Fazenda Roseira: Preservar para existir

Dissertação analisa processo de requalificação e transformação social da Fazenda Roseira, ponto referencial de cultura e história negra, em Campinas

Por Beatriz Videira

Estudo de mestrado desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Urbanismo acompanhou e analisou o processo de requalificação da Fazenda Roseira como Casa de Cultura, processo que contou com a participação de movimentos sociais, culturais e ambientais da região noroeste de Campinas. Formada em História pela Universidade, a pesquisadora Alessandra Ribeiro é gestora da Casa de Cultura Afro Fazenda Roseira e uma das integrantes da Comunidade Jongo Dito Ribeiro. A Fazenda Roseira está entre os centros de referência regional sobre o Jongo, além de ser um espaço reconhecido como polo de difusão da cultura negra, localizado no jardim Roseira, na região noroeste do município. E foi por essa relação entre território material e cultura imaterial, que a comunidade negra optou, dentro das suas condições, por transformar a Fazenda Roseira na sede da Comunidade Jongo Dito Ribeiro.

Segundo Alessandra, seu maior objetivo foi realizar um diálogo entre a academia e a comunidade Jongo Dito Ribeiro. “Me utilizei do método de pesquisadora-participante, com base na episteme oriunda da oralidade e vivências da própria comunidade, entrelaçadas com fontes bibliográficas e referenciais teóricos”, explica.

A Fazenda Roseira fica no bairro Roseira, região noroeste de Campinas/ Crédito Álvaro Jr.

A Fazenda Roseira fica no bairro Roseira, região noroeste de Campinas/ Crédito Álvaro Jr.

A dissertação aborda o processo que envolveu a preservação da Fazenda Roseira, uma antiga fazenda de café e marco referencial cultural e histórico para o município, localizada hoje numa região de importantes rodovias e ocupada predominantemente por uma população de baixa renda. A pesquisadora escolheu o tema porque também quis conhecer, efetivamente, suas origens e sua ancestralidade. “Saber de onde vim contribuiu muito para que eu fizesse escolhas e determinasse alguns caminhos a seguir como mulher, negra e moradora de uma das regiões periféricas de Campinas”, justifica.

A principal problemática posta pela pesquisa era quais as possibilidades de uma comunidade negra, periférica, praticante de uma cultura ancestral, reconhecida nacionalmente,  “conseguia se articular ou não na defesa de um patrimônio público, com grandes dimensões do patrimônio material, na cidade de Campinas”, contextualiza a pesquisadora.

Em Campinas, a Comunidade Jongo Dito Ribeiro recebeu esse nome em homenagem a Benedito Ribeiro, avô de Alessandra, que chegou à cidade na década de 1930, vindo do interior de Minas Gerais. Com o objetivo de acessar esse passado, Alessandra encontrou na academia uma possibilidade, entre outras, de buscar algumas respostas. Um processo que envolveu medo, superação e surpresa. “Escolhi que seria a voz daqueles que nem sempre podem estar na academia falando de si, defendendo-os e lutando por eles”, revela.

Em Campinas, a Comunidade Jongo Dito Ribeiro recebeu esse nome em homenagem a Benedito Ribeiro/ Crédito: Alvaro Jr.
Em Campinas, a Comunidade Jongo Dito Ribeiro recebeu esse nome em homenagem a Benedito Ribeiro/ Crédito: Alvaro Jr.

E uma de suas lutas é a preservação do Jongo, patrimônio imaterial nacional, que se cultuou por meio da dança e da música nos quintais das periferias urbanas e em comunidades negra do Sudeste brasileiro. O Jongo, também conhecido como Caxambu, é uma manifestação cultural que mescla percussão e dança coletiva e tem três elementos essenciais: os pontos, a dança e os tambores. Os pontos concentram todos os saberes do Jongo e, ao misturar metáforas e dialetos da língua banto – língua que deu origem a diversas línguas no centro e no sul do continente africano -, possibilitaram uma comunicação entre os negros escravizados, numa expressão de origem mista, persistente até os dias atuais”, explica.

No entanto, Alessandra explica que a origem sobre o Jongo não é um consenso entre os intelectuais da área de História, Sociologia e Antropologia. Segundo ela, algumas produções acadêmicas apontam duas correntes antagônicas a respeito do Jongo “A primeira, mais recente, afirma que o Jongo se configura como uma entre as múltiplas manifestações culturais resultantes do contato entre a cultura escrava do século XIX na antiga área cafeeira do Sudeste brasileiro, e a cultura dos proprietários de terras e senhores de escravos. Para a segunda, ele é originário da região de Congo-Angola e chegou ao Brasil com os negros bantos que, escravizados, trabalharam nas lavouras e na mineração”. O que há em comum entre as referências, no entanto, se dá em seu efeito. “Os Jongos foram, sobretudo, canções de protesto, reprimidas, mas de resistência. Atualmente, o Jongo é considerado por seus praticantes como o ‘pai do samba’”, reforça a pesquisadora.

Pesquisadora Alessandra Ribeiro: "Fui entender quem sou eu"/ Crédito Álvaro Jr.
Pesquisadora Alessandra Ribeiro: “Fui entender quem sou eu”/ Crédito Álvaro Jr.

Durante a pesquisa, uma das hipóteses confirmadas foi que quando a sociedade participa, há mudança: “mesmo não tendo sido resolvida a situação da formalidade da Comunidade, ficou evidente que a mesma, desenvolveu uma grande habilidade em envolver pessoas, coletivos, sendo de grupos sociais e/ou do poder público”, analisa Alessandra.  Foram essas ações da comunidade que contiveram a depredação do espaço, tornando-o efetivamente público, complementa a pesquisadora.

A Comunidade Jongo Dito Ribeiro tem uma parceria com a Prefeitura da Campinas, há doze anos, porém, somente no dia 8 de julho de 2015, conseguiu uma formalização legal para o uso da Fazenda da Roseira. Para Alessandra, “é uma grande conquista depois de sete anos de espera e muito trabalho”. A Casa de Cultura Fazenda Roseira oferece cursos grátis para a comunidade como costura, capoeira, formação de professores, oficinas de Jongo, teatro, culinária afro, cultura digital, entre outros.

(Edição de texto: Amanda Cotrim)