Entrevista: As violências poderiam ser evitadas?

Em entrevista sobre ética e violência, Filósofo e Professor da PUC-Campinas, Renato Kirchner, fala sobre política, liberdade e moral

 

Por Amanda Cotrim

As notícias sobre violência e corrupção colocam em dúvida se ainda é possível existir alguma relação entre ética e política. Onde uma das partes fica esquecida ou encoberta, já não há mais liberdade.  Essa é a opinião do Filósofo Renato Kirchner, doutor em filosofia e docente no Centro de Ciências Humanas, Sociais e Aplicadas (CCHSA) da PUC-Campinas. Na entrevista a seguir, o Professor Kirchner fala sobre o papel da ética e a viabilidade de sua prática concreta, a construção da moral e o desafio da ética frente à violência. “Enquanto vivermos em uma inversão de valores, certamente a violência continuará saindo vencedora”. Confira a entrevista completa.

Prof. Dr. Renato Kirchner é filósofo e docente na PUC-Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.
Prof. Dr. Renato Kirchner é filósofo e docente na PUC-Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.

Jornal da PUC-Campinas: A filosofia, ou parte dela, dirá que a ética é uma realização do sujeito livre, cujo conceito de liberdade não está associado à ideia de livre escolha, mas à liberdade em criar possibilidades para modos de vida possíveis, ou seja, como sendo a capacidade dos seres humanos de inventar o novo. O senhor concorda? O que seria a ética?

Prof. Renato Kirchner: Antes de começar a responder a esta pergunta, gostaria de agradecer pela oportunidade de, na perspectiva da Filosofia, poder esclarecer e, sobretudo, refletir um pouco sobre o papel da ética na atualidade. Além disso, convém dizer que este papel não se restringe apenas aos estudiosos de Filosofia. Conforme evocado na pergunta, a ética está originariamente relacionada ao exercício e à promoção da liberdade. Uma pressuposição fundamental para o sujeito ser ético não consiste em fazer o que se quer, algo muito em voga em nossos dias. Juntamente com cada ser humano nasce a responsabilidade por si e pelos outros. Não faz sentido algum falar de ética de si para si somente, sendo então verdadeira a ideia de que minha liberdade termina onde começa a dos outros, pois pertencer ao gênero humano faz parte da essência humana e, por isso, a liberdade é radicalmente um conceito intersubjetivo. O poeta inglês John Donne (1572-1631) formulou isso de maneira brilhante: “Nenhum homem é uma ilha completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido um promontório, ou perdido o solar de um amigo teu, ou o teu próprio. A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes indagar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.” O testemunho de Donne parece-me importante, pois há uma tendência – muitas vezes “naturalizada” – de acharmos que pensar sobre ética só é possível a partir das ideias de filósofos, certamente proeminentes, como Aristóteles, Agostinho, Tomás de Aquino, Immanuel Kant, dentre muitos outros.

De fato, as questões éticas acompanham a humanidade desde sempre e a acompanharão para sempre, razão pela qual cabe sim sermos reflexivamente criativos e críticos no intuito de pensarmos novas éticas a partir das conjunturas atuais. Aliás, é bom ter clareza que toda e qualquer ética só é reconhecida e válida em determinados contextos de espaço e tempo. Um exemplo significativo, para assumirmos e pensarmos os desafios éticos atuais, encontramos no filósofo Hans Jonas (1903-1993), o qual sintetizou uma nova ética possível em Princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica, obra publicada em alemão em 1979 e traduzida aqui no Brasil em 2006. Só para dar uma indicação, Jonas não descarta de todo a ética kantiana, mas vê nela limitações se pensarmos no contexto da globalização e exploração dos recursos naturais, bem como das novas e possíveis pesquisas realizadas cada vez mais sobre o corpo humano e a natureza em geral. Enfim, em contrapartida a uma ética kantiana estritamente antropocêntrica, Jonas concebe uma ética cosmocêntrica, em que “corresponsabilidade” é uma palavra fundamental.

Jornal da PUC-Campinas: Muitas vezes há uma confusão entre ética e moral. Gostaria que o senhor explicasse essa diferença e dissesse em que medida a moral se apropria da ética?

