, campanhas de desmoralização e, consequentemente, na emergência de novos preconceitos entre os apoiadores da disputa. Concordo. No entanto, penso que se não houvesse um substrato cultural de reverberação desses estímulos, essas estratégias não surtiriam o efeito desejado. O que possibilitaria então essa explosão de ódio afinada ao processo eleitoral?

O que, na minha perspectiva, as eleições trouxessem à tona é que a estruturação potencial de nossa experiência sociocultural – a forma pela qual distribuímos valorativamente objetos, práticas e seres viventes que compõem o mundo que coproduzimos – edifica condições de superioridade e inferioridade a partir da disposição de meu “eu” em relação ao assim chamado “outro”. A aquilo que faz sentido para o “eu” deveria ser “óbvio” também para o outro. Como é possível esse “outro” não se comportar e realizar as opções que o “eu” detém? Se o “outro” não se orienta pelo que seria, para o “eu”, o correto, ele é necessariamente inferior. Esse procedimento tem um duplo “benefício” para quem o realiza: permite a premissa do
julgamento crítico, digamos, impiedoso; e possibilita uma percepção acrítica de si, em seus defeitos e limitações.

Assim, a materialização midiática da violência praticada pelos dois lados da disputa não estaria diretamente atrelada à arte de convencimento político. Quem convence alguém com práticas de preconceito sobre este alguém? Mas, antes, a um processo de culpabilização pública do “outro” pelas mazelas sociais e políticas que vivenciamos. As “redes sociais”, ao privilegiar as individualidades como portadoras de “voz” midiatizada de forma sem precedentes na história, possibilitaram a proliferação de discursos opressivos, colocados em forma de se falar “a” verdade, “doa a quem doer”.

Finalmente, passado o calor das eleições, parece-me de suma importância problematizarmos a construção social das subjetividades de uma forma mais profunda do que a mera proibição externa do preconceito. Esta, por si só, não atinge as condições de produção e emergência dos atos e discursos de ódio.

Roberto Donato da Silva Júnior
Docente na Faculdade de Ciências Sociais – CCHSA