Entrevista: Livro compara as representações da ciência na mídia

 Por Amanda Cotrim

Como resultado de sua dissertação de mestrado, defendida em 2013, no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, na Unicamp, o docente do Centro de Linguagem e Comunicação da PUC-Campinas, Prof. Me. Fabiano Ormaneze, lança o livro “Do Jornalismo Literário ao Científico: biografia, discurso e representação”, pela editora Pontes. A obra, a partir do discurso, reflete sobre como a imprensa representa os cientistas das ciências humanas e naturais. O livro também é uma oportunidade para pensar os sentidos de ciência na sociedade contemporânea. Confira o bate-papo que o Jornal da PUC-Campinas teve com o autor.

O nome do seu livro é: “Do Jornalismo Literário ao Científico: biografia, discurso e representação”. O que você aborda nessa obra?

Essa obra é fruto do mestrado, desenvolvido no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (LabJor) / Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), entre 2011 e 2012. Trata-se de uma análise de como o cientista e, consequentemente, a ciência são representados em biografias, já que esse gênero, híbrido entre o jornalismo, a literatura e a história, se propõe a narrar a vida de uma pessoa em detalhes. O livro faz uma análise de 10 biografias, publicadas numa série especial da revista Caros Amigos, comparando como são representados os cientistas das áreas de ciências humanas e das áreas de ciências naturais.

Explique qual foi o método de comparação usado e o que essa análise lhe trouxe. Ou seja, o que é possível considerar da sua pesquisa?

Para a comparação, busquei as representações no discurso, ou seja, como o discurso sobre ciência e sobre cientista faz circular e se constitui a partir de pré-construídos e da história. Essa análise levou em conta certas regularidades na forma de designar os cientistas, por exemplo. Só para citar genericamente: em geral, sociólogos ou antropólogos nunca eram chamados de “cientistas”, mas apenas de “professores” ou “estudiosos”, ao contrário do que acontecia com o físico ou o geneticista, por exemplo. Notei também certa diferenciação na narrativa: as biografias dos cientistas da área de ciências naturais eram marcadas pelos feitos, pela obra. Já as biografias dos cientistas da área de humanas focalizavam a trajetória de vida, a relação com a família e com os alunos. Cada disciplina trazia elementos que o jornalista imputava ao seu discurso ao narrar a vida do biografado.

O livro analisa 10 biografias, publicadas na revista Caros Amigos- Crédito: Álvaro Jr
O livro analisa 10 biografias, publicadas na revista Caros Amigos- Crédito: Álvaro Jr

Quais são as relações que você estabelece entre jornalismo literário e científico?

O jornalismo literário é um método de trabalho que pode ser utilizado em diversas editorias, para falar de diversos assuntos, desde que encontre para isso condições suficientes, como a possibilidade de uma apuração aprofundada, linha editorial e a linguagem esteticamente elaborada. Pode, portanto, estar presente na abordagem sobre cientistas e sobre ciência, principalmente, quando se fala em biografia. A questão é que as análises que fiz durante a pesquisa demonstraram que o jornalista encontra muito mais facilidade para produzir um texto com características do jornalismo literário quando vai abordar temáticas próprias das ciências humanas, afetado pela constituição histórica dos discursos e pela própria dificuldade em compreender conceitos.

Com quais autores você dialoga no livro e como você construiu suas bases argumentativas?

O livro é construído a partir das teorias do discurso, principalmente, a partir de Michel Pêcheux, Michel Foucault e Eni Orlandi, sobremaneira nos textos em que esses autores abordam a ciência e a constituição, formulação e circulação dos discursos. Do ponto de vista das reflexões sobre ciência, recupero ainda os conceitos de Charles Snow, que faz uma interessante análise de como o mundo contemporâneo vivenciou um distanciamento entre as ciências naturais e as humanidades, o que provoca um empobrecimento, uma dicotomia e uma dificuldade para a interdisciplinaridade que facilitaria uma visão mais ampla e detalhada da complexidade que constitui o real.