Prof. Renato Kirchner: De fato, cotidianamente, as pessoas acabam empregando uma pela outra. Nesse caso, ética pode ser sinônimo de moral e vice-versa. Mas se refletirmos um pouco, logo notamos algumas diferenças e que tendem a se acentuar progressivamente. Vejamos: do ponto de vista etimológico, a palavra “ética” provém do grego ethos e “moral” deriva da forma latina mores. Ainda assim, há, nas duas línguas, significados muito próximos, podendo ser reduzidos basicamente a “hábitos” e/ou “costumes”. Por isso mesmo, é necessário fazer uma distinção ente ética e moral. A primeira é mais teórica que a segunda, pois volta-se a uma reflexão sobre os fundamentos da segunda. Nesse sentido, é possível dizer que a moral acaba apropriando-se da ética. A ética empenha-se em desconstruir as regras da conduta que formam a moral, os juízos de bem e mal que se reúnem no seio de toda e qualquer moral. Assim, se a moral designa um conjunto de regras próprias de uma cultura, por exemplo, o propósito da ética consiste numa “metamoral”, ou seja, uma teoria analítica sobre o bem e o mal, sobre os valores e juízos morais. Enfim, é papel da ética desconstruir as regras de conduta, desfazer suas estruturas e desmontar as construções morais, esforçando-se por descer aos fundamentos da obrigação moral. Vê-se, então, que, enquanto teórica, o objetivo da ética consiste em retornar às bases das prescrições ou juízos morais.

Toda e qualquer ética só é reconhecida e válida em determinados contextos de espaço e tempo/ Crédito: Álvaro Jr.
Toda e qualquer ética só é reconhecida e válida em determinados contextos de espaço e tempo/ Crédito: Álvaro Jr.

Jornal da PUC-Campinas: O ideal ético pode se viabilizar? A partir de qual prática?

Prof. Renato Kirchner: Sem dúvida, qualquer idealização ética pode ser viabilizada, do contrário, seria certamente apenas um ideal ou, como costumamos dizer, às vezes, ideais grandes demais são difíceis de serem postos em prática. Na verdade, do ponto de vista filosófico, uma ética só tem sentido se pode ser colocada em prática, de modo que, nestes termos, o emprego da palavra ética traz a reboque uma determinada compreensão do que seja prática. Pensando dessa maneira, somos levados a reconsiderar também uma ideia, muitas vezes por demais cristalizada, de que para termos novas práticas já sempre dispomos de ideais éticos estabelecidos! De fato, ideias estabelecidas e, principalmente, quando cristalizadas, são um trampolim para práticas que podem estar na contramão dos ideais fundamentais que orientam determinadas práticas. Diante disso e em vista de novos ideais éticos, será que não deveríamos levar a sério o que significa realmente “sermos práticos”? Dou um exemplo simples: como poderia ser, na prática, a convivência e a busca acadêmica mútuas entre professores e professores, entre professores e alunos, dentro e fora da sala de aula?

Jornal da PUC-Campinas: A ética pode ser vivenciada na vida privada e na vida pública. Pensando na relação da Ética com a Política, como a liberdade se daria?

Prof. Renato Kirchner: Boa pergunta. Principalmente, no momento em que vivemos, em que, a todo instante, as próprias notícias que ouvimos e acompanhamos acabam colocando em dúvida – senão em total descrédito! – que ainda possa haver alguma relação entre ética e política. De fato, não é possível pensar ética sem política, nem política sem ética! Importante notar as duas correlacionadas e, como sabemos, toda e qualquer relação só é autêntica se há nela liberdade. Onde uma das partes da relação fica esquecida ou é encoberta, já não há mais liberdade! A questão é: de onde provém a liberdade ou o que sustenta a liberdade? Diria com toda convicção: provém e é sustentada pela própria relação, ou seja, é dever de cada uma das partes colaborar na manutenção sempre saudável e promissora da relação. Pensando dessa maneira, presume-se que seja possível uma vivência autêntica e, por isso, necessariamente livre, entre vida privada e vida pública, entre ética e política.

Jornal da PUC-Campinas: Os gregos acreditavam que só pela política a ética se manifestaria. Na sua avaliação, como a política trata o indivíduo, hoje? Como sujeito ou como objeto? Como isso se manifesta e por quê?

