Estudo sugere psicanálise no tratamento de traumas sociais

Dissertação da Pós-Graduação em Psicologia defende que traumas como o racismo não sejam tratados como sofrimento individual

 

Por Amanda Cotrim

O racismo se constitui em uma realidade multifacetada: fatores históricos, econômicos, geopolíticos, sociais, institucionais e culturais. O Brasil tem algumas características peculiares: foi o País que recebeu o maior número de africanos escravizados da América e foi o último a declarar a abolição, em 1888. Para compreender o racismo como causa de sofrimento, o aluno do Doutorado em Psicologia da PUC-Campinas, Rafael Aiello-Fernandes, se debruçou sobre a temática durante a dissertação de mestrado, defendida em 2013, na Instituição. De acordo com ele, lidamos o tempo todo com as reverberações de um passado-presente, “a colonidade do poder, do saber e do ser, que se atualiza repetidas vezes e que clama por transformação”.

O trabalho, que teve orientação da Profa. Dra. Tânia Maria José Aiello-Vaisberg, problematiza a psicologia clínica, que, muitas vezes, segundo o estudo, isola o psiquismo quando se propõe a lidar com os sofrimentos das pessoas. Para contrapor essa prática, Fernandes sugere o método psicoanalítico. “O inconsciente será um conjunto de ambientes humanamente produzidos. Ao deslocar o método, se desloca o inconsciente, transformando a psicologia clínica, abandonando práticas de culpabilização individualizante por conhecimento de traumas sociais. Nessa clínica, a culpa dará lugar para o cuidado relativo aos sofrimentos de injustiças, desamparo, humilhação e cerceamento da liberdade”, ressalta.

Rafael Aiello-Fernandes desenvolveu seu estudo dentro do grupo de pesquisa Atenção Psicológica Clínica em instituições: prevenção e intervenção/ Crédito: Álvaro Jr.
Rafael Aiello-Fernandes desenvolveu seu estudo dentro do grupo de pesquisa Atenção Psicológica Clínica em instituições: prevenção e intervenção/ Crédito: Álvaro Jr.

Para investigar o tema, Fernandes usou a psicanálise como pesquisa e entrevistou dois homens negros que tiveram relativa ascensão social nos últimos anos. O objetivo foi discutir o sofrimento causado pelo racismo não por um viés individual, mas social, e discutir se o racismo se restringiria apenas a uma questão socioeconômica. Ou seja, um negro relativamente rico também sofre racismo? O que o estudo mostrou é que mesmo com relativo poder aquisitivo, o racismo extrapola as fronteiras da economia, pois, segundo Fernandes, trata-se de barreiras culturais e históricas. “O racismo é uma modalidade de manutenção de poder socialmente produzida, que não pode ser reduzida à dimensão psicológica. O negro é alvo de constante ataque, seja no modo de vivenciar o próprio corpo – o esquema corporal sendo submetido a um esquema histórico racial que o precede e constrange -, seja no modo de experimentar a própria racionalidade, pois os participantes sentem que são alvo de um processo de objetivação, que os desumaniza, e que tentam com muita dificuldade compreender racionalmente”, explica.  Esse processo, segundo a pesquisa, leva a um conflito entre o intelecto e a experiência emocional do negro, que resulta em um grande sofrimento.

Como o racismo é percebido?

De acordo com o estudo, a sutileza do racismo traz pistas importantes de como o racismo brasileiro se expressa no cotidiano, seja pelo olhar, pela fala ou pelos gestos. A pesquisa identificou que o racismo está tanto no plano verbal quanto no não verbal. “Não defendo que o racismo não possa se expressar abertamente e violentamente no Brasil, mas que esse modo coexiste com formas de discriminação mais sutis. Tudo isso leva a população negra a vivenciar um estado de tensão emocional considerável, que, no caso, tenta superar com um esforço adicional em suas áreas profissionais, buscando ser impecável no que faz para que sua aparência física não se torne uma questão. Obviamente, é um sistema social racista que obriga a esse estado de permanente tensão subjetiva”, afirma Fernandes.

Estudo mostrou que mesmo com relativo poder aquisitivo, o racismo não acabou/ Crédito: Álvaro Jr
Estudo mostrou que mesmo com relativo poder aquisitivo, o racismo não acabou/ Crédito: Álvaro Jr

Por outra psicologia clínica

De acordo com o pesquisador, é preciso pensar em uma clínica dos sofrimentos sociais, o que exige primeiramente uma qualificação: a clínica é habitualmente pensada a partir do modelo de atendimento padrão, ou seja, individualizado. Admite-se a concepção de subjetividade, que pensa a vida emocional como essencialmente “intrapsíquica”, ou seja, acontecendo “dentro” da mente do ser humano. Esse discurso, aliás, está muito presente no Brasil, quando se ouve que o negro tem preconceito com ele mesmo, algo como uma “mania” de perseguição. Fernandes, no entanto, combate esse discurso, que reduz os fatores sociais a uma questão individual ou, no máximo, de âmbito familiar.

O Pesquisador, contudo, explica que a psicologia clínica, atualmente, não se limita apenas a esse modelo “individualizante”, pois já é pensada também em contextos grupais, institucionais e sociais, estando, portanto, a subjetividade vinculada e emergindo de tais contextos. “É nessa perspectiva que desenvolvi minha pesquisa, dentro do grupo de pesquisa Atenção psicológica clínica em instituições: prevenção e intervenção do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUC-Campinas, que por sua vez se situa na linha de pesquisa sobre Prevenção e intervenção psicológica. Buscamos, portanto, elaborar e fundamentar o que chamamos de ‘enquadres diferenciados’, que são modalidades de exercer a clínica para além do dispositivo tradicional”, relata.

Rafael ressalta que o Grupo de Pesquisa compreende os sofrimentos produzidos socialmente a partir do olhar da psicanálise concreta, inspirada na obra de Georges Politzer e José Bleger, que entende que a dramática de vida pessoal e coletiva só pode ser entendida dentro de contextos históricos, culturais, econômicos e políticos específicos.

Posição e Reação
Pela condição de Universidade e, principalmente, pela identidade católica, a PUC-Campinas tem posição sólida e transparente de repúdio a toda e qualquer manifestação de racismo e preconceito, que se efetiva em duas vertentes básicas.
 De um lado, pela produção e difusão de conhecimento, como observado na matéria Estudo sugere psicanálise no tratamento de traumas sociais; estudar e difundir conhecimento sobre causas e origens do racismo e do preconceito, tornando a sociedade e as pessoas mais esclarecidas, contribui para a erradicação desses problemas. Por outro lado, a Universidade tem meios efetivos para evitar e, quando preciso, coibir manifestações preconceituosas verificadas no seu âmbito de ação, válidas para a totalidade do público universitário: alunos, funcionários e professores.
 Porque ferem o coração cristão e porque ofendem as mentes esclarecidas, o racismo e o preconceito não podem ter e não têm vez nem lugar no ambiente universitário.