Estudos indicam que práticas religiosas auxiliam na saúde

A espiritualidade está associada a melhores índices de saúde, maior longevidade, habilidades de enfrentamento e qualidade de vida

Por Amanda Cotrim

A relação entre espiritualidade e saúde existe desde tempos mais remotos. No período medieval, as autoridades religiosas eram responsáveis pelas licenças para a prática da medicina. Entretanto, somente nas últimas décadas, as implicações da espiritualidade e da religiosidade na saúde vêm sendo estudadas e documentadas cientificamente, como explica a docente da Faculdade de Medicina da PUC-Campinas, Professora Doutora Gloria Maria de Almeida Souza Tedrus. Segundo a pesquisadora, “há evidências da relação entre as crenças e práticas religiosas e melhor saúde física, incluindo menor prevalência de doenças coronarianas, menor pressão arterial, melhores funções imune e neuroendócrina, menores prevalências de doenças infecciosas e menor mortalidade”.

Professora Doutora Gloria Maria de Almeida Souza Tedrus/ Crédito: Álvaro Jr.
Professora Doutora Gloria Maria de Almeida Souza Tedrus/ Crédito: Álvaro Jr.

A explicação para isso está no cérebro humano, que, de acordo com a Professora Glória, é “programado” para experiências e explicações de crenças espirituais presentes em todas as culturas desde os tempos pré-históricos. “Todas as experiências humanas são mediadas no cérebro, incluindo a razão científica, dedução matemática, julgamento moral, experiência e comportamento religiosos, emoção e o pensamento. Assim, é inequívoco considerar a espiritualidade e a religiosidade como parte do comportamento humano, localizado no cérebro”, explica.

Os estudos mais recentes buscam entender os impactos de práticas religiosas na saúde mental, como depressão, transtornos ansiosos e enfermidades graves, e na qualidade de vida. As pesquisas apontam que eventos dolorosos, caóticos e imprevisíveis podem ser compreendidos e mais bem aceitos a partir da confirmação de crenças do indivíduo que vivencia tal situação. “A perspectiva do paciente é de grande importância no curso do processo saúde-doença e nesse contexto tem havido evidências crescentes da existência de relações positivas ou negativas entre a espiritualidade/religiosidade e a proteção à saúde”, afirma a pesquisadora.

O Grupo de Pesquisa da PUC-Campinas, Neuropsicofisiologia em cognição e epilepsia, do qual a Professora Glória faz parte, estuda há alguns anos as relações entre doenças neurológicas como a epilepsia e demência com a espiritualidade e a religiosidade. Em epilepsia temos observado que há relação entre os aspectos clínicos da doença, qualidade de vida e a espiritualidade e religiosidade. Observamos, em pacientes com epilepsia, que a dimensão – espiritualidade, religião e crenças pessoais é considerada como fator protetor no processo de adoecimento, de enfrentamento para lidar com os problemas, e desse modo influenciar positivamente a qualidade de vida desses indivíduos, o que sugere uma relação positiva entre espiritualidade e religiosidade e saúde”, considera. De acordo com ela, alguns estudos sugerem que as crenças religiosas podem funcionar, em caso de doença já instalada, como mediadores cognitivos favorecendo a adaptação e o ajustamento das pessoas à nova condição de saúde.

Relação Fé e Ciência:

Capa Estudos indicam que práticas religiosas auxiliam na saúde

Segundo a Pesquisadora, ciência e religião “descobriram” que têm interesses mútuos importantes e contribuições relevantes. “Atualmente, existem centenas de artigos científicos que mobilizam a relação entre espiritualidade/religião. A parede entre medicina e espiritualidade está ruindo, com evidências da importância da prece, da espiritualidade e da participação religiosa na melhora da saúde física e mental”, expõe.

No campo da pesquisa, a Professora Glória compara que para a ciência há problemas metafísicos que a religião pode ajudar a resolver. A religião, por sua vez, “pode ajudar a decidir entre teorias científicas empiricamente equivalentes, para a aceitação de uma teoria científica, os interesses metafísicos, inclusive os religiosos podem contribuir”, defende a pesquisadora. “A criação do Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas é um marco da Instituição e só vai ampliar e qualificar as discussões nessa área”, finalizada.