Prof. Renato Kirchner: Como pode perceber, falar de ética e política nos leva a andar em círculo. O que não pode acontecer, porém, é entrarmos num círculo vicioso! O que se requer, então, é enxergar e tratar a política e a ética numa perspectiva de círculo virtuoso, ou seja, desde a força que constitui e mantém a própria circularidade. Entendida dessa forma, a manifestação da ética na ou pela política é hoje necessária, bem como sempre foi ao longo da história da humanidade. Disso não só sabiam os gregos, uma vez que o fundamental no que diz respeito à política residia tanto na constituição quanto na manutenção da polis. É bem possível que os povos da antiguidade, e mesmo medievais, ainda carregassem no peito – e, se necessário, em forma de elmo, escudo e espada! – os ideias coletivos, a partir dos quais cada indivíduo livre estava a serviço de todos. Certamente, não se trata de viver e organizar-se socialmente como em épocas passadas, haja vista que cada época se constitui de uma maneira muito peculiar. Contudo, qualquer configuração histórica só é possível a partir de indivíduos como sujeitos de sua própria história, razão pela qual devemos nos questionar se a organização social na qual estamos inseridos é a melhor possível. Enfim, a maneira como determinada configuração aparece é uma manifestação possível. Entretanto, qual seria a melhor manifestação possível, tendo em vista as recentes manifestações nas ruas, reivindicando todo tipo de melhorias e, certamente, em prol do bem comum? Por exemplo, a própria polícia – palavra gramaticalmente irmã de política e polis – nem sempre tem estado presente e agido em prol do bem comum. O mesmo aplica-se aos políticos enquanto representantes da maioria! A questão é: que papel cada sujeito desempenha em benefício da totalidade? Visto assim, toda discussão que se coloca apenas no nível de sujeito e objeto está um tanto afastada do princípio de qualquer constituição da realidade, também ao que chamamos de política, pois qualquer indivíduo carrega consigo um poder transformador. Infelizmente, nem todos e nem sempre acreditamos de fato nisso.

Jornal da PUC-Campinas: Em cada momento histórico, a violência se manifesta de determinada forma, seja pelas guerras, seja pela globalização que quer padronizar e muitas vezes não respeita comunidades tradicionais, etc. Pensando a violência não como algo “natural”, mas como uma violação daquilo que é a natureza do outro, a violência eliminaria a possibilidade de ética?

Prof. Renato Kirchner: Começo respondendo pelo final da pergunta, ou seja, não é possível admitir que a violência poderia, algum dia, suprimir a ética. Por quê? Simplesmente porque significaria também eliminar a própria condição humana de existir neste mundo, uma vez que viver e existir eticamente dizem fundamentalmente o mesmo. Também considero que não é possível aceitar a violência como algo natural, principalmente se, pelo uso dela, acaba-se violando a esfera alheia, esfera que, por estar constituída ontologicamente da mesma maneira como a minha, não estou no direito de solapar ou invadir e, muito menos, de destruir. Se é verdade que cada época histórica está sujeita a determinadas manifestações de violência, então, também deveríamos perguntar-nos seriamente se e por que as múltiplas formas de violência a que assistimos ou que presenciamos – para não dizer, das quais indireta ou passivamente participamos!? – não poderiam ser evitadas e até mesmo extintas. Sem dúvida que a globalização ocasionou e tende a acarretar padronizações! Contudo, mesmo as comunidades mais tradicionais ainda podem viver e, talvez, sobreviver, sem que sofram, em maior ou menor grau, os influxos dos padrões de bem-estar social? Não estou defendendo a ideia de que todo e qualquer ser humano, esteja onde estiver no planeta, não possa viver sem, de algum modo, participar dos padrões globalizantes de tudo e de todos. Não, absolutamente! Contudo, parece-me bastante ingênuo não levar em conta e lutar por uma possibilidade de viver melhor, mesmo que, para isso, seja necessário reavivar e, quem sabe, viver em condições nas quais nossos antepassados viviam tão bem ou até melhor que nós hoje. Uma situação bem concreta, no momento, experimentada por boa parte da população, diz respeito ao uso e reuso da água, por exemplo.