Você diz que utilizou Charles Snow, o qual faz uma análise de como o mundo contemporâneo distanciou ciências naturais e humanidades. Fala-se muito hoje em dia em interdisciplinaridade. Explique por que esse conceito se destacou na contemporaneidade e qual é a importância de uma ciência interdisciplinar?

A interdisciplinaridade ganha destaque a partir do momento em que o projeto positivista, de que a especificidade de cada disciplina, garantiria avanços e maior compreensão do mundo, mostrou-se falha e incapaz de compreender a complexidade. Além disso, a ciência, ao desconsiderar a interdisciplinaridade, tem uma visão que deixa de considerar a subjetividade do ser humano, os interesses sempre em questão nas pesquisas e descobertas, etc. A ciência moderna passou por uma verdadeira fragmentação do saber, como se não houvesse relações entre o que se estuda na biologia e o que é comprovado pela antropologia, por exemplo. Essa visão fragmentada ajudou, inclusive, a criar certa hierarquização entre as ciências, como se houvesse as mais importantes e as menos importantes, as mais objetivas e as menos objetivas. A interdisciplinaridade vem mostrar como a complexidade do mundo não pode ser compreendida apenas por um ponto de vista, que será sempre lacunar.

Você não acha que interdisciplinaridade em alguma medida poderia prejudicar o conhecimento científico, uma vez em que as coisas poderiam virar um conjunto de pontos de vista?

 Não. Para isso, é preciso que se deixe claro que fazer ciência pressupõe um processo rigoroso, sujeito a método e comprovação. A partir do momento em que áreas diferentes dialoguem em torno de seus resultados, lacunas são preenchidas. Não se pode, no entanto, deixar de lado o fato de que a ciência, como bem mostra Gilles Deleuze, estará sempre sujeita à subjetividade de quem a produz.

Quando falamos em Ciência, muitas vezes se imagina um cientista, trancado em seu laboratório, cheio de poções ao seu redor. Podemos dizer que existe um imaginário que perpassa a ideia de que ciência é algo “difícil” e distante da “massa”? Se sim, por que isso acontece?

Existe um imaginário, em primeiro lugar, de que o fazer científico seja uma exclusividade das ciências naturais. Essa imagem de alguém no laboratório é reflexo disso. Dificilmente, alguém pensa em um cientista como sendo alguém da área de sociologia ou de psicologia, por exemplo, embora essas áreas tenham todos os requisitos necessários para serem consideradas como tal. Esse imaginário tem início na própria escola básica. Logo nas séries iniciais, o aluno tem aulas de uma disciplina chamada “Ciências”, assim, no plural. Mas, o conteúdo diz respeito apenas às áreas de naturais, ligados à biologia, física e química. Nessa mesma disciplina, o estudante entra em contato com laboratório, misturas de substâncias, reações químicas e tudo parece uma mágica em que, associando elementos, se tem uma explosão, uma substância de outra cor. Na escola básica, o aluno tem aulas de história, geografia e outras tantas disciplinas que têm configuração de ciência, mas dificilmente alguém as nomeia como tal. Esse imaginário também é reforçado pela mídia. O chamado “jornalismo científico”, por exemplo, quase sempre está ligado a descobertas nas áreas de biologia, química, física e saúde. É muito comum, assim, que uma descoberta na área de psicologia, por exemplo, apareça nas editorias de “comportamento”, da mesma forma em que a antropologia, quando aparece, fica restrita ao campo da cultura. Por fim, há de se lembrar de que esse imaginário é também derivado da própria história das ciências, uma vez que as ciências humanas são bastante recentes – só surgiram no final do século XIX – e que o cientista da área de ciências naturais sempre, pelo seu caráter antecipador e transgressor, foi visto como um “louco” na história. Tudo isso vai sendo acumulado em termos de discursos e se constitui como uma percepção pública do que seja ciência. Os já ditos sobre ciência ao longo da história constituem os dizeres atuais.