Em 1969, pela ocasião dos seus 80 anos, Martin Heidegger (1889-1976), um dos maiores filósofos do século passado, predisse: “A apatridade é um destino mundial na forma da civilização planetária. É como se a civilização planetária, que o homem moderno não criou mas em que foi ‘destinado’, trouxesse consigo o obscurecimento da existência humana. De fato é o que parece. Mas seria um erro pensar somente até aí e não ver nada mais, a saber, a possibilidade de uma virada. Mas nós não sabemos nada do futuro. Talvez tudo finde numa grande desolação. Talvez aconteça que, algum dia, o homem se enfastie dos produtos de suas pretensas produções e, de repente, comece a questionar. Talvez, ainda, possa ocorrer que a desolação atinja tal nível que as necessidades se nivelem a ponto de o homem já nem sentir a decadência interior e o vazio de sua existência. Talvez possa também acontecer outra coisa. Em qualquer caso, como quer que seja ou aconteça: nós não nos devemos queixar, temos é de nos questionar!

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Jornal da PUC-Campinas: A exclusão social e a fome, talvez as pautas mais importantes no mundo, hoje, estão mostrando que, em verdade, a violência está ganhando da ética?

Prof. Renato Kirchner: Sem dúvida: exclusão (de qualquer tipo) e fome (também de qualquer tipo) são modos que inibem grandes maiorias a participar de bens comuns. De fato, falar de bens remete a riquezas. Mas nem toda riqueza, enquanto concentrada na mão de poucos, pode continuar a ser considerada como tal. Há aqui uma inversão completa tanto do que significa eticamente bem como do que significa eticamente riqueza. Enquanto persistir essa inversão de valores certamente a violência continuará saindo vencedora. Novamente: o que cada um de nós, em maior ou menor escala, pode fazer?

Jornal da PUC-Campinas: A política pode auxiliar a ética no combate à violência? Como?

Prof. Renato Kirchner: Gostaria de citar, mas não com o objetivo de aprofundar isso aqui, a fim de repensarmos sempre de novo o que seja ética na política e o papel disso na sociedade. Um texto atribuído ao renomado dramaturgo, poeta e encenador alemão do século passado, Bertolt Brecht (1898-1956), sob o título “O analfabeto político”, fala por si mesmo: “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.”

Jornal da PUC-Campinas: Há um discurso muito recorrente nos dias de hoje, o qual diz que devemos nos voltar à ética. Como se a ética pudesse dizer o que devemos ser, como fosse uma cartilha. Mas se a ética não é a mesma coisa que moral-normas-, não é um contrassenso se pedir para nos voltarmos à ética?

Prof. Renato Kirchner: Para responder adequadamente a essa pergunta, sugiro voltarmos para a resposta dada à primeira pergunta, ou seja, é fundamental fazermos uma distinção entre o que seja ética e o que seja moral. Presumir que uma possa se confundir com a outra ou que uma possa bem dizer a mesma coisa que a outra talvez seja um dos contrassensos que geram as confusões discursivas e de posicionamentos em relação aos assuntos que vêm à tona quando se apela para a ética ou que se deve voltar para a ética. Parece-me muito razoável considerar que não há ética nem moral que possam fundamentalmente ser recolhidos e aprisionados por qualquer cartilha, até mesmo por qualquer legislação. Explica-se isso facilmente com uma pergunta: por que qualquer lei requer interpretação antes, durante e depois da aplicação? Contudo, o que é mesmo ética? Um pensador da antiguidade, Heráclito de Éfeso, legou-nos num fragmento: “A morada do homem não tem controle, a divina tem” (Fragmento 78). Importante esclarecer: ethos, uma palavra grega arcaica, significa “morada”, mas também “estadia”, “permanência”. Talvez estas palavras de Heráclito possam dar-nos alguma indicação: enquanto a morada da divindade tem controle, a morada dos homens tende continuamente ao descontrole. Se isso procede, então, jamais deveríamos presumir que o ethos, isto é, a morada dos homens, está estavelmente constituída e, muito menos, de uma vez por todas. A tarefa humana é cuidar pela manutenção da ordenação do todo e talvez seja essa a tarefa humana de todas a mais extraordinária. Por isso, podemos ler num outro fragmento do pensador grego: “A morada do homem, o extraordinário” (Fragmento 119). Certamente, não é por acaso que Hans Jonas, no início da obra mencionada, traga o exemplo da antiguidade: “Numerosas são as maravilhas da natureza, mas de todas a maior é o homem!” (Antígona, de Sófocles).

Jornal da PUC-Campinas: O discurso que pede um retorno à ética está dizendo que, no passado, era melhor. Qual sentido desse discurso?

Prof. Renato Kirchner: Ninguém é tão estulto a não dar valor ao passado, principalmente das boas lições que podem ser recolhidas da nossa própria civilização ou mesmo de outras das quais muitas vezes pouco ou quase nada sabemos. Contudo, tais conhecimentos existem, pois foram transmitidos e mantidos de múltiplas maneiras. Às vezes, os legados positivos do passado estão presentes em nossas práticas cotidianas sem que nos demos conta disso. Assim, para não recair sempre em possíveis “discursos prontos” – de que poderia ser dessa ou daquela maneira –, talvez seja mais producente se cultivarmos um cuidado ou mesmo uma terapia com a linguagem. Por que linguagem? É que antes de qualquer possibilidade de discurso, o ser humano caracteriza-se fundamentalmente por ser e estar na linguagem. Não é no mínimo curioso que Aristóteles tenha deixado duas definições fundamentais para a civilização ocidental num de seus tratados? A saber: o ser humano é um ser político; o ser humano é um ser que fala. Contudo, faz igualmente parte da nossa civilização, tendo por mediadora a tradição latina, que o ser humano é um “animal racional”. A melhor ação é aquela que pode provocar uma mudança fundamental em nosso modo de pensar, principalmente, se formos capazes de também repensar em que consiste nossa animalidade e nossa racionalidade. Em última instância, nossas ações, nossos discursos, nossas atitudes dependem de como entendemos como se conjugam e fundem numa só expressão as palavras “animal” e “racional”.

Jornal da PUC-Campinas: Como o senhor avalia as comissões de ética? Elas não seriam essas cartilhas?

Prof. Renato Kirchner: Muito boa essa pergunta, pois permite que evidenciemos, mesmo que de passagem, as diferentes instâncias em que a dimensão ética se faz presente na vida privada e pública das pessoas, bem como na vida profissional e das pesquisas acadêmicas de universidades e institutos de pesquisa. O fato de existirem comissões de ética constituídas, no entanto, não significa que elas sejam ou funcionem como cartilhas. Não quer dizer que isso eventualmente não possa ocorrer, mas isso certamente seria um modo equivocado de entender o que lhes compete. Compete a uma comissão uma missão, sendo uma comissão instituída e constituída por um conjunto de pessoas eleitas para assembleias ou para certas incumbências. Embora possa parecer um linguajar um tanto antiquado, convém ter presente que o sentido de alguém compor uma comissão de ética consiste em resguardar preceitos e valores fundamentais e, nesse sentido, poderia ser chamado também de “missionário”. Para nossos objetivos, convém mencionar dois tipos de comissões, sendo uma muito comum na esfera política, a saber, a comissão parlamentar de inquérito (CPI), sendo uma investigação conduzida pelo Poder Legislativo, que transforma a própria casa parlamentar em comissão para ouvir depoimentos e tomar informações diretamente, quase sempre atendendo aos reclamos do povo. A outra, no âmbito da pesquisa universitária, denomina-se Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, que, no caso da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (identificado pela sigla CEP/PUC-Campinas), “é um órgão colegiado, multidisciplinar, de caráter público e autônomo, vinculado à Reitoria, respondendo, no que couber, à Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, que tem por finalidade avaliar e acompanhar os aspectos éticos de pesquisas envolvendo seres humanos e, dessa forma, proteger a integridade e a dignidade dos sujeitos/participantes, de acordo com os valores ético-cristãos, integrando-se à Missão Institucional da Universidade”. Nos dois exemplos citados, a comissão ou o comitê são constituídos por eleição ou por indicação, mas convém ter presente que ambos são representativos e, portanto, embora tenham de seguir normas ou regras, não se restringem apenas a seguir e cumprir cartilhas estabelecidas.

Jornal da PUC-Campinas: Em sua opinião, nós hoje estamos exercendo a razão como forma de conhecimento?

Prof. Renato Kirchner: Em minha opinião, nas respostas às perguntas anteriores, já havia uma série de indicações que podem ser úteis para responder a esta última pergunta. Isso significa dizer que provavelmente não há uma só resposta possível, mas principalmente que toda e qualquer pergunta requer reflexão tanto quanto uma resposta. Nesse sentido, poder refletir sobre temas relacionados à ética, moral, política, violência, exclusão, injustiça, globalização e assim por diante, é vital e necessário. Considero profundamente importante o fato de diferentes conteúdos e disciplinas poderem transitar entre as diferentes áreas do conhecimento e que a aceitabilidade e o exercício contínuo desse trânsito já constituem a racionalidade propriamente dita.